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Uma ampla variedade de conceitos e nomenclaturas também foram encontrados

na literatura no que concerne ao uso do termo empreendimentos agroindustriais de

micro e pequeno portes. Dentre outros termos relacionados à agroindústria de pequeno porte foram encontrados10: pequenas agroindústrias; agroindústria familiar11, agroindústria rural de pequeno porte (ARPP); pequeno empreendimento; agroindústria de pequena escal; agroindústria artesana; agroindústria de produtos coloniais; pequenas indústrias rurais; agroindústria associativa; indústria artesanal de alimentos; minifábricas; mini agroindústrias; entrepostos; estâncias leiteiras; pequenas unidades processadoras; unidade familiar de processamento agroindustrial; micro e pequenas empresas do setor agroindústria; unidades de beneficiamento; agroindústria caseira; pequena unidade industrial; pequeno estabelecimento de processamento de suínos, ovinos ou ... conservas industrial; pequeno estabelecimento de industrialização de alimentos e estabelecimento industrial de pequena escala.

Algumas vezes o emprego destes termos não representa referenciais diferenciados, mas pode confundir o objeto de estudo e, conseqüentemente, na leitura dos resultados de determinada pesquisa, podendo incorrer no erro de comparar o conjunto de estudos sobre estabelecimentos com características diferentes (Orsi, 2001). Segundo o autor, que utiliza o termo Pequenas Agroindústrias Rurais (PAIRs), estas

definições basicamente se diferenciam na especificação das seguintes características:

10

Ver Orsi, S. D. (2001) para maior discussão sobre o emprego e origem destes termos.

11

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF do Ministério do Desenvolvimento Agrário, define o agricultor familiar como aquele que não detenha área superior a quatro módulos fiscais, tenha 80% da sua renda bruta vinda da atividade agropecuária, resida na

a) modo de processamento, se artesanal ou industrializado;

b) tamanho, definido pelo pessoal empregado (classificação SEBRAE) ou receita

bruta anual12;

c) tipo de utilização da mão-de-obra (familiar ou não); d) organização (grupal ou individual); e

e) forma de abastecimento de matéria-prima.

De forma geral, estas definições permeiam o papel da agricultura familiar e estão ligadas à sua importância socioeconômica, na geração de oportunidades de trabalho e de renda, na dinamização da economia local, na ocupação do espaço territorial e na manutenção das paisagens e dos equilíbrios ecológicos (Prezotto, 2002). Assim, é necessário traçar algumas considerações sobre a agricultura familiar no Brasil, cujo debate sobre os conceitos e a importância também é intenso, produzindo inúmeras concepções, interpretações e propostas, oriundas das diferentes entidades representativas dos pequenos agricultores, dos intelectuais que estudam a área rural e

dos gestores governamentais encarregados de elaborar as políticas para o setor rural brasileiro.

O Projeto de Cooperação Técnica INCRA/FAO13 entre 1996 e 1999 realizou

diversos estudos que têm permitido uma melhor compreensão da lógica e dinâmica das unidades familiares e dos assentados, assim como dos sistemas de produção por eles adotados nas diversas regiões do País. Os resultados destes estudos apresentados no relatório “O novo retrato da agricultura familiar” indicam que a agricultura brasileira

apresenta grande diversidade em relação ao seu meio ambiente, à situação dos produtores, à aptidão da terras, à disponibilidade de infra-estrutura etc. (INCRA e FAO, 2000).

O universo familiar foi caracterizado pelos estabelecimentos que atendiam, simultaneamente, às seguintes condições:

a) a direção dos trabalhos do estabelecimento era exercida pelo produtor; b) o trabalho familiar era superior ao trabalho contratado.

12

As micros e pequenas Empresas -MPEs dispõem de tratamento diferenciado no Brasil, de acordo com o artigo 179 da Constituição Federal. O conceito de micro e pequena empresa é amplo e diversificado, varia de região, estado ou município, depende de seu porte econômico-financeiro e do ramo de negócio e forma jurídica. Em nível federal, as micros e pequenas empresas (ou empresas de pequeno porte) estão classificadas pela Lei 9.317, de 05/12/96, que instituiu o Tributo Federal SIMPLES. Pela Lei Federal, a micro e pequena empresa é enquadrada pelo porte de faturamento, de acordo com o seguinte esquema:

para microempresa, o faturamento anual bruto é de até R$ 120.000,00; para a pequena empresa, o

faturamento anual bruto é de R$ 120.001,00 a R$ 720.000,00.

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Projeto de Cooperação Técnica entre o INCRA e a FAO para elaboração de uma série de estudos baseados na metodologia de sistemas agrários desenvolvida pela escola francesa de estudos agrários, buscando melhor compreensão da lógica e dinâmica das unidades familiares e dos assentados, assim como dos sistemas de produção por eles adotados nas diversas regiões do País.

Os agricultores familiares representam 85,2% do total de estabelecimentos, ocupam 30,5% da área total e são responsáveis por 37,9% do Valor Bruto da Produção (VBP) Agropecuária Nacional, recebendo apenas 25,3% do financiamento destinado a agricultura (INCRA e FAO, 2000). A área média dos estabelecimentos familiares em cada grupo de área é bastante baixa. Considerando a média para o Brasil (tabela a seguir), com dados muito semelhantes para todas as regiões, a área média dos estabelecimentos com menos de 5 ha é de apenas 1,9 ha por estabelecimento. Mesmo entre os que possuem área entre 5 e 20 ha, a média é de apenas 10,7 ha por estabelecimento.

Tabela 3- Brasil – Ag ricultores Familiares - Área média dos estabelecimentos

segundo os grupos de área total

Grupos de área total Área média (Em ha)

Menos de 5 ha 1,9

5 a menos de 20 ha 10,7

20 a menos de 50 ha 31,0

50 a menos de 100 ha 67,8

100 ha a 15 módulos regionais 198,0

Área média dos agricultores familiares 26,0

Fonte: Censo Agropecuário 1995/96 – IBGE

Elaboração: Projeto de Cooperação Técnica INCRA/FAO

A área média dos estabelecimentos familiares apresenta grande variação entre as regiões. No Brasil, esta área é de 26 ha e os patronais14 têm área média de 433 ha para o Brasil.

O novo retrato da agricultura familiar apresenta a Renda Total (RT)

agropecuária e a Renda Monetária (RM):

• A grande maioria dos agricultores familiares possui Renda Total do

estabelecimento no intervalo entre zero e R$ 3.000 ao ano, representando 68,9% dos agricultores familiares.

• 15,7% possuem renda total entre R$ 3.000 e R$ 8.000.

• Apenas 0,8% dos agricultores familiares tem renda total superior a R$

27.500 por ano;

• 19% dos agricultores familiares apresentam renda monetária dos

estabelecimentos negativa, o que representa 10,6 pontos percentuais acima dos estabelecimentos que têm renda total negativa ou nula (8,4%). Esta diferença representa basicamente o valor da produção destinada ao autoconsumo.

Muitos agricultores familiares, em especial os mais descapitalizados, utilizam- se de rendas não-agrícolas para investir em seus estabelecimentos. A renda monetária obtida pode ser inferior ao valor gasto (renda monetária negativa), mas a produção para o autoconsumo normalmente compensa a despesa. A renda total e a renda monetária obtidas nos estabelecimentos familiares demonstram o potencial econômico e produtivo dos agricultores familiares, que, apesar de todas as limitações, não produzem apenas para subsistência, obtendo renda por meio da produção agropecuária de seus estabelecimentos (INCRA e FAO, 2000).

A situação dos agricultores familiares, segundo a condição de uso da terra, demonstra que 74,6% são proprietários, 5,7% arrendatários, 6,4%, parceiros e 13,3% são ocupantes. Com apenas 30,5% da área e contando somente com 25% do financiamento total, os estabelecimentos familiares são responsáveis por 37,9% de toda a produção nacional (Brasil, 2000).

Os agricultores familiares produzem 24% do VBP total da pecuária de corte, 52% da pecuária de leite, 58% dos suínos e 40% das aves e ovos produzidos (Brasil, 2000). Em relação a algumas culturas temporárias e permanentes, a agricultura familiar produz 33% do algodão, 31% do arroz, 72% da cebola, 67% do feijão, 97% do fumo, 84% da mandioca, 49% do milho, 32% da soja e 46% do trigo, 58% da banana, 27% da laranja e 47% da uva, 25% do café e 10% do VBP da cana-de-açúcar.

Num contexto histórico, diante de uma economia globalizada e na tentativa de evitar o agravamento dos seus efeitos negativos como o aumento da pobreza e a degradação das unidades familiares rurais, nas últimas décadas as políticas de desenvolvimento regional agropecuário têm se fundamentado na articulação da agricultura com seu elo industrial, através da negociação de contratos, da formação de associações de produtores ou de agroindústrias próprias, ou seja, de meios para integrar os pequenos agricultores ao mercado, viabilizando sua permanência no campo (Miranda, 1998).

A literatura pesquisada apresenta uma série de casos revelando a busca por atividades RNF, surgindo como resultado da reflexão dos agricultures familiares sobre os modelos cooperativistas e de integração vigentes. Segundo (Santos, 1999), as cooperativas das Zona da Mata mineira operavam com o binômio leite e café, excluíam os pequenos produtores e outros sujeitos não proprietários de terra como os meeiros e privilegiavam a estrutura das organizações. Os agricultores viram as cooperativas crescerem calcadas nas margens de lucros conseguidas pela comercialização de insumos e produtos agropecuários, sem desfrutar de seus benefícios. Várias cooperativas da região faliram e começaram a surgir associações municipais realizando compras conjuntas de insumos, barateando os custos e criando uma via alternativa às cooperativas. Na venda de produtos, a associação pretendia

acabar com os atravessadores (a cooperativa era um deles), transferindo a margem de lucro que ficava na estrutura para os agricultores.

Principalmente no Sul do Brasil, pequenos e médios produtores articulam-se com o complexo agroindustrial, por meio da integração direta com a indústria de transformação ou através da integração indireta por intermédio do mercado. Uma vez que o grande mérito da integração é a combinação de renda perene e baixo risco, sua rentabilidade não é muito elevada. Sendo assim, os integrados também tem criticado os integradores pela reduzida margem de lucro que tem provocado a descapitalização, diminuindo a sua capacidade de investimento, pois, no sistema de integração, o investimento nas granjas é de responsabilidade do integrado. A empresa integradora costuma negociar condições favoráveis aos produtores com os agentes financeiros, através da prestação de aval ou outros meios (Lopes, 1992).

O sistema de integração vertical com granjas de tamanho reduzido tem

mostrado sinais de esgotamento, uma vez que a produção de comodities é uma

atividade cuja tendência é a concentração da produção (Santana, 1999). Dentre os principais problemas observados, destacam-se:

a) Dificuldades de adoção, com rapidez, de novas tecnologias, mais modernas e

produtivas.

b) Enorme heterogeneidade tecnológica e de escala, com contratos diferenciados, que provocam elevados custos administrativos.

Fatores desta natureza têm levado as grandes empresas, nos novos projetos, a operar com escalas de produção maiores. Assim, a partir da imposição dos novos padrões tecnológicos, a integração vem exigindo o aumento da produção (maior escala) e dos índices de produtividade. Embora as agroindústrias integradoras tenham possibilitado uma estratégia de reprodução de parte da pequena produção familiar, por outro lado, com seus padrões de produção crescentes, criaram uma dinâmica que vem excluindo aqueles agricultores que não atingem os padrões impostos (Silvestro, 1995, citado por Prezotto, 2002).

Algumas classes de produtores familiares, como os suinocultores, enfrentam a dificuldade de permanecerem na atividade sem serem integrados a uma grande agroindústria. Eles não podem romper com os frigoríficos, porque o mercado paralelo absorve apenas pequena parte da produção e o nível tecnológico imposto pelo modelo de produção moderno traz uma competição difícil de ser suportada (Paulilo, 1990).

Em decorrência do exposto, começaram a surgir na década passada unidades agroindustriais em pequenas propriedades rurais como uma alternativa de escoamento da produção familiar, aumento de renda e geração de emprego. Uma pesquisa realizada em Santa Catarina (Oliveira et al., 1999, citados por Prezotto, 2002), sobre a avaliação do potencial da pequena agroindústria, apontou a existência de 1.116

manter ou aumentar a produção. Em outra pesquisa semelhante, realizada no Rio Grande do Sul, foram estudadas 1.528 agroindústrias familiares, envolvendo 3.881 famílias, com 7.208 postos de trabalho diretos e, nesta pesquisa, 87,2% dos proprietários tem como perspectiva futura manter ou aumentar a produção (Oliveira et al., 2002 citados por Prezotto, 2002)..