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Diante do exposto, a afirmação de que toda representação social possui uma história é algo trivial e não gera controvérsias,90 apesar de Rouquette e Guimelli

apontarem que “[...] a historicidade das representações geralmente não é levada em consideração nos trabalhos empíricos, em que se trata, na maior parte do tempo, da realização de uma análise do estado atual da representação e, portanto, não se pesquisa sua origem” (1994: 260).91

Por outro lado, a análise da dinâmica representacional, bem como dos mecanismos que a determinam, faz com que o estudo dos fatores históricos seja, segundo esses mesmos autores, inevitável. Assim, o estudo da historicidade da representação possibilita não apenas a compreensão de sua estruturação, como desenvolvido no tópico anterior, mas também a identificação das diferentes fases e mecanismos acessados nesse processo (Moliner, 2001a), além de permitir investigar quais elementos do passado se integram às novas práticas sociais (Roussiau e Bonardi, 2002).

Nesse sentido, a relação entre a dimensão histórica e o conteúdo das representações é fundamental, uma vez que os elementos que o constituem referem- se, ainda que não exclusivamente, ao passado, ficando estocados na memória para serem acessados quando as representações sociais são mobilizadas.92 É nesse

89 Segundo Bertrand (2002), Robert e Faugeron, ao analisarem as representações sociais de justiça e

delinqüência, intitulam esses traços históricos de “conservas culturais” (conserves culturelles).

90 A afirmação do caráter histórico da representação apresenta, segundo Moliner (2001a), três

conseqüências teóricas: a primeira é de que é possível que uma determinada representação perdure por um tempo no ambiente social, apesar de o objeto que lhe deu origem, ou seu valor social, já ter desaparecido; a segunda, é que as representações sociais, tomadas em uma perspectiva histórica, se apresentam como memórias coletivas; a terceira conseqüência é que, às vezes, as representações sociais podem prefigurar os contornos futuros de um objeto, ou seja, a representação pode tornar-se expressão de uma aspiração social desejosa de novas configurações acerca de um determinado objeto.

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Cf. original: “[...] l’historicité des représentations n’est généralement pas prise en considération dans les travaux empiriques, où il s’agit la plupart du temps de procéder à une analyse de leur état actuel, déjà constitué et dont on ne recherche pas la genèse”.

92 Para mais informações acerca da relação entre memória social e representações sociais, ver Roussiau

Uma abordagem da historicidade das representações sociais

sentido que Rouquette pensa a dimensão histórica das representações sociais relacionando-a ao seu conteúdo, ou seja, é a partir do jogo entre a manutenção de determinados elementos e a mudança de outros que ocorre a evolução de um estado anterior para um novo estado das representações sociais, e essa seleção de elementos pode ser motivada tanto pelas transformações sociais quanto pelas grupais (apud Roussiau e Bonardi, 2002).

É por isso que se pode afirmar que as fases das representações sociais, em que se tem a atuação de diferentes mecanismos, são dadas tanto pela história particular do próprio objeto representacional como pela história do grupo que o constitui enquanto objeto de representação social. De acordo com Moliner (2001a), as representações sociais tendem a passar, em sua história, por três fases distintas:93 a

fase de emergência, em que há uma mediação entre a existência de determinado objeto e o surgimento de saberes estáveis e consensuais ligados a ele, sendo que, nesta etapa, os indivíduos buscariam informações sobre esse objeto na tentativa de reduzir sua complexidade em face do estranhamento por ele causado;94 a fase de

estabilidade, em que a representação torna-se um saber consensual (ao menos no núcleo) e operacional sobre um determinado aspecto do meio social do grupo; e, por fim, a fase de transformação em que os saberes mais antigos se relacionam com os mais novos. Essas fases articulam-se diretamente com a história do grupo na medida em que esta sempre é convocada para apoiar a compreensão dos objetos estranhos que têm que ser naturalizados. Assim, no início de uma representação, o processo representacional se apoiaria em processos sociocognitivos e, no período de estabilidade ou de transformação, seriam os mecanismos de defesa os mais mobilizados.

Em relação ao grupo, tem-se que, se um dado objeto está inscrito em sua história, suas representações sociais poderão ser mantidas, ainda que o objeto tenha perdido todo seu valor social (cf. Roussiau e Bonardi, 2002). Contudo, não é

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Sobre as estratégias específicas de pesquisa para identificar as diferentes fases das representações sociais, ver Moliner (2001a).

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É nessa fase que ocorrem os processos de ancoragem e de objetivação que integram um objeto dado em domínios de conhecimento já existentes, tanto em relação aos discursos espontâneos como também nas produções escritas. Durante o período de emergência de uma representação cada indivíduo cria suas hipóteses e elabora sua própria teoria, nesse sentido, a variedade de elementos presentes na representação pode ser indicador dessa fase. Contudo, não se pode esquecer que o fato de os discursos serem muito divergentes pode assinalar também uma falta de processo representacional (cf. Moliner, 2001b).

Uma abordagem da historicidade das representações sociais

porque um determinado objeto representacional seja “antigo” que ele conserva uma espécie de cota ligada à história do grupo. Assim,

O passado recente dos objetos novos deveria, teoricamente, permitir determinar o ponto zero da memória individual ou coletiva relacionada a esses objetos. Ora, se se olhar mais detidamente, é possível observar, de um lado, a presença, nas representações recentemente formadas, de alguns referenciais tornados históricos pelos novos usuários (motores de pesquisa, sites, Web, fóruns...) [...] e, de outro lado, de referenciais mais antigos associando o objeto novo aos objetos existentes ou em vias de desaparecimento, tais como a máquina de escrever, o telefone ou o correio. Aqui, é por intermédio de um tipo de capilaridade que os objetos novos adquirem uma memória social que é a dos objetos antigos. Ora, mais precisamente, essa “memória” foi transferida, adaptada e estendida dos objetos antigos em direção aos novos, não se trata ainda de uma memória social estruturada, mas, sobretudo, de empréstimos colhidos uns dos outros, que não adquirem um sentido verdadeiro senão após uma inscrição temporal mais longa (Roussiau e Bonardi, 2002: 44- 45).95

Nesse sentido, as fases são mais observáveis em relação aos conteúdos da representação, haja vista que “a representação é, ao mesmo tempo, um produto do devenir e um produto em devenir cuja mudança não é acidental, mas constitutiva de sua própria essência” (Rouquette apud Moliner, 2001a: 248)96 o que

dificultaria, portanto, indicar um momento específico da história de uma determinada representação, uma vez que ela estaria em constante movimento. O mesmo não ocorreria em relação ao conteúdo da representação social que, conforme citado anteriormente, mobilizaria processos diferentes dependendo da fase em que a representação se encontra.

No tocante à fase de emergência de uma representação, pode-se afirmar que a representação se desenvolve quando grupos são confrontados com objetos sobre os quais ainda não dispõem de informação. Assim, o estudo de sua

95 Cf. original: “Leur faible ancienneté devrait théoriquement permettre de déterminer le point zéro de la

memóire individuelle ou collective les concernant. Or, à y regarder de près, on remarque la présence, dans les représentations nouvellement formées, d’une part, de référents devenues historiques pour les jeunes utilisateurs (moteurs de recherche, sites, Web, forums...), et, d’autre part, de référents plus anciens rattachant l’objet nouveau à des objets existants ou en voie de disparition tels que la machine à écrire, le téléphone ou le courrier. Ici, c’est en quelque sorte par capillarité que des objets nouveaux ont ‘acquis’ une memóire sociale, celle d’autres objets. Or, plus précisément, cette ‘memóire’ a été transférée, adaptée, étendue d’objets anciens vers les nouveaux, même s’il est possible de penser qu’il ne s’agit pas encore d’une memóire sociale structurée mais plutôt d’emprunts accolés les uns aux autres, qui me prendront un sens véritable qu’après une inscription temporelle plus longue”.

96 Cf. original: “La représentation est ainsi à la fois un produit du devenir et un produit en devenir; le

Uma abordagem da historicidade das representações sociais

gênese, entendida aqui como “[...] a construção social e progressiva de um estado estável da representação” (Guimelli e Reynier, 1999: 172),97 apresenta, segundo

Rouquette e Garnier, duas abordagens possíveis, quais sejam: “[...] trata-se de saber como uma representação social é apropriada quando ela já existe, ou de saber como ela pode ser construída, elaborada, a propósito de um objeto novo (considerando que todo objeto possível é apenas relativamente novo)” (1999: 10). 98

Autores como Guimelli e Reynier (1999) advertem que a análise da gênese de uma representação deverá, de um lado, considerar os determinantes do estado atual dessa representação e, de outro, mostrar o papel desses mesmos determinantes na construção desse estado. Esses autores classificam tais determinantes em duas categorias, quais sejam: os determinantes de ordem ideológica e as práticas sociais. Assim, os determinantes de ordem ideológica seriam aqueles relacionados aos valores e às normas específicas existentes em um determinado grupo que irão compor e estruturar uma determinada representação, dando-lhe um sentido em função da rede de significações constituída pela hierarquia de tais valores ou normas.99 O outro determinante apontado pelos autores consiste

nas práticas sociais100 que teriam um papel fundamental na construção progressiva do

estado atual de uma representação, sobretudo pela intervenção em seu processo de transformação.

Enquanto o estudo de Guimelli e Reynier (1999) enfatiza o papel das práticas sociais na gênese de uma representação, o objetivo deste trabalho é, justamente, estudar os conteúdos historicamente constituídos que contribuem, ainda

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Cf. original: “[…] la construction sociale et progressive d’un état stable de la representation”.

98 Cf. original: “[...] il s’agit de savoir comment on s’approprie une représentation sociale lorsqu’elle existe

déjà, ou de savoir comment elle peut être construite, élaborée, à propos d’un objet nouveau (tout objet possible n’étant, bien entendu, que relativement nouveau)”.

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Também para Gigling e Rateau (1999) é o sistema de valores compartilhados que está no epicentro da gênese da representação, uma vez que “[...] é o sistema de valores a priori partilhado em um determinado grupo que determina a gênese de uma representação, é no interior desse mesmo sistema de valores que se ancoram o estrangeiro e a novidade; são enfim os valores que se cristalizam ao seio do sistema central da representação constituída, e que aí assumem um papel preponderante [...]” (Gigling e Rateau: 1999: 64). Cf. original: “[...] c’est à l’interieur de ce même système de valeurs que s’ancrent alors l’étrange et la nouveauté ; ce sont enfin ses valeurs qui se cristallisent au sein du système central de la représentations constituée, et qui y asument un rôle prépondérant [...]”.

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hoje, para a organização das representações sociais de Brasil associadas ao nódulo elementar de sentido “diversidade”,101 levando-se em conta que,

faltando-nos a capacidade de dominar completamente a origem das concepções no longo espaço de tempo (longue durée), a análise das representações sociais não pode fazer mais que tentar, por um lado, identificar o que, em determinado nível “axiomático” em textos e opiniões, chega a operar como “primeiros princípios”, “idéias propulsoras” ou “imagens” e, por outro lado, esforçar-se para mostrar a “consistência” empírica e metodológica desses “conceitos” ou “noções primárias”, na sua aplicação regular ao nível de argumentação cotidiana ou acadêmica (Moscovici, 2003: 242).

101 Como citado anteriormente, isso não significa buscar uma espécie de paternidade de tais

determinantes, mesmo porque “[...] toda representação social é constituída como um processo em que se pode localizar uma origem, mas uma origem que é sempre inacabada, a tal ponto que outros fatos e discursos virão nutri-la ou corrompê-la... [assim]... esses processos são a ação de sujeitos que agem por meio de suas representações da realidade e que constantemente reformulam suas próprias representações. Estamos sempre em uma situação de analisar representações de representações” (Moscovici, 2003: 218).

Metodologia

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