• Sonuç bulunamadı

Os enunciados não prescindem de uma construção linguística, de uma língua, mas desde que a esta também esteja subjacente uma dada produção de sentido. Havendo isto, a existência dos enunciados poderia ainda se pautar numa materialidade não linguística. Então, para além do linguístico ou mesmo do semiológico, a análise arqueológica foucaultiana, para compreender o enunciado, irá tentar fazer emergir sua função enunciativa: “o fato de ele ser produzido por um sujeito, em um lugar institucional, determinado por regras sócio-históricas que definem e possibilitam que ele seja enunciado” (GREGOLIN, 2004a, p. 26).

A cada articulação de um conjunto de signos se terá uma enunciação, tanto quando duas pessoas dizem ao mesmo tempo o mesmo enunciado, quando a mesma pessoa diz o mesmo enunciado varias vezes. A enunciação é irrepetível e singular (FOUCAULT, 2008a, p. 56).

O sujeito que produz a enunciação pode assumir diversas posições, relativas àquilo que enuncia. Tais posições seriam, então, uma função exercida não na horizontalidade dos signos que constituem o enunciado, mas verticalmente por um poder constituído historicamente e instituído socialmente ao sujeito. Também a enunciação será definida conforme a “situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos” (FOUCAULT, 2008a, p. 58), ou seja, segundo os questionamentos aos quais se expõe o sujeito da enunciação, os saberes aos quais se insere.

Independente de vir marcado por uma forma gramatical, o sujeito atravessa qualquer enunciado, todo enunciado necessita de uma enunciação. Um conjunto de signos não irá produzir o mesmo enunciado, seja quando tomado por um falante no cotidiano de uma conversa, seja aparecendo escrito no interior de uma obra literária.

Ainda, aquele que profere um dado enunciado, chamado de seu autor, nem sempre irá coincidir com o sujeito do enunciado. O autor apresenta outra natureza, função, status e identidade relativos ao sujeito. Então, a mesma função sujeito pode ser exercida por duas individualidades que podem até nem se conhecer. Por outro lado, um mesmo indivíduo poderá assumir distintas posições numa série de enunciados, assim se identificará com diferentes sujeitos.

A posição sujeito se localizará numa série de acontecimentos enunciativos que podem já ter sido produzidos; ficará estabelecida numa certa temporalidade em conexão com uma anterioridade que tende a se fazer presente, porém transformada. Também inscreve-se a posição- sujeito em certas operações efetivas, não necessariamente feitas por aquele indivíduo que fala, mas pertencendo ao circuito do sujeito enunciador, podendo ser retomadas quando necessário.

Desse modo, a função enunciativa que efetiva uma dada posição para o sujeito num enunciado não estará isolada em si, não se fará à parte de relações com outros enunciados, acontecimentos. Assim, a mobilidade da posição sujeito não é o acaso de uma aleatoriedade, mas institui-se em regras subjacentes à produção dos discursos.

Assim como, na relação entre os enunciados e as formações discursivas, há todo um conjunto de processos internos que repercutem no modo como descrevemos essas noções, há também, na direção contrária, não da interioridade das formações discursivas e dos enunciados, noções que devem ser consideradas. Foucault, tecendo considerações a respeito da análise enunciativa em sua constituição rumo ao outro, ao de fora, do enunciado para com os outros, aborda três efeitos: raridade, exterioridade e acúmulo.

Com Foucault, em sua escavação do saber, abordamos o acontecimento, o enunciado, a formação discursiva (o discurso) e a função enunciativa. Partindo-se do enunciado, chegou- se à formação discursiva e desta se vai para um conjunto de enunciados, no caso, um discurso. Dessa maneira, quando este se faz prática, se realiza numa experiência, produz-se o acontecimento discursivo. A prática discursiva engendra nos enunciados acontecimentos discursivos conjuntamente com as possibilidades e campos de utilização. Não há prática discursiva a não ser pelas diferentes vozes que a enunciam.

Então, diante do que estudamos, não é a busca de respostas, de descobertas daquilo que já estaria colocado no mundo, não é essa a proposta de uma arqueologia. O método arqueológico foucaultiano busca “romper o fio da continuidade (tão cara aos historiadores tradicionais) e assume, deliberadamente, as brechas, descobrindo o descontínuo” (GREGOLIN, 2004a, p. 77). Importa para esta perspectiva as cisões, as confluências de surgimentos e fugas. Da totalidade que é semelhança, até a fissura da cisão da representação, irrompe-se a descontinuidade entre o que é dito e o que se quer dizer, na interpretação.

Portanto, a Teoria do Discurso, inserida nos saberes das ciências da linguagem, proposta por Pêcheux, mas aqui adotada, sobretudo na perspectiva de Foucault (2008a), se faz um evidente campo teórico-metodológico para se compreender a prática discursiva da mídia.

2 DA DISPOSIÇÃO DO LUGAR AO OBJETO DA PESQUISA

Antes de tratarmos da mídia, verifiquemos o lugar de referência a que se refere seu discurso. Antes da mídia produzir e fazer circular um discurso a respeito do estado do Pará, esse lugar ou espaço se constituiu por outros discursos.

Entre o que é o lugar e o que se constitui em espaços há um movimento incessante de poderes, os espaços podem vir a ser lugares e esses tornarem-se espaços. Para cada lugar instituído, há espaços em construção. Não há um sem o outro. Pelo lugar se provocam os espaços. Segundo Certeau (2008, p. 201): “Um lugar é a ordem (seja ela qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência”.

Encontrar a ordem do estado do Pará significa buscá-lo em sua localização geográfica, em seus espaços oficialmente instituídos. Lugar delimitado por forças de poderes que historicamente se constituíram, apropriando-se de espaços já identificados, lugares estabilizados, tomados e ressignificados na movência dos espaços.

Os mapas em sua gênese enunciativa apareceram sob a égide “dos itinerários que constituíam suas condições de possibilidades” (CERTEAU, 2008, p. 205), ou seja, como demonstração dos percursos, das ações de mobilidade espaciais. Na atualidade, os mapas desfazendo-se dos percursos, apagam os itinerários espaciais, bem como a reflexão mais aguçada acerca desses movimentos: “O mapa fica só” (CERTEAU, 2008, p. 207).

O mapa então é uma indicação estática, estabelecida de um lugar, uma constatação. Diante de todo um percurso discursivamente produzido, nos colocamos perante um mapa, lhe atribuímos sentidos. Ainda que o mapa seja a descrição localizada de um lugar, num movimento espacial de um percurso, podemos pontuar algumas relações nem tanto estabilizadas de seu sentido. Esse é nosso primeiro objetivo nesta seção. Assim, falaremos da unidade, lugar percebido e dos espaços instituídos, construídos a respeito do estado do Pará, de suas mesorregiões, trajetos em identidades e percursos de sujeitos.

Em seguida, demonstraremos pela referência, tanto ao lugar instituído quanto aos percursos espaciais, o modo como construímos o corpus para AD produzido por outro lugar, a mídia impressa jornalística, espaço de regulação de poder e instituição de identidades. Entre o lugar da geografia e o lugar da palavra em poder de grande circulação, construímos nosso objeto de pesquisa. Por esses lugares os sentidos se movem, transitam em espaços de mobilidade.