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KAMU İÇ DENETİM STANDARTLARI

I. BÖLÜM

4.3. KAMU İÇ DENETİM STANDARTLARI

Depois de expor como a Psicanálise pensa inicialmente a sexualidade infantil, a bissexualidade originária e a homoerotização, usando já o termo proposto por Costa e levando também em consideração as demais pesquisas, já citadas no capítulo anterior, parece que fica claro que alguns psicanalistas compreendem a escolha homossexual não como inevitavelmente, uma estrutura perversa. Os termos e os conceitos são distintos. Lendo os trabalhos dos psicanalistas citados4, o que inicialmente é possível compreender é esse posicionamento. O que é sem dúvida um avanço dentro da própria metapsicologia Psicanalítica e da visão clínica da homoerotização.

Neste trabalho, o percurso realizado até agora foi traçar um referencial teórico nesse caso, a psicanálise e a partir dele pensar nas conseqüências psíquicas que trouxeram o impacto da epidemia HIV/AIDS dentro da cultura gay.

Pensar nas repercussões e na pressão, dentro da sociedade, que eles sofreram por terem sido confundidos com a própria doença/morte. Como se eles não fossem dissociados dela. A este termo deu-se o nome da AIDS de “Peste Gay”.

Com o surgimento da epidemia e de suas associações com a vida sexual, os hábitos e costumes dos homoeróticos, associando literalmente a vida sexual desse grupo com a epidemia, a orientação sexual como forma de contaminação pelo vírus HIV. Até hoje, essa dissociação entre o sexo/morte, traz conseqüências no modo como os homoeróticos se identificam e se mostram para esta mesma sociedade.

A hipótese central deste trabalho é pensar que: após o surgimento do HIV/AIDS, que apareceu inicialmente associado a esse grupo, os homoeróticos iniciaram uma busca incessante pela remodelação do corpo.

É esta a hipótese central deste trabalho. Pensar neste movimento que é global na sociedade capitalista e de consumo, um desejo pela busca do “corpo perfeito”, fazer um

4 COSTA J.F. “A face e o verso estudos sobre o homoerotismo II” 1995 Editora Escuta e BARBERO G.H. “Homossexualidade e

43 recorte e pensar nesse desejo para tal segmento, como uma nova forma de se identificar, e se resignificar, após o impacto da epidemia pelo HIV, por meio da busca pela remodelação do corpo.

Antes, é necessário fazer algumas considerações sobre a epidemia AIDS/HIV e deixar claro as confluências desta doença com o grupo de homoeróticos.

O Ministério da Saúde estima que a incidência da infecção pelo vírus da AIDS entre homens que fazem sexo com homens (HSH), ou seja, homobissexualidade como única categoria ao nível de práticas sexuais alcançou a taxa de 226,5 por 100 mil homens. Enquanto que essa taxa para a população em geral foi de 19,5 casos por 100 mil habitantes.5

O Aumento do número de HSH contaminados pelo HIV está aumentando em todo mundo. O dado é extremamente preocupante porque sinaliza o início de uma espécie de retomada do fôlego da doença justamente entre um grupo no qual ela se manteve controlada durante um bom tempo.

Os homoeróticos foram os primeiros a serem atingidos pela epidemia do HIV, mas também foram os primeiros a se organizarem e conseguir conter o avanço da doença. Se a AIDS voltou a crescer entre eles, significa que nem mesmo esse grupo, até agora tão mobilizado contra o HIV, está se cuidando como deveria. Não podemos esquecer o quanto à epidemia da AIDS já matou milhares de pessoas no mundo todo, desde que esta doença apareceu, vamos retomar algumas informações.

No ano de 1983, surgiram os primeiros casos de AIDS. A doença ficou marcada entre os gays. É importante lembrar que o surgimento da AIDS entre os HSH foi devastador, além do grande número de infectados e de mortos a epidemia serviu para reforçar o estigma, preconceito e a discriminação em relação à orientação sexual. Gays e doença, como se fosse parte do mesmo binômio, orientação sexual e morte civil.

Rotello (1998) afirma que é “quase impossível exagerar o impacto que a epidemia da AIDS teve sobre os gays, exagerar o que aconteceu quando um grupo de pessoas profundamente estigmatizada pela sua maneira de fazer amor finalmente saiu das sombras, proclamou que gay é “bom”, e então foi atingido por uma doença que se espalhou através do próprio comportamento que era o centro do seu estigma”.

44 Ainda segundo esse autor “o HIV na verdade nos atinge em nossas partes vitais. Seu meio de transmissão – o sexo – é exatamente aquilo que, para muitos entre nós, nos define como gays, orienta nossa vida política e erótica, define nossa identidade moderna, fornece a liga de boa parte de nossa filosofia e de nossa comunidade, anima grande parte de nossas vidas”.

Até 1996, não existia a terapêutica antiretroviral de alta potencia; observava-se que os indivíduos com diagnóstico de HIV/AIDS assumiram comportamentos de pacientes terminais. Via-se muita ansiedade e depressão decorrente do intenso esforço de adaptação da pessoa a esta nova e estigmatizante condição. Surgia o modelo da desfiguração, do adoecimento, da decadência e da morte, passando pelos sentimentos de segregação e de solidão.6

Tirou-se a relação direta entre HSH e AIDS somente depois que começaram a aparecer novos casos entre mulheres e homens heterossexuais. O vírus não escolhe a orientação sexual das pessoas como via de acesso à contaminação.

Houve uma diminuição da estigmatizante noção de “grupo de risco”, associado ao estilo de vida. No início da epidemia, essa doença aparecia somente entre os homossexuais, usuários de drogas injetáveis, prostitutas e hemofílicos. Passa-se a focar o “comportamento de risco” e não mais o “grupo de risco”. A AIDS passou a ser um problema de todos.

Para se ter um exemplo: houve uma mudança no perfil da epidemia. No período de 1980 a 1987, a proporção era de 12,2 homens infectados para uma mulher infectada. Em 1996, essa proporção caiu para 2,6 (Conforme dados do Ministério da Saúde AIDS... 2001/2002).

Mesmo com todas essas informações, ainda assim o Brasil não mede a propagação atual da infecção entre os gays, ou mesmo entre a população geral. Estudos de prevalência, falhas na notificação, dificuldade no relato e a negação da condição dificultam a quantificação dos casos já identificados de HSH e HIV e de novos casos de notificação. Há pouco interesse e investimentos em pesquisas sobre o comportamento homossexual e o risco à infecção pelo HIV. Segundo os dados do Ministério da Saúde,

45 PAM (Plano de Ações e Metas) desde o início da epidemia mais de 73.000 homossexuais adoeceram por cauda da AIDS no Brasil, desses 35.000 morreram.

Não se sabe ao certo quantos homossexuais estão infectados hoje pelo vírus da AIDS, mas estima-se que pelo menos 150.000 possam ser HIV-positivos, sendo que a maioria desconhece esta condição, 45 mil gays estão em tratamento e 08 gays morrem de AIDS todos os dias.

Apesar de o relevante papel dos movimentos gays no sentido de reprimir o avanço da epidemia, o que se percebe é que ações isoladas, sem a implementação de políticas públicas não são suficientes para delimitar a prevenção da AIDS. O conhecimento adquirido durante todos esses anos de epidemia, não se traduz em prevenção.

As variáveis individuais que poderiam dar conta de uma suposta explicação para o aumento do número de HSH contaminado pelo vírus HIV são justamente aquelas que os movimentos gays batalharam muito para divulgar, focando a educação e a informação, o acesso irrestrito às informações de como se pega e como não se pega a AIDS, como fazer um sexo seguro, estimulando o uso correto da camisinha, o uso de gel etc.

Uma das características negativas de se focar apenas nessas variáveis é a culpabilização do infectado, criando outro rótulo, o dos culpados, por ter contraído o vírus. A infecção foi um descuido.

A hipótese fundamental sob esta ótica tem sido a de que os indivíduos, ao receberem informações concretas, responderão por meio de escolhas racionais que resultarão em mudança de comportamento e a redução do risco.

“No entanto, inúmeras pesquisas nacionais, com diferentes populações estão contradizendo a hipótese levantada acima, de que a informação é o único caminho para a prevenção. O que se percebe é uma aparente contradição entre as informações e conhecimentos sobre a prevenção à AIDS e às efetivas medidas de prevenção.” (CINTRA, 2004).

Além das variáveis individuais, o conceito de vulnerabilidade teve que ser ampliado levando em conta para o risco de contaminação pelo vírus HIV também aspectos sociais e culturais (religiosos, de gênero na sexualidade, morais e até políticos).

46 A falta de acesso aos insumos gel e camisinhas nos postos de saúde é um problema político.

Ainda não se conseguiu eliminar a idéia de prevenção dirigida a homossexuais do nível apenas individual, é de sua única responsabilidade, quando transa sem camisinha. A AIDS não pode ser enfrentada como se fosse só um problema daquele indivíduo que transa sem camisinha, a AIDS é um problema coletivo. É toda uma cadeia de transmissão.

“Quando uma pessoa tem relações sexuais com um parceiro, não é só com esse parceiro que ela está tendo relações, e sim com todas as outras pessoas que tiveram relações com este parceiro nos últimos dez anos” (SONTAG, 1989). Podemos, portanto, falar de vulnerabilidade individual, social e cultural. Diversas variáveis que podem ou não influenciar no risco que a pessoa pode ter em relação à infecção pelo HIV.

Com o advento da AIDS a construção da subjetividade do homem em relação a sua sexualidade mudou; repercutindo no olhar que as pessoas devem ter em relação ao comportamento sexual, às relações afetivas, o acesso aos insumos de prevenção, às abordagens das diversidades, o modismo, os discursos sobre o uso da camisinha na prática do sexo seguro etc.

A idéia subliminar é de que quanto menos sexo, mais saúde. Na mesma linha de pensamento, temos outras mais coerentes com o que se entende hoje pela transmissão do vírus “O sexo não causa a AIDS, é um vírus que a provoca”, ou “Não existem grupos de risco, apenas comportamentos de risco”, e “Não com quem você faz sexo nem onde você o faz, mas o que você faz.”

O Corpo em perigo.

Campanhas de prevenção das DST’s e HIV veiculadas nas mídias usaram como estratégia imagens nas quais a cena leva a informação por meio do impacto do horror e do perigo de que sem a devida proteção o corpo está ameaçado, e a idéia do corpo em perigo está estampado e associado por meio das práticas sexuais sem proteção.

47 Figura – 1

Figura 1.1 – O corpo associado à prática do sexo sem camisinha.

A contaminação do corpo pelo vírus HIV traz conseqüências gravíssimas em termos de saúde, bem–estar, mudanças no próprio corpo, a própria idéia do corpo em perigo, além dos riscos de morbidade que a pessoa corre. Apesar de a aparente “estabilidade” da evolução da doença, fruto de um tratamento mais eficaz, a mesma ainda é incurável, fazendo com que o indivíduo portador ainda seja alvo de toda e qualquer intercorrência clínica, como as infecções oportunistas. Necessitando ainda de campanhas de prevenção, maciças nesse segmento.

Manifestações clínicas de imunodeficiência em pacientes com diagnóstico de infecção pelo HIV.*

1- Perda de peso maior que 10% do peso corporal habitual;

2- Diarréia crônica sem etiologia definida, com duração de mais de 1 mês; 3- Febre (intermitente ou constante, sem etiologia definida, por mais de 1 mês); 4- Linfadenopatia (maior ou igual a 1 cm, em dois ou mais sítios extra-inguinais, por mais de 29 dias);

5- Dermatite persistente;

6- Anemia (hematócrito menor que 30% em homens, menor que 25% em mulheres);

7- Linfopenia (menor que 1000/mm3), plaquetopenia (menor que 100000/mm3); 8- Candidíase oral, esofágica, vaginal recorrente, de traquéia, de brônquios ou de pulmões;

48 9- Leucoplasia pilosa oral;

10- Herpes zoster (antes dos 60 anos);

11- Infecções recorrentes do trato respiratório (pneumonia, sinusite); 12- Criptococose extrapulmonar;

13- Criptosporidiose com diarréia persistente, por mais de 1 mês;

14- Doença por citomegalovírus, de um órgão que não seja o fígado, o baço ou linfonodos;

15- Histoplasmose extrapulmonar disseminada;

16- Infecção pelo vírus herpes simples, com acometimento mucocutâneo, por mais de 1 mês, ou visceral de qualquer duração;

17- Isosporíase com diarréia persistente, por mais de 1 mês; 18- Leishmaniose visceral em adulto;

19- Leucoencefalopatia multifocal progressiva; 20- Linfoma primário do cérebro;

21- Micobacteriose atípica disseminada;

22- Outros linfomas não-Hodgkin de células B; 23- Pneumonia por Pneumocystis jiroveci (carinii);

24- Reativação da doença de Chagas (miocardite e/ou meningoencefalite); 25- Sarcoma de Kaposi;

26- Sepse recorrente por salmonela não tifoídica; 27- Toxoplasmose cerebral;

28- Tuberculose extrapulmonar ou disseminada; 29- Carcinoma invasivo do cérvix;

49 31- Paracoccidioidomicose disseminada.

*Fonte: Brasil. Ministério da saúde. Secretaria de Vigilância à saúde. Programa Nacional de DST e AIDS. Recomendações para terapia antirretroviral em adultos e adolescentes infectados pelo HIV 2006. Brasília: Ministério da saúde, 2006.85p. Versão preliminar apud SOUTO 2004

Vale esclarecer que todos esses sintomas, doenças que o portador do vírus HIV é acometido estão relacionados à própria multiplicação do vírus HIV dentro do corpo do infectado, levando-o a uma imunodepressão com inúmeras manifestações clínicas.

Quando a contagem de linfócitos CD4 for menor que 200 células por milímetro cúbico de sangue e/ou quando o paciente apresenta sintomatologia de imunodepressão relacionada ao HIV independente dos níveis de linfócito CD4 dá-se o início da terapia antirretroviral, segundo o Ministério da saúde (BRASIL, 2006).

Segundo (MORGADO, 2000 apud SOUTO 2004) a distribuição de antirretrovirais, teve início em 1996. Atualmente o Ministério de Saúde disponibiliza vários medicamentos específicos para o tratamento de supressão do HIV (ver quadro 2). Esses medicamentos, na maioria das vezes, são utilizados em associações tríplices ou quádruplas, sinérgicas ou aditivas, prescritas segundo critérios clínicos epidemiológicos e laboratoriais. (BRASIL, 2006).

Quadro 2 – Antirretrovirais disponíveis na rede pública para uso clínico no Brasil, no primeiro semestre de 2009.*

Inibidores da transcriptase reversa, análogos de nucleosídeos e nucleotídeos: Abacavir; Didanosina; Estavudina; Lamivudina; Tenofovir; Zidovudina.

Inibidores da Transcriptase reversa, não análogos de nucleosídeos: Efavirenz; Nevirapina.

Inibidores da protease: Amprenavir; Atazanavir; Indinavir; Lopinavir; Ritonavir; Saquinavir; Foscumponavir.

Inibidor da fusão: Enfuvirtida.

50 Inibidor de integrase: Raltegravir.

*Fonte Brasil. Ministério da saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS. Recomendações para

terapia antirretroviral em adultos e adolescentes infectados pelo HIV 2006. Brasília Ministério da saúde, 2006 apud SOUTO 2004

Paradoxalmente, após o surgimento da epidemia pelo HIV, existe uma diferença entre a imagem do corpo inscrito pela epidemia do HIV e as conseqüências desse vírus dentro do corpo do indivíduo (Ver campanha ilustrativa).

Figura - 2

Figura 2 - O corpo ressignificado pelo HIV/AIDS.

Com as possíveis mudanças corporais causadas pelos efeitos colaterais pelo uso contínuo dos medicamentos antirretrovirais, algumas visíveis externamente, como o aumento ou diminuição das gorduras do organismo, a lipodistrofia (Figura 3) Essas mudanças corporais divergem completamente com a imagem do corpo com que os homoeróticos dentro da cultura gay se identificam e se vinculam. (Figura 4).

Ilustração 3

Figura 3.1. – Lipodistrofia facial. Figura 3.2 – Lipodistrofia (Giba de Búfalo).7

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51 O Corpo apolíneo.

A idéia da remodelação do corpo é presente tanto dentro do corpo inscrito pela epidemia do HIV quanto pela idéia que chamo do “corpo apolíneo”, ou seja, o corpo idealizado, símbolo da beleza e da perfeição, que serve, a partir da minha avaliação, como modelo identificatório dentro da cultura em que os homoeróticos estão inseridos, após surgimento do HIV/AIDS.

Ilustração 4.

Figura 4.1 – Concurso de beleza dentro da cultura gay.

A remodelação do corpo se dá mediante o fisiculturismo ou culturismo (por meio de exercícios de levantamento de peso que estimulam a redução da gordura e enrijecimento muscular), sendo este o meio usado para aquisição de um corpo que não lembre em nada o corpo inscrito pelo HIV ou mesmo aquele corpo com lipodistrofia. Como uma forma de readaptação, de um modelo narcísico que dê conta de um trauma causado pela associação do HIV/doença/morte com os Homoeróticos.

Que dimensões simbólicas estão presentes nessas práticas de modelação do corpo? Qual o significado da prática de atividades físicas que vão além do próprio conceito de saúde e bem estar? A negação da AIDS ou mesmo da morte como um meio de remodelação do corpo?

52 Foto para além do estético. (Ilustração 5).

Figura 1.9. – Demonstração de corpo apolíneo, utilizado em um flyers de uma boate gay. (julho, 2007)

O corpo é, nos dias atuais, a sede da metamorfose dos novos tempos. (GOFF, L. e TRUONG, N., 2006). O padrão atual que simboliza o conceito estético referente ao belo é o corpo magro, de musculatura com tônus enrijecido onde tudo o que é valorizado é o jovial; conceito este presente e difundido por meio de imagens fotográficas, seja dentro dos conteúdos das revistas consultadas ou de divulgação dos vários lugares disponíveis de circulação voltados para o público gay. Material denominados de flyers. (Vide ilustração 5)

Também dentro da cultura gay, entramos na era do silicone, das plásticas, do belo espartano, das tatuagens, colocação de objetos no corpo, da musculação, da malhação e do esforço pessoal para aparecer bonito, belo e atraente, símbolos que se referem ao corpo na contemporaneidade. Estes são os novos quadros de valores onde propositalmente os corpos ganham maior exposição, visibilidade pública e erotismo.

A idéia subjacente é consumir este padrão estético idealizado. Quando a mídia que circula dentro da cultura gay expõe a suposta necessidade de consumir estes valores o impacto é perverso, pois quem não se enquadrar a este novo modelo, está excluído.

Em Todorov (1999) pode-se apreender como o corpo ganha visibilidade social em tempos de valorização das subjetividades, cujas bases de alimentação dessa valorização se circunscrevem ao mercado, ao consumo, às tecnologias, à saúde, à qualidade de vida e às relações interpessoais.

53 Como percebemos os serviços as disposições das pessoas que desejam modelar o corpo são inúmeros, independente das faixas etárias, gêneros e classe. São recursos à disposição das pessoas que estariam supostamente colocando a “solução de seus problemas”, a realização de um desejo (inconsciente) ou mesmo a busca da própria felicidade na remodelação do próprio corpo. Como se isso imunizasse alguém contra o risco da contaminação pelo HIV.

Para Lipovestsky (2000) “o ideal estético de beleza valoriza tudo que é jovial presente nos vários espaços sociais. O jovem, magro e saudável, a aparência de um corpo jovial e saudável”. Aliciando a idéia de corpo clinicamente saudável à de corpo estético/bonito.

Hoje, o que se observa é uma espetacularização do corpo jovial e aparentemente saudável. Em detrimento ao corpo real ressignificado pelo HIV/AIDS. A idéia que a mídia tenta passar, por meio de revistas, sites de relacionamento homoeróticos, flyers de divulgação etc. É o consumo do padrão estético idealizado, como objeto de desejo e de identificação, sem a devida preocupação com a prevenção contra HIV.

54 CAPÍTULO VI

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O HIV enquanto possibilidade real de contaminação, associada a nossa própria impossibilidade de representar como será a nossa própria morte, vai levar o indivíduo a um excesso pulsional sobre o aparelho psíquico que irá transformar-se em angústia. Angústia e pavor diante do desconhecido, que não foi possível ser falado, simbolizado, não foi transformado em significantes, no próprio verbo.

Segundo Freud (apud MAIA, 2003) “o trauma seria uma experiência que traz ao psiquismo, num curto período de tempo, um incremento de intensidades grande demais para ser absorvida. O transbordamento pulsional, próprio das experiências traumáticas, fará com que o sujeito busque soluções psíquicas possíveis”.

Diante da impossibilidade de simbolização irá prevalecer no registro psíquico do indivíduo a sua impotência e o desamparo. A dor do existir a que estamos submetidos. Na falta de uma rede simbólica, uma articulação com o imaginário e o real, o corpo imaginário não sustenta sentidos do seu entrelaçamento com os dados da realidade. Nesta impossibilidade desta conjunção, os elementos não ficam diferenciados entre si e não determinam um ato no outro.

Nesse caso, inviabiliza que o corpo simbólico ou corpo de significantes inclua o indivíduo numa ordem simbólica, por meio da linguagem e nesta falta aquilo que o corpo quer falar fica incompreendido misturado determinando muitas vezes o aparecimento de sintomas neuróticos.

O que o corpo fala? De um conjunto de elementos que comporta significantes entre si, inconscientes. Tal como nos sintomas das histéricas de Charcot no início do desenvolvimento da Psicanálise, o corpo fala de algo que não é dito explicitamente, mas