Partindo dessas duas premissas, chegamos a essa seção com o intuito de apresentar e discutir a produção textual na academia com foco na monografia de conclusão de curso. Para tanto, pretendemos mostrar inicialmente como os manuais de metodologia, ao longo dos tempos, veem propondo a produção desse gênero do ponto de vista da técnica e da norma, já que se pressupõe a necessidade de atendimento às normas da comunidade científica, que, em parte, são estabelecidas nesses manuais. Em seguida, refletirmos sobre as especificidades da produção da monografia no espaço acadêmico.
A produção de conhecimento é uma necessidade vista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº 9394/96) que vem reforçar o advento da produção de trabalhos finais para a conclusão de curso de graduação e pós-graduação em instituições de ensino superior, conforme podemos verificar:
III - incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive;
IV - promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação.
Nesse sentido, entendemos que a produção do conhecimento na academia, especialmente daquele materializado na escrita da monografia, constitui uma obrigatoriedade no âmbito da educação.
Assim, inicialmente, discutimos sobre como os manuais de metodologia da pesquisa apresentam a monografia; mais a frente, refletimos sobre o gênero monografia de uma perspectiva discursiva. Assim, mostramos, considerando a monografia proposta pelo manuais, que, ao longo dos tempos, pouca ou quase nenhuma mudança se mostra como considerável na produção desse gênero. O entendimento dessas questões mostra-se essencial nesse espaço porque a produção da monografia deve considerar o que dizem os manuais. Entre os autores de manuais, destacamos Lakatos e Marconi (1992), Geraldo (1995), Medeiros (2000), Salomon (2001), Tachizawa (2001), Santos (2001), Laville e Dionne (2008), Ramos (2009), Oliveira (2009). Além desses, completamos a discussão com o que explicitam as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (NBR, 14724).
Ao longo dos anos, muitas mudanças significativas ocorreram no Ensino Superior para melhorar a qualidade dos formandos, dentre elas, ressaltamos a implantação, no currículo, da monografia, que, em algumas universidades, é o trabalho de conclusão de curso (TCC). A inserção da monografia nos currículos de cursos7 de IES, como atividade curricular obrigatória, ocorreu através dos atos normativos de 1984, emanados do então CFE, por meio do Parecer CFE nº 375/84 e, em seguida, pela Resolução CFE nº 11/84, em curso de Ciências Econômicas, tendo sido revogada e hoje o texto consta na Resolução CNE/CES nº 07/2006. Assim, logo depois, com as diretrizes curriculares decorrentes da nova LDB/96, tem-se a valorização de cursos que passam a estabelecer a obrigatoriedade da monografia como trabalho de conclusão de curso, reafirmando a importância da produção e divulgação dos conhecimentos acadêmicos. (cf. CASTRO, 2011)
Anteriormente, os cursos de licenciatura tinham a exigência de cobrar o relatório de estágio como trabalho de conclusão do curso. No caso específico do Curso de Letras, a exigência da monografia vem desde o Projeto Pedagógico do Curso (2008), que reflete a inserção nos Cursos de Ciências
7 A Legislação só estabelece a obrigatoriedade da monografia no Curso de Ciências
Econômicas, conforme dito acima, isso porque a monografia na área de Letras era um trabalho destinado somente aos cursos de pós-graduação lato
sensu e stricto sensu.
Com a grande demanda de implantação de cursos no Ensino Superior, conforme prevê Plano Nacional de Educação (2011), entendemos que a monografia continuará a ser uma prática bastante exigida no mundo acadêmico, já que representa uma forma de avaliação do aluno concluinte de diferentes áreas de estudo, além de ser um mecanismo de formação de pesquisador iniciante e de produção do conhecimento.
Dessa maneira, fica evidente a nossa compreensão de que a monografia não deve ser vista somente como um instrumento de avaliação, mas como uma prática que revela o saber científico do aluno e que requer o domínio de outras práticas, também importantes para a eficácia do trabalho, ou seja, ser conhecedor de teorias não é suficiente, escrever uma monografia é uma tarefa que engloba outros saberes, dentre esses, resumir, resenhar e fichar.
Segundo Salomon (2001), historicamente, a origem da monografia encontra-se no trabalho de Le Play (1806-1882) Les ouvriers européens, publicado em 1855. No sentido etimológico, a monografia apresenta a definição monos (um só) e grapheim (escrever), que quer dizer, dissertação a respeito de algum assunto ou, como se encontra mais corrente nos manuais de metodologia científica, tratando-se de um texto breve, do tipo dissertativo, com tema único e de natureza científica. Para Geraldo Filho (1995, p. 79), a monografia é uma prática bem mais elaborada e não se define somente como um texto dissertativo, vejamos abaixo:
A monografia é uma síntese de leituras, observações, reflexões e críticas, desenvolvidas de forma metódica e sistemática por um pesquisador que relata a um ou mais destinatários um determinado escrito que seja o resultado de suas investigações, as quais, por sua vez têm origem em suas inquietações acadêmicas (GERALDO, 1995,p. 79).
Nesse sentido, a monografia configura-se como uma prática de reflexão do pesquisador, ou seja, a investigação ocorre como um processo de amadurecimento do tema, a partir de leituras, passando para o momento de observação da problemática até chegar à reflexão. É, portanto, desse processo reflexivo que nasce a monografia, seguindo alguns princípios metodológicos pré-estabelecidos, evidentes aos olhos do pesquisador. A monografia é entendida, em muitos cursos de graduação, como o principal mecanismo de iniciação científica do pesquisador desse nível, já que se insere “num processo de construção do conhecimento científico, busca metodológica e escolha de técnica”. (RAMOS, 2009, p. 202).
De modo semelhante aos demais autores, para Lakatos e Marconi (1992), a monografia define-se como um texto de natureza científica que possui um tema específico ou particular, desenvolvido com base em uma metodologia rigorosa. Apesar de seu caráter de originalidade, a monografia tem como requisito básico fazer referência a pesquisas, já realizadas na área, como forma de ressaltar e/ou justificar o dizer do autor da monografia.
Além dessas definições, Tachizawa (2001, p. 16) diz que a monografia é um “trabalho destinado a cumprir uma obrigação acadêmica e de caráter de iniciação científica”, que se dá como um processo de amadurecimento ao longo do curso, já que é no decorrer do curso que se escolhe a temática a ser trabalhada na monografia. Já para Santos (2001), a monografia é um texto de “primeira mão”, consequência de pesquisa científica que possui partes como identificação, posicionamento, tratamento e o fechamento relevante para uma temática/problemática. Decorre da visão de ambos que a monografia é configurada como um trabalho de iniciação à pesquisa, que deve ser coerente com a temática e obedecer a uma estrutura fixa que é determinada, em partes, por esses manuais. Dissemos, em parte, porque o Projeto Pedagógico de Curso é que irá determinar essa estrutura considerando o que postulam os manuais de metodologia.
Na verdade, são definições de monografia que se entrelaçam para se complementarem. Se por um lado, Santos (2001) define a monografia como sendo um texto, por outro, Tachizawa (2001) complementa quando diz ser um processo que envolve toda a graduação e, por último, Lakatos e Marconi
(1992) definem a monografia como um trabalho/estudo de caráter de iniciação científica que subentende uma revisão bibliográfica de outras pesquisas. A partir disso, concebemos a monografia como um gênero científico que subtende o trabalho de reflexão sobre determinado tema com especificidade e sistematização, envolvendo, nesta direção, teoria e dados empíricos.
Todavia, a construção de uma monografia não se limita somente ao trabalho de reflexão sobre um tema, pois, segundo Santos (2001), é uma tarefa muito mais além, que se fundamenta na organização e na interpretação analítica e avaliativa de dados, a partir de objetivos pré- estabelecidos.
No que diz respeito ao aspecto estrutural, o gênero monografia apresenta uma estrutura formal mínima definida. De acordo com Lakatos e Marconi (1992), a diferença desse gênero em relação a outros gêneros do mesmo domínio ocorre segundo o método de abordagem do tema, da técnica ou do grau de profundidade na abordagem adotada, mas dificilmente ocorre em relação à estrutura que, na maioria das vezes, constitui a mesma em diferentes gêneros, sendo, portanto, introdução, desenvolvimento e conclusão.
A respeito disso, salientamos que, nos manuais de metodologia científica, é comum se reconhecer a presente estrutura, podendo variar somente a denominação de acordo com autor adotado. Vejamos, então, como se define cada uma das estruturas em consonância com a postura de Geraldo Filho (1995, p. 92-93): (i) INTRODUÇÃO – é uma apresentação do trabalho que consta de uma caracterização de forma clara do tema abordado, escrita pelo próprio autor da monografia. “Nela pode aparecer uma revisão bibliográfica cujo objetivo é situar o leitor quanto ao estado de desenvolvimento do estudo do problema”; (ii) DESENVOLVIMENTO – é a parte que compreende os capítulos, isto é, a fundamentação e a exposição do assunto. “É onde se analisa e se discute o problema principal e o secundário, decorrentes da sua colocação” e (iii) CONCLUSÃO – é a parte final do trabalho que contém “a síntese da discussão, a avaliação do
trabalho e as propostas de novos problemas, novas questões que possam surgir no desenrolar da pesquisa”.
Em termos gerais, o gênero monografia constitui-se da junção dessas partes, de modo que se dá numa discussão em continuidade, ou seja, deve haver entre as partes um elo de unidade temática e uma sequência na exposição das ideias. Deve ser feito sob a coordenação de um orientador.
Essa definição corrobora com o que a ABNT (NBR 14724) coloca sobre o trabalho de conclusão de curso, aqui caracterizado como monografia, “documento que representa o resultado de estudo, devendo expressar conhecimento do assunto escolhido, que deve ser obrigatoriamente emanado da disciplina, módulo, estudo independente, curso, programa e outros ministrados” (2011, p. 07). Em termos estruturais, a ABNT (NBR 14724) deixa evidente a estrutura canônica de trabalhos acadêmicos: folhas pré- textuais, elementos textuais e pós-textuais. Compreendemos, pois, que a estrutura é semelhante à apresentada por Geraldo Filho (1995), evidenciando que, apesar do tempo transcorrido desde essa publicação não, se percebe uma mudança significativa, tanto do ponto de vista estrutural como conceitual.
De maneira diferente, Salomon (2001) caracteriza a monografia em sentido estrito e em sentido lato. Essa caracterização se dá em virtude de sua “origem histórica e etimológica”, como também em decorrência do corrente uso do termo que se tem atualmente. O primeiro, em sentido estrito, trata-se de um trabalho mais elaborado, por exemplo, a tese (doutorado) que se caracteriza como uma pesquisa cujo tema apresenta-se pela “originalidade - retorno às origens, à essência, à verdade”, à especificidade e à natureza científica comprovada. Além disso, deve ser uma pesquisa com o intuito de contribuir de forma significativa para a ciência (SALOMON, 2001, p. 255). Já em sentido lato, é considerado um trabalho de iniciação à pesquisa, como no caso das monografias de TCC, especialização, dissertações científicas e dissertações de mestrado, as quais se caracterizam por serem trabalhos de “primeira mão”, ou seja, não são de natureza profunda, teórica e original, como uma tese, mas são pesquisas também de enorme significância para a ciência, pois revelam os primeiros passos do pesquisador.
Apesar das monografias de TCC e de especialização caracterizarem-se em sentido lato, isto é, num mesmo bloco, ressaltamos que cada tipo tem suas especificidades. Assim como Salomon (2001), Medeiros (2000) distingue monografias em escolares e em monografias científicas (mestrado e doutorado). Acrescentamos a estas, a monografia de especialização que possui características comuns.
Conforme Pereira (2007), compreendemos, pois, que a monografia é um trabalho de pesquisa de caráter inicial que tem como objetivo fazer o aluno despertar para o trabalho de pesquisa. Em termos técnicos, no que diz respeito à estrutura, composição, normas, dentre outras, possui as mesmas características de uma monografia de especialização, diferenciando-se apenas pelo fato de que, quase sempre, o aluno não tem nenhuma experiência com atividade de pesquisa, configurando-se como principiante.
Em síntese, podemos dizer que a monografia é um gênero científico bastante utilizado no meio acadêmico e que se caracteriza por ser um trabalho de produção escrita, de extrema relevância no mundo acadêmico, já que representa os primeiros passos do aluno em direção à pesquisa científica e, por isso, deve ser um trabalho bem elaborado, denso e consistente. Enfim, pela forma como se faz presente nos currículos das universidades, revela ser um instrumento importante de avaliação e de produção de conhecimento.