A partir das informações sobre a descrição dos casais, de acordo com a Quadro de identificação dos mesmos (Quadro I), observamos que o tempo para a busca de ajuda especializada é demorado, a renda dos casais é variável, de um salário mínimo a R$ 30.000,00, o que mostra que o problema atinge qualquer pessoa, independentemente de seus rendimentos. O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) encontrado foi o baixo (C1, C2, C3, C4, C5, C6, C7 e C8)5, que aponta em comum para o perfil demográfico de famílias jovens e adultas, com níveis altos ou médios da dimensão socioeconômica e não teve influência nos resultados obtidos.
A partir da análise das informações obtidas por meio dos genogramas e entrevistas semiestruturadas (Apêndice A) e da tabela de padrões de interação e comunicação (Anexo C), observamos que nas famílias de origem dos compradores compulsivos (CC) há um provável padrão de interação complementar rígido com brigas e discussões e uso do estilo brusco (FC1, FC3, FC4, FC5 e FC7). O mesmo ocorre com as famílias de seus parceiros (FH1 e FH3, FM4, FM5, FH6 e FM7). Encontramos ainda a presença de distanciamento emocional e físico dos pais de cada casal, que se repetem nos casais da pesquisa. A disputa de poder é pertinente nesses padrões para todos os pais dos casais participantes. Na geração seguinte, o modelo de disputa de poder se repete para quase todos os casais (C1, C2, C3, C5, C7, C8), com exceção dos casais 4 e 6, conforme o fluxo vertical. Entre estes, um não repete deliberadamente (C4) e outro, devido ao quadro depressivo da esposa, não reage aos estímulos nesse momento (C6).
Outro provável padrão de interação familiar que os pais apresentaram foi o simétrico com disputas, na família de uma parceira (FM2) e nas famílias de CC (FM3 e FM8). O padrão presente em todos os pais dos CC homens é o complementar rígido (H2, H4, H5 e H7) que parece engessar o relacionamento, mas que oferece aos CC homens modelo de preservação e privacidade do seu dinheiro. No caso dos pais das mulheres CC, é o complementar rígido (FM1 e FM3) e o simétrico com disputas (FM6 e FM8). Nas famílias de origem, quem se
5Na análise utilizamos como indicador dos casais a letra C seguida do número do casal; na referência às famílias de origem, as letras FC seguidas do número do casal; na referência ao gênero no casal, as letras H e M seguidas do número do casal; e na referência à família de origem de cada um deles, as letras FH e FM seguidas do número do casal.
submete é a mulher em FM3 e FH7 e o homem em FM1, FH2, FH4 e FH5. No casal oito, tanto os pais quanto entre eles, ninguém se submete e seus padrões de relação apontam para disputas e brigas. Na família de origem dos parceiros dos CC observamos a submissão feminina (FH1, FM2, FH3, FM5 e FH6) e a masculina (FM4 e FM7). Isso indica que, para a maioria dos homens CC, o poder pode ter se alocado nas mãos das suas mães, pois os seus pais tiveram dificuldades em manter financeiramente a família, perderam dinheiro e, portanto, os CC homens não desejam repeti-los. Para as famílias dos parceiros em que as mulheres se submetem, os relacionamentos apontam para papéis tradicionais de gênero e para um esquema rígido de criação dos filhos.
As questões de gênero se destacam, quando a mulher é a CC, seus parceiros se sentem reféns delas, porém com raras exceções, eles acabam por impingir o poder e conseguem desqualificar e capturar a sua autonomia e controlar o dinheiro. Quando é o homem o CC todas as mulheres (M2, M4, M5 e M7) apoiam seus parceiros e assumem o problema como do casal. Elas tentam obter o controle sobre eles e o dinheiro, mas não conseguem, se queixam das dificuldades financeiras e enfatizam a distância emocional e sexual do parceiro. O que é comum entre os parceiros homens e mulheres é a hiper-responsabilização assumida por todos que se aliam a valores familiares rígidos e de uso do dinheiro e, portanto, não conseguem deixar de pagar as dívidas dos CC.
A maioria dos casais perpetua as dificuldades de lidar com os problemas, como as de seus pais, e apenas poucos, em C3 e C4, estão conseguindo mudar o padrão. Apesar de ambos se encontrarem em momento de transição do padrão de interação, quando aumentam os níveis de estresse, muda o padrão para simétrico com disputas e complementar rígido. Os casais participantes repetem padrões intergeracionais, mas criam novos padrões. Eles construíram padrões de interação simétricos com disputas e brigas (C1, C2, C7 e C8), simétrico com aceitação mútua (C3 e C4) e, diferentemente de seus pais, com menor presença, o complementar rígido (C5 e C6) em que cada um se submete. Podemos considerar que tanto o padrão simétrico com disputas e brigas quanto o complementar rígido não colaboram para o casal lidar com as diferenças e, por isso, podem ser faces da mesma moeda.
Os CC constroem padrões mais simétricos que seus pais, seja com aceitação ou com brigas, e as mulheres já não se submetem tanto quanto a geração anterior e disputam o poder. Esta posição de submissão acaba sendo ocupada algumas vezes por qualquer um deles, ou quando a relação conjugal chega ao limite por conta das compras compulsivas. Mesmo nos casos nos quais os padrões complementares rígidos dos CC diferem dos seus pais, se mostram
distintos na questão da posição de submissão, pois cada um a ocupa em diferentes momentos. Por outro lado, a influência das transformações sociais de gênero pode levar os parceiros a idealizar uma relação simétrica, que nos casos aqui apresentados se expõem como patológicas, pois não há solução para o jogo de poder, já que ambos reagem um ao outro por meio de comunicações desconfirmadoras e desqualificadoras.
Todos os modelos familiares conjugais dos CC e de seus cônjuges apontam para pais (dezesseis famílias) que não conseguem lidar com as diferenças e/ou frustrações entre si, tampouco equilibrar o quid pro quo conjugal (WALSH, 2005). O mesmo ocorre na relação com os seus parceiros. Só os casais C3 e C4 conseguem fazer ajustes entre si. Isso pode ser compreendido em C4, por haver recebido uma comunicação de seus pais baseada na aceitação sem violências, por haver capacidade de lidar com as diferenças ou pelo fato de o casal evidenciar funcionalidade na comunicação. Em C3, ambos receberam um padrão de violência física, verbal e psicológica, houve abuso sexual em M3, em suas famílias de origem. Porém o casal se dispôs a não repeti-las (antimodelos), mas, quando sob estresse, há expressão do conflito por meio da violência verbal e, até mesmo, da psicológica. Nos dois casos, os casais conseguem transformar as experiências difíceis vividas em suas vidas familiares em suprimentos de manutenção e de fortalecimento do vínculo em função do desenvolvimento de resiliência para tal.
O uso do estilo brusco considerado como forma de violência verbal na comunicação do casal, é aprendido em suas famílias de origens e expresso nos relacionamentos da maioria dos casais participantes (C1, C2, C3, C5, C6, C7 e C8). A violência física das famílias dos CC (FM1, FM3 e FH7) se repete apenas em um casal (C1), cujo padrão de interação é simétrico com disputas e interação patológica com escaladas. Percebemos que há apenas dois casos em que os CC sofreram violência física em suas famílias de origem, mas não a repetiram em seus relacionamentos (M3 e H7). Por último, a violência psicológica aprendida das famílias de origem de alguns dos CC (FM3, FH5, FM6, FH7 e M8) se reproduzem em poucos casais (C3 e C5).
Na comunicação recebida das famílias de origem dos CC há nítida presença de comunicação desqualificadora tanto entre os pais dos CC (nas oito famílias de CC) como entre os pais de seus parceiros (FH1, FM2, FH3, FM4 e FH8). De modo geral, a comunicação entre os CC e seus parceiros repete padrões intergeracionais de desqualificação (C1, C2, C3, C4, C5, C6, C7 e C8), com o uso de estilo brusco (C1, C2, C3, C5, C6, C7 e C8) e de desconfirmação (C1, C2, C4, C5, C6, C7 e C8).
Há três casos (C3, C4 e C5) em que esses padrões comunicacionais desqualificadores ocorrem nas relações conjugais somente em momentos de maior estresse, devido às compras compulsivas, e geram impasses. São casais com padrão simétrico com aceitação mútua (C3) e com padrão complementar rígido (C4), que se esforçam para não repetir no seu dia a dia a violência verbal. Nos outros (C1, C2, C6, C7 e C8), entretanto, os padrões comunicacionais ocorrem tanto pelas compras como por qualquer outro motivo.
Por outro lado, há famílias de origem de CC (FH2, FH5, FH7 e FM8) que perderam seus negócios com quedas financeiras importantes e influenciaram os comportamentos do CC. Dentre essas famílias, há aquelas que têm pais ou parentes de primeiro grau com problemas de uso de álcool e drogas (FH2, FH5 e FH7). Somente em um caso de família com perdas financeiras, os pais ou parentes não referiram questões relacionadas a álcool (FM8). Em apenas duas famílias de parceiro dos CC (FM2 e FH3) há problemas de quedas financeiras. As perdas, além de agravarem o sofrimento dessas pessoas, contribuem para aumentar as dificuldades do casal ao lidar com o dinheiro, por terem sofrido privações, humilhações e exclusões. As perdas de negócios familiares apontaram para a transferência de poder entre os pais dos CC, ou seja, o poder financeiro migrou das mãos de todos os homens para as mulheres, sem que ambos estabelecessem novos acordos.
Os filhos de famílias de CC que perderam negócios são, na maioria, homens (FH2, FH5 e FH7) e um é mulher (FM8), e eles são os provedores principais da família atual. Os CC que tiveram famílias de origem que perderam dinheiro possuem hoje padrão de interação simétrico com interação patológica (C2 e C8), simétrico com disputas e brigas (C7) e complementar rígido alternando a submissão (C5) com distanciamento emocional e sexual, e em um caso o emocional (C2). Todos os parceiros dos CC têm pais descritos como corretos ao lidarem com o dinheiro e na forma de pagar as contas em dia, repetindo os mesmos modelos parentais quanto ao uso do dinheiro (lealdades). A maioria deles (H1, M2, H3, M4, M5, H5 e M6) se torna hiper-responsável por seus pares CC pagando e controlando suas contas. Em um casal (C8) isso não ocorre, pois ela é a provedora principal e ele cuida do âmbito doméstico e dos filhos. Curiosamente todos os parceiros e parceiras dos CC foram controlados rigidamente por seus pais. Assim, é possível crer que os parceiros, ao controlarem os CC, sintam-se leais aos padrões familiares quanto aos valores sobre o uso e controle do dinheiro.
6.2 FLUXO HORIZONTAL
A escolha do casamento para as mulheres CC ocorre, em parte, como possibilidade de fuga de frustrações e pressões vividas em suas vidas com seus pais (M1 e M6), por medo do abandono (M3) e por carência (M2, M3 e M6), por desejar ter família (M6) e por desejar ter controle (M8). Os padrões comunicacionais que envolvem as violências recebidas por essas mulheres foram o verbal (M1, M3 e M6), psicológico (M3, M6 e M8), físico (M1 e M3) e o abuso sexual (M3). Há aquelas que são resilientes (M3 e M8), que fazem alianças com os pais ou filhos; em outros casos, as CC têm mães com padrões de compras elevados (M3 e M6), que são referência para as CC.
As mulheres CC buscam uma maneira de serem aceitas com as compras, porém algumas (C1, C3 e C6) se mantêm na posição frágil como forma de terem de seus maridos os recursos financeiros para pagar as contas, mesmo que eles estejam endividados. Quando a mulher tem o poder financeiro e é a CC, ela perpetua a disputa de poder de seus pais e assume as finanças da casa, exercendo maior poder e controle que o seu marido.
Para os homens CC é possível notar a busca por um relacionamento em que se mantenham no papel de provedor, no qual todos fazem questão de cuidar das esposas e dos filhos, especialmente por meio do dinheiro, dando os melhores presentes e objetos (H2, H4, H5 e H7). Isso pode ser compreendido em parte pela necessidade de mudar os padrões de violências recebidas de seus pais, como a verbal (H2, H5 e H7), a psicológica (H5 e H7) e a física (H7), e de fazer em suas vidas o antimodelo de seus pais, oferecendo tudo mesmo sem poder pagar.
Quase todos os parceiros (H1, M2, H3, M4, M5, H6 e M7) indicam que sofrem por suas expectativas frustradas em relação ao cônjuge CC e ao relacionamento, por não encontrarem aquilo que observavam em seu parceiro inicialmente ou pela frustração por não alcançarem o que foi planejado para as suas vidas. Podemos pensar que essas pessoas se casem com uma idealização do parceiro e da relação, talvez pelos discursos dos CC sobre suas identidades estarem atreladas às posses e bens, o que favoreceria um encantamento inicial.
Quanto ao nível de relação interpessoal, todos os relacionamentos se constituem com a aceitação mútua logo de início. Porém, com o tempo, a rejeição se instala, talvez devido à presença das compras compulsivas como um estressor. Neste sentido, surgem as formas
comunicacionais desqualificadoras com uso do estilo brusco (C1, C2, C3, C5, C6, C7 e C8), de tangenciamento (C2, C3, C4, C5, C6, C7 e C8), de declarações contraditórias (C1, C2, C5 e C7), de mudanças bruscas de assunto (C1, C2, C7 e C8), de incoerências (C1, C3, C5, C7 e C8), de interpretações errôneas (C1, C2 e C8), de frases incompletas (C1, C3 e C8) e de uso de ironia (C3).
Quanto ao nível de percepção individual, o uso da pontuação da sequência ocorre em quase todos os casais, exceto no casal 4, que não a utiliza, o que pode ajudar a compreender a facilidade com que o casal encaixa seus pontos de vista e, portanto, não estabelecer impasses. A impermeabilidade, por outro lado, se fez presente implicando, provavelmente, padrões comunicacionais desconfirmadores característicos dessa díade. A incapacidade de resolver os impasses (C1, C2, C4, C5, C6, C7 e C8) pode estar ligada a esta maneira como ambos se tornam impermeáveis uns aos outros, mantendo suas razões sem flexibilizar as posições. Segundo Watzlawick, Beavin e Jackson (1967), os impasses ocorrem pela maneira de pontuar as sequências comunicacionais e pelas lutas que se estabelecem nas relações, justamente por apresentarem incapacidade de se comunicar sobre os respectivos padrões de interação (metacomunicação) que os mantêm presos em círculos viciosos, confirmando a presença de uma comunicação disfuncional. Esses impasses podem ocorrer mesmo sem estresse (C1, C2, C6, C7 e C8) ou somente sob estresse em alguns casos (C3 e C7). Isso explicaria como a forma da comunicação tem primazia sobre o conteúdo expresso e possui capacidade de definir uma relação. Portanto, para os casais com padrões interacionais simétricos e complementares, os impasses são uma característica presente e uma caricatura do processo comunicacional disfuncional que lhes foge ao controle.
O padrão complementar rígido (FH1 e FM1) e o simétrico com disputas (FH2, FM2, FM8 e FH8) dos pais parecem ter relação com as escaladas que ocorrem para os casais participantes (C1, C2 e C8). São casais com padrão de interação simétrico com disputas e interação patológica e que, portanto, repetem as questões de poder e de comportamentos de submissão e de disputas da geração anterior. A força com que seus pais se agarravam às suas razões sem aceitar as dos seus parceiros implicou o uso frequente da rejeição, que é repetida nessas relações conjugais que apresentam uma comunicação baseada na desqualificação, com uso do estilo brusco expresso pela violência verbal, criam impasses no dia a dia por qualquer motivo e que tiveram sofrimento psíquico devido às violências vividas e perdas financeiras. Com as escaladas, há um desequilíbrio na própria relação, que se agrava na medida em que os impulsos incontroláveis invadem os CC, a ponto de colocar em risco o próprio casamento.
Em alguns casais, com padrão simétrico com disputas e brigas (C7), simétrico com aceitação (C3) e complementar rígido (C5), as escaladas ficam latentes e emergem quando os níveis de estresse aumentam. De acordo com os axiomas da comunicação de Watzlawick, Beavin e Jackson (1967), todas as permutas comunicacionais são simétricas, complementares ou metacomplementares, e nenhuma delas é considerada saudável ou não. Porém, quando se enrijecem, tornam-se patológicas. Assim, nesses três casais, com diferentes padrões de interação, há um intercâmbio comunicativo instável de acordo com o nível do estresse. De uma visão sistêmica e intergeracional, portanto, as permutas comunicacionais dos pais dos CC são observadas no eixo vertical, são modelos arraigados que, por mais que tentem ser controlados, acabam sendo expressos, mesmo nas relações que se definem como valiosas pelos participantes.
Talvez no padrão simétrico com disputas e brigas, patológico ou não, e o complementar rígido permitam os casais expressarem os sintomas de forma não verbal por meio de um distanciamento emocional e sexual (C1, C6, C7 e C8), ou só emocional (C2) ou só o sexual (C4). Outras formas de expressão podem ocorrer por meio da dificuldade dos CC de manter controle sobre si e o outro (todos), da agressividade (M1), da falta de diálogo que ocorre para todas as compradoras compulsivas (M1, M5, M6 e M8), da vingança (M1), da necessidade de aceitação (todos) e da impossibilidade de lidar com as frustrações (todos). O sintoma se aloca nas relações e nos diálogos, confirmando a dificuldade de lidar com as diferenças e a impossibilidade de se desprender das lealdades invisíveis com as famílias de origem. É possível que a dificuldade de controle dos impulsos dos participantes da pesquisa esteja ligada não só às questões intergeracionais, mas também que seja uma forma de luta contra um controle externo representado pelo parceiro, mesmo sabendo ser necessário.
Em quase todas as famílias de origem dos CC, há indicação de parentes de primeiro grau (cônjuge, pais, tios, irmãos, avós) com problemas relacionados à dificuldade de manter o controle do impulso, tais como uso de álcool e de drogas e compras em excesso.
Poucos casais são capazes de transformar as disputas e os conflitos em forças nas suas vidas ou como uma fonte de união do casal (C3 e C4). Em geral, há tentativa de negociar as diferenças entre si com bons resultados. C3 e C4, no seu dia a dia, não usam a violência verbal, tampouco o estilo brusco, e não criam impasses, se qualificam, são empáticos e têm compaixão, são amorosos entre si, além de acreditarem no relacionamento. Estes dois casais estão em um momento de transição do padrão de interação, principalmente por terem aprendido a controlar as compras compulsivas após o tratamento no PRO-AMITI. Entretanto,
quando sob estresse, replicam a violência verbal e o padrão se transforma ora em simétrico com disputas e brigas, ora em complementar rígido, e o sintoma volta a ter função de controle.
Os CC, ao se sentirem impotentes, disputam e brigam, usam violências aprendidas e depois deixam o parceiro se encarregar deles (pseudossimetria). Os homens CC impedem o controle financeiro, mas se submetem às parceiras. As mulheres com dependência financeira se submetem e são controladas financeiramente pelos CC. As outras mulheres CC que não têm dinheiro acabam cedendo ao controle financeiro dos maridos. Entretanto, quando ela tem dinheiro, ao contrário, submete o marido, que por sua vez luta pelo poder de outras maneiras, como em H8, cuja disputa fica embutida em suas frustrações conjugais comunicadas por meio de desconfirmações e desqualificações. Os parceiros dos CC assumem as responsabilidades e acionam as lealdades familiares, cuidando dos CC. Mesmo brigando e discutindo, acabam pagando suas contas. No final, cada comportamento visa minimizar as diferenças entre si e manter o controle um do outro e do relacionamento.
A circularidade dos padrões de interação dos casais pode ser explicada pela impotência dos CC e pelas expectativas frustradas dos parceiros em relação ao seu cônjuge. Quanto mais frustrados, maior a impotência dos CC. Quanto mais impotentes os CC, mais frustrados ficam os parceiros. Se acrescentarmos os padrões comunicacionais disfuncionais a este cenário, chegaremos a círculos viciosos de codependência que os aprisionam.
Em suma, o padrão de interação dos casais foi caracterizado como simétrico com disputas e brigas, com interação patológica e com escaladas (C1, C2 e C8); como simétrico com disputas e brigas com escaladas sob estresse (C7); complementar rígido com submissão de um deles (C5 e C6); e simétrico com aceitação e capacidade de lidar com as diferenças (C3 e C4).
O padrão de interação simétrico com disputas e brigas e com escaladas aponta para a presença no casal de comunicação disfuncional com comunicação desconfirmadora e desqualificadora com uso do estilo brusco (violência verbal) e ambos se deparam com os impasses no dia a dia, além daquele proveniente das compras. O casal que evita escalar (C7) tem apoio de suas crenças religiosas que preserva a premissa do perdão, o que colabora para equilibrar as suas diferenças. Entretanto, isso não impede que H7 e M8 façam uso da comunicação desconfirmadora, desqualificadora com uso do estilo brusco (violência verbal).
O padrão complementar rígido com submissão de um deles (C5 e C6) também aponta para a presença da comunicação disfuncional, por meio da comunicação desconfirmadora,
desqualificadora, com uso do estilo brusco (violência verbal), com impasses, porém sem escaladas.
O padrão simétrico com aceitação mútua e capacidade de lidar com as diferenças (C3 e C4) é o padrão que se destacou como formato de comunicação funcional e no qual a diferença do par é encaixada. Mesmo quando aumenta o estresse e o casal muda o padrão de interação, eles mostram suas frustrações e apontam saídas, sendo assim uma forma aberta e direta de lidar com as dificuldades. As formas comunicacionais expressas colaboram para a sustentação do vínculo, para a preservação da conexão afetiva e sexual, interesses e apoio mútuos, e para a valorização do relacionamento.
7 DISCUSSÃO
Os padrões de interação simétricos ou complementares, ou seja, as categorias básicas das permutas comunicacionais, segundo Watzlawick, Beavin e Jackson (1967), estão presentes nas relações das pessoas em geral de forma alternada em diferentes áreas da vida do