No Capítulo dois deste trabalho, apresentamos algumas reflexões avaliativas do PNE 2001-2010 a partir dos documentos: Avaliação do Plano Nacional de Educação 2001-2008 (MEC/SE/SEA, 2008) e Documento Final da CONAE/2010 (MEC/SEA, 2010) e de alguns estudos como Dourado (2011), Abicalil (2011), Cury (2011), dentre outros. As reflexões apontaram com recorrência à problemática do Financiamento da Educação no PNE anterior e a indicavam como eixo estruturante para o novo PNE. Essa questão também se apresentou com muita veemência nos depoimentos dos protagonistas que situam como condição sine qua
non o financimento de 10% do PIB para a execução das metas e estratégias propostas e, ao mesmo tempo, defendem que deve ser direcionado exclusivamente para a educação pública. Nesse sentido, a Deputada Federal Fátima Bezerra (PT/RN) assevera:
Essa é uma questão real foi feita uma conta, em 2003 nós pegamos um PIB de 3% no final passou de 5%, para a educação. Mas a conta que foi feita para a concreta efetivação do PNE (2011-2020) exige que esse valor seja duplicado. Foi feita uma conta, do investimento necessário para colocar nos próximos dez anos, no mínimo 50% das crianças de zero a três anos em creches. Foi feita uma conta para que mais da metade das nossas escolas ofereça educação integral. Uma conta para universalizar o atendimento da pré-escola até o ensino médio – dos três aos dezesseis anos. Foi feita uma conta para a ampliação e permanência no ensino superior, e essa conta só fecha se chegar aos 10% do PIB.
Fátima Bezerra também destaca que os movimentos sociais foram imprescindíveis nesse processo:
A atuação dos Movimentos Sociais e aí eu destaco a Campanha Nacional pelo Direito à Educação que articula mais de uma centena de organizações sociais, que lançou uma nota técnica, comprovando por meio de todos esses cálculos a necessidade do investimento dos 10% e aí juntamente com outras entidades como o MST, a CNTE e os estudantes lançou um movimento que foi algo extraordinário... Foi fundamental!
A Deputada, representante da Comissão Especial do PNE na Câmara, registra também como fundamental a postura de Estadista da Presidenta Dilma Rousseff (PT), as disputas políticas na Câmara e a força política dos Movimentos Sociais:
Nesse sentido, quero também fazer o destaque, da importância da iniciativa que a presidenta Dilma tomou sobre a destinação exclusivamente para a educação das receitas provenientes dos royalties do petróleo por meio da participação especial relativas aos contratos fechados a partir de 03 de dezembro de 2012, sob os regimes de concessão e de partilha de produção. Uma iniciativa de estadista. Quero também destacar que se trata de disputas políticas muito forte no Congresso Nacional, e o que foi conquistado até aqui, na comissão especial foi por força política dos Movimentos Sociais. A verdade é essa: toda aprovação de Projetos de Lei passa pela correlação de forças. Trata-se de uma disputa. A CONAE, por exemplo, recomendou os 10% do PIB para a educação e, no entanto, o governo alegando razões orçamentárias não acatou essa recomendação, colocando no PL 8035/2010 a proposta de 7% e foram os Movimentos Sociais os atores decisivos para criar na Câmara dos Deputados um ambiente favorável a uma correlação de forças que nos permitisse avançar em direção a recomendação da CONAE e aprovar os 10%. (Depoimento fornecido à Pesquisadora, em 02/04/2013, em Angicos - RN).
Daniel Tojeira Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que publicou uma nota técnica, comprovando a necessidade do investimento dos 10% do PIB na Educação Pública, conforme destaca a Deputada Federal Fátima Bezerra (PT/RN), relata em seu depoimento, o processo de discussão e fundamentação técnica para a defesa dessa necessidade. Fala também da relevância do debate protagonizado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) em conjunto com o IPEA e as mobilizações dos movimentos sociais vitoriosas na primeira fase de tramitação do PNE na Comissão Especial da Câmara dos Deputados.
A Campanha sempre fez a defesa dos 10% do PIB para educação pública, mas não tinha um cálculo que comprovava a necessidade. Então eu e o Luiz Araújo, que é um colaborador antigo e notório da Campanha, fizemos um jogo comparativo de planilhas. Nós pegamos o que MEC propunha, defendendo o total de 7% do PIB a serem investidos em educação, e introduzimos a variável da qualidade. Foi simples assim. Deu 10,38% do PIB. Com isso, demonstramos que 7% do PIB significa apenas um esforço
de expansão de matrículas. Mas com a inclusão da variável da qualidade, a partir das Metas do PNE, o Brasil necessita alcançar o patamar de investimento equivalente a 10,38% do PIB em dez anos. E aí a Campanha consegue colocar o debate em outro nível e começa a ganhar o embate do PNE. A Nota Técnica foi publicada em agosto, com grande repercussão na imprensa. Em dezembro, a ANPEd faz uma articulação com o IPEA para debater o PNE. O IPEA lança uma nota espetacular num seminário, organizado em conjunto com a ANPEd, que mostra que é possível pagar os 10% do PIB. Quem organizou a nota foi o Jorge Abraão, reconhecido pesquisador na área de financiamento da educação.
O Abraão só não é demitido na hora do IPEA porque é servidor público de carreira do Governo Federal e porque o presidente do IPEA era o Márcio Pochmann. Mas o Jorge foi sendo “colocado na geladeira”, até o Pochmann sair do IPEA e ele ter que sair também. Hoje o Jorge Abraão está no Ministério do Orçamento, Planejamento e Gestão. Tudo porque foi muito relevante a sua nota para o debate do PNE. Ele somou com a Campanha, defendendo os 10% do PIB para a educação pública, contra a defesa de 7% do PIB feita pelo MEC, dirigido na época por Haddad. E disse que ambos os cenários eram factíveis.
Daniel Cara destaca também o papel das mobilizações dos movimentos sociais e as diversas estratégias utilizadas que conduziram à vitória, frente ao MEC e ao Governo Federal, com a aprovação dos 10% dos recursos do PIB para investimento na Educação:
No meio de tudo isso, diversas mobilizações foram protagonizadas pelas grandes entidades sindicais e estudantis. Nós participamos ativamente dessas mobilizações. Participamos da mobilização do MST, da mobilização da CSP-Conlutas, da CNTE e da mobilização da UNE e da UBES. Daí em diante, a Campanha também foi fazendo tuitaço, com pressão sobre os deputados. Além disso, falamos muito com a imprensa e tivemos presença ativa em todas as reuniões da Comissão Especial da Câmara sobre o PNE. E em 26 de junho de 2012 vencemos o Governo Federal e o MEC, já liderado já por Aloizio Mercadante [...]. O debate do financiamento da educação foi, sem dúvida, o maior dos embates. Os 10% do PIB para a educação pública justifica as 19 metas anteriores, simples assim. Isso é óbvio, mas tivemos que comprovar: as 19 metas têm um custo para serem viabilizadas. Assim, é preciso ter o combustível necessário para o cumprimento do PNE, os 10,38% do PIB de nossa Nota Técnica. E esse combustível é a Meta 20 do PNE, dedicada ao financiamento da educação (Daniel Tojeira Cara, depoimento dado à Pesquisadora, em 12 de novembro de 2013, em Brasília).
José Celestino Lourenço, fala das forças antagônicas com forte presença no Congresso Nacional, que atuam contrárias aos interesses da educação pública, como direito social e dever do Estado. No dizer desse protagonista, representante das Centrais Sindicais dos Trabalhadores na CONAE e no FNE:
É claro que nós sofremos vários problemas, por exemplo, com relação à tramitação do PNE quando nós temos forças antagônicas, com muita representação no Parlamento que discordam de uma política pública de educação com qualidade e socialmente referenciada, o que resultou, por exemplo, numa grande tensão com relação ao financiamento. Essa questão é fundamental, se nós não conseguirmos aprovar os recursos que estamos defendendo de 10% do PIB para a educação pública, mais os 50% do fundo social do pré-sal isso trará uma consequência muito grave. Significa que não conseguiremos implementar as metas e atingir as estratégias que foram traçadas. Então a questão do financiamento é fundamental. Além do que, nós também temos que contribuir com a elaboração dos planos estaduais de educação e planos municipais de educação e aí é outro espaço de conflitos por que governadores e prefeitos, em sua maioria, são contrários a qualquer avanço neste sentido no campo da educação. Colocam-se contrários a um sistema nacionalmente articulado em um regime de colaboração, e isso nos chega com certa dose de hipocrisia, porque o discurso é de defesa da qualidade da educação, mas quando chega uma proposta significativa de avançar na busca dessa qualidade, se encontra resistências dos gestores públicos, num retrocesso em todas as esferas. (Depoimento dado à Pesquisadora, em 20/02/2014, em Brasília).
O problema do financiamento também foi apontado como o maior desafio por Heleno Araújo que representa os trabalhadores da Educação, que assim se pronunciou:
O maior desafio ainda é a questão do financiamento. O financiamento é um ponto forte nesse processo. Nós temos a queixa da ausência de um Plano Nacional, mas isso é histórico no Brasil. Por muitos e muitos anos esse país nunca teve um Plano Nacional de Educação. Nós tivemos o esforço de elaboração de um PNE nos anos 1999 e 2000 e resultou na aprovação de uma proposta distante do que a sociedade civil propunha, com uma mistura do que o governo propôs e os setores da educação apresentaram, onde o financiamento foi vetado. Mas isso propiciou o debate na CONAE e o exercício da aprendizagem da elaboração de um Plano Nacional de Educação.
Heleno Araújo destaca também a relevância da CONAE para a cultura do planejamento educacional em longo prazo:
Nós não temos uma cultura de planejamento educacional em longo prazo envolvendo todos os setores da área. E a CONAE possibilitou pensar nessa direção. Nós temos um documento final da CONAE que nos ajudou a fazer o debate, esse documento recomenda 10% do PIB como condição indispensável para garantir a execução das metas e das estratégias do novo PNE. Desse modo, o documento final da CONAE é o nosso guia. Aqui temos propostas, aqui temos idéias, a referência deve ser essa por que aqui discutimos as políticas educacionais. Claro que pode ser um documento repetitivo ou um documento incompleto, cheio de falhas, contraditório, e é natural que seja assim, mas é uma referência a ser seguida e isso possibilitou chegarmos ao Congresso Nacional com propostas para o novo Plano Nacional de Educação e não abrirmos mão de nenhuma delas, sobretudo o
financiamento da educação pública que deve somar 10% do PIB. (Heleno Araújo, depoimento fornecido à Pesquisadora, em 12/11/2013, em Brasília).
O debate em torno da Meta 20 do PNE que trata do financiamento da educação foi, sem dúvida, o que mais envolveu os movimentos sociais e repesentou a maior vitória já obtida em processos de disputa política, envolvendo diversas estratégias de mobilização e negociação, conforme descreveram os protagonistas. No primeiro momento, essa vitória foi conquistada na CONAE/2010, quando a plenária aprovou a indicação dos 10/% do PIB para o financiamento da educação pública. No segundo momento, o cenário do debate é na Câmara de Deputados, na Comissão Especial do PNE. Isso porque, o PL: 8.035/2010 encaminhado pelo Executivo Nacional, contrariando a indicação da CONAE apresenta o percentual de 7%. Com muitos embates, tensões e negociações a Comissão Especial aprova o percentual dos 10/% e a luta segue para o Senado. No Senado, a luta ocorreu tanto no sentido da manutenção dos 10%, quanto à destinação desse percentual para a educação pública.
O substitutivo do Senado aprova o investimento de 10% para a educação, suprimindo a sua parte da redação da Meta 20 que expressava a sua destinação para a educação pública, e mais uma vez a luta se dá na Câmara dos Deputados, sendo por fim aprovada a Meta 20, com a seguinte redação: “Ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% do PIB no 5º ano de vigência desta Lei e, no máximo, o equivalente a 10% do PIB até o final do decênio”. Porém, nos destaques foi aprovada a manutenção dos convênios existentes com a rede particular de ensino. Este aspecto está presente no 4º Parágrafo do Art. 5º do PNE 2014-2024 (Lei 13.005/2014):
O investimento público em educação a que se referem o inciso VI, do Art. 214 da Constituição Federal e a Meta 20 do PNE engloba os recursos aplicados na forma do Art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, bem como os recursos aplicados nos programas de expansão da educação profissional e superior, inclusive na forma de incentivo e isenção fiscal, as bolsas de estudos concedidas no Brasil e no Exterior, os subsídios concedidos em programas de financiamento estudantil e o financiamento de creches, pré-escolas e de educação especial na forma do Art. 213 da Constituição Federal de 1988 (Lei 13.005/2014).
Essa perspectiva de investimento público na educação privada por meio de programas, concessão de bolsas e convênios foi uma das tensões reveladas pelos protagonistas nos seus depoimentos, traduzidas no diálogo sobre o investimento de recursos públicos na educação privada.