• Sonuç bulunamadı

Türkiye – Ġran – Brezilya Uranyum Takas AntlaĢması (Tahran

6. ĠRAN NÜKLEER PROGRAMI VE TÜRKĠYE

6.3. Türkiye – Ġran – Brezilya Uranyum Takas AntlaĢması (Tahran

Sem deixarmos de construir o que seja acontecimento, busquemos a noção de enunciado. “Em sua natureza de acontecimento, o enunciado é a unidade central agenciada na teoria do discurso” (GREGOLIN, 2006, p. 27). Numa série de enunciados, busca-se o entendimento dos acontecimentos discursivos que estabilizam certos sentidos em nossa sociedade.

Em Arqueologia do Saber (2008), Foucault vem trazer questionamentos a respeito de uma tranquila unicidade homogênea da obra, do livro e mesmo da ciência. Não é tão simples romper com a unidade dessas materialidades discursivas que veiculam enunciados, dado o fato de estarem, por exemplo, vinculadas a um certo autor (a obra), estarem dispostas num objeto material com começo e fim (livro), vincularem-se a um dado objeto (ciência). Para além da continuidade, tais materialidades fazem parte de todo um domínio que se constitui “pelo conjunto de todos os enunciados efetivos [...] em sua dispersão de acontecimentos e na instância própria de cada um” (FOUCAULT, 2008a, p. 29).

Os enunciados em sua exclusividade estarão constituídos por sequências linguísticas que a ele se limitam. Essas, ainda que possam ser inumeráveis, advindas de várias possibilidades de registro, serão únicas por prestarem-se efetivamente à produção daqueles enunciados. Por expressar-se nas unidades linguísticas ou lógicas, estreitando-se nelas, não se consegue “[...] enxergar o enunciado como acontecimento e admitir que ele surge como irrupção histórica, observar que ele constitui uma emergência” (SILVA, 2004, p. 163). Daí a necessidade de se considerar o caráter histórico e circunstancial do enunciado.

Enquanto a análise linguística enfatiza as estruturas, buscando nos enunciados as regras da língua, a análise dos acontecimentos priorizará a descrição/interpretação da irrupção de um determinado enunciado:

[...] trata-se de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação: de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma mais justa, de estabelecer suas correlações com outros enunciados a que pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui [...] mostrar [...] que singular existência é esta que vem à tona no que se diz e em nenhuma outra parte? (FOUCAULT, 2008a, p. 31).

O sentido do enunciado se faz imerso na relação com outros, que podem estar ou não linguísticamente configurados, pelo fato de haver enunciados implicitamente enunciados, não expressos na materialidade da língua. Por um ou mais enunciados é que se constitui o acontecimento discursivo. Viajantes comuns da língua e da história, o acontecimento e o

enunciado superpõem-se. Desse modo, todo enunciado, dito em qualquer momento, situação, por qualquer pessoa, a quem quer que seja, se constituirá de um acontecimento.

O acontecimento/enunciado ultrapassa as tangíveis sistematizações do linguístico. O sentido do acontecimento não se circunscreve às possibilidades da língua. O sentido do enunciado se fará incrustado em sua própria realização, em seu acontecimento. Ainda que preso à ocorrência de um dado acontecimento, o enunciado escapa à estaticidade, ao já transparentemente conhecido.

Então, o enunciado, mesmo sendo único, estaria para além de qualquer polivalência de sentidos. Apesar de exclusivo, o enunciado poderá ser tomado novamente, e, assim sendo dito, se fará repetido, transformado. Poderá novamente funcionar, implicado em outro propósito comunicativo.

O enunciado pode se constituir por ser um comentário de dizeres/enunciados anteriores. Também pode provocar, de modo mais ou menos contundente, em conformidade com o jogo de poderes que se instaure a partir dele, o surgimento de outros enunciados. O sentido do enunciado se faz na relação, e este constitui acontecimento. Assim, não é separando o acontecimento de todos os outros que chegaremos até as possibilidades de seu sentido; mas buscando-o no encontro com o outro, nas marcas deixadas pelo embate.

O termo “enunciado” usado por Foucault ora se refere a uma “população de enunciados”, estando subjacente a ideia de unidade de uma série, singularidade; ora aparece como oposição ao discurso. Define-se enunciado como a unidade mais elementar do discurso. Diante dessa constatação surgem indagações a respeito de sua constituição:

Que limites devemos nele reconhecer? [...] Que lugar ocupa entre todas as unidades já descobertas pela investigação da linguagem, mas cuja teoria, muito frequentemente, está longe de ser acabada, tão difíceis os problemas que colocam, tão penoso, em muitos casos, delimitá-las de forma rigorosa? [...] (FOUCAULT, 2008a, p. 91)

Qual seria o lugar do enunciado entre outras unidades de estudo que apareceram em relação à linguagem? Quais os pontos de confluência e divergências entre o enunciado e as demais unidades estabelecidas historicamente no campo da linguagem? Como encontrar os traços que poderiam delimitar um enunciado em relação a outro? Ao se cotejar o estudo do enunciado com outras unidades que apareceram ao longo da história da ciência da linguagem, tais como a frase, proposição e os atos de fala, percebe-se “o enunciado como um resto, um elemento residual e, portanto, pressuposto, mas não analisado” (GREGOLIN, 2004b, p. 24).

Não se percebe uma univocidade entre o enunciado e a proposição. Uma mesma proposição pode funcionar como dois enunciados. A proposição caracteriza-se por referir-se a algo conferível no mundo. Em “o estado do Pará é do Norte do Brasil” e “é verdade que o estado do Pará é do Norte do Brasil”, as duas construções, por se referirem a uma mesma realidade, serem a expressão de um pensamento a respeito de uma mesma realidade, seriam consideradas a mesma proposição. No entanto, não se fariam pertencer a um mesmo enunciado, aparecendo em situações discursivas distintas.

Também podemos encontrar um mesmo enunciado desdobrando-se em duas proposições complexas. O mundo do discurso, do enunciado não precisa ser conferido, inscreve-se na singularidade daquilo que é enunciado. Pelo ponto de vista lógico, todo enunciado, tal como “O Pará não é populoso”, precisa ser analisado, considerando-o em seu desdobramento propositivo, pois, a uma negação, deve-se considerar uma afirmação a ser verificável. A proposição é dimensionada pelo que está fora, o mundo; já o enunciado se dimensiona pelo dito, pelo discurso.

Apesar de se poder reconhecer no isolamento de qualquer frase a existência de um enunciado, “não se pode mais falar de enunciado quando, sob a própria frase, chega-se ao nível de seus constituintes” (FOUCAULT, 2008a, p. 92). Há enunciados que se constituem desconsiderando a forma canônica que prevê a existência de um sujeito, um verbo e um predicado, realizando-se a partir de advérbios, pronomes ou sintagmas nominais. Ainda que possam ser classificadas como frase, tais formas estariam, para os gramáticos, num estatuto sintático inferior.

Mesmo que os enunciados apresentem uma certa gramaticalidade, não se cotejam aos critérios sintáticos verificados nas línguas naturais. Os enunciados poderiam aparecer em materialidades muito mais sintéticas que a analiticidade (divisível) da frase. Desse modo, um gráfico a respeito do percentual de desmatamento, temática reincidente nos textos jornalísticos levantados a respeito do Pará, se constitui num enunciado que para ser explicado pede seu desdobramento em inúmeras frases.

Feitas as distinções entre enunciado, proposição e frase, o primeiro “parece, à primeira vista, mais próximo do que se chama os speech acts (atos de linguagem)” (GREGOLIN, 2004b, p. 25), pois os atos de fala parecem mais se coincidir ou se implicar nos enunciados. No entanto, tal como nas demais unidades, nem sempre há univocidade entre um ato e o enunciado.

Além disso, a teoria foucaultiana não se prende as diferenças entre o oral e escrito para distinguir os enunciados, nem tampouco se detêm numa provável intencionalidade do

enunciador, o que implicaria um sujeito fonte do sentido, como fazem os estudiosos dos atos de linguagem. O analista dos enunciados se motiva naquilo “que se produziu pelo próprio fato de ter sido enunciado- e precisamente esse enunciado (e nenhum outro) em circunstâncias bem determinadas” (FOUCAULT, 2008a, p. 94).

Segundo Foucault (2008a), a existência do sistema linguístico está implicada na dos enunciados enquanto realizações possíveis, embora esta não dependa de um enunciado específico, expressão de um dado acontecimento. Assim, língua e enunciado “não estão no mesmo nível de existência; e não podemos dizer que há enunciados como dizemos que há língua” (FOUCAULT, 2008a, p. 96).

Nesse caso, para a língua objeto sistêmico, teremos signos que não coincidem com enunciados. Para a língua que se apreende na enunciabilidade do discurso, teremos então signos que podem coincidir com enunciados. Então, a operação analítica de descrição dos enunciados se ocupa, mas não se prende, ao estrutural lógico/gramatical. Dessa maneira, a análise de enunciados não está comprometida com a exaustiva descrição linguística, “constitui uma outra maneira de abordar as performances verbais, de dissociar sua complexidade, de isolar os termos que aí se entrecruzam” (FOUCAULT, 2008a, p. 123).

Descrevem-se os enunciados, buscando-se as regularidades no fluxo de uma diversidade. Segue-se o linguístico, mas enfatizando-se nele não o sentido submerso em sua horizontalidade, mas atribuído a ele por uma série de condições enunciativas que devem, pela descrição, serem definidas. Não se faz oculto o sentido de um enunciado, pois refere-se, diferentemente da frase, a tudo que foi dito, ao que realmente foi enunciado, não se constituindo, como aquela, pela ambiguidade e polissemia.

Assim, o não dito não é uma parte secreta de um enunciado (como pode ser de outras unidades em nível linguístico, por exemplo), mas é seu constituinte. Porém, mesmo que não oculto, não apresenta uma visibilidade manifesta, justamente por não se fazer em estrutura e sentido tão claramente transparente. Os limites e caracteres de um dado enunciado não se delimitam nele mesmo, não se fazem tão perceptíveis, pelo fato de não se circunscrever à frase ou proposição, não obedecer às leis destas, ainda que seja por ele que essas se façam surgir.

A não visibilidade do enunciado se deve ainda à razão de que “a estrutura significante da linguagem remete sempre a outra coisa [...] povoada pelo outro, pelo ausente” (FOUCAULT, 2008a, p. 126). O sentido do enunciado não está nos significados a que os significantes possam remeter, mas no questionamento dos próprios significantes como lugar de significados pela frase ou proposição.

Também por ser a base que se mostra subjacente às demais formas de análise, o enunciado porta-se como invisível: há um dizer, uma enunciação que produziu um dito, no caso, uma frase, uma proposição a ser analisada. As análises, por se fazerem presas ao que buscam em suas óticas perceptivas, neutralizam do enunciado aquilo que nele é mais pertinente: o sentido. Desse modo, tendem a inscrever nele o sentido que lhe querem conferir.

Embora não seja o meio pelo qual os sentidos se façam ‘escondidos’, nem tampouco os tragam transparentemente expressos e delimitados, o enunciado oferece à análise suas margens, deixando à mostra uma superfície a ser descrita. Então, apesar de não se circunscrever de modo estrito ao linguístico, pela linguagem, de suas unidades, desde as palavras até os encadeamentos sintáticos, descreve-se o enunciado.

A partir dos enunciados, chega-se até à função enunciativa, produtora não de uma larguidão qualquer de sentido, mas daqueles sentidos que surgem dos enunciados, a partir das condições em que foram produzidos. Desse modo, descrever o enunciado é passar pela ordem da estrutura, rodear a Lógica, adentrar-se na Linguística, colocando-se no caminho histórico, assim atravessado pela ruptura.

Não seria o fato de um conjunto, uma série de signos ser reduplicável, se constituir a partir de outras, uma cópia de outra, que faria tal série se fazer um enunciado. Os textos contidos nos vários exemplares de uma mesma edição do jornal “Folha de S.Paulo” não seriam, por exemplo, enunciados diferentes.

Então, para Foucault (2008a, p. 100): “Uma série de signos se tornará enunciado com a condição de que tenha com ‘outra coisa’ (que lhe pode ser estranhamente semelhante, e quase idêntica [...]) uma relação específica que se refira a ela mesma e não à sua causa, nem a seus elementos.” Deve haver entre o enunciado constituído pelos signos, conforme o exemplo elucidado, e a série pelo qual se constituiu, uma relação singular, que não é da ordem causal.

Desse modo, o que deve ser problematizado é a relação singular entre as duas séries idênticas, pois o enunciado não se define na biunivocidade entre a série primeira, que se faz motivadora, e a segunda. Daí, Foucault vem balizar as relações, por exemplo, entre o nome/sintagma nominal e seu designativo e seu sentido com as do enunciado e sua “unidade motivadora”. Embora se possa estabelecer um paralelo entre essa relação, continua-se verificando uma singularidade na relação do enunciado e o conjunto de signos que o constituíram.

O enunciado se constitui, portanto, numa nova enunciação de algo que já se encontra dito, colocado, mostrado em outro lugar, num outro momento. Ainda que apareçam duas formulações idênticas, nem sempre se terá identidade de enunciados. O enunciado não é

marcado pela transparência, pela representação. A aparente repetição não constitui uma simples cópia no plano enunciativo. No enunciado, a identidade tende a promover diversidade.

Um determinado enunciado cria condições para que aquilo sobre o que se diz, o tema abordado, apresente um referente. Por exemplo, se levarmos em consideração a renda per

capita, as condições socioeconômicas e educacionais do estado de São Paulo em relação ao

Pará, poderíamos dizer que “A serra pelada está em São Paulo”. No bojo de uma perspectiva discursiva crítica em relação às diferenças econômicas e sociais verificadas entre os estados brasileiros, temática subjacente à análise realizada por este trabalho, é possível produzir esse referente para essa proposição.

A estrutura gramatical “Os barulhos silenciosos de gritos esfumaçados da Amazônia” será reconhecida como uma frase que não apresenta, sob um dado ponto de vista, um sentido. Porém: “É no interior de uma relação enunciativa determinada e bem estabilizada que a relação de uma frase com seu sentido pode ser assinalada” (FOUCAULT, 2008a, p. 102). Desse modo, é na exclusividade do acontecimento enunciativo que se poderá dotar de sentido a frase expressa. Mas não será diante de qualquer distinta enunciação que se terá sempre um novo enunciado.

O próprio Foucault (2008a, p. 118) arrisca uma síntese para a noção de enunciado: [...] é dotado de uma certa lentidão modificável, de um peso relativo ao campo em que está colocado, de uma constância que permite utilizações diversas, de uma permanência temporal que não tem a inércia de um simples traço, e que não dorme sobre seu próprio passado. [...] o enunciado tem a particularidade de ser repetido: mas sempre em condições restritas.

Porque se repete, permanece, mas permanecendo modifica-se. Carrega em si os traços de outros enunciados que lhe conferiram identidade. Pode o enunciado fazer-se identificado com uma memória, trazer um passado que com ele se faz atuante. É adepto, então, de uma repetibilidade condicionada. Embora apareça numa certa materialidade, mostra-se aberto a modificações, integrado a estratégias que ratificam ou apagam sua identidade.

Portanto, as condições pelas quais se faz de um conjunto de signos um enunciado (exercício da função enunciativa) estão para além da relação gramatical, lógica. Apresentam peculiaridades que não se acomodam ao que ocorre a outras noções formais, conforme veremos adiante.