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2.1 Özelleştirme Uygulamaları

2.1.3 Dünyada Havalimanı Özelleştirme Uygulamaları

Alguns dos traços culturais que impregnavam a elite baiana dos séculos XVII e XVIII podem ser vislumbrados mediante a leitura de alguns dos documentos encontrados nos arquivos das ordens terceiras e das irmandades mais prestigiosas, como a Misericórdia, a Ordem Terceira de São Francisco e a Ordem Terceira do Carmo, que assim dão a conhecer quais eram as atitudes comuns e a mentalidade diferenciadora dos grupos, bem como o preconceito social, de cor e de credo que impediam os pobres, os não-brancos e os cristãos-novos de nelas professarem os votos. Era atitude comum na Bahia do Antigo Regime, em consonância com as próprias leis do Estado, leis religiosas e mesmo as normas contidas nos estatutos das associações da época, proibir o ingresso de “raças infectas” às fileiras da carreira religiosa.

O privilégio de pertencer ao estamento superior era muito ambicionado e, uma vez obtido, zelosamente conservado. Os membros dos estratos superiores (as elites) freqüentemente se recusavam servir na guarnição simplesmente porque a promoção de soldado a alferes significava passar pelo posto de sargento. Um dos deveres do sargento era acompanhar as “serpentinas”, ou cadeiras carregadas à mão, de seus superiores, e a nobreza era incompatível com tal tarefa.185

Esse sentimento de preconceito era aceso desde a mais tenra idade. E dele não escapava nem os alunos do Seminário dos Jesuítas de Belém de Cachoeira, no Recôncavo. O parágrafo 17 do regulamento do Seminário determinava que os meninos deveriam ser “sacristãos, porteiros etc., e varrerão seus cubículos, farão suas camas

185 Objeção adicional era a de que assim estariam “emparelhados com os negros que a carregam”. Em 23 de junho de 1710 os conselheiros da Câmara pediram ao rei que permitisse às pessoas de comprovada nobreza passar do posto de soldado ao de alferes, ou pelo menos serem dispensados da obrigação de acompanhar as serpentinas. AMS, vol. 176, fl. 83. Cartas do Senado, vol. 2, 1710. (Anexo II)

etc.”186 Mas ao ser submetido ao parecer do P. Provincial Manuel Correia, em 1696, este exclui o parágrafo sob o argumento de que esta ordem

de se fazerem os seminaristas alguns ofícios mais baixos como varrerem os cubículos, etc., é digna de reparo, especialmente no Brasil, aonde nem o mínimo oficial Branco exercita tais ofícios, próprios dos escravos, nem se achará um homem Branco que tal faça. A que se ajunta serem os Seminaristas, filhos de Pais honrados e nobres, que não folgarão disso, muito mais havendo tantos escravos no Seminário que o poderão fazer.187

Os cristãos-novos eram bastante discriminados na sociedade colonial, sempre associados aos maus comerciantes. E, se a população os aceitava com desconfiança, as irmandades reagiam com mais antipatia ainda, vedando-lhes a entrada. A cláusula do Compromisso de 1618, da Santa Casa de Misericórdia, que exigia pureza de sangue, era comum às Ordens Terceiras. Depois de receber uma proposta de admissão, a Mesa encarregava um de seus membros de fazer um inquérito especial sobre a veracidade das afirmações feitas pelo candidato e verificar se se tratava de pessoa adequada. Além desse inquérito especial, todos os demais membros do corpo de guardiães empreendiam investigações gerais dos antecedentes sociais do candidato e faziam um relatório ao provedor se encontrassem alguma contra-indicação.

Cuidava a elite de reservar seus espaços de associação, e para isso melhor não marcá-la pela tolerância, mas reafirmar o próprio caráter das normas nas ordens. A Ordem Terceira do Carmo possui uma série de “inquirições” em que se investigavam a legitimidade, a cor ou a “raça”, a profissão e a fama do requerente.188 E destas inquirições não escapavam nem os meninos candidatos ao Seminário dos Jesuítas, que em seu regulamento, no parágrafo 17, determinava que se tirassem informações sobre costumes e pureza de sangue, “excluindo totalmente os que tem qualquer mácula de sangue judeu, e até o 3° grau inclusive os que têm alguma mistura de sangue da terra, a saber índios ou de negros mulatos ou mestiços”.189

186 cf. Ordens para o Seminário de Belém conforme ao que mandou Nosso Reverendo Padre em uma sua

de 28 de janeiro de 1696, e em outra antecedente de 16 de janeiro de 1694 ao Padre Provincial. ACMS, 15. Parágrafo 17: “não se permita que os meninos tragam moleques para servirem, porque é mui necessário para sua boa criação que eles sirvam a si, e uns aos outros quando estão doentes; e para se acostumarem a ter cuidado das coisas, eles serão os sacristães, porteiros, etc., e varrerão seus cubículos, farão suas camas, etc.”

187 Parecer do Padre Provincial Manuel Correia sobre o Regulamento do Seminário de Belém, em

Cachoeira. Anexo ao documento acima. ACMS, 15.

188 AOTCS. Livros de Entradas e Profissões, 1636-1772. (4 livros).

189 Cf. Ordens para o Seminário de Belém..., citado, parágrafo 7: “Dos que pretendem entrar no Seminário, se hão-de tirar as informações (ainda que não com aquela exação, que se costuma, quando se trata de admitir alguém na Companhia), acerca dos costumes, e da pureza do sangue: excluindo

Todas as ordens terceiras e a Santa Casa de Misericórdia faziam tais inquirições, mas com exceção da Ordem Terceira do Carmo do Salvador, perderam-se quase todas. Todavia, ainda podemos encontrar, no Livro de Segredos da Santa Casa de Misericórdia, exemplos da maneira pela qual as informações eram verificadas e da extensão do preconceito anti-semita na colônia. Um desses casos diz respeito a Francisco Ferreira, que foi recusado pela irmandade em 1629, ostensivamente, porque não havia vaga. Corria o boato de que, o verdadeiro motivo, era a suspeita de que ele fosse um cristão-novo. Considerando que sua honra estava em jogo, Francisco Ferreira candidatou-se novamente, no ano seguinte, afirmando que tal acusação tinha intenções maliciosas e que apresentaria provas irrefutáveis de sua pureza de sangue. Para isso, apresentou nove testemunhos de pessoas de alta posição, tanto da Bahia quanto de sua vila natal, Almada, no Tejo. Os testemunhos certificavam que não apenas seu pai e sua mãe, mas também sua avó, eram católicos. A testemunha mais importante era Luís Vaz de Paiva, homem sexagenário, registrador oficial de judeus e cristãos-novos que tinha vindo de Portugal estabelecer-se na Bahia. Ele jurou que os pais de Francisco Ferreira não estavam entre aqueles migrantes. Isso se confirmava mediante referência à lista de emigrados judeus em poder de outra testemunha190 (RUSSELL-WOOD, 1981, p. 104). Os documentos não revelam o resultado final dessa investigação.

Um outro caso ocorreu cinqüenta anos mais tarde, envolvendo Joanna Leal, nascida na Bahia. Ao contrário das demais irmandades baianas, a admissão de um irmão à Misericórdia automaticamente incluía a aceitação de sua mulher, que gozava dos mesmos privilégios e estava sujeita aos mesmos regulamentos que o marido. Em 1669, o primeiro marido de Joanna Leal, tenente Francisco Rodrigues de Aguiar, foi impedido de entrar na irmandade devido à alegada impureza de sangue de sua mulher. Dez anos depois o segundo marido, funcionário principal da Relação, Domingos Rodrigues Correia, recebeu recusa semelhante pelos mesmos motivos.

A posição mais elevada de Domingos Rodrigues Correia, contudo, exigiu uma investigação mais completa do que a feita em relação a seu predecessor e, a junta, pela totalmente os que tem qualquer mácula de sangue judeu, e até o 3° grau inclusive os que tem alguma mistura de sangue da terra, a saber, de índios ou de negros mulatos ou mestiços”.

190 “Luís Vaz de Paiva, morador nesta cidade de idade que disse ser de sessenta anos pouco mais ou menos, tal a quem o procurador deu juramento dos Santos Evangelhos em que pôs sua mão, e prometeu dizer a verdade e do costume dizer nada. E perguntado pelo conteúdo na petição atrás disse: que conheceu Antônio Mendes e a sua mulher, os quais ele também sempre os teve por cristãos-velhos, e assim o ouviu dizer nesta terra. E que foi ele fintador da gente de nação, e que veio de Portugal fintados dela muita gente, de que havia nesta cidade; sem o suplicante nem seu pai virem na dita finta, nem lá os fintaram por ele também e os irmãos os terem por cristãos-velhos. ASCMB. Vol. 195, fls. 3-4v.

primeira vez, tomou conhecimento do assunto. Domingos Rodrigues trouxe testemunhos de pureza de sangue de sua mulher e uma declaração assinada pelo escrivão da Ordem dos Carmelitas da Bahia, frei Antônio da Trindade, de que o irmão de Joanna Leal fora aceito na Irmandade depois que pesquisas exaustivas haviam verificado a pureza de seu sangue. Ainda assim, o corpo de guardiães da Misericórdia rejeitou a petição, sob a alegação de que a pureza do sangue de Joanna Leal não estava suficientemente provada. Correia, insatisfeito com a decisão, tornou a candidatar-se, em março de 1680, apoiando a petição com extensos testemunhos mandados buscar em Lisboa. Evidentemente, o caso se tornou importante para a Misericórdia, pois, em dezembro de 1679, a Mesa escreveu à sua correspondente em Lisboa solicitando informações sobre os pais de Joanna Leal. Somente após o estabelecimento de contato com a misericórdia de Luzã, uma aldeia perto de Coimbra, e depois que o escrivão recebeu provas de que os avós de Joanna Leal haviam pertencido à irmandade em Luzã, é que Domingos Rodrigues Correia foi finalmente admitido para irmão da Misericórdia da Bahia191 (RUSSELL-WOOD, 1981, p. 105).

Os exemplos não param por aí. Em 5 de junho de 1679, Luís de Melo Vasconcelos, capitão de ordenanças da cidade desde agosto de 1657, em substituição ao seu irmão Francisco que estava doente, foi expulso da Misericórdia porque, enviuvando, casou com “mulher de nação” (cristã-nova).192

As discriminações contra os cristãos-novos não se limitavam à Santa Casa. Apesar de não terem sido encontrados os primeiros compromissos que constituíram a Ordem Terceira de São Francisco, conhece-se o Regimento Administrativo que vigorou até 1883,193 e a ausência das pessoas discriminadas nos quadros da ordem leva a supor a existência, também naquela ordem terceira, da proibitiva prática vigente, atitude que durou os três séculos de situação colonial.

191 O escrivão dos Carmelitas confirmou que “o Reverendo padre frei Manuel Leal, irmão da sobredita Joanna Leal fora aceito na dita Religião do Carmo pela limpa informação que se tirou do seu nascimento e sangüinidade, e ser cristão-velho sem raça alguma para que necessitasse de escrito algum Apostólico que não houve pela grande limpeza que se achou em seu sangue”. O escrivão da Misericórdia de Luzã afirmou que os avós eram “cristãos-velhos sem raça de mouro ou mulato. Livro de Segredos. 20 de julho de 1679, fl. 22. ASCMB vol. 195, fls. 12v, 16v-17 e 21-2. Domingos Rodrigues Correia foi aceito como irmão “maior” em 15 de abril de 1680. ASCMB. Vol. 2 fl. 156.

192 Livro de termos. ASCMB.

193 A última impressão do Regimento Administrativo da Venerável Ordem Terceira de Nosso Seráphico Padre S. Francisco da Cidade da Bahia data de 1880, ainda sob a Regra original de Nicolau IV – o Memoriale Propositi – adaptado, em 1741, às condições sociais de tempos mais recentes, com a constituiçao apostólica Ad Romanum Pontificem pelo papa Benedicto XIV. A partir de 1883, entrou em vigor a Regra de Leão XIII, que permaneceu até o século XX. Regra da Ordem Terceira de São Francisco Segundo Recente Disposição do Sumo Pontifice Leão XIII. Bahia: Reimprimatur, 1889.

A análise dos documentos disponíveis nos arquivos das irmandades,194 nos permitem especular sobre a forma como os segmentos da sociedade colonial baiana percebiam a existência dessas associações. De acordo com tais documentos, havia duas concepções principais: 1) a concepção da própria instituição, de uma perspectiva interna à irmandade, isto é, aos olhos dos próprios irmãos; 2) a concepção dos que a viam de fora, sob uma perspectiva externa à instituição.

O primeiro ponto de vista partia dos irmãos que exerciam o poder interno e que gerenciavam os negócios da Instituição – geralmente os mais ricos e poderosos.195 Estes se preocupavam claramente com o destino administrativo-financeiro da irmandade e com a melhor realização possível das funções religiosas, mediante as quais iriam cumprir seus deveres espirituais e de caridade. A irmandade e os bens, pelos quais eles eram responsáveis, eram concebidos como veículos a partir dos quais desempenhavam sua religiosidade. Beneficiavam-se das prerrogativas religiosas que canonicamente se estendiam aos irmãos e exerciam, na administração da irmandade, atos de piedade e de caridade religiosa, além de se solidarizarem com as confrarias de menor porte às quais às vezes vendia, outras doava, as alfaias de que já não necessitavam.

Aconteceu, por exemplo, em 1687, quando chegou à cidade do Salvador o senhor Manoel Pereira da Costa, morador da freguesia de Nossa Senhora do Monte, perto da vila de São Francisco do Conde, para adquirir uma imagem do Cristo na coluna da flagelação. Soube que na Ordem Terceira do Carmo de Salvador existia uma imagem dessa invocação, fora de uso. Comprou-a por 14$000, assim como comprou também o resplendor de prata, por 3$000.196

Os terceiros também doavam essas imagens, quando não mais precisavam delas. Foi o que se deu em 1772. Quando foram feitas novas imagens do Cristo Morto e de Nossa Senhora do Carmo, por Francisco das Chagas, em 1758, as velhas imagens foram encostadas. Os moradores da vila de Belmonte, no sul da Bahia, souberam disso e

194 Cf. documentos encontrados em ASCMB, AOTCS, AVOTSFB, APEB, AMS e ACMS.

195 Os corpos dirigentes da Misericórdia e das Ordens Terceiras de São Francisco e dos Carmelitas eram virtualmente monopolizados pela aristocracia rural e por altos dignitários civis e eclesiásticos da Colônia. Cf. Livro de Termos das Eleições e Posses – 1649-1799 (AVOTSFB); Livros de Entradas e Profissões de Irmãos (4 livros), (AOTCS); Livros das Eleições das Mesas e Juntas (3 livros), (ASCMB).

196 Segundo a sessão da Mesa da Ordem Terceira do Carmo, de 15 de janeiro de 1687, “veio à Mesa Manoel Pereira da Costa morador na freguesia do Monte e pediu por serviço de Deus ao irmão Prior e os mais irmãos da Mesa que lhe quisessem fazer mercê largar uma imagem de Cristo Senhor Nosso à coluna, porquanto na dita matriz de Nossa Senhora do Monte se faziam os passos de Cristo Senhor Nosso na quaresma para cujo efeito lhe era muito necessária a dita imagem, o que visto pelo irmão Prior e conselheiros da Mesa convieram em que se desse ao dito Manoel Pereira a imagem que pedia, visto haver

dirigiram um pedido aos terceiros do Carmo para lhes cederem as ditas imagens. A petição foi despachada favoravelmente.197

Um pouco diferente era o ponto de vista dos irmãos menos poderosos, aqueles que não tinham acesso aos cargos de comando na ordem, que não eram diretamente responsáveis pelos destinos da instituição, mas que também eram beneficiários, tanto das prerrogativas religiosas e dos benefícios espirituais quanto da caridade temporal por parte dos mais privilegiados. Estes, como irmãos professos, na pior das hipóteses, em caso de morte, tinham direito ao enterro e aos ofícios fúnebres decentes. Enxergavam também a ordem, além de garantia de seu espaço religioso, como lugar de amparo e porto seguro onde estariam ancorados das incertezas da vida.

Pontos de vista diferentes, é claro, mas equivalentes na relação afetiva e espiritual que mantinham com a Ordem. Pontos de vista embasados pela cultura religiosa daquele grupo, especificamente, e daquela sociedade em geral, que via a irmandade como um caminho espiritual e material que, trilhado em conformidade com as leis da Igreja, se transformaria em caminho da salvação eterna.

Além da compreensão da ordem terceira sob uma perspectiva interna, se bem que dicotômica, havia uma outra forma exterior – o ponto de vista da sociedade em geral. Daqueles que não eram irmãos terceiros e que mantinham com a Ordem um outro tipo de relação, pois não se pode perder de vista que a Ordem estava inserida na sociedade, da qual fazia parte, de acordo com regras gerais, não podendo ser compartimentada como um organismo estanque.

Para esta sociedade, se bem que a irmandade fosse respeitada pelos seus atributos religiosos e talvez até invejada pelos que a ela não tinham acesso, a perspectiva era diferente, passando a ter o caráter de uma casa de negócios, usurária, onde se tomava dinheiro emprestado198 e precisava-se pagar com juros;199 onde hipotecavam-se e a nova na nossa Ordem para o mesmo passo, e foi avaliado o feitio dela em quatorze mil réis que o irmão tesoureiro recebeu como também três mil réis de resplendor. (AOTCS (7), f 198r).

197 Em 13 de setembro de 1772, foi apresentada à Mesa da Ordem Terceira do Carmo “uma petição dos moradores da Vila de Belmonte, em que pediam por esmola uma Santa Imagem de Cristo Senhor Nosso Crucificado que se achava nesta Ordem sem exercício” e se resolveu “que se conferisse a dita imagem para a dita freguesia de Belmonte, onde é padroeira, e orago a mesma Senhora do Monte do Carmo, que também foi dada por esta ordem” (AOTCS (9), f. 156r).

198 Todo o sistema econômico da Bahia se baseava nas necessidades dos proprietários de engenhos de açúcar. Estes pediam dinheiro emprestado às ordens ou irmandades em outubro e novembro para custear o cultivo, colheita e moagem da cana de açúcar. O capital era garantido com penhor de imóveis e havia avalistas para o pagamento dos juros. Todos esses empréstimos eram feitos no entendimento de que, com a chegada da frota e a venda do açúcar, as importâncias seriam pagas juntamente com os juros devidos. Esse ciclo financeiro se rompeu no século XVIII. Freqüentemente, a Misericórdia se viu obrigada a aceitar o pagamento em açúcar, para o qual não havia mercado imediato, mas que era melhor do que não

penhoravam-se bens e alugava-se somente sob fiança200. As ordens terceiras eram proprietárias de uma grande quantidade de imóveis, que lhes eram deixadas por doação em testamento, ou por compra.

Antônio de Amorim Corrêa deixou para a Ordem Terceira de São Francisco, em seu testamento feito em 1698, 1.200$000, em dinheiro, para ser aplicado a juros.201 Este Irmão foi Oficial da Câmara da cidade do Salvador, de 1671 a 1698,202foi citado, novamente como vereador na ata de 05/05/1690203 e, segundo Frei Jaboatão, foi ministro da Ordem em 1696 (1859, Vol. I, p. 311).

Cristóvão Barbosa Vilas Boas, natural de Viana, em Portugal, era irmão da Santa Casa, em 1685, e meirinho da Relação, em 1680. Encarregado de administrar o estanco de sabão, por 4 anos, na Bahia, teve sesmaria de 4 léguas quadradas na região do Rio Doce, em 1690 (JABOATÃO, 1985, Vol. I, p. 462). Deixou em testamento para a Ordem Terceira de São Francisco, em 1698, casa e sobrado no valor de 1.000$000 e, em dinheiro, 800$000.204 Foi oficial da Câmara, segundo consta da ata, lavrada em 23/07/1694.205

Os terceiros do Carmo também não se descuidavam da conservação e aumento de seu patrimônio. Em 1762 adquiriram num leilão, de uma só vez, quinze edifícios e ainda terrenos situados no Taboão, tudo por 6.666$040. Foram bens dos jesuítas expulsos,

receber qualquer pagamento. A queda de valor da terra também prejudicou a Misericórdia no início do século XVIII. As garantias exigidas pela Misericórdia para os empréstimos tomavam geralmente a forma de fazendas de açúcar. Embora ao ser aceita como garantia o valor da fazenda pudesse ser elevado, ocorria que no momento de posse da propriedade, após os litígios judiciais, o valor muitas vezes havia decrescido. A partir de 1738, a Irmandade da Misericórdia passou a emprestar também para as ordens terceiras, a taxa de juros de 5%, em lugar dos usuais 6, 25%.

199 A usura, como empréstimo a juros, foi uma prática condenada na Idade Média, mas legalizada na Idade Moderna. Na Bahia colonial, as Constituições Primeiras do Arcebispado dispõem sobre a usura, sob diversos aspectos, considerando “usura palliada” as transações em que os lucros fossem exorbitantes (cf. VIDE, 1853: Liv. V, Tit. 15). Com a ausência de bancos e outros estabelecimentos financeiros, cabia às ordens e à Santa Casa da Misericórdia realizar determinadas transações de capital. Na Ordem, eram feitos muitos empréstimos em dinheiro e cobrados juros. Sempre juros de lei, como convinha a uma ordem religiosa. Operações que nunca eram feitas às cegas, mas sempre garantidas por penhoras, numa