Protez Laboratuvarı Hizmetleri
SPL02 Çekirdek
Como observado anteriormente, a análise informatizada realizada pelo programa Alceste à questão “O que, para você, diferencia o Brasil dos demais países? Por quê?” organizou a produção textual dos universitários em duas ramificações. A primeira delas, analisada no item anterior, foi categorizada como “espaço de experiência e horizonte de expectativa” porque apontava tanto os diversos problemas cotidianos como a projeção de que no futuro esses problemas seriam resolvidos.
A segunda ramificação, que responde por 53,3% de todo o material examinado, apresentando o nódulo elementar de sentido “diversidade” associado a dois elementos considerados por Ortiz (2006) como fundacionais da história do Brasil, quais sejam: raça (característico da classe 2) e natureza (característico da classe 3).
Relacionada com a produção dos estudantes de Medicina da região Sul, a classe 2, responsável por 27,0% de todas as UCEs identificadas, apresenta a diversidade ligada, sobretudo, à “mistura racial” fundamentada na integração das diferenças, conforme indicam as seguintes respostas dos universitários:
A mistura de raças, credos e culturas, pois aqui convivem pacificamente pessoas que em seu país de origem viveriam em eterno conflito (Serviço Social, região Sudeste).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
A miscigenação de culturas, raças, falares. É o que nos faz ser diferentes, mas que, em nossas diferenças nos tornamos iguais (Enfermagem, região Centro-Oeste).
A quantidade de raças e culturas diferentes e a aceitação delas (Serviço Social, região Sudeste).
É diferente também por ter tantas diferenças entre as diferentes regiões e nem por isso causa conflitos internos ou externos (Medicina, região Sul).
Para mim, a beleza e a riqueza cultural que nós temos, vivemos com povos de raças e crenças distintas, porém não fazemos guerras e nem conflitos por causa desse fato (Engenharia, região Centro- Oeste).
A preocupação em enfatizar a existência de uma “unidade na diversidade”223 é construída, sobretudo, a partir do século XIX, encontrando-se
presente na maioria das obras históricas analisadas, com o objetivo de afirmar a possibilidade de o país se constituir como uma nação que, contrariamente ao ocorrido nas ex-colônias espanholas, após o processo de independência, evitasse a fragmentação territorial e se consolidasse com dimensões continentais.224 De acordo
com Costa,
deve-se lembrar que até as primeiras décadas do século XX uma questão polarizava o debate político brasileiro, a saber, até que ponto seria possível constituir uma nação unitária e progressista nos trópicos, partindo-se de grupos populacionais tão heterogêneos quanto ex-escravos e seus descendentes, os diversos povos indígenas, imigrantes de diferentes origens e “mestiços” de todos os tons (2001: 144).
Tomando por base a questão da unidade, Martius em Como se deve
escrever a história do Brasil, faz o seguinte alerta: “Nunca esqueça, pois, o historiador
do Brasil, que para prestar um verdadeiro serviço a sua pátria deverá escrever como autor monárquico-constitucional, como unitário no mais puro sentido da palavra”
223
Celso, ao referir-se à natureza, usa a expressão “variedade na unidade”. Segundo esse autor, “não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se das vizinhas: circunspetas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, únicas tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar, pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona, com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí a variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo” (1901: 40 – grifos apostos).
224
A respeito, ver Prado (2001). Segundo Costa (2001), pode-se observar um movimento semelhante no processo de formação nacional em outros contextos latino-americanos. Acerca desse processo na Argentina, ver Shumway (2000), sobretudo o capítulo 5.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
(1982: 105-106).225 Preocupação essa que se prolonga mesmo após a proclamação
da República, indicando que o “fantasma” da fragmentação das ex-colônias espanholas ainda pairava no ar, como pode ser observado no trecho a seguir, escrito por Celso quase oitenta anos após a proclamação da independência brasileira:
E a essa vastidão territorial se aliam a identidade de língua, de costumes, de região, de interesses. Nenhum antagonismo separa os grupos componentes da população. Não nutrem eles aspirações antinômicas, nem conhecem tradições hostis. Nada justifica o receio de que apareçam motivos sérios de dissensão, de modo que o imenso todo se fragmente (1901:13).
Observa-se, nas fontes históricas analisadas, uma tendência em ressaltar a necessidade de buscar pontos comuns relacionados a vários aspectos da vida nacional, tais como composição populacional, hábitos e costumes, geografia e história regional, de modo a construir a idéia de “unidade na variedade” que minimizasse as diferenças regionais. Nesse sentido, Celso é, dentre os autores analisados, o mais enfático:
[...] No Brasil, não há antagonismos entre as partes que o compõem. Cimenta-as, ao contrário, forte solidariedade. O Brasil é perfeitamente homogêneo, material e moralmente, pelo lado social e pelo lado étnico, pois nele se cruzam e se fundem todas as raças. Lucraremos, sem exceção, em permanecer um vasto conjunto intimamente ligado e compacto (1901: 250).
Essa idéia de inexistência de antagonismos representada por meio da fusão harmoniosa dos diferentes grupos que entraram na composição da população brasileira ainda está presente na produção textual dos universitários, como pode ser observado no quadro a seguir que apresenta os traços lexicais mais destacados da classe 2, organizados por ordem decrescente de qui-quadrado, bem como excertos das respostas dos estudantes pesquisados:
225
Em outro trecho: “[...] Enquanto não poucas vezes acontecerá que os estrangeiros tentem semear a cizânia entre os interesses das diversas partes do país, para assim, conforme ao divide et impera, obter maior influência nos negócios do Estado; deve o historiador patriótico aproveitar toda e qualquer ocasião a fim de mostrar que todas as Províncias do Império por lei orgânica se pertencem mutuamente, que seu próprio adiantamento se pode ser mais garantido pela mais íntima união entre elas” (Martius, 1982: 106 – grifos do autor).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
QUADRO 10 - Traços Lexicais Característicos da Classe 2 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como ficção orientadora
Contexto temático: Aspecto racial Traços
lexicais f/classe f/texto x
2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos
universitários226
Raça 45 63
71
,2
5 “Além de inúmeras culturas espalhadas em um único país, há a fusão de todas as raças e o
estabelecimento de uma identidade, a identidade brasileira, que é singular e torna o Brasil um pais único“ (Medicina, região Sul).
Mistura 34 48
51
,2
6 “O Brasil possui uma mistura de culturas, raça, língua, demonstrando assim em cada região do país
as diferentes características” (Pedagogia, região Norte).
Religião 20 24
40
,3
9 “A influência de várias culturas, várias religiões,
vários povos, o que faz de nós uma mescla de tudo que há no mundo“ (Enfermagem, região Sudeste).
Cultura 67 142
39
,5
8 “A sua diversidade de raças e culturas, porque isto nos dá a possibilidade de ter um grande intercâmbio
ou uma grande troca de culturas diferentes dentro do mesmo país” (Engenharia, região Nordeste).
Diferente 41 71
39
,1 “A possibilidade de convivência entre os diferentes,
com paz!” (Medicina, região Nordeste).
Dentre os traços lexicais característicos da classe, observa-se a ênfase atribuída ao binômio “raça”227 e “mistura”, indicando a cristalização do discurso
histórico, construído no século XIX,228 na medida em que ele ainda organiza, na
226
Para outras respostas selecionadas pelo Alceste como correspondentes desta classe, ver Anexo 5. Para os demais traços também associados a esta classe, ver Figura 8 – classe 2.
227
Discutir o significado do termo “raça”, na produção textual dos estudantes, está para além dos objetivos deste estudo. Assim, não foi possível observar se ele é utilizado para indicar a variabilidade biológica humana, se como população ou se como “força”, como “garra”. Contudo, cabe ressaltar que a palavra “étnico”, que de acordo com Martínez-Echazábal (1996) e Santos (1996) teria seu uso mais generalizado, sobretudo após a década de 50 do século XX, de modo a evitar o uso de “raça”, não foi citada pelos respondentes.
228
De acordo com Ortiz, os intelectuais desse período tinham uma questão fundamental a responder: “[...] como tratar a identidade nacional diante da disparidade racial. Do equacionamento deste problema decorre a necessidade de se sublinhar o elemento mestiço [...] O mestiço é para os pensadores do século XIX mais do que uma realidade concreta, ele representa uma categoria através da qual se exprime uma necessidade social – a elaboração de uma identidade nacional” (2006: 20-21).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
atualidade, uma forma de se referir ao Brasil, como mostra a produção textual dos universitários.
De fato, a idéia de “mistura das raças” como eixo formador de uma interpretação para a história do Brasil229 foi proposta, formalmente, no projeto Como se deve escrever a história do Brasil, escrito por Martius e premiado pelo Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB),230 em 1844, como o melhor trabalho do
concurso de mesmo nome. Em sua obra, esse autor advertia que
Qualquer que se encarregar de escrever a história do Brasil, país que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos que aí concorrerão para o desenvolvimento do homem.
São porém estes elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergida de um modo particular três raças, a saber: a de cor de cobre, ou americana, a branca ou caucasiana, e, enfim, a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla das relações mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história, por isso mesmo, tem um cunho muito particular” (1982: 87).
Para esse autor, o que caracterizava o Brasil não era sua natureza, mas, justamente, sua composição racial, considerada por ele como peculiar,231 apesar
de reconhecer que essa “mistura” ocorreu também com outros povos, porque
tanto a história dos povos quanto a dos indivíduos nos mostram que o gênio da História (do mundo), que conduz o gênero humano por caminhos, cuja sabedoria sempre devemos reconhecer, não poucas vezes lança mão de cruzar as raças para alcançar os mais sublimes fins na ordem do mundo. Quem poderá negar que a nação inglesa deve sua energia, sua firmeza e perseverança a essa mescla dos povos céltico, dinamarquês, romano, anglo-saxão e normando! (Martius, 1982: 88).
229
Munanga considera que, “nesse debate de idéias, a miscigenação, um simples fenômeno biológico, recebeu uma missão política da maior importância, pois dela dependeria o processo de homogeneização biológica da qual dependeria a construção da identidade nacional brasileira” (2002: 10). Sobre esse processo e sobre as concepções de raça e mestiçagem presentes no pensamento social brasileiro, ver DaMatta (1990), Schwarcz (1993 e 1995), Maggie (1996) e Seyferth (1996). Para uma análise dessas mesmas concepções, a partir de uma perspectiva psicossocial, ver Carone e Bento (2002).
230
Criado em 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi “[...] a instituição que mais se empenhou em difundir o conhecimento do país, ao mesmo tempo em que buscava transmitir uma identidade particular [...] Entre suas atribuições estavam a coleta de documentos históricos e o ensino de história pátria, para o que contava com filiais nas províncias” (Carvalho, 2005: 241). Para informações sobre a formação e perfil dos institutos históricos, ver Schwarcz (1993).
231
De acordo com Martius: “Jamais nos será permitido duvidar que a vontade da providência predestinou ao Brasil esta mescla. O sangue português, em um poderoso rio, deverá absorver os pequenos confluentes das raças índia e etiópica. Na classe baixa tem lugar esta mescla, e como em todos os países se formam as classes superiores dos elementos das inferiores, e por meio delas se vivificam e fortalecem, assim se prepara atualmente na última classe da população brasileira essa mescla de raças, que daí a séculos influirá poderosamente sobre as classes elevadas, e lhes comunicará aquela atividade histórica para a qual o Império do Brasil é chamado” (1982: 88).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
Segundo Abud, foi por meio do trabalho de Martius que se organizou “[...] uma forma de se (sic) construir a História nacional através da hierarquização de alguns fatos que deviam ser centros explicadores, em torno dos quais todo um conjunto de acontecimentos passava a ser referido” (1998: 31). Nesse sentido, ainda que Martius não tivesse apenas enfatizado a necessidade de abordar a formação étnica no Brasil,232 apesar de esta aparecer como central na sua argumentação, é
inegável que essa idéia influenciou não só os intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas também os lentes do Colégio Imperial D. Pedro II, quase todos membros do próprio Instituto, que passam a utilizar seu trabalho como modelo para a composição dos manuais didáticos e para a elaboração dos programas de História que serviam não apenas às aulas do próprio Colégio, mas, também, às escolas primárias de todo o país (cf. Mattos, 1993), o que, de certo modo, colocava em circulação a produção do Instituto em uma época em que a escola era percebida “[...] canal de formação dos filhos da elite – por conseguinte, de reforço do cimento ideológico – e, conseqüentemente, de difusão dos valores dominantes pela sociedade” (Callari, 2001: s.p.).
É nesse contexto que se inserem tanto a produção de Varnhagen, voltada para a escrita da história, como a de Macedo, focada na difusão e ensino dessa disciplina, e o tema da miscigenação não deve ter passado despercebido por este último, ainda que, na obra analisada, não haja referência explícita a essa questão (cf. Anexo 3). 233
Para Varnhagen, o principal vetor da fusão foi a mulher indígena que, ao preferir o hábito dos civilizados, fez com que o seu grupo original desaparecesse, não por extermínio ou violência, mas pelos sucessivos cruzamentos: “[...] a gente de origem européia posta em contato com a da terra não a exterminou, absorveu-a:
232 Abud ressalta que Martius destacou também “[...] o papel dos portugueses no descobrimento e
colonização, compreendido somente em conexão com suas façanhas marítimas, comerciais e guerreiras. Foi von Martius também quem lembrou que não se poderia perder de vista o desenvolvimento civil e legislativo e os movimentos do comércio internacional. Apontou para a importância da transferência para o Brasil das instituições municipais portuguesas e o desenvolvimento que tais instituições tiveram. Destacou o papel dos jesuítas na catequese e na colonização e a importância de se estudar as relações entre a Igreja Católica e a Monarquia. Mostrou ainda o interesse que havia em se conhecer o desenvolvimento das ciências e das artes e os aspectos da vida dos colonos. Para evitar uma possível regionalização, sugeriu que se agrupassem regiões com características semelhantes e histórias convergentes (Rodrigues)” (1998: 30-31).
233 Apesar de não ser objetivo deste trabalho investigar as peculiaridades da obra de Macedo, ela é
destoante das demais fontes analisadas visto que a questão da diversidade, independentemente do conteúdo que lhe é associado, não aparece nela descrita a não ser uma única vez referida à natureza, conforme pode ser observado no Anexo 3.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
amalgamou-se com ela. Tal é a verdadeira razão por que de nossas províncias desapareceu quase absolutamente o tipo índio” (1975: 246 – t. 1).
Entretanto, se Martius tende a ver com certa indulgência a mestiçagem, Varnhagen é taxativo:
Com a colonização africana, distinta principalmente pela sua cor, veio para o diante a ter tão grande entrada no Brasil, que se pode considerar hoje como um dos três elementos de sua população, julgamos do nosso dever consagrar algumas linhas neste lugar a tratar da origem desta gente, a cujo vigoroso braço deve o Brasil principalmente os trabalhos do fabrico do açúcar, e modernamente os da cultura do café; mas fazemos votos para que chegue um dia em que as cores de tal modo se combinem que venham a desaparecer totalmente no nosso povo os característicos da origem africana, e por conseguinte a acusação da procedência de uma geração, cujos troncos no Brasil vieram conduzidos em ferros do continente fronteiro, e sofreram os grilhões de escravidão, embora talvez com mais suavidade do que em nenhum outro país da América, começando pelos Estados Unidos do Norte, onde o anátema acompanha não só a condição e a cor como a todas as suas gradações (1975: 223 – t. 1).
Respondendo, de certa forma, àqueles que partilhavam da tese das teorias raciais européias que viam, na miscigenação, a causa de todos os males do país (tais como Raimundo Nina Rodrigues, Silvio Romero, bem como o próprio Varnhagen),234 Celso (1901) a coloca como um dos motivos de orgulho,
fundamentando-a, sobretudo, em dois aspectos que podem ser aqui descritos como síntese e harmonia. O primeiro deles refere-se à idéia de que o mestiço, produto dessa fusão, conteria a síntese das características positivas presentes em cada uma das raças que lhe deram origem, o que vai na direção oposta de duas idéias presentes na época em questão: a de que ele seria incapaz ou fraco por ser híbrido e a tendência de hierarquizar a contribuição de cada uma das “raças”, como fizeram, por exemplo, Martius235 e Varnhagen:
234
Em vários momentos do seu texto, Martius recomenda ao historiador do Brasil que saliente a mistura de raças como uma das originalidades do país, chegando mesmo a afirmar que “Pode-se dizer que cada uma das raças compete, segundo sua índole inata, segundo as circunstâncias debaixo das quais ela vive e se desenvolve, um movimento histórico característico e particular. Portanto, vendo nós um povo novo nascer e desenvolver-se da reunião e contato de tão diferentes raças humanas, podemos avançar que a sua história se deverá desenvolver segundo uma lei particular das forças diagonais” (1982: 87). Conforme observa Carvalho, “[...] embora as teorias racistas ainda não se tivessem difundido no país, também não se assumia inequivocamente a contribuição positiva da população negra, a não ser para a economia do país” (2005: 245).
235 Ainda que Martius colocasse a idéia de “miscigenação” como central na história do Brasil, pois, de
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
É hoje verdade geralmente aceita que, para a formação do povo brasileiro, concorreram três elementos: o selvagem americano, o negro africano e o português. Do cruzamento das três raças resultou o mestiço que constitui mais da metade da nossa população. Qualquer daqueles elementos, bem como o resultante deles, possui qualidades de que nos devemos ensoberbecer. Nenhum deles fez mal à humanidade ou a deprecia (Celso, 1901: 77).
O segundo aspecto, que trata a mestiçagem como fator de harmonia, deve-se ao fato de sua ocorrência indicar uma capacidade, própria dos brasileiros de harmonizar as diferenças: “Homens de não importa que procedência encontram também no Brasil, escolhendo zona, meio adequado para prosperar. Negros, brancos, peles-vermelhas, mestiços vivem aqui em abundância e paz” (Celso, 1901: 10). Em outro trecho já citado:
No Brasil, não há antagonismos entre as partes que o compõem. Cimenta-as, ao contrário, forte solidariedade. O Brasil é perfeitamente homogêneo, material e moralmente, pelo lado social e pelo lado étnico, pois nele se cruzam e se fundem todas as raças. Lucraremos, sem exceção, em permanecer um vasto conjunto intimamente ligado e compacto (1901: 250).
Capacidade essa que parece habitar ainda hoje o senso comum dos universitários pesquisados, na medida em que são várias as respostas que expressam essa harmonização, por exemplo, as transcritas abaixo:
A mistura de raças, credos e culturas, pois aqui convivem pacificamente pessoas que em seu país de origem viveriam em eterno conflito (Serviço Social, região Sudeste).
E
A miscigenação de culturas, raças, falares. É o que nos faz ser diferentes, mas que em nossas diferenças, nos tornamos iguais (Enfermagem, região Sudeste).
Ainda que os universitários indiquem a manutenção da mistura racial como distintiva do Brasil perante os demais países, mantendo de certa forma a interpretação construída no século XIX, as respostas não dão conta de indicar como os estudantes interpretam o termo “raça”: se pautado na diferenciação cultural ou se como categoria biológica. O que é possível constatar é que raça refere-se à idéia de um Brasil diverso populacionalmente, na medida em que, de acordo com Hall,
naturalmente, o caráter não científico do termo “raça” não afeta o modo “como a lógica racial e os quadros de referência raciais são
esta mescla” (1982: 88), ele não atribuía a cada uma das “raças” (a branca, a negra e a índia) nem as mesmas características nem o mesmo papel na constituição da população brasileira.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
articulados e acionados, assim como não anula suas conseqüências (Donald e Rattansi, 1992, p. 1). Nos últimos anos, as noções biológicas sobre raça, entendida como constituída de espécies