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Capítulo 6: A extensão das Leis de Anistia e os povos indígenas

Na última década a Comissão de Anistia criada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República aprovou 40.300 pedidos com indenizações que somam R$ 3,4 bilhões. Entre 2001 e 2013, 63% dos requerimentos foram avalizados pela referida comissão e cerca de 37% foram rejeitados. Entre os anos de 2002 e 2006, as indenizações alcançaram o montante de R$ 2,4 bilhões, o equivalente a 70% do total desse tipo de reparação aprovada pela comissão desde sua instalação. Uma informação interessante sobre essas indenizações é que os militares foram os recordistas em requerer condição de anistiados políticos. Até 2013 foram 11.836 solicitações. Quanto aos trabalhadores e integrantes de movimentos sindicais este número alcança os 8.694 pedidos.

Sobre esses números, é importante salientar que a maior parte das demandas e respostas positivas por parte da Comissão se concentraram nas vitimas do Regime que viviam em centros urbanos e possuíam representatividade política dentro de partidos, sindicatos e até em grupos de extrema esquerda considerados como clandestinos pela Ditadura Militar.

Neste, sentido, ficaram de fora centenas de trabalhadores rurais e também indígenas – tanto aqueles que foram vítimas de genocídio como os Waimiri Atroari e Yanomami, quanto os indígenas confinados nos dois presídios federais criados pela Ditadura conforme mostramos principalmente nos capítulos 4 e 5. Esse fato é representativo da tradição de Anistias e reparações no Brasil cujos caminhos apontam para decisões de cunho geral ou muito restritas, excluindo muitas vezes os grupos considerados menos representativos ou sem direito de ampla defesa diante do Estado que os alijou de seus direitos e liberdades.

Acerca da tradição de dificuldades para a aplicação de anistias e reparações no embate com o Estado a história brasileira possui muitos exemplos e muitos autores que se dedicaram ao tema. Devido ao foco principal da nossa pesquisa, tomamos como referencia algumas interpretações mais contemporâneas e próximas do nosso objeto como a de Martins (2010:138).

Ele afirma o seguinte sobre a história da anistia ao longo do período republicano:

“Nunca houve penas demasiadamente longas. Pelo menos no período Republicano é possível assegurar: nunca os banimentos, exílios e prisões ou cassações de direitos políticos foram superiores a dez anos (...)”

Para ele, esse fato dificulta a incorporação de uma cultura de anistia que independente do grau de violência impediu que os fatos fossem apurados a fundo. Quando tomamos como referência a repressão feita pela Ditadura Militar observamos que a sua teoria em relação aos banimentos e exílios se mostra coerente quando tomamos como referência as listas apresentadas pelas entidades de Direitos humanos como, por exemplo, o Grupo Tortura Nunca Mais. No entanto sua teoria não alcança os casos de mortes e desaparecimentos que, via de regra, foram tratados pelo Estado como resultado de confrontos em que os opositores do Regime estavam na posição de combatentes.

Se por um lado, podemos afirmar que uma parte dos índios presos no Posto Indígena Krenak e na Fazenda Guarany se enquadram na regra do tempo máximo de 10 anos porque as penas da maioria deles ficavam entre seis meses e três anos. Por outro, a documentação analisada não permite enquadrar aqueles que foram mortos ou desapareceram sob os cuidados da FUNAI em Minas Gerais como combatentes.

Outro dado importante acerca do perfil dos presos e anistiados na maior parte do período Republicano – principalmente entre a República Velha e a Era Vargas – é que os que receberam o perdão do Estado foram aqueles que se envolveram em rebeliões. Para reforçar essa afirmação é de domínio público que durante a Ditadura Militar e depois da Lei de Anistia em 1979 os principais anistiados foram os guerrilheiros, os membros dos grupos armados urbanos, os intelectuais, os sindicalistas, jornalistas, ex-estudantes, alguns ativistas ligados ao campesinato, religiosos e políticos.

Nas listas principais e secundárias produzidas pelos grupos pró-anistia os indígenas ficaram de fora como sujeitos de ações reparadoras e em nenhum

documento que pesquisamos foram tratados como presos políticos. O Estado brasileiro também silenciou acerca desse direito embora tenha ciência da existência dos dois Reformatórios e exerça a tutela dos mesmos de acordo com a Constituição e do Estatuto do Índio.

Vale acrescentar também que, dentro do período ditatorial foram criados diversos movimentos a favor da anistia para a maioria desses grupos citados acima e mais uma vez os povos indígenas ficaram de fora sendo citados em casos de genocídios, mas sem as consequências legais alcançadas por outros grupos.

Para explicar melhor o cenário em que as lutas por anistia ocorreram é importante recordar as posturas do Estado naquele contexto no tocante às repressões. Escolhemos dois exemplos que entendemos ser bastante expressivos: os Atos Institucionais nº 1 e nº 5 devido ao impacto e a amplitude dos mesmos em relação aos demais criados pela Ditadura.

O Ato Institucional nº1, obedecendo a Lei de Segurança Nacional vigente na época, suspendeu as garantias constitucionais de, “vitaliciedade” e “estabilidade” (art. 7º), o que permitia “mediante investigação sumária”, a demissão ou a dispensa de servidores civis e militares. Além disso, em seu artigo 10º autoriza a suspensão dos direitos políticos e a cassação do mandato eletivo de qualquer cidadão.

Neste caso, a demanda por anistia atingiu uma esfera da sociedade eminentemente de classe média, urbana e reconhecidamente ligada ao aparelho estatal. As pressões eram maiores e muitas vezes dispensaram ações reparadoras no âmbito da justiça porque a repressão atingiu grupos ligados aos militares golpistas. Apesar disso, o seu impacto institucional foi grande porque deu início aos demais estágios da repressão que viria na sequência.

Com o A.I.5, a sociedade brasileira passou a ter um ato permanente, duro e irrestrito, mergulhando o país em um verdadeiro estado de sítio que durou dez anos. De acordo com Martins (2010: 155): Abre-se uma nova onda

punitiva, a terceira de duração ilimitada [em que] 1.583 cidadãos brasileiros perderam seus direitos políticos, seus mandatos parlamentares (...)”.

O autor chama atenção para a extensão das ações e complementa afirmando que a censura aos meios de imprensa e a sociedade civil organizada recrudesceu, além da onda de violência como consequência da ampliação do Estado policialesco que passou a vigorar a partir de 1968.

O principal saldo desse decreto foi vivido nos seus dez anos de duração gerando um contingente enorme de presos políticos – estima-se em 500 mil entre os que estiveram envolvidos em inquéritos ou processos políticos desde 1964 e estiveram presos por qualquer motivo ou período. Além das prisões e das condições vividas nos cárceres essas pessoas tiveram que amargar perseguições mesmo depois que foram postos em liberdade, afinal de contas a censura não foi abolida de forma imediata e mesmo com o fim da Ditadura os seus reflexos permaneceram.

Quanto aos presos indígenas, embora afastados pela história oficial relativa a esse debate, não podem ser ignorados como membros destes contingentes, tanto no que diz respeito à forma como foram presos quanto pelas marcas de tortura e humilhação que no caso deles se deram perante os seus povos e a sociedade em geral. Além disso, a FUNAI passou a monitora- los após a reclusão. Alguns inclusive foram presos novamente e remetidos ao confinamento em Minas Gerais, mostrando a extensão destes atos no tocante a qualquer pleito reparatório de acordo com as leis de Direitos Humanos vigentes no país.

É importante destacar também que, a longa lista que tipifica os perseguidos políticos pela Ditadura inclui os seguintes grupos, segundo os Comitês e grupos pró Anistia criados a partir de 1968: os desaparecidos, os banidos, os exilados e os mortos. Seguramente os indígenas que pesquisamos se enquadram nesses grupos quando analisamos os casos em que dezenas de indivíduos retirados de suas aldeias não retornaram depois de passarem pelos dois Reformatórios ou de outros tantos que foram banidos e exilados involuntariamente de seus ambientes sociais e culturais. Sem contar as mortes confirmadas daqueles que foram enterrados no cemitério clandestino na

Fazenda Guarany ou do índio Dedé afogado no Rio Doce, como vimos no capítulo anterior.

Embora fatos como esses desenhem um quadro de relativa e aparente clareza de detalhes, os meandros que envolvem e estendem às ações da Anistia brasileira no tocante a Ditadura Militar se revestem de imensas dificuldades para efeito de entendimento em qualquer caso onde as diversas leis produzidas em seu bojo possam ser aplicadas.

Para situarmos dentro deste debate o objeto do nosso estudo, explicado nos capítulos anteriores, optamos por enfatizar as lutas e os sentidos de cada fase, desde o seu início em 1979 até os últimos lances com a Comissão da Verdade. Vale ressaltar que iremos fazer comparações com eventos, decisões e consequências práticas que pudessem ser aplicadas aos povos indígenas brasileiros que sofreram com os atos de exceção.

As fases do processo de Anistia desse período são sobejamente conhecidas por aqueles que percorreram a literatura a respeito do tema. No entanto, é útil lembrar que a luta pela anistia visando o reconhecimento dos direitos políticos e de expressão foi primeiro passo dado pelos grupos de Direitos Humanos. Depois surgiu o movimento de recuperação dos empregos e em seguida o movimento de exposição - através dos veículos de comunicação – do que ocorreu nos porões da Ditadura com a função básica de demonstrar que haviam presos, torturados e mortos. Por fim, o último passo foi a procura do reconhecimento dos erros do Estado, de indenizações financeiras e reparação simbólica.

O fato concreto que sobressaiu dessas lutas foi a Lei de Anistia, promulgada em agosto de 1979 – a primeira editada após o final da Ditadura. Em síntese, ela não representou uma mudança significativa em relação às demais promulgadas no período Republicano, mas guarda algumas diferenças em relação às demais porque resultou de um triunfo da sociedade contra atos de uma ditadura militar sangrenta para os padrões brasileiros e que já durava quase duas décadas. Vale ressaltar que nenhuma outra situação de exceção no Brasil do século XX durou tanto tempo nem teve a mesma repercussão