O debate sobre o financiamento da educação e a sua vinculação para a educação pública foi o mais intenso durante todo o processo de tramitação do PNE nas duas casas do Senado Federal. Conforme atestam Dourado e Amaral (2011), perpassa o debate uma questão complexa, em que gestão e financiamento se entrecruzam como concepção, sendo esta traduzida por disputas sobre vinculação e subvinculação de recursos.
Os protagonistas que concederam seus depoimentos para esta pesquisa consideram que a luta vitoriosa da elevação do montante de investimento do PIB de 7%, proposta inicial do Executivo Federal (PL 8.035/2010), para 10% aprovado no PNE 2014-2024 (Lei Nº 13.005/2014), não sendo qualificada a sua vinculação exclusivamente para a educação pública favorece diretamente o mercado educacional privado.
A esse respeito, José Celestino Lourenço destaca:
Ao mesmo momento, no qual foi muito significativo termos conquistado 10% do PIB para investimento em educação pública, no relatório da Câmara, no relatório do Senado foi diferente. Foi aprovando 10% do PIB para investimento em educação. Isso beneficia o setor privado, o que para nós é um ponto fora de questão. Nós não podemos concordar que o setor privado possa acessar recursos públicos para investimento na manutenção das suas instituições que atuam com uma visão mercantilista da educação, tanto é que as fusões que estão se dando nesse campo é grande, como podemos ver na atuação da Anhaguera Educacional que se tornou uma grande associação privada, congregando faculdades, centros universitários e universidades e que atua em todo País, com o benefício de bolsas do PROUNI e de outros convênios. Uma das suas atuações principais é com a educação a distancia, imagine agora com o FIES para a Educação a distância... Esse é um exemplo de diversas situações, em outras organizações empresarias da educação. Portanto, esse é um debate muito forte (Depoimento dado à Pesquisadora em 20/02/2014 em Brasília).
Eliene Novaes Rocha, em seu depoimento, fala que o aprofundamento desse debate ocorreu primeiramente na CONAE/2010, quando foi deliberada a indicação dos 10% dos recursos do PIB para investimento da educação pública. Segundo essa protagonista:
A questão do financiamento público para educação, sem reafirmar a educação pública, representa o maior antagonismo proposto pelo Governo, negando os debates e deliberações da CONAE. Quando o Governo e o Congresso defendem que o recurso público não deve ser somente para educação pública, coloca força na ampliação da privatização da educação, do financiamento a educação, que não tem compromisso com a mudança e a
formação de sujeitos ativos (Depoimento enviado por e-mail à Pesquisadora, em 23/03/2014).
Para Luiz Dourado, o debate sobre a destinação do fundo público retoma uma discussão no Brasil iniciada nos anos 1920 e 1930 entre os defensores do ensino público e ensino privado:
Na verdade nós temos desde o início poucas divergências no tocante à estrutura da Lei, que são apresentadas no PNE nas diretrizes iniciais. De certo modo, as diretrizes atendem ao conjunto, mas as alterações nas metas vão interferir nessas diretrizes, então com relação as inicialmente 20 metas e mais de 170 estratégias e hoje já são 21 metas a partir da tramitação no Senado. Quais são os pontos de maiores tensionamentos? Primeiro diz respeito ao financiamento e particularmente ao fundo público. Nós temos setores que defendem que os recursos do fundo público devam ser para as instituições públicas. A proposta do Senado ela abre a possibilidade de que os recursos do fundo público possam ser direcionando para o setor privado. Hoje nós já temos algumas medidas que utilizam desses recursos: o FIES é subsidiado, a própria dinâmica do PROUNI, que são com dinâmicas diferenciadas, mas que têm presença do fundo público. Quando esse debate é tensionado no PNE, ele retoma um debate antigo no Brasil que é um debate que já vem dos anos 20 e dos anos 30 entre os defensores do ensino público e os defensores do ensino privado que vai se intensificar no regime militar [...]. Portanto, um debate estrutural no PNE seria mesmo esse, o do financiamento e a questão de que direcionamento será dado ao fundo público. (Depoimento à Pesquisadora, em 20/02/2014, em Brasília).
Daniel Torjeira Cara corrobora essa reflexão, ao pontuar que o antagonismo público
versus privado no âmbito da educação vem crescendo ao longo dos anos e ocupando diversos espaços além do ensino e serviços educacionais. Nessa perspectiva, avalia que o não direcionamento dos recursos vinculados ao percentual do PIB exclusivamente para a educação pública, poderá resultar em uma conquista dos movimentos e setores sociais que favoreça práticas de mercantilização de serviços, produtos e oferta da educação em detrimento do fortalecimento da educação pública. Nesses termos, esse protagonista declara:
Esse antagonismo entre educadores profissionais e militantes da defesa da educação como direito humano versus fundações empresariais é um antagonismo forte e que é crescente no debate educacional. Outro antagonismo é o antagonismo público versus privado, decorrente do antagonismo anterior, mas mais direto e objetivo.
O público versus privado é também um antagonismo forte, mas ele está escamoteado por políticas emergenciais, por meio dos convênios, como a matrícula em creches conveniadas, a parceria com as APAEs, o PROUNI, o FIES, o PRONATEC etc. Então, a aprovação do investimento de 10% dos recurso do PIB, sem as travas que defendíamos no FUNDEB, escamoteia o embate.
Porém, esse embate também é crescente, por quê? Porque para que o setor privado sobreviva, ele depende do dinheiro público. As famílias já esgotaram sua capacidade de pagamento, de contratação de serviços educacionais.
Daniel Cara avalia também que o debate público versus privado assume mais visibilidade quando se trata das matrículas em escolas privadas, porém há outros espaços que houve uma soma significativa de recursos públicos, como por exemplo, o mercado de livros, de apostilamentos e de avaliação que são ocupados pelo mercado privado. Nesse sentido, relata:
O setor privado no mercado educacional brasileiro sempre dependeu de recursos públicos, mas o problema é que vai depender muito mais. Não é só matrícula em estabelecimentos de ensino privado. Está se criando um mercado de avaliação no Brasil, por exemplo. Avaliam-se sete, oito milhões de pessoas e escolas por ano. E isso vai gerar um custo alto para os sistemas de ensino. Portanto, muito dinheiro vai girar em torno disso.
Já temos problemas com o PNLD – Programa Nacional do Livro Didático, a privatização do sistema de ensino através dos sistemas apostilados nos estados e municípios... Há aí questões relevantes que vão emergir em torno do antagonismo público versus privado.
Esse debate envolve também um posicionamento quanto a definições conceituais “Público é Estatal” ou “Público é Gratuito”? Questiona o protagonista:
Além disso, será cobrada uma explicitação de conceitos. Nesse caso, a disputa será entre os defensores do público como ação de Estado, contra as parcerias com diversas iniciativas que envolvem tanto o empresário que busca lucro, até a associação comunitária que presta serviço de educação. E esses dois, em geral, prestam serviços precários. Assim, tudo isso vai conflitar com a ideia do que é público: público é estatal? Público é gratuito? A posição que Campanha Nacional pelo Direito a Educação assume, é que público é estatal porque o Estado é fruto da soberania dos cidadãos, portanto, pertence a todos. A briga será boa.
Sobre os embates envolvendo esse debate e o financiamento da educação pública no processo de tramitação do PNE, Daniel Cara relata que foi uma disputa muito forte na qual os movimentos sociais foram vitoriosos, no entanto, problematiza:
A CONAE de 2010 fortaleceu a luta histórica pela defesa do financiamento público para a educação pública. Isso gerou desdobramentos na luta pelos 10% do PIB para a educação na Câmara, no âmbito do PNE, e também na Lei dos Royalties. Em ambas, demarcamos que o dinheiro público deve ser exclusivamente para a educação pública, o oposto da posição do governo. [...] Contudo, todo dia me pergunto: até quando vamos ganhar do setor
privado no Congresso Nacional? Essa é uma pergunta-chave. Outra pergunta que algumas pessoas fazem é a seguinte: será que a gente está ganhando mesmo?
Pode ser que a gente ganhe em questões estruturais, como na captação de recursos para a educação pública via orçamento público, mas é verdade também que quem orienta e implementa as políticas educacionais nos estados e municípios são as fundações e institutos empresariais. Veja o Instituto Ayrton Senna, por exemplo, ou as empresas que vendem sistema apostilado. Isso precisa ser bem avaliado.
Estamos vencendo em muitos aspectos, mas não em todos. Não somos hegemônicos. E por ora o setor privado também não é na Educação Básica. Contudo, infelizmente, o Governo Federal desde FHC fez com que o setor privado seja hegemônico na Educação Superior. E se o Governo Dilma, não garantir por meio da aprovação do PNE a destinação dos 10% do PIB exclusivamente para a educação pública, trabalha para que esse setor seja ainda mais hegemônico (Daniel Torjeira Cara, depoimento à Pesquisadora em 12/11/2013 em Brasília).
Carlos Abicalil reflete que esse debate, foi um dos responsáveis pelo processo alongado de tramitação do PNE na Câmara e no Senado. Conforme esse protagonista:
Quando o PNE chegou à Câmara dos Deputados, evidentemente na eminência de expirar o PNE anterior em dezembro de 2010, ainda com uma mensagem de encaminhamento do Presidente Lula ocupou todo o ano de 2011 e praticamente 10 meses do ano de 2012 na Câmara dos Deputados. A meu juízo, em novembro do ano de 2011, ele estava maduro. Quem tiver oportunidade de ler a sucessão de relatórios, talvez perceba como eu, que aquele relatório era substantivamente melhor do que o relatório que foi aprovado na Câmara no ano de 2012. Particularmente, a partir de pressões da oposição por expectativa de aprendizagem, por arranjo de desenvolvimento educacional, que é uma forma do setor privado abocanhar recursos públicos em forma de serviços, consultorias ou coisa parecida, seja pelo capítulo de avaliação que apresenta repetições em seis metas consecutivas que ficou muito mais evidenciado, como sendo uma avaliação de desempenho estudantil ao invés de ser um conceito de avaliação, que nós defendemos como um conjunto de instrumentos que dão dinâmica ao aspecto pedagógico e não que refletem resultados de rankeamento. Eu diria que esses são aspectos que se deterioram entre os relatórios de 2011 e a conclusão do processo em 2012. (Carlos Abicalil, depoimento à pesquisadora, em 13/11/2014).
Fátima Bezerra pondera que esse é um debate muito forte e que, felizmente, os movimentos sociais estão muito coesos na sua defesa, constituindo-se numa esperança de maior valorização da educação pública. A Deputada Federal relata:
Eu não vou dizer que esse é o maior debate e o mais antagônico, em matéria de educação, porque na minha experiência já tive oportunidades de atuar em muitos projetos que envolveram intensas batalhas, como o FUNDEB, o Piso Salarial Nacional do Magistério, em vigor desde 2009, e que é ainda um
projeto de discussão recorrente na Câmara e no Senado, mesmo tendo sido aprovado pela Lei 11.738, conhecida como a Lei do Piso. Outro projeto de Lei bastante antagônico foi a Lei das Cotas. Mas enfim, nessa matéria do PNE o financiamento da educação vinculado ao percentual de 10% do PIB e a sua destinação para a Educação Pública é sim o debate mais polêmico, cujos avanços precisam ser creditados aos movimentos sociais. Na Câmara dos Deputados a atuação dos Movimentos Sociais foi fundamental para a aprovação na Comissão Especial, mas no Senado a batalha será difícil. Muito difícil mesmo, porque no Senado não temos tantos representantes com sensibilidade às demandas dos movimentos sociais... Então os movimentos precisam estar preparados para o retorno do projeto para a Câmara. Essa é a única esperança, a força mobilizadora dos Movimentos Sociais. (Depoimento dado à pesquisadora, em 02/04/2013, em Angicos - RN).
Como já salientamos, no retorno do PL: 8.035 para a Câmara, a Meta 20 foi aprovada com destaques. E embora a sua redação assegure a ampliação do investimento público em educação pública, o 4º Parágrafo do Art. 5º do PNE 2014-2024 (Lei 13.005/2014) garante a continuidade dos convênios existentes, assegurando aplicação de recursos nos programas de expansão da Educação Profissional e Superior, inclusive na forma de incentivo e isenção fiscal, as bolsas de estudos concedidas no Brasil e no Exterior, os subsídios concedidos em programas de financiamento estudantil e o financiamento de creches, pré-escolas e de educação especial.
A proposta de que a viabilização de recursos para tais financiamentos não estivesse incluída nos 10% do PIB não foi vitoriosa, nem mesmo conseguiu unificar todos os movimentos que protagonizaram a luta pelo PNE 2014-2024. Isso porque há uma sensibilidade para programas de expansão da Educação Superior, internacionalização da ciência e da tecnologia, por meio do Programa Ciência sem Fronteiras e a qualificação profissional. Porém, a meta de assegurar que pelo menos 40% das novas matrículas ocorram no Ensino Superior público contribuirá ao longo do decênio para a redução do crescimento do mercado educacional de Ensino Superior.