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2.1 Özelleştirme Uygulamaları

2.1.2 Türkiye’de Özelleştirme Uygulamaları

Diversas Ordens Religiosas trabalharam na América portuguesa: Beneditina, Carmelita, Franciscana, Capucho, Jesuíta, dentre outras. As três primeiras são de fundação medieval. Os capuchinhos representam um ramo da Ordem Franciscana, reformada no século XVII. Apenas os Jesuítas constituíam uma congregação nova de clérigos regulares, nos moldes da Reforma Tridentina. Os carmelitas e os franciscanos exerceram forte influência na Bahia seiscentista e setecentista por meio da Ordem Terceira do Carmo e da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, ou da Penitência. Nascidas ainda na época medieval, não foram muito influenciadas pelo clericalismo próprio da época pós-tridentina. Por essa razão, tanto nas irmandades religiosas como nas ordens terceiras, a participação dos leigos é muito ampla, limitando- se os frades apenas à orientação espiritual.

As confrarias eram associações religiosas nas quais se reuniam os leigos no catolicismo tradicional. Dividiam-se principalmente em irmandades e em ordens terceiras, tanto umas quanto outras de origem medieval, e existentes em Portugal desde o século XIII pelo menos, dedicando-se a obras de caridade voltadas para seus próprios membros ou para pessoas carentes não associadas. Embora recebessem religiosos, eram formadas sobretudo por leigos, mas as últimas se associavam a Ordens Religiosas conventuais (Franciscana, Dominicana, Carmelita), daí se originando seu maior prestígio. As irmandades comuns foram bem mais numerosas. Da metrópole, se estendeu ao império ultramarino, o Brasil inclusive, o modelo básico dessas organizações (BOSCHI, 1986, pp. 12-21). No Brasil, alcançaram seu auge no período colonial e perduraram fortes ainda na época do Império.

A intenção primeira dessas associações era zelar pelo culto religioso e assistência espiritual e, também, prestar auxílio em caso de doença e falecimento. Para cada santo de devoção e para cada segmento social, havia uma irmandade respectiva. eram grupos

de pessoas, geralmente da vizinhança, que se reuniam e se organizavam numa associação destinada a manter seu culto. Para que uma confraria funcionasse, precisava encontrar igreja que a acolhesse, ou construir a sua, e ter aprovado seu estatuto ou compromisso pelas autoridades eclesiásticas (VIDE, Tit. LX, Par. 867). Algumas vezes o santo de devoção já possuía sua ermida ou capela e os fiéis devotos se comprometiam a manter o seu culto e a promover a sua festa. Em outras oportunidades, o culto começava a ser feito num pequeno oratório e a finalidade da irmandade era justamente angariar recursos materiais para a ereção da ermida ou capela. Diversas irmandades pobres, como a dos escravos, contentavam-se em conseguir um altar lateral para cultuar seu santo numa capela ou igreja já dedicada a outro santo, até que conseguissem construir a sua própria.

Além das matrizes, havia também as capelas urbanas e as rurais. As urbanas eram sempre pertencentes a uma irmandade, principalmente a partir de meados do século XVII, quando essas associações tiveram o seu grande desenvolvimento. De um modo geral, eram as capelas de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de São Francisco de Assis, de Nossa Senhora do Rosário, das Mercês etc., os oragos principais das Irmandades.

Em geral, cada templo acomodava diversas irmandades, que veneravam seus santos patronos em altares laterais. Existiam irmandades com a mesma denominação espalhadas pelas igrejas do Brasil e mesmo em cada vila ou cidade. Os templos, que ocupavam, representavam um marco fundamental de identidade, pois neles não funcionava, em princípio, mais de uma confraria com o mesmo nome. Dizia-se, por exemplo, em seus documentos: “Irmandade de São Benedicto ereta no Convento dos religiosos Franciscanos na Freguesia da Sé da Bahia”, ou “Irmandade de Nossa Senhora do Rosário ereta na Matriz da Conceição da Praia”. Na Bahia, confrarias de São Benedito existiam também nas igrejas da Conceição da Praia e do Rosário da Penha, além de outras em Salvador e vilas do Recôncavo. Quase todas as igrejas matrizes da Bahia – matriz significando templo-sede de freguesia – possuía irmandades do Santíssimo Sacramento e do Rosário. Também as igrejas conventuais e mesmo capelas abrigavam simultaneamente diversas irmandades.

A presença dessas associações confirmou no íntimo dos irmãos, além do sentimento religioso, um verdadeiro sentimento comunitário, que resultou em cooperação entre elas, se os interesses eram afins, e em disputas e concorrências, se eram antagônicos.

As irmandades eram portadoras de um vasto poder econômico, adquirido sobre as anuidades cobradas, dos sufrágios remunerados, das generosas doações que recebiam via testamento dos seus devotos e também sobre os juros dos empréstimos que faziam aos irmãos. E detentoras de enorme poder político e religioso que, em termos de sensibilidades coletivas, funcionavam historicamente como vínculo eficiente de transplantação da cultura lusa, constituindo-se em mecanismo de controle social da população.166

A administração de cada confraria ficava a cargo de uma mesa, presidida por juizes, presidentes, provedores ou priores – a denominação variava –, e composta por escrivães, tesoureiros, procuradores, consultores, mordomos, que desenvolviam diversas tarefas: convocação e direção de reuniões, arrecadação de fundos, guarda dos livros e bens da confraria, visitas de assistência aos irmãos necessitados, organização de funerais, festas, loterias e outras atividades. A cada ano se renovavam, por meio de votação, os integrantes da mesa, e as Constituições Primeiras (VIDE, Tit. LXII, Par. 872) proibiam expressamente a reeleição, proibição nem sempre respeitada.

Cada Irmandade tinha o seu estatuto ou compromisso particular. Sua aprovação competia ao rei de Portugal, enquanto Grão-Mestre da Ordem de Cristo. Além de regularem a administração das irmandades, os Compromissos estabeleciam a condição social ou racial exigida dos sócios, seus deveres e direitos. Entre os deveres, estavam o bom comportamento e a devoção católica, o pagamento de anuidades, a participação nas cerimônias civis e religiosas da Irmandade. Em troca, os irmãos tinham direito à assistência médica e jurídica, ao socorro em momento de crise financeira, a ajuda para compra de alforria, no caso das confrarias de negros, e, muito especialmente, direito a enterro decente para si e membros da família, com acompanhamento de irmãos e irmãs de confraria e, ainda, sepultura na capela da Irmandade.

Em face dessa preeminência ocupada pelas irmandades no seio da sociedade, ao irmão era garantido um modo de participar da cultura da época, da vida social e, ainda, obtinha a confiança de que seus confrades abreviariam o seu tempo no Purgatório, pelo envio de sufrágios. Além de ter direito a uma campa no interior do templo e, mais tarde, de um carneiro nos cemitérios anexos às igrejas, os associados tinham a convicção

166 Para despertar o interesse dos grupos sociais pelas irmandades, a Coroa, pelo direito canônico e por sua própria legislação, propiciava uma série de regalias e direitos à associação. Cada irmandade era proprietária, com direitos civis reconhecidos, das igrejas ou capelas que construía; do cemitério onde eram sepultados seus irmãos falecidos; animais de sela, imagens, utensílios e mobiliário dos seus

íntima que receberiam o máximo de atenção espiritual em favor de suas almas. Disso se conclui a força e importância das irmandades religiosas na sensibilidade coletiva no período colonial.

Segundo Caio Boschi, “deve ficar claro, porém, que confraria não era sinônimo de corporação”. Nas confrarias, os assuntos profissionais não eram os mais importantes. Por outro lado, “o espírito cristão que inspirara a ereção das Misericórdias cedia lugar a preocupações temporais e terrenas” (BOSCHI, 1986, p. 13). Enquanto entidades coletivas, as irmandades traziam em seu seio acentuado individualismo, ou seja, “podiam ser entendidas também como centro catalisador de individualidades atemorizadas pela morte e pela doença” e ansiosas por espaço político. Para esses sodalícios, segundo ele, convergiam todas as espécies de sentimentos e aspirações. Ainda segundo Boschi:

As relações comunitárias faziam-se na medida exata da identificação entre os que delas participavam. Simultaneamente, integravam os indivíduos e liberavam seus anseios de libertação, passando, assim, a ser também o canal de manifestações de seus membros, o veículo de suas queixas, o palco de suas discussões (BOSCHI, 1986, p. 14). Tal ocorre particularmente, acrescenta o autor, em relação às irmandades de negros. As irmandades, então, funcionavam como “agentes de solidariedade grupal, congregando, simultaneamente, anseios comuns frente à religião e perplexidades frente à realidade social” (BOSCHI, 1986, p. 14).

As irmandades eram associações no interior das quais se teciam solidariedades, fundadas nas hierarquias sociais. O prestígio era de importância capital para as irmandades baianas. As mais influentes dentre elas, nos séculos XVII e XVIII, eram a Santa Casa da Misericórdia, a Irmandade do Santíssimo Sacramento e as Ordens Terceiras de São Francisco, do Carmo e de São Bento. Os Irmãos da Misericórdia, freqüentemente, pertenciam também a essas outras irmandades. Pertencer a uma delas correspondia a um passaporte para as outras e para um cargo no Conselho Municipal (RUSSEL-WOOD, 1981, p. 49).

As confrarias do período colonial sempre mantiveram um caráter marcadamente religioso e devocional. A única irmandade que manteve um aspecto nitidamente social foi a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, que possuía estatuto próprio com uma finalidade religiosa e assistencial.

respectivos templos e de seus escravos, quando possuía. Tratava-se, portanto de uma propriedade coletiva.

A Irmandade da Misericórdia da Bahia data da própria fundação da cidade. Já a 6 de novembro de 1549, uma ordem de pagamento a favor de Diogo Muniz, “provedor do Hospital desta cidade do Salvador”, atesta a sua existência. Mem de Sá, terceiro Governador geral, deixou, em testamento, a terça de seus bens do Brasil para a Misericórdia da Bahia.

As Santas Casas da Misericórdia se estabeleceram exclusivamente nos centros de maior desenvolvimento urbano, onde era possível de algum modo organizar algum tipo de assistência hospitalar. As precárias condições de vida rural não permitiam ainda a possibilidade de organizações religiosas análogas. Na Bahia e em algumas regiões, elas controlavam vasta rede filantrópica de hospitais, recolhimentos, orfanatos e cemitérios. Desenvolviam uma caridade principalmente para fora, para os destituídos da sociedade, uma vez que seus irmãos eram os socialmente privilegiados. O Compromisso de 1516 estipulava a manutenção de uma essa para os enterros dos pobres (cap. 3 e 14). O compromisso de 1618 da Misericórdia de Lisboa, que regia a da Bahia, estabelecia que seus membros fossem alfabetizados e “abastados de fazenda”, proibindo expressamente a entrada de trabalhadores manuais. Seus membros se dividiam em nobres ou irmãos maiores – os aristocratas portugueses titulados ou nossos fidalgos sem títulos (senhores de engenho, grandes negociantes, altos funcionários) – e oficiais ou irmãos menores – aqueles que prosperaram nas profissões mecânicas (mestres de ofício).

Pertencendo à Misericórdia, os leigos participavam de modo ativo na vida da Igreja e faziam jus a benefícios de ordem espiritual. A Misericórdia gozava do privilégio dos enterros,167 que eram sempre acompanhados por grande número de irmãos revestidos de suas insígnias distintivas.

Outra importante irmandade na Bahia colonial era a do Santíssimo Sacramento. Sua finalidade específica era a promoção do culto do Sacramento da Eucaristia. Esta foi uma das mais antigas e difundidas no período colonial. Todavia, assim como a Misericórdia, sua atuação se restringia aos centros urbanos, onde era possível a presença do sacerdote para a celebração da missa e consagração da hóstia, que permitissem o culto eucarístico. Segundo o Cônego Luís Castanho de Almeida,

167 Privilégio concedido à Misericórdia de Lisboa em 30 de junho de 1593 pelo Cardeal Arquiduque Alberto da Áustria, como governador de Portugal, durante o reinado de Filipe II da Espanha. Quando os privilégios da Misericórdia de Lisboa foram estendidos à da Bahia, ela passou a ter o mesmo monopólio. O provedor ordenou a sua publicação por toda a cidade da Bahia em 1627. Cf. BNRJ, 11-13, 24,45, doc. 24.

as paróquias precisam da Irmandade do Santíssimo ou do Senhor, para a cera, o óleo da lâmpada e o brilho das cerimônias. Pois o vigário devia arranjar-se para as despesas do culto no altar-mor, visto como, havendo altares laterais, deles tomavam conta as respectivas Irmandades. Verdade se diga: Sua Majestade concedia às paróquias coladas uma anuidade para vinho de missa, farinha e óleo, mas com o correr dos anos, não bastava, e as paróquias não foram coladas (apud AZZI, 1978, p. 95).

À Irmandade do Santíssimo Sacramento competia a promoção e a organização da procissão de Corpus Christi, a maior procissão celebrada durante o ano, chamada também procissão do Triunfo Eucarístico. Tinha ainda o compromisso de assistir às missas nas quintas feiras, havendo em seguida a benção do Santíssimo.

Os irmãos do Santíssimo tinham suas campas, geralmente seis, sem lápide própria, na capela-mor da matriz, entre o arco-cruzeiro e os primeiros degraus, justamente no lugar em que eles assistiam à missa como congregados. O privilégio de ser enterrado dentro do próprio recinto da igreja, como veremos adiante, era dos mais ambicionados. Nas igrejas mais ricas, os irmãos do Santíssimo conseguiram, até no presbitério, cadeiras com rico espaldar e belos detalhes. Esse abuso, proibido pelas Constituições Primeiras no início do século XVIII, perdurou ainda por muito tempo.

Por sua estrita vinculação com o culto litúrgico, as Irmandades do Santíssimo, na Bahia, eram reservadas apenas aos homens. Nos principais centros urbanos do Recôncavo, congregavam em geral figuras de destaque da elite local. Vestiam uma opa vermelha durante o serviço do culto. Também com suas opas abrilhantavam as cerimônias, carregavam as tochas nas procissões eucarísticas dentro da igreja, bem como na procissão de Corpus Christi e no acompanhamento do viático aos enfermos.

Segundo as Constituições, não era qualquer homem que podia entrar na capela- mor da Igreja, sob pena de excomunhão, a não ser “para cantar, tanger e ajudar os ofícios”. Esta era a função específica dos irmãos do Santíssimo que se sentiam altamente honrados por essa forma de participação no culto da Igreja.

Serafim Leite afirma a existência das confrarias do Santíssimo nas igrejas dos Jesuítas e nas missões desde o século XVI. Segundo ele, nas igrejas da Companhia floresciam diversas corporações religiosas. “Além das Congregações Marianas e da Confraria de Santa Úrsula e companheiros nos Colégios, havia em cada aldeia uma de Nossa Senhora, do Santíssimo Sacramento e das Almas do Purgatório” (LEITE, 1945, vol. IV, p. 112). O padre Cardim, em seus Tratados, ainda no final do século XVI dizia que:

Os mordomos são os principais e mais virtuosos; tem sua mesa na Igreja com seu pano, e eles trazem suas opas de baeta ou outro pano vermelho, branco ou azul; servem de visitar os enfermos, ajudar a enterrar os mortos e as missas, levando a seu tempo círios acesos, o que fazem com modesta devoção e muito a ponto; dão esmolas para as confrarias, as quais tem bem providas de cera, e altares ornados com frontais de várias sedas; em suas festas, enramam as igrejas com muita diligência e fervor, e é certo que consola ver esta cristandade” (CARDIM, 1980, p. 156).

Na medida em que a Coroa não assumia a assistência social e apenas a Misericórdia prestava assistência aos pobres, as irmandades foram criando disposições nos seus Livros de Compromissos, visando a auxiliar aqueles irmãos que ficassem pobres, fossem presos, adoecessem e assim por diante. É muito comum encontrar, nos estatutos de qualquer irmandade, o seguinte capítulo:

No caso que algum irmão desta irmandade chegue ao estado de pobre, a Mesa o mandará socorrer com o que puder, examinando a justa causa que tiver para não poder ganhar com que se sustente e adoecendo com todo o cuidado o mandará visitar e assistir com toda a caridade, e falecendo, ainda que deva à irmandade, nem por isso esta deixará de o acompanhar e lhe mandar logo fazer os sufrágios. 168

Confrarias de profissões e de homens de cor

Muitas confrarias agregavam principalmente indivíduos da mesma profissão. Os oficiais mecânicos de Salvador organizavam-se em torno das “confrarias dos mesteres”, dedicadas aos santos patronos de cada ofício. Segundo Serafim Leite (1953, pp. 29-31), as primeiras confrarias de oficiais mecânicos foram instituídas, na Bahia, pelos jesuítas ainda no século XVI. Havia a de São Jorge, que reunia ferreiros, serralheiros e ocupações afins; a de São Crispim, dos sapateiros e celeiros; a de São José, dos carpinteiros, pedreiros, canteiros e torneiros. Outros grupos profissionais também possuíam suas confrarias, como a de Santo Antônio da Barra, cujos membros eram comerciantes dedicados ao tráfico de escravos. As irmandades do Rosário, na igreja da Ajuda, e do Senhor Bom Jesus da Cruz, na igreja da Palma, abrigavam principalmente

168 Compromisso da irmandade do Santíssimo Sacramento sita na igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia desta cidade do Salvador. Cap. 21. ACMS.

militares negros e pardos. A Irmandade de Santa Cecília, na Igreja da Conceição da Praia, era formada por músicos.

Uma postura da Câmara de Salvador, dizia que “todos os oficiais serão obrigados a acompanhar a bandeira nos dias das procissões del rei – pena de seis mil reis (6$000)”.169 A designação de “bandeira”, em Portugal, significava a corporação pública constituída por uma ou várias profissões, tendo por insígnia certo estandarte. Tais estandartes possuíam as imagens dos seus padroeiros e acompanhavam a corporação sempre que ela se reunia ou comparecia em público. Os estandartes eram considerados como elementos de elevação social.170

A “bandeira”, no sentido definido pelo prof. Marcelo Caetano, não existiu em Salvador. A palavra servia apenas para indicar o estandarte que deveriam possuir os oficiais mecânicos e que com ele compareceriam às solenidades organizadas pela Câmara ou pelas confrarias. Esses estandartes traziam sempre estampadas sobre tecido as imagens do patrono, sempre muito bem adornados com franjas e borlas douradas. A bandeira era zelosamente guardada, bem como as alfaias do santo, pelos próprios irmãos ou, em particular, pelo tesoureiro da confraria à qual pertenciam os oficiais.

A bandeira de ofício elevava o status social, distinguindo os mesteres da plebe: Ao mestre mais acatado de cada ofício se confiava o honroso encargo de dirigir a Irmandade, a cuja devoção estava ligada a sua profissão, sendo a escolha feita pelos próprios companheiros, ou por insinuação dos camaristas (RUY, 1953, p. 174).

As Irmandades tinham a função implícita de representar socialmente, se não politicamente, os diversos grupos sociais e ocupacionais da Bahia. Na ausência de associações propriamente de classe, elas ajudavam a tecer solidariedades fundamentadas na estrutura econômica, e algumas não faziam segredo disso em seus compromissos quando exigiam, por exemplo, que seus membros possuíssem, além da adequada devoção religiosa, bens materiais em quantidade. Mas o critério que mais freqüentemente regulava a entrada de membros nas confrarias não era ocupacional ou econômico, mas étnico-racial.

Havia Irmandades de brancos, de pretos, de pardos e de mulatos. As confrarias de brancos podiam se dividir entre aquelas cujos membros eram predominantemente portugueses, devotos de Nossa Senhora da Conceição da Praia, e aquelas, mais

numerosas, nas quais predominavam brasileiros natos, como os que faziam parte da Irmandade de Nossa Senhora das Angústias, no Mosteiro de São Bento. As mais prestigiosas exigiam em geral de seus membros, além de sucesso material, que pertencessem à raça dominante.

Os mulatos se reuniam nas Irmandades de Nosso Senhor da Cruz, na igreja da Palma, na de Nosso Senhor Bom Jesus da Paciência, na igreja de São Pedro, na Irmandade de Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão e na igreja do mesmo nome. Os negros africanos agrupavam-se por nações de origem: os angolanos e os congoleses formavam a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, na praça do Pelourinho; os daomeanos, a de Nosso Senhor das Necessidades e da Redenção, na capela do Corpo Santo e os Nago-Yorubás, formada por mulheres e consagrada a Nossa Senhora da Boa Morte, na pequena igreja da Barroquinha.171

Os negros nascidos no Brasil se reuniam na Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Martírios e em torno da devoção a São Benedito, seja na Igreja de Nossa Senhora da