I. BÖLÜM
3.3. TÜRK KAMU DENETİM SİSTEMİ
Veio-nos Ezra Pound, no outono de 2014, cujas reflexões exibem certa precisão (nos sentidos de rigor e necessidade) inaugural: “a chave da invenção, o primeiro caso ou a primeira ilustração encontrável” (POUND, 2006:10). Há, pelo menos e segundo o autor, seis categorias de escritores: (1) os inventores, descobridores de processos inauditos, (2) os mestres, peritos na combinação dos processos criados pelos seus antecessores na classificação, (3) os diluidores, incapazes de um trabalho memorável, (4) “os bons escritores sem qualidade salientes”, (5) os belles lettres que nada criaram, mas especializaram-se em uma particularidade do ato de escrever e (6) os lançadores de modas que se mantém por um período, entrando em “recesso, deixando as coisas como estavam” (ibid.:11). Valerá para ciência o mesmo que para a literatura e aqui, finalmente, justificada a natureza de todas as nossas escolhas bibliográficas e do nosso corpus: dialogamos com (e contra) textos cuja “linguagem autárquica” (BARTHES, 2004:10) deixa entrever novas formulações ou processos extra-ordinários por meio dos quais podemos alcançar a esquina viva de um determinado objeto. Assumimos a tarefa de perfazer a picada aberta por um restrito destacamento de autores. Paul Valéry bem definiu nosso método para circunscrição do “estado da arte”. Vejam. Há um objeto, uma coisa que nos habita, um arrastar de lá para cá o nosso mobiliário conceitual, uma dúvida e seu “estado de
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espírito polivalente” (FLUSSER, 2011:21). Perguntamos sobre a ciência e a literatura e, agora, os nossos pares. Dizíamos, Valéry (2011:141):
“o que fica de um homem é o que seu nome e as obras que fazem desse nome um sinal de admiração, de raiva ou de indiferença provocam na imaginação. Pensamos que ele pensou e podemos encontrar entre suas obras esse pensamento que lhe vem de nós: podemos refazer esse pensamento à imagem do nosso”.
Arthur Danto, em seu O descredenciamento filosófico da obra de arte, exibe propósito análogo: “nossa disciplina [bem como a presente reflexão] parece um híbrido tão singular de arte e ciência que é um pouco surpreendente que apenas recentemente tenha parecido se tornar imperativo para alguns que a filosofia seja vista como literatura (...)” (DANTO, 2014:174). Estamos às voltas com o método, com uma coleção de procedimentos técnicos que nos leve ao objeto, à ciência, à literatura e ao lugar mesmo onde as três coisas desembocam. O método para o isolamento das proposições33 consideradas pertinentes corresponde à auscultação das nossas intenções34. Um marceneiro se aproxima de um
33Peirce estabelece a diferença entre “termos”, “proposições” e “argumentos”. A distinção
nos será proveitosa. Por ora, tenhamos em mente a seguinte definição: “uma proposição
é um signo que indica distintamente o Objeto que denota, denominado de seu Sujeito, mas que deixa seu Interpretante ser aquilo que pode ser” (PEIRCE, 2000:29).
34“A intencionalidade é aquela propriedade de estados e eventos mentais como desejos
e crenças, bem como de eventos linguísticos como elocuções e inscrições de frases, que consiste no fato de tais estados ou eventos estarem dirigidos para, ou serem acerca de, determinados objetos: um particular, particulares de certa classe, uma propriedade, um estado de coisas etc.” (BRANQUINHO, 2006:421). Não deve haver dúvida sobre a orientação dada aos nossos esforços. Desejamos esclarecer quais são as particularidades do objeto literário e do objeto científico.
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móvel danificado, uma mesa. O objetivo é o de mantê-los, a mesa e o argumento, “em pé”. A ilustração é do próprio Pound (ibid.:33):
“Pouco importa, no mundo contemporâneo, por onde se inicia o exame de um assunto, desde que se persista até voltar outra vez (sic) ao ponto de partida. Digamos que você comece com uma esfera ou um cubo; você deve continuar até que os tenha visto de todos os lados. Ou se você pensar no seu assunto como numa banqueta ou numa mesa, você deve persistir até que ele tenha três pernas e fique em pé ou tenha quatro pernas e deixe de balançar com facilidade”.
Se marceneiros não são cientistas nem artistas, eis um “contudo” bastante oportuno. A ciência, para quem neste momento fala, o que é? Antecipadamente, chamaremos ciência à reunião de domínios específicos, não insulares, conscientes de que todos os objetos sobre os quais deita sua atenção são “objetos-à-luz-de”35. O círculo relativista, acomodado sobre a cabeça do que acabamos de dizer, é um trompe- l'oeil. Falamos sobre cruciais, sobre aquilo que pode ser pensado, sobre o modo como podemos pensar o que já pensamos, é certo; mas acima de tudo sobre uma nova imaginação. Conversemos. Mas uma conversa em primeira mão, em primeira pessoa, uma primeira conversa ― “a conversação ocidental atingiu um estágio de ritualização no qual a oração ora não mais sobre o inarticulável mas sobre si mesma” (FLUSSER,
35Na conclusão do artigo Ciência e cotidiano: a ontologia das explicações científicas,
Maturana (1991:191) faz uso de um truísmo bastante didático: “Ciência é o campo das explicações e teorias científicas que nós cientistas criamos através da aplicação do critério de validação das explicações científicas. Nós cientistas nos ocupamos na ciência com a explicação e a compreensão das nossas experiências (da nossa vida humana), e não com as explicações e a compreensão da natureza ou da realidade como se elas fossem campos existenciais objetivos, independentes das nossas ações”.
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ibid.:102). “Um belo dia, no fim do século passado”, conta-nos Francis Wolff (2012:7), “o homem mudou”. À luz da psicanálise, a “segunda revolução copernicana” (BOSS in HEIDEGGER, 2001:15), cindiu-se em três instâncias psíquicas; à luz do estruturalismo, assistiu ao conjunto de sistemas e relações precederem sua existência; à luz das ciências cognitivas36, voltou para casa com um extenso dossiê sobre seus “processos sensórios, perceptivos, estados de alerta, de reconhecimento e de identificação, habilidades discriminativas e seletivas, processos decisórios, memória, aprendizagem, controle motor, tatilidade e, sobretudo, processos de raciocínio” (SANTAELLA, 2004a:87). À luz da marcenaria, do ofício de transformar a madeira em instrumento, o homem transforma-se a si mesmo.
É outra a conversa que corre, entabulada por semelhantes, nossos confrades de ofício, de claustro. O “campo” do conhecimento. A vertigem37 do espaço. Em que lugar estamos? De ONDE falamos? E o argumento sobre a necessidade de demarcação territorial segue sua circularidade viciosa. O labirinto humano, a estrutura óssea interna do ouvido, é constituído por canais semicirculares chamados cóclea e vestíbulo. Responde pela audição o primeiro. O segundo, pelo equilíbrio. Um vestíbulo, um pátio, um saguão onde homens reunidos, aprumados ao redor de políticas emancipatórias disciplinares, põem-se surdos para
36A psicanálise, o estruturalismo e as ciências cognitivas são menções aleatórias.
Circunstancialmente, representam qualquer sistema de pensamento.
37“Quem sentir vertigem total face à representação moderna do mundo, poderia, talvez,
perceber que no sujeito copernicano contemporâneo sobrevive um ptolomeu eterno; para este o mundo da ilusão antiga nunca deixou de ser uma pátria ― uma morada sensorial. Continua representando para ele a ordem vagarosa de sincronias entre corpo e terra, de proporções entre gestos e realidades” (SLOTERDIJK, ibid.:62).
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“a matriz originária [o imaginário] a partir da qual todo pensamento racionalizado e seu cortejo semiológico se desdobram” (DURAND apud FELINTO, ibid.:6).
A surdez. O desequlíbrio.
A quem é de interesse?
“A Epistemologia artificial ― que a rigor não é Epistemologia, senão ginástica intelectual, como diria Einstein ― fechou-se dentro de uma problemática pequena (...)”, reparou Mario Bunge (1980:8), 34 anos atrás. O fazer científico foi apartado do imaginário ao passo que o mundo das imagens técnicas continua dando existência a objetos admiráveis. “Mais que nunca antes, trata-se de um mundo de modelos e possibilidades, e que exige uma humanidade preparada para engajar-se ludicamente com os objetos técnicos, a realidade e os outros” (FELINTO, 2014:8).
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Estamos aqui, de fato, no “meio” de algo, nosso problema. Consta do dicionário uma particularidade. “Meio”: “(...) que não está, não se realiza ou não se mostra em toda a sua totalidade ou com toda a intensidade; DÉBIL, FRACO” (AULETE, 2014). Certos equívocos não são dirimidos a pauladas. Para quem espera pela resposta, a má notícia. O marceneiro, o cientista e o escritor serão nossos instrumentos de medição das coisas. Por quê? O que é isso? Do que se trata? Onde estamos? No seu O homem sem qualidades, Robert Musil (1989:9), enfiado entre a insistência metálica dos automóveis e a malha ondulante de transeuntes, medita. Então, qualquer tempo, perguntamo-nos: “onde estamos? Qual é o nome desta cidade?” (ibid.). Tempo algum, entretanto, diante da informação de que um nariz é vermelho, ocupamos o pensamento com "(...) o tom especial de vermelho, embora este possa ser descrito com exatidão em micromilímetros" (ibid.).
Em O século, Alain Badiou começa por uma espécie de princípio que nos interessa. “Que é um século?” (BADIOU, 2007:9), interroga-se para, então, recomendar a leitura da peça Les nègres, autoria de Jean Genet. Lá, Genet dedica-se à caracterização do seu objeto. “Que é um negro? (...) E antes de tudo de que cor é” (apud id.). Peter Sloterdijk publicou, no ano de 1998, o volume inaugural da sua trilogia Esferas (Sphären). O ensaísta e escritor Rüdiger Safranski assinou o prefácio da obra e asseverou, concordante com lições de Sloterdijk, que "(...) a experiência do espaço é a experiência primária do existir" (SLOTERDIJK, 2003:14). Da "íntima Atlântida" uterina (ibid.) ao "círculo abstrato de verdades" determinado pela língua (BARTHES, 2000:13), do pequeno clã― minha morada original, minha mãe ― à pressão aplicada pela
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massa atmosférica, da Arca de Noé ao que Maupassant denominou "desconhecido inexplorado". Jamais escaparemos ao interior da coisa e o desterro é sequer uma possibilidade.
Perguntamo-nos pelo sentido de “exatidão em micromilímetros”. Que notícias sobre o real ela nos traz? De que cor é um negro? “Um século tem quantos anos? Cem anos? Desta vez a pergunta é de Bossuet que se impõe: ‘Que são cem anos? Que são mil anos, já que um único instante os faz desaparecer?’” (BADIOU, ibid.:9-10).
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AC
OISA
,AB
IBLIOTECA
,OC
ÁLCULO E
OQ
UARTO
P
RINCÍPIO
Três ou quatro princípios.
AC
OISA.
“Se, porém, as coisas já se tivessem mostrado, como coisas, o ser coisa das coisas, a coisalidade, já se teria manifestado, já teria reivindicado e preocupado o pensamento. Na verdade, porém, a coisa, como coisa, continua vedada e proibida, continua reduzida a nada e, neste sentido, anulada” (HEIDEGGER, 2001:148).A
B
IBLIOTECA.
“Demétrio havia sido o plenipotenciário da biblioteca. Por vezes o rei passava os rolos em revista, como manípulos de soldados. ‘Quantos rolos temos?’, perguntava. E Demétrio o atualizava sobre números. Tinham-se proposto um objetivo, haviam feito cálculos” (CANFORA, 1989:24).O
C
ÁLCULO.
“― ‘Aqui o que fica’ ― dizia o Amo. ‘E ali, o que vai’” (CARPENTIER, 1985:8). “A nossa época é caracterizada pela mania de estatísticas. Tabelas, curvas e contagens invadem a literatura científica e paracientífica como prova de sermos uma geração de contadores empenhados em levantar um inventário do mundo” (FLUSSER, 2007:47). “Contar letras, em contrapartida, é coisa para paquidermes!” (SCHOPENHAUER, 2009:107).69
Existe, ali, uma afirmação que é a menor das nossas incertezas. “À luz da marcenaria, do ofício de transformar a madeira em instrumento, o homem transforma-se a si mesmo”. É, sem dúvida, a mais importante sublinha desenhada pela TAR (Teoria Ator-Rede38) e pelo realismo especulativo, podendo ser lastreada por algumas das notas antecipatórias deixadas por Martin Heidegger.
Comecemos pelo início, pela definição do vocábulo “coisa”, o mais elementar dos atributos. Para efeito, a coisa antecede o objeto da ciência. “O que é isto?” e, diante do apuro, o interpelado responderá: “uma coisa”. Para o discurso comum, a coisa é a realidade genérica prolongável sobre realidades particulares. Um divã é um sofá sem braços, uma espécie de canapé... É uma coisa. Assim, um diário de campo, um aparelho para exames de ressonância magnética, um martelo, a mesa. No decorrer do seminário de julho de 1964, ocorrido na casa do psiquiatra Medard Boss39, na cidade suíça de Zollikon, Heidegger formula uma questão aos
38A TAR ou ANT (do inglês, Actant ou Actor-Network Theory) foi desenvolvida nos anos
1980 por Bruno Latour, Michael Callon, Madeleine Akrich, John Law, Wiebe Bijker, entre outros (LEMOS, 2013:34-39). Creem os autores numa impossibilidade fundamental: nenhuma suposição (de ordem comunicacional, econômica, social, técnica etc.) é capaz de assistir seu conteúdo estender-se sobre todo e qualquer fenômeno (ibid.). De modo categórico, não há categorias que possam predicar classes de eventos. Para uma introdução a TAR, ver Latour ([2005] 2013), Lemos (2013) e Santaella (2010).
39Medard Boss e Heidegger trocaram 256 cartas entre 1947 e 1976, ano da morte do
filósofo alemão. Boss, então docente e psicoterapeuta, prestou serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial. Não raras as ocasiões, viu-se sem atividade. Entediado, anotou no prefácio dos Seminários de Zollikon (2001:9): “comecei a refletir sobre essa
‘coisa’ [tempo]. (...) Por acaso encontrei num jornal uma nota sobre o livro Ser e tempo, de Martin Heidegger. Precipitei-me sobre o texto, mas logo verifiquei que não entendia praticamente nada do seu conteúdo. (...) As respostas eram principalmente novas perguntas”. Boss enviou uma carta para Heidegger pedindo-lhe “ajuda intelectual”. A missiva foi retribuída. “Um dia o próprio Heidegger confessou que desde o início tivera grandes expectativas da ligação com um médico que parecia compreender seu
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participantes: “(...) a mesa que hoje está a minha frente é a mesma [da reunião anterior]?”. Seguem-se impressões trocadas entre o filósofo e a audiência, todos concordam que a mesa está no “espaço”, mas nada é tão evidente e o debate prossegue. Ao que conclui Heidegger (2001:39), certa altura:
“A mesa não pode estar no espaço da mesma maneira que o homem porque ela foi feita? Fazer [Herstellen] tem o sentido de ‘sustentar-se aqui’ [hier-stehen], a mesa foi excluída da relação de fazer. O sentido do artesanato e da arte é que a coisa feita pode sustentar-se (...)”.
“Sustentar-se”, fazer com que a coisa, neste momento, permaneça em pé40. Mas que coisa? Simplesmente, aquela sobre a qual meditamos41. Meditamos à maneira de cientistas, meditamos à maneira de escritores, meditamos à maneira de marceneiros e, então, a coisa. Eis a coisa de cientistas e escritores e marceneiros, a coisa meditada, qualquer coisa. “Não há relacionamento humano sem linguagem. A linguagem não é só fala. Communicatio é só uma possibilidade. Originalmente, dizer significa ‘mostrar’” (ibid.:44). Ali, a mesa, o objeto re-
pensamento. Ele via a possibilidade de que seus insights filosóficos não ficassem limitados às salas dos filósofos (...)” (ibid.:11).
40“Por isso devemos dizer: o que se chama ciência ocidental europeia determina
também, em seus traços fundamentais, e em proporção crescente, a realidade na qual o homem de hoje se move e tenta sustentar-se” (HEIDEGGER, 2012:39).
41“A indagação central da metafísica é ― segundo Heidegger ― a da origem das
essências: por que há aqui alguma coisa e não nada?” (VARELA, 1995:240). Onde há nada, sobrepomos algo, a “coisa”.
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conhecido pela minha consciência42. Flusser (2010:52) também pôs-se a serviço dela:
“Pouco tempo atrás, nosso universo era composto de coisas: casas, móveis, máquinas e veículos, trajes e roupas, livros e imagens, latas de conserva e cigarros. Também havia seres humanos em nosso ambiente, ainda que a ciência já os tivesse, em grande parte, convertido em objetos: eles se tornaram, portanto, como as demais coisas, mensuráveis, calculáveis e passíveis de serem manipulados”.
Assim são distinguidas as coisas do mundo desde a nossa disposição para, segundo critérios inventados43, metê-las em caixas e impor-lhes uma ordem. A excepcionalidade da norma. Foi Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 – 1716) quem, pela primeira vez, deu corpo ao conceito de “ordem" e, já na origem, o assombro:
“O que passa por extraordinário é extraordinário somente em relação a alguma ordem particular, estabelecida entre criaturas porque, quanto à Ordem universal, tudo é perfeitamente harmônico. Tanto isso é verdade que no mundo não só nada acontece que esteja absolutamente
42Usamos o termo “consciência” do modo como o faz George Lukács e retomado por
Lacan. “Para Lukács, a consciência opõe-se ao mero conhecimento de um objeto: o conhecimento é externo ao objeto conhecido, ao passo que a consciência é ‘prática’ em si mesma, um ato que muda seu próprio objeto” (ŽIŽEK, 2010:25, itálico nosso). A ideia é desenvolvida na obra História e Consciência de Classe (LUKÁCS, 2003), publicada em 1923, e que “se opõe radicalmente a todo tipo de ‘objetivismo’, de referência direta às ‘circunstâncias objetivas’ (ŽIŽEK, 2012:144).
43A pergunta decisiva remente à elaboração de Foucault (1999:XV). “Que coerência é
essa ― que se vê logo não ser nem determinada por um encadeamento a priori e necessário, nem imposta por conteúdos imediatamente sensíveis? (...) nada mais tateante, nada mais empírico (ao menos na aparência) que a instauração de uma ordem entre as coisas”.
72 fora de regra, como também não se saberia sequer imaginar algo semelhante” (apud ABBAGNANO, 2007 852).
Uma investigação sobre o modo como foram organizadas, historicamente, as bibliotecas de todo o mundo é capaz de oferecer um abastado exemplo da tese erudita em cima a qual são apoiados muitos prognósticos científicos. Um sistema de catalogação orientado para a salvaguarda de códigos44 arbitrários ― gostemos ou não, sempre arbitrários ― é a realização de um programa de pensamento. “Sempre que entro numa biblioteca, o que mais me impressiona é a forma pela qual certa visão de mundo é imposta ao leitor por meio de sua ordem e suas categorias” (MANGUEL, 2006:48). E cita episódio cujo proveito é o de fornecer uma medida para o exame de preocupações excessivas observáveis desde a prática de pesquisa.
“Sir Robert Cotton, um excêntrico bibliófilo inglês do século XVII, arrumava seus livros (entre eles muitos manuscritos raros, como o único manuscrito conhecido de Beowulf e os Evangelhos de Lindisfarne, datados de 698) em doze armários, cada qual ornado com o busto de um dos doze primeiros Césares. Quando adquiriu parte de sua coleção, a British Library manteve o estranho sistema de catalogação de Cotton, de modo que os Evangelhos de Lindisfarne devem ser solicitados pelo tombo “Cotton MS Nero D. IV”, pois em outros tempos era
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“Os códigos (e os símbolos que os constituem) tornam-se uma espécie de segunda natureza, e o mundo codificado e cheio de significado em que vivemos (o mundo dos fenômenos significativos, tais como o anuir com a cabeça, a sinalização de trânsito e os móveis) nos faz esquecer o mundo da ‘primeira natureza’. E esse é, em última análise, o objetivo do mundo codificado que nos circunda: que esqueçamos que ele consiste num tecido artificial que esconde uma natureza sem significado, sem sentido, por ele representada” (FLUSSER, 2007:90).
73 o quarto livro da quarta estante, de cima para baixo, no armário sobre o qual estava o busto de Nero” (ibid.:46).
“O que é um objeto novo nas mãos de um cientista?”, pergunta Bruno Latour (2000:144). “Onde, em que área do conhecimento, acomodamos um objeto novo?”, perguntamo-nos antes mesmo do convívio com a coisa. Sacamos sarrafos, balanças e demais instrumentos de medição para, ao cabo de alguns parágrafos e um tanto de êxito, encerrar nossas ilustres ideias em algum lugar da estante de número 923.1 C164r45. “Sistemas”, “códigos” e “programas” são noções que determinam um estado de anterioridade com o objetivo de prescrever a própria continuidade. Francisco Rüdiger (2008:9) afirma que “(...) as atividades humanas sempre foram, em alguma medida, coordenadas, regulares e motivo de algum conhecimento operacional, mesmo que não pensadas como tais”. O sudário de Penélope espera pelo real lógico- matemático. O modus operandi da ciência, deslumbrada com o positivo da medida, acocora-se diante do cálculo. “In the beginning there was the Calculating Machine. Whether that of Pascal, Leibniz, or Babbage, the Calculating Machine represented the ultimate Enlightenment dream” (ALT in: PARIKKA, 2011).
Não podemos, no entanto, ignorar uma passagem feita às pressas, a custa de incriminar o número em lugar da medida, do cálculo feito “modelo”. A noção de modelo é aqui emprestada de Alain Badiou (1972). De acordo com uma de suas teses, “existem duas instâncias
45Na Biblioteca Nadir Kfouri, hospedada na Pontifícia Universidade Católica de São
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epistemológicas da palavra ‘modelo’. Uma é a noção descritiva da atividade científica, a outra, é um conceito da lógica matemática”. Como atividade científica, o modelo é utilizado para observar um dado “objeto real” a fim de criar um “objeto artificial”, uma armação teórica “destinada a reproduzir, a imitar na lei dos seus efeitos, o objeto real” (BADIOU, ibid.:17). Ideia aparentada pode ser lida no Crepúsculo dos Ídolos (ou como filosofar com o martelo) de Friedrich Nietzsche. Diante de “conceitos universais e vazios”, chamados “mais elevados”, “a derradeira fumaça da realidade evapora” (NIETZSCHE, 2014:10). Badiou, inclusive, consagrou um breve artigo à figura do “antifilósofo”. Em Who is Nietzsche? ([2011]2014), dá lição sobre o epíteto:
“Nietzsche is not a philosopher, he is an anti-philosopher. This expression has a precise meaning: Nietzsche opposes, to the speculative nihilism of philosophy, the completely affirmative necessity of an act. (...)Thus what comes in philosophy is what the philosopher bears witness to. Or, more accurately: the philosophical act is what philosophy, which nevertheless coincides with it, can only announce” (ibid.:1, negritos nossos).
Mas ao citarmos Badiou e Nietzsche, andávamos empenhadas em compreender a natureza do número e certo modelo de apreensão do real fundado sobre o cálculo das coisas. Chegamos até onde estamos ao