Alguns movimentos pioneiros foram observados nas experiências do “Sítio Mineiro”, na Zona da Mata de Minas Gerais, derivados do programa de “Associação e Cooperativismo”, formulado pelo Centro de Tecnologias Alternativas de Zona da Mata
mineira-CTA-ZM27, criado a partir de incentivos derivados do Projeto de Tecnologias Alternativas da FASE (Santos, 1999), em conjunto com a “Associação Regional dos Trabalhadores Rurais da Zona da Mata de Minas Gerais” (ARTR-ZM/MG).
Na região da Zona da Mata de Minas Gerais predomina a agricultura familiar. A organização dos trabalhadores rurais começou a germinar com os trabalhos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), durante a década de 70 e, a partir da década de 80, começaram a surgir os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, com o apoio das Comissões Pastorais da Terra (CPT). A busca de uma alternativa ao sistema cooperativista da região criou a ARTR-ZM/MG que atuava em 26 municípios e, na visão dos agricultores, constituía-se numa entidade de comercialização dos produtos da região em conjunto. Ao lado da CPT, também exerciam influência a Federação da Agricultura do Estado (FETAEMG) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Desta demanda, em 1994, surgiu a marca Sítio Mineiro, que funcionava como
um guarda-chuva, abrangendo os produtos regionais, para que além da divulgação pudesse elevar os valores agregados dos produtos sem perder a identificação regional, contribuindo assim para a diferenciação do produto e posicionamento corporativo da oferta (Santos, 1999). A associação regional chegou a comercializar 17 produtos, dentre os quais o café, arroz, açúcar mascavo, farinha de mandioca, polvilho, farinha protéica, cachaça, feijão, rapadura, doce de fruta, mel. As agroindústrias eram espalhadas em diversos sítios da região da Zona da Mata mineira, muitas vezes de difícil acesso, principalmente em época de chuva.
O café era o principal produto, em virtude da vocação da região. Segundo Santos (1999), os dirigentes da Associação Regional eram capazes de mapear a ação dos atravessadores de café na esfera da comunidade, do município, da região e até dos mercados exportadores.
No início do planejamento dos trabalhos, havia uma preocupação em se angariar verbas para aquisição de equipamentos necessários à verticalização da produção, mas as iniciativas contaram com pouco recursos e as instalações não proporcionavam as condições para obtenção de produtos com os padrões exigidos pelo mercado. Mesmo com poucos recursos, foram adotadas algumas práticas de agroindustrialização, como a torrefação do café, a fabricação de rapaduras, o
27 CTA: O Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata é uma associação civil, sem fins
lucrativos, fundado em novembro de 1987 por lideranças sindicais, pequenos agricultores e profissionais das ciências agrárias. Foi declarado de utilidade pública estadual pela lei nº 11.008, de 05/01/1993, de utilidade pública federal de acordo com decreto de 12/11/96 e, como entidade de fins filantrópicos, em 28/06/98. Resumidamente, a missão do CTA é definida em três pontos: I.Fortalecer as organizações dos pequenos agricultores, II. Promover a eqüidade nas relações sociais de gênero e gerações presentes tanto nas organizações como nos processos de desenvolvimento empreendido por estas; III. Promover o debate público sobre a conservação dos recursos naturais e a promoção da agricultura sustentável e do desenvolvimento rural local. Agência financiadoras: ICCO; EED; FORD; PPG7 -PD/A; FUNBIO; IAF; DED; FNMA e Prefeitura Municipal de Acaiaca. Mais informações pela página web:
empacotamento de grãos e outras. Algumas atividades já eram praticadas tendo apenas adquirido a marca corporativa para ingressar em mercados mais distantes. Predominantemente os produtos eram comercializados em armazéns locais, mas
mediante um esforço da Prefeitura de Belo Horizonte criou-se o Armazém da Roça,
que absorveria os produtos vindos de diversas regiões de Minas Gerais, como forma de levar a produção da agricultura familiar ao consumidor urbano. Outro canal de comercialização utilizado foi o Centro de Cooperação de Atividades Populares – CCAP, que levava os produtos para o Rio de Janeiro, mediante um trabalho de comercialização solidária.
A proximidade do CTA à Universidade Federal de Viçosa - UFV facilita o intercâmbio de informações, além de alguns professores fazerem parte do seu Conselho de Cooperação, influenciando assim a formulação e o desenvolvimento dos programas da entidade e tomadas de decisões. Além disso, o CTA realiza anualmente “estágios de vivência” juntamente com o Departamento de Educação da UFV. Estes estágios aproximam estudantes, principalmente da área de agrárias, da realidade dos agricultores familiares, facilitando a compreensão dos problemas que os cercam e promovendo a valorização da vida rural.
Apresenta-se, a seguir, um diagrama que tenta captar as influências que, historicamente, contribuíram para a formação das associações, apresentando de forma sintética as entidades participantes neste processo.
CEBs;CPT FETAEMG CUT STR-ZM ARTR-ZM- MG FASE UFV CTA Pequeno Agricultor Agro-Indústrias
PAC: Sítio Mineiro
Comércio Local
Armazém da Roça (BH)
CCAP (RJ)
Figura 7- Experiência Sí tio Mineiro – PAC/CTA (Zona da Mata/MG)
A marca Sítio Mineiro continua sendo utilizada em alguns produtos pela sobra
investiu no negócio individualmente. Este é um assunto que, futuramente, deve entrar na pauta das assembléias, pois há a possibilidade de se resgatar a marca para ser utilizada como um selo, pois trata-se de uma marca registrada para uso coletivo.
A estrutura apresentada não estava preparada para vencer as barreiras mercadológicas e institucionais existentes. À medida que o processo evoluiu, surgiram problemas com a apresentação e embalagem final do produto, operacionalização nas compras de quantidades individuais de cada agricultor pela ausência de um fundo rotativo, legalização, transporte do produto até o beneficiamento e, posteriormente, até nos postos de venda, regularidade de oferta, qualidade e padronização.
Os esforços do PAC foram acentuados na aquisição conjunta de embalagens,
design da logomarca e divulgação publicitária. No entanto, para o processamento não
houve nenhuma estratégia específica adotada no intuito do seu aprimoramento. Ressalta-se, ainda, a inobservância das exigências legais quanto à informações contidas nos rótulos28 e ausência de códigos de barras que constitui-se numa barreira para a comercialização em mercados tradicionais.
De antemão, extrai-se desta experiência que, embora a aparência do produto possa ser um motivador da escolha feita pelo consumidor, a embalagem, por si só, não é suficiente para garantir a segunda compra. Ademais, nem mesmo ideais filantrópicos podem sustentar o consumo de um produto que não vá ao encontro das necessidades dos consumidores. Por outro lado, o desenvolvimento de ações comunitárias e a rede de influências envolvida podem ser fundamental para sustentar a nova onda de “pequenas agroindústrias em rede”.