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Dentre as diversas fontes jurídicas que embasarão este estudo citamos como eixos centrais e atuais de acesso à Política de Previdência Social a Constituição Federal de 1988 e as leis nº 8213/91 que institui os Planos de Benefícios, a Lei nº 8212/91 que institui as Fontes de Custeio e o Decreto nº 3.048/99 que aprova o Regulamento da Previdência Social na atualidade. A legislação infraconstitucional citada, dentre outras matérias, regulamenta os direitos dos trabalhadores rurais previstos na CF/88 e inaugura o termo Segurado Especial que conforme o Artigo 9º, inciso VII do Decreto 3048/99, é:

17 Os benefícios devidos aos dependentes em caso de reclusão ou morte do segurado são, respectivamente,

[...] a pessoa física residente no imóvel rural ou em aglomerado urbano ou rural próximo que, individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com o auxílio eventual de terceiros, na condição de:

a) produtor, seja ele proprietário, usufrutuário, possuidor, assentado, parceiro ou meeiro outorgados, comodatário ou arrendatário rurais, que explore atividade: (Incluído pelo Decreto nº 6.722, de 2008).

1. agropecuária em área contínua ou não de até quatro módulos fiscais; ou

2. de seringueiro ou extrativista vegetal na coleta e extração, de modo sustentável, de recursos naturais renováveis, e faça dessas atividades o principal meio de vida; (Incluído pelo Decreto nº 6.722, de 2008).

b) pescador artesanal ou a este assemelhado, que faça da pesca profissão habitual ou principal meio de vida; e

c) cônjuge ou companheiro, bem como filho maior de dezesseis anos de idade ou a este equiparado, do segurado de que tratam as alíneas “a” e “b” deste inciso, que, comprovadamente, tenham participação ativa nas atividades rurais do grupo familiar. (BRASIL, 1999)

É importante ressaltar que nem todos trabalhadores rurais se inserem na descrição de Segurados Especiais, visto que existem os empregados rurais que se incluem na categoria de Empregado e os Contribuintes Individuais que exercem atividade rural a exemplo do garimpeiro. Assim, pode-se dizer que todo Segurado Especial é trabalhador rural, mas nem todo trabalhador rural é Segurado Especial.

Ressaltamos que a pesquisa será realizada com uma única categoria de segurados prevista no RGPS, visto que os sujeitos principais da avaliação são mulheres trabalhadoras rurais que se inserem na categoria Segurado Especial. Desta forma, não serão sujeitos da pesquisa mulheres que apesar de trabalhadoras rurais se colocam na categoria de empregada rural por meio de vínculo formal de trabalho como empregada ou aquelas inseridas como contribuintes individuais.

Conforme legislação citada, a política de Previdência Social compõe uma das três ações da Seguridade Social, mas diferentemente da Saúde e da Assistência Social, possui caráter contributivo, o que significa que os benefícios previstos exigem contribuição prévia além de outras exigências que são peculiares a cada modalidade de benefício. No entanto, a Constituição Federal de 1988 e as legislações infraconstitucionais que regulamentam a matéria conferiram algumas condições diferenciadas à categoria dos Segurados Especiais, de forma a reconhecer as limitações específicas destes.

Dentre as principais diferenciações em relação aos demais tipos de segurados, destaca-se a forma de contribuição diferenciada que a legislação prevê para os segurados especiais. De acordo com o Art. 200 do decreto 3048 de 1999 esta é baseada sobre o percentual de 2,1% da receita bruta proveniente da venda da produção, sendo 2% para a

seguridade social e 0,1% para os benefícios concedidos m razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes de riscos ambientais do trabalho. Ou seja, é possível que o Segurado Especial nunca venha a contribuir para o sistema previdenciário caso não tenha produção excedente para venda.

Outra condição diferenciada refere-se à redução de cinco anos, em relação aos trabalhadores urbanos, para obtenção do benefício de Aposentadoria por Idade que é devido a todos os trabalhadores rurais, ou seja, aos Segurados Especiais, aos empregados rurais e contribuintes individuais que exercem atividade rural. Assim, diferente dos trabalhadores urbanos que implementam a condição de acessar o benefício de Aposentadoria por Idade aos 65 e 60 anos de idade, respectivamente homens e mulheres, no caso do Segurado Especial e dos demais trabalhadores rurais a Constituição Federal permite que se aposentem aos 60 e 55 anos de idade, respectivamente homens e mulheres.

Também é condição para caracterização do trabalhador rural como Segurado Especial o exercício de atividade rural utilizando-se de mão de obra familiar e a ausência de empregados permanentes. A esse modo de realização do trabalho a legislação intitula “regime de economia familiar” que conforme Art 9º, Inc VII, parágrafo 5º do Decreto 3.048 de 1999 é:

[...] a atividade em que o trabalho dos membros da família é indispensável a própria subsistência e ao desenvolvimento socioeconômico do núcleo familiar e é exercido em condições de mútua dependência e colaboração, sem a utilização de empregados permanentes. (BRASIL, 1999)

Uma terceira característica peculiar ao Segurado Especial é que, diferentemente dos demais segurados que precisam comprovar efetiva contribuição ao sistema previdenciário, no caso do Segurado Especial este precisa comprovar o exercício da atividade rural, independente de contribuição, pelo tempo mínimo necessário para acessar os benefícios que a legislação prevê, este período é compreendido como carência.

Além das características já descritas, a lei 8213 de 1991 elenca uma serie de condições que reconhecem ou descaracterizam a condição de segurado especial. Assim, trazemos o parágrafo 8º do Art 11 da referida lei que elenca sete situações que não descaracterizam a condição de Segurado Especial:

I – a outorga, por meio de contrato escrito de parceria, meação ou comodato, de até 50% (cinqüenta por cento) de imóvel rural cuja área total não seja superior a 4 (quatro) módulos fiscais, desde que outorgante e outorgado continuem a exercer a respectiva atividade, individualmente ou em regime de economia familiar; II – a exploração da atividade turística da

propriedade rural, inclusive com hospedagem, por não mais de 120 (cento e vinte) dias ao ano; III – a participação em plano de previdência complementar instituído por entidade classista a que seja associado em razão da condição de trabalhador rural ou de produtor rural em regime de economia familiar; IV – ser beneficiário ou fazer parte de grupo familiar que tem algum componente que seja beneficiário de programa assistencial oficial de governo; V – a utilização pelo próprio grupo familiar, na exploração da atividade, de processo de beneficiamento ou industrialização artesanal, na forma do § 11 do art. 25 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991; e (Incluído pela Lei nº 11.718, de 2008) VI - a associação em cooperativa agropecuária; VII - a incidência do Imposto Sobre Produtos Industrializados - IPI sobre o produto das atividades desenvolvidas nos termos do § 12. (BRASIL, 1991) O parágrafo 9º da mesma lei também deixa claro que não será Segurado Especial aquele que possuir outra fonte de rendimento. Porém consideraalgumas situações:

Não é segurado especial o membro de grupo familiar que possuir outra fonte de rendimento, exceto se decorrente de: I – benefício de pensão por morte, auxílio-acidente ou auxílio-reclusão, cujo valor não supere o do menor benefício de prestação continuada da Previdência Social; II – benefício previdenciário pela participação em plano de previdência complementar instituído nos termos do inciso IV do § 8o deste artigo; III - exercício de

atividade remunerada em período não superior a cento e vinte dias, corridos ou intercalados, no ano civil, observado o disposto no § 13 do art. 12 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991; IV – exercício de mandato eletivo de dirigente sindical de organização da categoria de trabalhadores rurais; V – exercício de mandato de vereador do Município em que desenvolve a atividade rural ou de dirigente de cooperativa rural constituída, exclusivamente, por segurados especiais, observado o disposto no § 13 do art. 12 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991; VI – parceria ou meação outorgada na forma e condições estabelecidas no inciso I do § 8o deste

artigo; VII – atividade artesanal desenvolvida com matéria-prima produzida pelo respectivo grupo familiar, podendo ser utilizada matéria-prima de outra origem, desde que a renda mensal obtida na atividade não exceda ao menor benefício de prestação continuada da Previdência Social; VIII – atividade artística, desde que em valor mensal inferior ao menor benefício de prestação continuada da Previdência Social. (BRASIL, 1991)

Assim, o não atendimento aos critérios previstos nos artigos 8º e 9º da lei 8213 de 1991 serão motivos para a descaracterização do trabalhador rural enquanto Segurado Especial.

Tratando da comprovação do exercício da atividade rural do Segurado Especial esta ocorre com a apresentação junto ao INSS de documentos comprobatórios de sua condição. A Instrução Normativa 45 (IN 45) de 06/08/2010 do INSS lista onze documentos que o Segurado Especial pode utilizar alternativamente para comprovar essa situação.

No Art.115 da IN 45 consta a lista de documentos comprobatórios do exercício da atividade rural, sendo estes:

I - contrato de arrendamento, parceria ou comodato rural;

II – declaração fundamentada de sindicato que represente o trabalhador rural ou, quando for o caso, de sindicato ou colônia de pescadores, desde que homologada pelo INSS (grifo nosso);

III – comprovante de cadastro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, através do Certificado de Cadastro do Imóvel Rural - CCIR ou qualquer outro documento emitido por esse órgão que indique ser o beneficiário proprietário de imóvel rural ou exercer atividade rural como usufrutuário, possuidor, assentado, parceiro, ou meeiro outorgado, comodatário ou arrendatário rural;

IV – bloco de notas do produtor rural;

V – notas fiscais de entrada de mercadorias, de que trata o &24 do art. 225 do RPS, emitidas pela empresa adquirente da produção com indicação do nome do segurado como vendedor;

VI – documentos fiscais relativos à entrega de produção rural à cooperativa agrícola, entreposto de pescado ou outros, com indicação do segurado como vendedor ou consignante;

VII - comprovantes de recolhimento de contribuição à Previdência Social decorrentes da comercialização da produção;

VIII - cópia da declaração de imposto de renda, com indicação de renda proveniente da comercialização da produção rural;

IX – Documento de Informação e Atualização Cadastral do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DIAC) e Documento de Informação e Apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DIAT) entregue à Receita Federal;

X – licença de ocupação ou permissão outorgada pelo INCRA; ou

XI – certidão fornecida pela FUNAI, certificando a condição do índio como trabalhador rural. (BRASIL, 2010)

Destacamos o item II que descreve a necessidade de apresentação de declaração fundamentada de sindicato que represente o trabalhador rural ou, quando for o caso, de sindicato ou colônia de pescadores. Conforme Art. 132 da IN 45 de 2010 a declaração será submetida à homologação do INSS que é condicionada à apresentação de documento de início de prova material contemporâneo ou anterior ao fato declarado. Ou seja, para que a declaração fornecida pelo sindicato seja reconhecida pelo INSS deverão ser apresentados outros documentos que comprovem o exercício de atividade rural. Assim, segundo o Art. 122 da IN 45:

Considera-se início de prova material, para fins de comprovação da atividade rural, entre outros, os seguintes documentos, desde que neles conste a profissão ou qualquer outro dado que evidencie o exercício da atividade rurícola e seja contemporâneo ao fato nele declarado, observado o disposto no art. 132:

I - certidão de casamento civil ou religioso;

II - certidão de nascimento ou de batismo dos filhos; III - certidão de tutela ou de curatela;

IV - procuração;

V - título de eleitor ou ficha de cadastro eleitoral;

VI - certificado de alistamento ou de quitação com o serviço militar;

VII - comprovante de matrícula ou ficha de inscrição em escola, ata ou boletim escolar do trabalhador ou dos filhos;

VIII - ficha de associado em cooperativa;

IX - comprovante de participação como beneficiário, em programas governamentais para a área rural nos estados, no Distrito Federal ou nos Municípios;

X - comprovante de recebimento de assistência ou de acompanhamento de empresa de assistência técnica e extensão rural;

XI - escritura pública de imóvel;

XII - recibo de pagamento de contribuição federativa ou confederativa; XIII - registro em processos administrativos ou judiciais, inclusive inquéritos, como testemunha, autor ou réu;

XIV - ficha ou registro em livros de casas de saúde, hospitais, postos de saúde ou do programa dos agentes comunitários de saúde;

XV - carteira de vacinação;

XVI - título de propriedade de imóvel rural;

XVII - recibo de compra de implementos ou de insumos agrícolas;

XVIII - comprovante de empréstimo bancário para fins de atividade rural; XXVIII - cópia do DIAC/DIAT entregue à Receita Federal; e

XXIX - cópia do Documento de Informação e Atualização Cadastral - DIAC do ITR e Documento de Informação e Apuração do ITR - DIAT entregue à Receita Federal. (BRASIL, 2010)

A legislação considera a apresentação dos documentos acima como início de prova material, devendo o servidor do INSS confrontar as informações declaradas com aquelas de que o INSS dispõe em seus bancos de dados. Outro instrumento que conforme o Art. 134 da IN 45 é indispensável para a comprovação do exercício da atividade rural, sendo obrigatório independentemente dos documentos apresentados, é a realização de entrevista com o trabalhador rural.

O parágrafo 1º do Art.134 da IN 45 trata sobre a entrevista a ser realizada pelo servidor do INSS com o trabalhador rural, dessa forma afirma que:

Para a finalidade prevista no caput, devem ser coletadas informações pormenorizadas sobre a situação e a forma como foram prestadas, levando- se em consideração as peculiaridades inerentes a cada localidade e a atividade exercida, devendo o servidor:

I - no início da entrevista, cientificar o entrevistado sobre as penalidades previstas no art. 299 do Código Penal;

II - formular tantas perguntas quantas julgar necessário para formar juízo sobre o exercício da atividade do segurado;

IV - emitir conclusão da entrevista, manifestando-se acerca da coerência dos fatos narrados pelo entrevistado em relação ao exercício da alegada atividade rural. (BRASIL, 2010)