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As sociedades de Antigo Regime herdaram da Idade Média a idéia de uma taxonomia social trinitária (“clero, nobreza e povo”). Em Portugal, no entanto, como foi sugerido por um historiador, a persistência dessa classificação “oficial”, cristalizada e legitimada pela tradição, não a isenta de uma enorme ambivalência.

O fato da sociedade ser representada, em primeiro lugar, como um conjunto de corpos juridicamente sancionados não garante que a sua estratificação social seja imediatamente visível, nem assegura uma correspondência linear entre os corpos sociais definidos pelo direito e as hierarquias sociais. Nesse sentido, a máxima institucionalização das distinções (consagradas em títulos, tratamento etc.), pode representar, pelo contrário, a máxima opacidade, nomeadamente para os historiadores de hoje (MONTEIRO, 1998, p. 19).

O vocabulário social herdado da Idade Média, a despeito de sua aparência de imobilidade, não deixou de ser objeto de contraditórias traduções. Assim, a imagem de continuidade serve para obscurecer as dimensões da mudança (MONTEIRO, 1998, p. 19). Contribuiu decisivamente para a ambivalência da taxonomia e para a mutação do vocabulário social corporativo a luta da monarquia pelo monopólio da classificação oficial. Um dos efeitos desse combate foi a multiplicação das formas de classificação, que coexistiam com a definição minimal (a representação trinitária), comum a todo o Ocidente. Ao lado disto, deu-se a progressiva institucionalização dos títulos e distinções, de cuja concessão a monarquia procurou também reservar-se o exclusivo. Estas tendências, é claro, implicavam redefinições dos privilégios e, portanto, dos processos de estruturação dos grupos sociais privilegiados,40 promovendo, desse modo, um alargamento das fronteiras da nobreza.

40 Nos seus traços essenciais, essas tendências já foram apontadas por MONTEIRO, Nuno Gonçalo, “Notas sobre a Nobreza, Fidalguia e titulares nos finais do Antigo Regime”, in: Ler História, n° 10, 1987, pp. 15-51, Apud. MONTEIRO, 1998, p. 21.

Desde as reformas das estruturas dos concelhos, iniciadas por d. Afonso IV, que ascende ao trono em 1325, e alargada com d. João I, que em 1391 modifica a forma de eleição para as câmaras concelhias, os oficiais que as compõem passam a se intitular “da governança” ou “nobreza da terra” (COELHO, 1994, p. 27). Com a reforma de d. João I, eleitores e elegíveis às câmaras tendem a ser os mesmos. A administração local começa a estar nas mãos de uma aristocracia. São as elites sociais e econômicas dos centros concelhios, os mais ricos e prestigiados socialmente, proprietários rurais, pequena nobreza ou comerciantes que compreendem logo que a capacidade de decisões governativas pode aumentar-lhes o prestígio e favorecer os negócios.

Esses homens vão ocupar, para além das suas funções econômicas e sociais, os mais elevados lugares da justiça e da vereação. Dessa forma, o grupo dos homens da governança vai cada vez mais caminhando para a sua restrição e clausura. Os oficiais revezam-se nos cargos e até pode falar-se, com flexibilidade, de um cursus honorum que os leva de procuradores a juízes. Apóiam-se na estrutura parental e conjugal aliando-se pais, filhos, irmãos, sogros, genros e cunhados. A manutenção do circuito da governança podia-se prolongar para além do tempo do oficialato, permanecendo esses “homens bons” nas sessões da vereação, desempenhando certos cargos por interinidade, quando alguns oficiais têm de ser substituídos temporariamente para missões de representatividade do Conselho, como ida às Cortes (COELHO, 1994, p, 28-29). Também os letrados encontravam, nos serviços à Coroa, a porta de entrada da nobilitação.

A ação das monarquias, no sentido de alargar as fronteiras da nobreza, foi condicionada pelas especificidades das diversas heranças institucionais. Uma delas foi a forma que se revestiu tradicionalmente a constituição do Braço da Nobreza nas Cortes, expressão paradigmática da ordem corporativa (MONTEIRO, 1998, p. 21). Convocados por Carta Régia, desde finais da Idade Média, nele tinha lugar apenas os títulos, os senhores de terras com jurisdição, os alcaides-mores e dignitários com Carta de Concelho.41 Os homens bons dos Concelhos elegiam seus procuradores para o Braço Popular (COELHO & MAGALHÃES, 1986, p. 43; MONTEIRO, 1998, p. 21).

No século XVII, ainda se podia afirmar que “fidalgo é a palavra, e título mais geral com que conhecemos a nobreza, e entre nós quase o mesmo, que entre os

41 Cf. Francisco Manuel Trigozo de Aragão Morato, B.N.L., Maço 183, n° 6 Fls. 18 e segs., e Visconde de Santarém, Memórias para a história e theoria das Cortes Gerais, parte 1ª, Lisboa, 1827, pp. 6 e segs. Ambas citadas por Monteiro, 1998, p. 21.

espanhóis a de Cavaleiro”.42 No entanto, como sugerido por António Manuel Hespanha (1994, pp. 418-419), a ampliação da classificação da nobreza foi obrigando a doutrina jurídica a criar diferenciações internas e estatutos privilegiados intermediários. Exemplo é o conceito de nobreza civil e política (por oposição a nobreza natural), já incorporado na literatura jurídica mesmo antes do século XVII, decorrente da forma singular e tardia como os juristas portugueses integraram a categoria de “nobreza” do direito comum europeu.43

No entanto, tal conceito desde logo provocou ressalvas da parte dos principais: [...] a verdadeira nobreza há-de ser herdada, e derivada dos Pais aos filhos [...]. E se algumas pessoas de nascimento humilde chegam nos povos a ser avaliadas por nobres por ações valorosas, que obraram, por cargos honrados, que tiveram, ou por alguma preeminência, ou grau, que os acrescente, não é esta a nobreza verdadeira derivada pelo sangue, e herdada dos avós, mas pertence à classe da nobreza civil e política, que se adquire pelos cargos, e postos da República, e servir- lhes-ão estes, e os feitos gloriosamente obrados de os constituir nos princípios da nobreza de sorte que verdadeiramente se não pode dizer deles que são nobres, se não que começam de ser [...] a verdadeira nobreza não pode dala (sic) o Príncipe por mais amplo que seja o seu poder.44

Aquele conceito, no entanto, gradativamente acabará por se impor na prática de muitas instituições, num processo que, em fins do Seiscentos, contribuirá não apenas para a distinção entre nobreza e fidalguia (mais restrita), mas também para a efetiva “banalização” das fronteiras da nobreza portuguesa, tornadas das mais difusas da Europa (MONTEIRO, 1998, p. 23).

Os momentos fundamentais dessa evolução são difíceis de delimitar, mas parece ter tido papel importante a diminuição tendencial dos privilégios comuns da fidalguia e das isenções tributárias em geral. No fundo, terão sido os privilégios corporativos45 da

42 João Pinto Ribeiro (m. 1649), “Sobre os títulos de nobreza de Portugal, e seus privilégios”, in: Obras

Várias..., Coimbra, 1730, 1ª parte, p. 22. Mas, como Salienta Monteiro, que o cita, o próprio autor reconhece que “há contudo outras pessoas de maior, igual e menor condição, que gozam de maiores, e iguais privilégios, nos casos dos fidalgos, cavaleiros, e escudeiros [...] de todos estes privilégios, franquezas, liberdades, isenções, uns são concedidos à nobreza e qualidade do sangue, e por tais perpétuos; outros somente à dignidade, cargo, ou ocupação em que andam, que contudo são princípio da purificação do sangue, e qualidade”. Ob. Cit. p. 141-142. MONTEIRO, op.cit. p. 22.

43 Cf. HESPANHA, “A nobreza nos tratados jurídicos dos séculos XVI a XVIII”. In: Penélope, fazer e

desfazer a história, nº 12, 1993, p. 27-42, Apud MONTEIRO, 1998, p. 22.

44 António de Vilas Boas e Sampaio, Nobiliarquia Portuguesa. Tratados da Nobreza hereditária e

política. (1ª edição 1676), 3ª edição, Lisboa, 1725, pp. 28-29. Apud MONTEIRO, p. 23.

45 Cf. MONTEIRO, 1998, p. 23. A verdade é que a erosão dos privilégios gerais da nobreza revestiu muitas vezes a forma da multiplicação dos privilégios corporativos concedidos a outras categorias (por exemplo, aos negociantes de grosso trato).

nobreza que se foram limitando. O lançamento do imposto direto e universal46 da décima, em 164147, constituiu marco importante, tal como a progressiva restrição das isenções ao pagamento do direito senhorial da julgada.48 Nas últimas décadas do século XVIII, a abolição da isenção da sisa de que gozavam os cavaleiros das ordens militares, o lançamento da décima das comendas, do quinto dos donatários e da décima eclesiástica representaram a virtual extinção das isenções tributárias das ordens privilegiadas, apesar da forma como estas disposições foram efetivadas (MONTEIRO, op.cit. p. 23).

Fundamental nesse processo foi o período pombalino (1750-1777), que consagrou definitivamente a compatibilidade entre a nobreza e o comércio por grosso, aliás, nunca questionada de fato no direito tradicional português (MAXWELL, 1996, p. 92-93). Foi ainda no período pombalino que se aboliu a distinção entre cristãos novos e cristãos velhos, que deve ter atuado como mecanismo de substituição nobiliárquica (MONTEIRO, op.cit. 24).

O ataque aos privilégios dos nobres com relação aos impostos, a qualificação de comerciantes para cargos públicos, uso da nobilitação como incentivo para investimentos nas companhias privilegiadas e, principalmente, a proibição da discriminação contra as pessoas de origem judaica, provocaram forte oposição da chamada seita dos “puritanos”, “um punhado de grandes famílias portuguesas que, julgando-se isentas de qualquer defeito de sangue, praticavam a mais estrita endogamia.” (MELLO, 2000, p. 102).

Oliveira Marques (1982, vol. I, p. 398) propõe dividir a nobreza em Portugal, nos finais do século XVIII, em dois grupos: de um lado, estaria um setor que era, na visão de seus membros, o defensor do sangue, da linhagem dos antigos métodos de governo e estava ligado aos proprietários de terras e à agricultura. Do outro lado, estava um grupo de mentalidade mais aberta, que aceitava a elevação à nobreza de homens de letras, e até de homens de negócios e burocratas, que contavam com o comércio e o lucro e viam a Inglaterra e a Holanda, e não a Espanha e a França, como modelos de sociedade.

A ascensão ao limiar da nobreza, como uma condição tácita, adquirida pelo “viver nobremente”, pelo desempenho de funções nobilitatórias (pertencer ao corpo de oficiais do exército de primeira linha ou das Ordenanças, à magistratura, ou simplesmente a

46 Com exceção dos eclesiásticos. 47 Revitalizado em 1763.

uma câmara municipal etc.), ou negativamente, pelo não exercício de funções mecânicas, obteve efetiva tradução em muitas práticas institucionais setecentistas (MONTEIRO, 1998, p. 24).

Exemplo foi a grande abertura no acesso aos hábitos das ordens militares,49 evidente ao longo do século XVII. Ampliando uma prática anterior, nos finais do século XVIII, o desempenho de funções comerciais de grosso trato constituía prova de nobreza, por exemplo, nas habilitações da Ordem de Cristo.50

A assunção dos limiares das fronteiras nobiliárquicas inferiores foi-se processando simultaneamente com a progressiva delimitação do núcleo restrito dos Grandes, transformados, então, não apenas no grupo mais preeminente, mas também no único com fronteiras bem definidas e, tendencialmente, no depositário exclusivo do antigo status nobiliárquico. Em Portugal, no final do século XVII, em geral, quando se fala da nobreza ou da fidalguia como grupo, quer-se designar (e quase só) os títulos.51 Na América portuguesa, no entanto será diferente.

Bahia de Todos os Santos: Montagem da sociedade aristocrática

Nascida sem nenhuma base infra-estrutural anterior, apesar da presença de um grupo de colonos antigos, a cidade do Salvador é, contudo, uma cidade que já nasce socialmente estruturada. Com efeito, Tomé de Souza trouxe consigo homens indicados para vários cargos administrativos, tais como capitão da guarda costeira, provedor-mor e ouvidor geral. Nos sessenta anos que se seguiram (1548-1609), a justiça no Brasil seria administrada pelo ouvidor-geral e seus subordinados (SCHWARTZ, 1979, p. 23). Com os 1500 homens que o acompanhavam, o primeiro Governador geral trouxe também a micro-imagem daquilo que mais tarde viria a ser a sociedade da capital: nobres oficiais e soldados, arquitetos da conquista e da segurança, clérigos e religiosos

49 Com exceção da Ordem de Malta, mesmo depois de incorporada à Casa do Infantado, em fins do século XVIII, exigindo efetivos votos aos seus cavaleiros e, sobretudo, prova de fidalguia de linhagem dos quatro costados.

50 São numerosas as fontes que confirmam que o acesso de comerciantes aos hábitos das ordens militares é bem anterior à legislação pombalina. Sobre as habilitações dos negociantes na segunda metade de setecentos, cf. Jorge Pedreira, “Os negociantes de Lisboa (1750-1800)”. In: Análise Social, nºs. 116-7, 1992. Cf. também MELLO, 2001.

51 Todavia, devem-se distinguir as representações socialmente dominantes da nobreza do campo mais restrito das ideologias nobiliárquicas. Cf. MONTEIRO, op. cit, 26.

responsáveis pela catequese dos gentios; artesãos e oficiais mecânicos de arte e ofícios sem os quais a cidade não sobrevive nem se desenvolve. Mas trouxe, sobretudo, os homens responsáveis pelo bom êxito do empreendimento, os homens que dispunham de meios financeiros próprios ou de apoios sólidos na Metrópole para erigir o sistema produtivo agro-industrial-mercantil, que atravessaria séculos (MATTOSO, 1978, p. 159).

Por volta de 1600, Salvador já se firmava como capital da colônia e como grande centro produtor de açúcar. Mas o que, sobretudo, importa é o desenvolvimento das atividades comerciais que nasceu da agricultura de exportação. Atividades comerciais que se desenvolvem em vários níveis e que permitem, ainda que sob forma incipiente, a existência de algumas categorias intermediárias cujo estatuto social não está ainda perfeitamente firmado. Estruturada dentro do esquema de sociedade escravocrata, que legalmente separa os indivíduos em dois grupos, a sociedade de Salvador, nos séculos XVII e XVIII, aparece como sendo composta por quatro grupos.

No primeiro grupo52, encontramos os altos funcionários da administração real (Governador-geral ou Vice-rei, Chanceler, Ouvidor geral do crime, Ouvidor geral do cível, Tesoureiro geral, Agravista, Deputado da junta de arrecadação da Real Fazenda, Secretário de Estado e Governo, Intendente Geral do Ouro, Intendente da Marinha, Provedor da Alfândega), os militares de alta patente (Coronéis, Tenentes-Coronéis), o alto Clero secular e regular (Arcebispo, Vigário-Geral, Deão, Cônegos e Meio- Cônegos), os grandes proprietários rurais (senhores de engenho e fazendeiros de gado), os grandes mercadores (comerciantes que possuem grandes cabedais e comerciantes que mercadejavam com o seu nome e com cabedais pertencentes a terceiros53). São as camadas que compõem a chamada “elite” da sociedade baiana (MATTOSO, 1978, p. 161). Todavia, dentro desta “elite”, um grupo se sobressaia, faminta de distinções e honrarias, que se consubstanciavam nas suas (poucas vezes reais, mais comumente pretensas) origens nobres sancionadas (algumas vezes) pela obtenção de um título de nobreza: os senhores de engenho do Recôncavo.

Encontram-se várias descrições do Recôncavo nos escritos dos cronistas e viajantes que passaram pela Bahia na época colonial. Era uma vasta planície costeira; suas terras, em volta da baía de Todos os Santos, eram úmidas e baixas, elevando-se

52 Incluídos todos aqueles cujos rendimentos anuais líquidos são superiores a 1:000$000 anuais.

53 O que diferencia este grupo dos outros grupos mercantis é que suas operações transcendem o âmbito local, integrando-se no circuito do grande comércio internacional.

suavemente em tabuleiros, ocasionalmente recortadas em uma topografia mais acidentada pelos vários rios tributários da baía.

Para os fundos do Recôncavo, desde as bocas do Paraguaçu e do Pirajá, há uma infinidade de outros recôncavos menores, Acupe e S. Amaro, e também os de Mataripe, Passé e Cotegipe. A amenidade e primor destes terrenos, abundantes alguns de mariscos, se realça com a presença de várias ilhas, tais como a de Cajaíba, Madre de Deus, Bombarra, Maré, Frades e outras. É uma paragem, esta da Bahia, por muitos títulos, análoga à da Grécia, e, se é verdade que a impressão do lugar em que se é criado, exerce no homem grande influência, não se deve estranhar que, em todo o Brasil, os baianos se tenham distinguido pelo engenho (VARNHAGEN, 1978, p. 239).

Caracterizava-se por uma floresta de chuva semi-tropical, com alta umidade e uma exuberante vegetação. Todavia, por seu solo fértil, favorável ao cultivo extenso de diversas colheitas, especialmente da cana-de-açúcar e do fumo, já em meados do século XVII, grande parte de suas densas florestas havia sido destruída para dar lugar às vilas e aos engenhos de açúcar, cujas caixas dirigiam-se a Salvador, fazendo sua riqueza e opulência.

O contato entre Salvador e o Recôncavo era proporcionado pela baía de Todos os Santos. E o fato de ser Salvador um dos maiores centros comerciais coloniais tornava este intercâmbio grandemente lucrativo. O Recôncavo era entrecortado por rios de vários tamanhos, que desaguavam na baía. Os engenhos, sempre que possível, localizavam-se às margens da baía ou ao longo desses rios, aproveitando-os como meio de transporte, fonte de alimentação e, às vezes, também como fonte de energia.

As primeiras formas de doação de terras no Brasil, as Capitanias Hereditárias, dotavam seus donatários de poderes senhoriais que incluíam as doações de sesmarias. A lei de sesmarias fora promulgada em 1375, por d. Fernando, com o objetivo de resolver o problema da terra e da evasão de mão-de-obra no campo em Portugal. No Brasil, ela está diretamente ligada às intenções da Coroa de criar uma indústria açucareira como base para a colonização efetiva. A criação de uma capital diretamente controlada pela Coroa e de instituições para viabilizar o governo colonial não substituíram completamente o sistema anterior e os sesmeiros, que construíam engenhos em suas terras, acabaram herdando quase todos os poderes dos donatários.

O engenho54 possuía uma forma de organização que, em determinados aspectos, e guardadas as devidas proporções, lembrava a organização do senhorio medieval português, como foi assinalado por Antonil (ANTONIL, 1982, p. 75). Como unidade sócio-econômica-cultural, ele cresce e mantém-se autonomamente, constituindo-se, no período colonial, na mais complexa forma de exploração agrícola. Nada define melhor a forma como se estruturou a sociedade colonial, sua essência mais íntima, suas articulações e características básicas do que o engenho de açúcar.

Com seus vários edifícios para a moradia e para a instalação do aparelhamento necessário ao seu funcionamento, o engenho forma “um pequeno aglomerado humano, um núcleo de população. Representa a atividade sedentária que fecunda o solo, amanha a riqueza e lança as raízes da comunidade social” (CANABRAVA, 1973, p. 205). Nenhuma outra forma de exploração agrícola colonial foi tão complexa em seu funcionamento. O padre Fernão Cardim, que visitou muitos engenhos acompanhando o padre visitador na Bahia, os descreve como

uma máquina e fábrica incrível: uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quais moem mais e com menos gastos; outros não são d’água, mas moem com bois e chamam-se trapiches; e estes têm muito maior fábrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do ano, o que não tem os d’água, porque às vezes lhes falta (CARDIM, l980, p. l56).

O trabalho de cultivo do solo, assim como a longa série de operações necessárias, demoradas, exaustivas e complexas para a manufatura do açúcar, requeria aparelhamento caro e mão-de-obra abundante. O Padre Cardim, ainda se referindo aos engenhos, dizia que “em cada um deles, de ordinário há seis, oito e mais fogos de brancos, e ao menos sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinário; mas os mais deles tem cento, e duzentos escravos da Guiné e da terra”. O jesuíta italiano Antonil, em sua obra já citada, nos dá uma idéia das necessidades de um engenho:

toda a escravaria (que nos maiores engenhos passa o número de cento e cinqüenta e duzentas peças, contando a dos partidos55 quer mantimentos e farda, medicamentos, enfermaria e enfermeiro; e, para isso, são necessários roças de muitas mil covas de mandioca. Querem os barcos, velame, cabos, cordas e breu. Querem as fornalhas, que por

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No Brasil Colônia a fazenda de cana-de-açúcar que possuía as instalações próprias para a produção do açúcar era conhecida pelo termo “engenho”. Ou seja, estas instalações passaram a designar todo o conjunto da fazenda.

55 Partido. Segundo Leonardo Arroyo, “área de terreno plantado de cana-de-açúcar, arrendado ou não, em terras do engenho real. A produção, cana-cativa, era entregue ao senhor de engenho para transformar em açúcar, recebendo o lavrador de partido a sua parte no resultado final. “Vocabulário”. ANTONIL, 1982, p. 217.

sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha; e para isso, há mister dois barcos velejados para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para comprar; ou grandes matos com muitos carros e muitas juntas de bois para trazer. Querem os canaviais também suas barcas, e carros com dobradas equipações de bois, querem enxadas e foices. Querem as serrarias machados e serras. Quer a moenda de toda a casta de paus de lei de sobressalente, e muitos quintais de aço e de ferro. Quer a carpintaria madeiras seletas e fortes para esteios, vigas, aspas e rodas; e pelo menos os instrumentos mais usuais, a saber, serras, trados, verrumas, compassos, réguas, escopros, enxós, goivas, machados, martelos, cantins e junteiras, pregos e plainas. Quer a fábrica do açúcar paróis e caldeiras, tachas e