6. ĠRAN NÜKLEER PROGRAMI VE TÜRKĠYE
6.2. Müzakere Sürecinde Türkiye‟nin Etkisi ve Aktif Arabulucu Rolü:
Acerca da noção de acontecimento inserida no debate em torno da dispersão relativa aos fatos socioculturais que se produzem numa sociedade, indaga Foucault (2008a, p. 4):
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Na quinta seção desta tese, intitulada “Mídia e Poder: regulação de identidades”, trabalharemos os reguladores de sentido propostos por Foucault (2008b) que conferem uma ordem ao discurso.
Que sistema de relações (hierarquia, dominância, escalonamento, determinação unívoca, causalidade circular) pode ser descrito entre uma e outra? Que série de séries podem ser estabelecidas? E em que quadro, de cronologia ampla, podem ser determinadas sequências distintas de acontecimentos?
O autor traz provocações teórico-metodológicas que nos fazem ir em busca de escavar os acontecimentos. Para ele, tanto a noção histórica de acontecimento quanto a de qualquer conceito não repercutirá uma trajetória linear em direção a uma rota prevista, mas deverá fazer-se na multiplicidade de interrupções, nas variadas práticas e usos pelos quais os diversos campos a fizeram constituir-se.
A relação entre o documento e o acontecimento irá ser pautada, segundo Foucault, pelo modo como aquele é tratado pela história. Para um ponto de vista tradicional da História, o documento se fazia “matéria inerte através da qual ela tenta reconstituir o que os homens disseram ou fizeram, o que é passado e o que deixa apenas rastros” (FOUCAULT, 2008a, p. 7). Assim, aquele acontecido talvez marcante do passado, o monumento, torna-se documento: um passado colocado e dito, mas não presentificado em acontecimento, não trazendo sentido para a atualidade. Ou melhor, documentos que numa linearidade comprometem-se em demonstrar o grande acontecimento, numa rede de consequências.
Na ótica da Nova História, “o historiador deixa de buscar o reencontro com a totalidade da história” (SARGENTINI, 2004, p. 86), mas fica à espreita sobre seus fragmentos. O documento vai se tornar monumento, deixa de ser fato pronto e acabado, estabilizado; passa a ser monumento inscrito na instabilidade efervescente do agora.
O historiador da atualidade pela perspectiva foucaultiana “problematiza o passado a fim de desvendar suas camadas arqueológicas e se volta para uma aguda crítica do presente” (GREGOLIN, 2004b, p. 21). Espalha-se a unidade homogênea fechada em sentidos já postos, fatos a pressuporem uma representação documental. Nessa perspectiva da história, busca-se multiplicar aquilo que se uniformiza, possibilitando uma diversidade de conexões, fazendo-se distintas pertinências, conforme as apreensões do sujeito que as apreende.
Tratando da heterogeneidade com que se constroem os acontecimentos, pelo novo ponto de vista da história, intenta-se então, constituir séries, não pela precisão das estruturas, mas nos liames das rupturas; encontrar as relações não entre unidades definidas e cristalizadas, mas na movência das diferenças. Assim ressalta o autor:
[...] a necessidade de distinguir não mais apenas acontecimentos importantes [...] e acontecimentos mínimos, mas sim tipos de acontecimentos de nível
inteiramente diferente (alguns breves, outros de duração média); daí a possibilidade de fazer com que apareçam séries com limites amplos, constituídas de acontecimentos raros ou de acontecimentos repetitivos (FOUCAULT, 2008a, p. 8).
Por entre o subterrâneo das relações se chega não ao grande acontecimento. Aquele que se estabeleceria por uma acomodação prévia, fazendo-se enquadrado pelo seu grau de importância. Não se chegaria ao acontecimento classificado por uma ótica do contínuo. Então, buscam-se acontecimentos que “escalem costurando” as grandes distâncias temporais e introduzam cisões onde parecia haver proximidade.
Um fato se fará acontecimento, quando for, segundo Possenti (2006, p. 95) “retomado, revisado, analisado, especificado, detalhado, correlacionado a outros similares ou tornado como similares”. O acontecimento será o espaço de produção, movência de sentidos, atualizado no tempo, cindido em relações, servindo a outras teias de sentido.
A estranheza do acontecimento deve-se ao fato de ao mesmo tempo ter um sentido ligado a uma dada materialidade, um registro escrito ou uma oralidade, mas constituir-se pelo distanciamento dela. Inscrever-se na presença de um agora e simultaneamente solicitar a reminiscência da memória.
O tempo, por essa nova modalidade do que seja acontecimento, se apresenta diluído ou condensado na determinação de sua realização: tempo que não mais é o divisor de épocas acontecidas, de passados engavetados ou o lugar do grande fato separado do esquecível, mas que aparece cindido no acontecido.
É preciso questionar noções sub-reptícias ao paradigma da continuidade na história. Daí, algumas indagações surgem esboçando um ponto de vista foucaultiano da história: “a) que formas de relações podem ser descritas entre as séries de documentos? b) quais os jogos de correlação e de dominância entre as séries? c) o que é esse espaço de dispersão a partir do qual nascem os sentidos historicamente estabelecidos” (GREGOLIN, 2004b, p. 22).
Nesses questionamentos, os acontecimentos não serão apenas unidades contínuas, isoladas e horizontais de um tempo histórico que a eles catalisa características comuns, destituindo-os de singularidades. Os sentidos não se fazem fruto de uma acomodada linearidade, mas pululam por momentos muitas vezes díspares da história. Assim, se faz necessário problematizar as noções de tradição, influência, desenvolvimento e evolução, e ainda de mentalidade e espírito.
Na noção de tradição, os acontecimentos seriam sorvidos por uma identidade, sendo importantes não pela sua singularidade, mas por trazerem a marca de uma sucessão: seriam a
figura de um fundo acomodador de permanências. Porque se influenciam obras, e teorias, por exemplo, se fazem continuidade, assim as distâncias temporais são rompidas. Liga-se o que é separado, o que se influencia e se deixa influenciar, mas é unidade constituída. Prevalece a continuidade entre os homogeneamente delimitados.
Na noção de desenvolvimento e evolução, haveria uma fonte original pela qual os dispersos acontecimentos seriam agrupados. Em cada acontecimento estaria o que lhe seria contínuo: poderíamos considerar assim a história como um grande acontecimento. O hoje pode ser encarado como o superior do ontem: tudo seria vinculado por uma estrutura sólida. Também por haver a mentalidade e o espírito de uma época, os fenômenos se reuniriam em conjunto por estarem simbolizando uma consciência comum, por espelharem, traduzindo o “padrão” de uma coletividade: como se viver uma contemporaneidade enlaçasse a todos em suas produções.
Então, referindo-se às noções que promovem o paradigma da continuidade em História, constituindo acontecimentos em unidade, propõe Foucault (2008a, p. 24) “desalojar essas formas e essas forças obscuras pelas quais se tem o hábito de interligar os discursos dos homens; é preciso expulsá-los da sombra onde reinam”. Ainda que se resguarde uma procedência para as noções referidas, mas que se faça isto as incitando a novos objetivos, portanto, na busca metodológica de se perceber uma população de acontecimentos dispersos.
Desse modo, pode-se buscar a tradição para se alinhar o movimento de idas e vindas de sentidos por entre díspares acontecimentos. Ainda pode-se ter na noção de influência o meio para se perceber a descontinuidade por entre os distintamente heterogêneos. Pela noção de desenvolvimento e evolução, pode-se fazer o questionamento de uma singularidade, de uma origem completa de sentido, por isto redutora. Finalmente, na noção de mentalidade, temos o atravessamento de distintas posições, de subjetividades que circulam num certo momento histórico, pelo qual muitos outros se interceptam.
Dessa inquietude metodológica, que questiona as noções referidas acima, deve surgir a renúncia a dois temas relacionados, mas que se opõem. O primeiro refere-se ao questionamento da ideia de gênese, de origem única e escondida. Por esse tema se diz “[...] que jamais seja possível assinalar, na ordem do discurso, a irrupção de um acontecimento verdadeiro [...] que além de qualquer começo aparente há sempre uma origem secreta, que jamais poderemos nos reapoderar inteiramente.” (FOUCAULT, 2008a, p. 27).
Então, não se poderia na perspectiva da continuidade irromper, ‘buiar’9da ordem do
discurso o acontecimento em sua singularidade, pois que este sempre estaria distanciado,
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sendo inalcansável. Assim, se atenuaria/apagaria os sentidos daquilo que está colocado, na busca de um outro inapreendido. O acontecimento seria o efeito de uma causa submetida às dependências da tradição, das influências, dos desenvolvimentos, evoluções e mentalidades; enfim de todos os fatores condicionadores, planificadores do discurso.
Na ótica da continuidade da história, não se poderia descrever/interpretar uma materialidade, pois que esta não se faz apenas espelho dos acontecidos. Irredutível à transparência dos fatos, a materialidade da linguagem é repetível, mas irredutível à repetição, marcada pela diferença, não possível de ser integralmente apropriada pelo saber, sempre vazada ao alcance de um sentido outro. Não se fundaria a uma origem delimitada.
O segundo tema a que não se deve considerar, quando assumimos o percurso histórico da descontinuidade, se refere ao entendimento de uma relação de dependência entre um discurso e outro, ou seja, a compreensão de que sempre haveria outro discurso expresso, dito em relação direta com um determinado discurso. Também nesse caso o acontecimento escaparia de sua singularidade.
O discurso implicado no acontecimento teria uma base anterior, seria submetido a um outro, a um dizer apagado, silenciado em seu dito. Um dizer a que este discurso se faria submetido, por isto dependente. Nessa perspectiva: “Todo discurso manifesto repousaria secretamente num já- dito; e que este já-dito não seria simplesmente uma frase já pronunciada, um texto já escrito, mas um jamais- dito” (FOUCAULT, 2008a, p. 28).
Pela continuidade um discurso/acontecimento estaria no rastro de um outro, que não se faz dito, não traz seu dizer, parece nunca dito. Desse modo, não se possibilitaria o embate provocador de sentidos entre o que se diz e o que foi dito, ou seja, haveria sempre uma continuidade repetível. Desse modo não se possibilitaria a multiplicação de sentidos pela diferença, mas sim se ratificaria a igualdade reprodutora de sentidos.
Mas, saindo desses dois polos interligados de compreensão do acontecimento submetido a uma unidade homogeneizante, podemos considerá-lo em suas frestas, percorrê-lo em suas “paredes trincadas em choques de irrupção”, encontrá-lo no ponto preciso de sua exclusividade, alcançá-lo na larguidão de seu espaço, que se estende porque se repete, se repete porque é único. Ao buscar entender o acontecimento discursivo, Foucault “toma um campo imenso de possibilidades, constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (falados ou escritos) em sua dispersão de acontecimentos e na instância própria de cada um” (GREGOLIN, 2004a, p. 88).