Hasta Bakımı
SHB07 Çekirdek
Dividida em duas classes e contemplando 46,7% de todo o material analisado, esta ramificação permite interpretar a diversidade como espaço de experiência e horizonte de expectativa, na medida em que a singularidade do país ora se concentra na variedade dos problemas cotidianos (classe 1), ora se mostra relacionada a uma expectativa de que, no futuro, esses problemas serão resolvidos (classe 4).
Categorizada como “variedade de problemas” e respondendo por 18,1% de todas as UCEs identificadas, a classe 1 foi associada, independentemente do curso, aos universitários das regiões Norte e Nordeste do país, o que supõe que, ou nessas localidades os problemas apontados são mais agudizados, ou que os estudantes são mais críticos em relação a eles.
Trata-se de um discurso que faz referência direta ao cotidiano, conforme pode ser observado na seleção dos traços lexicais mais característicos da classe,204 organizados por ordem decrescente de qui-quadrado, bem como nos
extratos das respostas dos universitários visualizados no quadro a seguir:
204
Para a seleção da lista de palavras que compõem o vocabulário específico de cada uma das quatro classes geradas pelo programa Alceste, foram utilizados três critérios simultâneos: 1) seleção das palavras não-instrumentais com média maior que 7 (critério lexicográfico dado pelo próprio programa quando no passo A2 – cálculo do dicionário, em que este indica a freqüência média por palavra); seleção do qui-quadrado (coeficiente de associação da palavra à classe em questão) com valor maior que 3,84, pois, de acordo com Camargo, “[...] o cálculo deste teste estatístico é feito com base em uma tabela com grau de liberdade igual a 1” (2005: 520); e freqüência da palavra na classe e no corpus em geral. Nesse sentido, são apresentadas aqui apenas as palavras mais significativas da classe. Para visualizar todas as palavras, ver Anexo 5.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
QUADRO 7 - Traços Lexicais Característicos da Classe 1 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como espaço de experiência e horizonte de expectativa
Contexto temático da classe: Variedade de problemas
Traços lexicais f/classe f/texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários205
Desigualdade 36 50
10
8,
13 A desigualdade social, miséria, desemprego, violência, tráfico de drogas etc. Porque em países desenvolvidos até
há problemas mas não como no Brasil” (Serviço Social, região Sul).
Violência 22 25
86
,5
5
“Apesar de que ainda falta o mais importante, reconhecerem que só Jesus pode tirar tudo de ruim, como: violência, desigualdade e outros. A partir do momento que todos reconhecerem que só Ele é digno de toda confiança e de toda adoração, pois por mais que o nosso presidente queira mudar, ele não vai conseguir pois ele é falho” (Enfermagem, região Nordeste).
Falta 12 13
49
,5
8
“Além da biodiversidade, é a falta de uma política que fosse comprometida com sua população, para melhorar essa situação que o Brasil passa como o analfabetismo, a fome, a violência e a forte concentração de renda” (Serviço Social, região Norte).
Educação 13 15
49
,0
3 “Desigualdade e estratificação social porque a desigualdade é a marca forte e a estratificação social é
devido ao fato de pobres não terem boa educação, sendo impossibilitados de subirem seu padrão de vida” (Engenharia, região Sudeste).
Fome 13 15
49
,0
3 “Além da biodiversidade e da falta de uma política séria comprometida com sua população para melhorar essa
situação que o Brasil passa como o analfabetismo, a fome, a violência e a forte concentração de renda” (Serviço Social, região Norte).
Corrupção 10 10 46,2
“O calor tropical do Brasil, a alegria de viver das pessoas, a injustiça e a grande desigualdade social, a corrupção e o carnaval” (Pedagogia, região Centro-Oeste).
Os traços lexicais característicos desta classe indicam que a diferenciação do Brasil em relação aos demais países pauta-se por aspectos caracterizados como “problemas” pelos universitários e que podem ser agrupados da seguinte forma: sociais (desigualdade, educação, fome e distribuição de renda),
205
Para outras respostas selecionadas pelo Alceste como correspondentes desta classe, ver Anexo 5. Para os demais traços também associados a esta classe, ver Figura 8 – classe 1.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
políticos (corrupção e falta de compromisso) e violência, incluída aqui como categoria única pelo destaque que apresenta no contexto da classe.
Estes resultados assemelham-se àqueles encontrados quando da análise da questão “Por que tudo isso é Brasil?”, em que também são citados problemas diversos como definidores do país.206 Outro aspecto comum às duas
questões analisadas refere-se ao modo como os universitários abordam a ação do governo, verbalizado em frases como:
[...] falta uma política comprometida com a sua população para melhorar essa situação que o Brasil passa com o analfabetismo, a fome, a violência e a forte concentração de renda (Serviço Social, região Norte).
[...] pessoas que são reprimidas pela inteligência de nossos políticos que conseguem monopolizar parte da mídia para impor à população que ela é burra (Engenharia, região Centro-Oeste).
A exclusão social, os governantes ladrões, tem o lado bom, de ser um povo abençoado por Deus... (Serviço Social, região Norte).
Portanto, embora a existência de uma classe nas duas questões analisadas que reúne um discurso que associa diversidade à variedade de problemas possa indicar, em um primeiro momento, um posicionamento político crítico por parte dos universitários, respostas como as transcritas acima deixam subentendido que a responsabilidade desses problemas é do governo, cuja ação é caracterizada pela “falta” (de comprometimento, de responsabilidade, de políticas públicas etc.) e pela corrupção em geral.207
De fato, essa idéia de responsabilizar o governo pelos problemas do país já aparece em uma das fontes históricas analisadas. Em Porque me ufano do
meu paiz, Celso (1901), após descrever os motivos geradores de orgulho para os
brasileiros – sinteticamente resumidos em natureza, povo e história –, alerta para os dois únicos perigos que, segundo ele, espreitam o Brasil em sua jornada rumo ao sucesso: “maus governos e instituições incompatíveis com sua índole” (1901: 249),208
206 A respeito, ver item 3.1.1 do presente capítulo.
207
A esse respeito, Carvalho (2002) comenta que dados de 1959 acerca dos Estados Unidos e da Inglaterra apontam que 85% dos americanos e 46% dos britânicos tinham as instituições políticas como fonte de orgulho, enquanto no Brasil uma pesquisa de opinião pública realizada por empresa especializada em 1995, em âmbito nacional, indica que somente 10% dos brasileiros mencionam tais instituições como motivo de orgulho.
208 Ainda que, para Celso (1901), os problemas eminentes do país sejam distintos daqueles apontados
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
como se o governo fosse uma entidade própria, ontologizada que, por isso mesmo, não comungaria dos “nobres predicados do caráter nacional”:209
[...] ponderai tudo isso e reconhecereis que o Brasil oferece imensas vantagens à economia geral do gênero humano, e repetireis, com Robert Southey,210 que só a mais extrema e obstinada prevaricação da parte do governo, ou a mais cega e culpável impaciência da (sic) do povo poderão subverter a influência e a prosperidade do Brasil (Celso, 1901: 64 – grifos apostos).
É possível entrever, na responsabilização do governo pela existência da variedade de problemas que identificam e diferenciam o Brasil dos demais países, uma omissão por parte dos universitários em relação ao cenário político, caracterizando aquilo que Carvalho (1998) diagnosticou como “condescendência com os problemas do Estado”, uma vez que os estudantes não se colocam como sujeitos da ação política.
Disso resulta que a diversidade de problemas é compreendida como externa ao brasileiro, considerado como povo pacífico, bom, ordeiro211 e que, “apesar
de tudo”, tem esperança em um futuro melhor, característica esta identificada, sobretudo, à classe 4, também originária desta primeira ramificação e que passa a ser analisada a seguir.
Respondendo por 28,6% de todo o material examinado, a produção textual da classe 4 é associada, majoritariamente, à região Centro-Oeste do país e se destaca pela presença dos termos “povo”, “dificuldades” e “esperança”, e o que promove a conexão entre as características psicossociais do primeiro (povo alegre, esperançoso, pacífico) e a natureza variada do segundo (dificuldades das mais diversas ordens) é a expressão “apesar de”. Ou seja, a diversidade se caracteriza pela presença de um povo que, “apesar de” todos os problemas e dificuldades, é feliz e tem esperança de que a situação melhore, como pode ser observado nos seguintes excertos da produção dos universitários quando solicitados a indicar o que diferencia o Brasil dos demais países:
Estados e com a eventual intervenção de alguma potência estrangeira, o fato é que também ele tende a responsabilizar o governo pela existência dessas questões.
209
Título dado ao capítulo XXII do livro Porque me ufano de meu paíz, de Celso (1901), que discorre sobre o sétimo motivo da superioridade do Brasil perante os demais povos.
210
Referência à obra do poeta inglês, History of Brazil, impressa em três volumes entre 1810 e 1819.
211 Reporta-se aqui à descrição de Celso (1901) sobre o caráter nacional do brasileiro, destacado por
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
Seu povo. Porque é um povo sofrido mas feliz e, ao mesmo tempo, fiel ao próximo e é muito acolhedor com o visitante, seja ele qual for (Engenharia, região Centro-Oeste).
As pessoas, pois é um povo que tem força de vontade, que luta, que enfrenta. Um país de gente feliz e ao mesmo tempo que sofre com todos os problemas e, principalmente com a violência, mas mesmo assim persistem e tentam ser felizes (Enfermagem, região Centro- Oeste).
A diversidade aqui é associada não à variedade, como na classe anterior, mas sim à contradição, como pode-se observar nos traços lexicais prototípicos desta classe, organizados em ordem decrescente de qui-quadrado, bem como nos excertos das respostas dos estudantes visualizados no quadro a seguir:
QUADRO 8 - Traços Lexicais Característicos da Classe 4 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como espaço de experiência e horizonte de expectativa
Contexto temático da classe: Expectativa mediada pela oposição Traços
lexicais f/classe f/texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários212
Povo 91 169
75
,8
9 “O povo. É um povo receptivo, caloroso e que, apesar das mazelas do país, ainda consegue sorrir
e viver alegre. Infelizmente somos pessoas acomodadas” (Medicina, região Nordeste).
Dificuldades 30 36
56
,3
7 “A sua alegria e capacidade para superar dificuldades, não existe outro país tão alegre e
festivo e que apesar dos problemas tenta contornar esta situação sorrindo e trabalhando” (Medicina, região Nordeste).
Esperança 19 21
40
,8
3
“O povo brasileiro, pois, apesar de todas as dificuldades continuam lutando sem perder a alegria a esperança de um dia ver nosso país aonde realmente merece” (Engenharia, região Centro- Oeste).
Alegria 44 74
39
,7
3
“A sua alegria e capacidade para superar dificuldades. Não existe outro país tão alegre e festivo e que apesar dos problemas tenta contornar esta situação sorrindo e trabalhando” (Medicina, região Nordeste).
Apesar de 34 52
37
,9
3 “O povo. Porque apesar de todas as dificuldades ainda luta por um futuro mais digno e acredita que
um dia tudo vai mudar” (Enfermagem, região Nordeste).
212
Para outras respostas selecionadas pelo Alceste como correspondentes desta classe, ver Anexo 5. Para os demais traços também associados a esta classe, ver Figura 8 – classe 4.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
Apesar de a palavra “povo” ser a mais representativa desta classe, a observação do contexto em que ela é utilizada, como sinalizam os excertos da produção textual dos universitários indicados no quadro acima, mostra uma auto- imagem dos brasileiros como acomodados, ainda que festeiros:
“É um povo receptivo, caloroso e que, apesar das mazelas do país, ainda consegue sorrir e viver alegre. Infelizmente somos pessoas acomodadas (Medicina, região Nordeste).
Ou seja, a diversidade se expressa aqui por meio do comportamento do povo que sofre, mas que, ao mesmo tempo, é feliz. Essa relação entre sofrimento e alegria foi analisada por Carvalho da seguinte forma:
Pode-se perguntar se não há contradição das pessoas que anotaram ao mesmo tempo sofrimento e alegria. Parece-me que não. Sofredor pode indicar a idéia de vítima do governo, das circunstâncias, do destino. A alegria seria a maneira de enfrentar a desgraça. O brasileiro seria um sofredor conformado e alegre. Descrição perfeita desta autopercepção é o nome de um bloco carnavalesco do Recife: “Nóis sofre mas nóis goza”. Isto, do ponto de vista moral e psicológico, não compromete, a não ser que se queira ver aí traços de masoquismo. Mas, do ponto de vista político e cívico, é a própria definição do não-cidadão, do súdito que sofre, conformado e alegre, as decisões do soberano. O povo se vê como vítima, como paciente e não como agente da história (1998: s.p.).
Não obstante os universitários terem sido críticos no diagnóstico dos problemas brasileiros, suas respostas indicam que eles não se representam nem como agentes diretos nem como indiretos da ação política, algo já observado anteriormente em relação à classe 1 associada a esta mesma ramificação. De acordo com um estudante:
O povo é alegre, solidário e unido. Por mais difícil que seja a situação, há sempre um sorriso e uma esperança! Parece meio utópico, mas é o que eu vejo (Medicina, região Sul).
Acredita-se que essa posição, que pode ser caracterizada como de “não-cidadão” (cf. Carvalho, 1998), guarde relações com a representação, difundida desde o século XIX, da inevitabilidade do sucesso brasileiro. 213 De acordo com Celso,
os problemas do país poderiam retardar, “[...] mas nunca impedir a predestinação do país a grandes coisas” (1901: 65). Isto é particularmente observável nesta ramificação que apresenta elementos que permitem indicar uma dissociação entre povo e governo,
213
De fato, essa idéia de predestinação do país ao sucesso não é recente. Assentada no denominado mito sebastiânico, ela aparece reatualizada em vários momentos da história do Brasil. A respeito, ver Fico (1997) e Carvalho (2002).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
que pode ser equacionada da seguinte forma: como o povo não se vê como responsável pelo cenário político causador dos problemas do país, a ele cabe aguardar por um futuro melhor advindo não da ação política, mas da fé ou da epifania. Aliás, a associação entre esperança e Brasil já aparece de forma taxativa em Celso que chega mesmo a afirmar que
[...] Não temos o direito de desanimar nunca. Assiste-nos o dever de confiar sempre. Desanimar no Brasil equivale a uma injustiça, a uma ingratidão; é um crime. Cumpre que a esperança se torne entre nós, não uma virtude, mas estrita obrigação cívica [...]. Confiemos. Há uma lógica imanente: de tantas premissas de grandeza só sairá grandiosa conclusão (1901: 256-257 – grifos apostos).
Ou seja, a expectativa de um futuro melhor não se ancora em uma ação efetiva, realizada por agentes históricos. Ao contrário, ela opera por milagre. Nesse sentido, é sintomático que uma pesquisa realizada pelo Instituto Vox Populi há mais de uma década214 indique que, em relação ao espaço público, os brasileiros confiam mais
nos líderes religiosos do que nos líderes políticos ou sindicais (cf. Carvalho, 1998). Mesmo que esta questão não apareça na produção textual analisada, a evocação da fé e da credulidade aparece associada, nas respostas dos universitários, à possibilidade de um futuro melhor, como pode ser observado nos seguintes trechos:
Há, como falei, o fato de sermos um país onde vários povos podem morar, não temos problemas de catástrofes, guerras, somos pessoas de fé por dias melhores, mais humanos e aconchegantes que outros países (Serviço Social, região Centro-Oeste).
Além disso, a alegria e credulidade do nosso povo, que sempre acredita que as coisas tendem a melhorar (Medicina, região Sudeste).
O fato de termos grande potencial em recursos humanos, ótimos profissionais, de sermos um povo alegre que acredita sempre que as coisas vão melhorar, mesmo que pareça difícil (Engenharia, região Sudeste).
As análises realizadas até o momento permitem indicar que a diversidade, enquanto nódulo elementar de sentido das atuais representações sociais de Brasil, ora é expressa por meio da natureza variada dos problemas que distinguem o país dos demais, ora exprime uma oposição, na medida em que identifica um cotidiano problemático, ao mesmo tempo alegre, porque ancorado na fé e na
214 Em 1995, a revista Veja encomendou uma pesquisa de opinião pública junto ao Instituto Vox Populi, a
qual foi publicada em 1996, com o objetivo de identificar o que os brasileiros pensavam de si mesmos e do Brasil. Para discussão dos dados dessa pesquisa, ver Carvalho (1998).
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
esperança de um futuro melhor, cuja síntese é a expressão “feliz, apesar de”, o que permite interpretá-la como “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”, conforme será apresentado a seguir.
QUADRO 9 - Diversidade como Espaço de Experiência e Horizonte de Expectativa
Fusão de horizontes interpretativos Contexto temático Traços lexicais característicos das classes Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários
Contexto de uso – excertos das fontes históricas do século XIX
Variedade de problemas (classe 1) Desigualdade Violência Falta Educação Fome Corrupção
“A desigualdade social, a
miséria, desemprego,
violência, tráfico de drogas etc. Porque em países
desenvolvidos até há
problemas, mas não como no Brasil” (Serviço Social, região Sul).
“Nenhum problema insolúvel,
nenhum perigo inevitável ameaça o desenvolvimento do Brasil. Não vive ele, como os países de Europa, sob a pressão de questões irritantes e conflitos
iminentes com os vizinhos.
Apenas duas apreensões
assaltam o espírito de quem medita sobre os seus destinos, se continuar a ter maus governos e instituições incompatíveis com a
sua índole. São essas
apreensões: separação do
território nacional em vários Estados; intervenção nos seus negócios de alguma potência estrangeira” (Celso, 1901: 249). Expectativa mediada pela oposição (classe 4) Povo Dificuldades Esperança Alegria Apesar de
“O povo brasileiro, pois,
apesar de todas as
dificuldades continua
lutando sem perder a alegria, a esperança de um dia ver nosso país onde ele
merece” (Engenharia,
região Centro-Oeste).
“[...] Não temos o direito de desanimar nunca. Assiste-nos o
dever de confiar sempre.
Desanimar no Brasil equivale a uma injustiça, a uma ingratidão; é um crime. Cumpre que a esperança se torne entre nós, não uma virtude, mas estrita obrigação cívica” (Celso, 1901: 256-257).
Retiradas da obra Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos, do historiador alemão Reinhart Koselleck (2006a), “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” são categorias históricas pelas quais organizamos nosso mundo em um processo temporal em que a experiência refere-se à tradição recebida ou vivenciada que informam o presente e, a expectativa, à projeção futura (cf. Pereira, 2004).
O uso, portanto, dessas categorias para nomear a ramificação apresentada pelo Alceste obriga a que se realize uma breve discussão sobre esses dois conceitos, de modo a compreender seu uso na análise do nódulo elementar de sentido “diversidade” que organiza as atuais representações sociais de universitários
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
dos cursos de Enfermagem, Engenharia, Medicina, Pedagogia e Serviço Social sobre Brasil.
Ainda que preocupado com a semântica dos tempos históricos, Koselleck (2006a), taxativamente, opta por não realizar, nessas categorias, uma análise pautada naquilo que ele faz com as demais, contrariando, com isso, a própria exigência metodológica deduzida de sua história dos conceitos.215 Isso porque, de
acordo com o autor, “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa” são categorias formais de conhecimento que fundamentam a possibilidade de uma história, sem contar que, ao contrário de expressões como “economia escravista antiga”, “reforma” etc., elas não transmitem uma realidade histórica a priori, pois “[...] todas as histórias foram constituídas pelas experiências vividas e pelas expectativas das pessoas que atuam ou que sofrem. Com isto, porém, ainda nada dissemos sobre uma história concreta – passada, presente ou futura” (2006: 306). 216 Como define o
próprio Koselleck,
a experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional quanto as formas inconscientes de comportamento, que não estão mais, ou que não precisam mais estar presentes no conhecimento. Além disso, na experiência de cada um, transmitida por gerações e instituições, sempre está contida e é conservada uma experiência alheia. Nesse sentido, também a história é desde sempre concebida como conhecimento de experiências alheias (2006a: 309-310).217
215 Sobre as exigências metodológicas da história dos conceitos, ver Koselleck (2006a e 1992), Feres
Júnior (2005), Jasmin e Feres Júnior (2006) e Feres Júnior e Jasmin (2007).
216 De acordo com Koselleck, as categorias experiência e expectativa contêm um alto grau de
generalidade, equivalendo-se às categorias de espaço e de tempo na medida em que se pode afirmar que “(...) todas as categorias que falam de condições de possibilidade histórica podem ser utilizadas individualmente, mas nenhuma delas é concebível sem que esteja constituída também por experiência e expectativa. Assim, nossas duas categorias indicam a condição humana universal; ou, se assim o quisermos, remetem a um dado antropológico prévio, sem o qual a história não seria possível, ou não