Dividida em duas classes (1 e 2) e respondendo por 46,40% de todo o material examinado, esta ramificação permite interpretar a diversidade como “coexistência de contrários”, conforme será exposto a seguir.
A classe 1, englobando 12,2% das UCEs analisadas, foi associada aos estudantes dos cursos de Pedagogia da região Sul que, lacunarmente, apresentam a “diversidade” relacionada tanto a aspectos positivos como negativos, como pode ser observado nas seguintes respostas dos universitários:
Há suas coisas ruins, mas há muito mais coisas boas e lindas (Medicina, região Sul).
E
Porque o Brasil é um país lindo, que todos unidos e com boa vontade podem mudar algumas coisas que estão erradas (Pedagogia, região Nordeste).
A produção textual dessa classe enfatiza, sobretudo, a característica oposicional da diversidade, conforme indicam tanto a observação da seleção de seus traços lexicais mais significativos,199 organizados em ordem decrescente de qui-
198
Ainda que a primeira classe originada no relatório Alceste tenha sido a classe 3, por questões analíticas, o exame dessa questão será iniciado pela segunda ramificação que dá origem às classes 1 e 2.
199
Para a seleção da lista de palavras que compõem o vocabulário específico de cada uma das três classes geradas pelo programa Alceste, utilizaram-se três critérios simultâneos: 1) seleção das palavras não-instrumentais com média maior que 6 (critério lexicográfico dado pelo próprio programa quando no passo A2 – cálculo do dicionário, em que este indica a freqüência média por palavra); seleção do qui- quadrado (coeficiente de associação da palavra à classe em questão) com valor maior que 3,84, pois, de acordo com Camargo, “[...] o cálculo deste teste estatístico é feito com base em uma tabela com grau de liberdade igual a 1” (2005: 520); e freqüência da palavra na classe e no corpus em geral. Nesse sentido, são apresentados aqui apenas os traços lexicais mais significativos de cada classe de acordo com a análise que será realizada. Para os demais traços, ver Figura 7 – classe1.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
quadrado, como os extratos das respostas dos universitários visualizados no quadro a seguir:
QUADRO 4 - Traços Lexicais Característicos da Classe 1 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como coexistência de contrários
Classe 1 Traços
lexicais f/classe f/texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários200
Coisas 42 55
23
8,
26 “Porque existem coisas boas e ruins e isso é o Brasil”
(Engenharia, região Sul).
Boas 31 40
17
3,
27 “Porque nós encontramos todas essas coisas boas e ruins
no Brasil” (Pedagogia, região Nordeste).
Ruins 22 25
14
1,
07 “Porque o Brasil é um país repleto de coisas belas apesar
de haver nele coisas ruins que devem ser superadas” (Pedagogia, região Nordeste).
Ruim 9 11
50
,7
7 “É o meu modo bom e ruim de ver o nosso país, e é assim
que eu o vejo“ (Pedagogia, região Sul).
Ainda que esta classe seja a que menos caracterize o corpus analisado, uma vez que ela representa apenas 12,2% de todo o material, é sintomático que nela se concentre a produção dos estudantes de Pedagogia caracterizada por um discurso lacunar em que não há explicitação daquilo que eles nomeiam como “coisas boas e ruins”. Ao contrário, por exemplo, do excerto abaixo escrito por um universitário do curso de Enfermagem da região Nordeste, em que esses aspectos são listados:
Caracterizei as coisas que mais chamam a atenção para mim no meu país: sejam elas boas como praia, carnaval, Amazônia, forró, ou ruins, como violência, dificuldades etc. (Enfermagem, região Nordeste).
200
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
A classe 2, originária também desta ramificação, responde por 34,2% de todo o material analisado e é associada aos estudantes dos cursos de Enfermagem da região Centro-Oeste.
A seleção do vocabulário mais característico dessa classe, por ordem decrescente de qui-quadrado, de acordo com o relatório gerado pelo programa Alceste (Anexo 4), bem como seu respectivo contexto de uso, desvela o discurso lacunar apontado na classe anterior, na medida em que nomeia explicitamente no que consistem essas “coisas boas e ruins” apresentando a diversidade associada aos contrastes, como pode-se observar no quadro a seguir.
QUADRO 5 - Traços Lexicais Característicos da Classe 2 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como coexistência de contrários
Classe 2 Traços
lexicais f./ classe f./ texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários201
Riquezas 46 64
46
,7
4 “Por ser um dos países mais ricos do mundo, este deveria se tornar mais independente, preocupado em
resolver com suas riquezas seus problemas sociais: fome, desemprego, saúde pública, educação de qualidade etc.” (Enfermagem, região Centro-Oeste).
Desigualdade 34 45
37
,8
4 “Porque no Brasil há muita desigualdade social, muita concentração de poder e dinheiro nas mãos de poucos, e
a grande maioria da população miserável, lutando para viver” (Enfermagem, região Sudeste).
Fome 23 26
36
,0
3 “Não temos independência econômica e somos devedores desde a época colonial. A população pobre é
a que paga esse custo, com fome e falta de educação, saneamento básico e condições de subsistência” (Medicina, região Sul).
Educação 19 20
34
,3
4
“Somos povos de paz, não fazemos guerra, não temos catástrofes, temos problemas graves a ser corrigidos como a fome, a educação, a violência, a corrupção mas somos um país esperançoso, temos muitos recursos minerais, hídricos, nossas terras são férteis” (Serviço Social, região Centro-Oeste).
201 Para outras respostas selecionadas pelo Alceste como correspondentes desta classe, ver Anexo 4.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
continuação
Contexto temático da ramificação: Diversidade como coexistência de contrários
Classe 2 Traços
lexicais f./ classe f./ texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários202
Social 27 35
31
,0
1
“O Brasil é um belo país, mas, infelizmente, a riqueza está concentrada na mão de poucos, o que gera grandes desigualdades sociais, ocasionando fome, violência e todos os problemas do país” (Enfermagem, região Nordeste).
Violência 28 37
30
,7
2 “A educação também é escassa e, assim, o despreparo de tantos cidadãos sem condições de se tornarem
críticos, éticos e ativos, faz com que eles partam para o mundo da marginalização, do crime e da violência” (Pedagogia, região Centro-Oeste).
Dentre as “coisas boas”, são citadas as terras produtivas, a biodiversidade, as riquezas naturais, turísticas e minerais e, dentre as “ruins”, presentes em maior número, observa-se uma polarização, haja vista que as respostas tendem a enfatizar ora a idéia de “falta” associada, sobretudo, a áreas como educação, saúde, segurança, emprego etc., ora à desigualdade social, citada como um dos maiores problemas brasileiros da atualidade.
Tanto a “falta” como a “desigualdade” são tratadas sob o ponto de vista dos problemas sociais, em que, muitas vezes, se infere uma crítica ao governo, embora esta apareça muito mais pautada por um aspecto de resignação do que de potencial conflito, como pode ser observado no seguinte excerto:
Apesar da miséria, da fome, do desemprego, da falta de infra- estrutura, o povo brasileiro tenta lutar por um país melhor. Entra governo, sai governo, a esperança sempre existirá, por mais que seja pequena (Enfermagem, região Norte).
A relação dos universitários com a ação política, inferida pelas suas respostas, aparecerá novamente quando da análise da questão 2, “O que, para você, diferencia o Brasil dos outros países? Por quê?”, motivo pelo qual não será discutida neste momento.
202
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
Cabe ressaltar, à guisa de síntese desta ramificação, que as classes 1 e 2 revelam que a singularidade do país está na “coexistência de contrários”, uma vez que ele é caracterizado tanto pelos aspectos positivos como pelos negativos, permitindo concluir que a produção textual dos universitários, reunida nesta ramificação, associa diversidade à oposição.
3.1.2 Contexto temático: Diversidade como variedade cultural (classe 3)
Concentrando 53,6% de todo o material analisado, esta classe apresenta uma forma particular de encadeamento da questão “Por que você acha que isso tudo é Brasil?” que se distingue das classes 1 e 2, apresentadas anteriormente.
Representando, majoritariamente, a produção textual dos estudantes de Medicina, a classe 3 apresenta a diversidade, palavra literalmente citada aqui, como síntese de culturas que congrega a variedade na unidade, conforme pode ser observado no quadro a seguir, que expõe uma seleção dos traços lexicais mais característicos dessa classe, organizados por ordem decrescente de qui-quadrado, bem como seu respectivo contexto de uso: 203
QUADRO 6 - Traços Lexicais Característicos da Classe 3 e seu Contexto de Uso
Contexto temático da ramificação: Diversidade como variedade cultural
Classe 3 Traços
lexicais classe Freq/ Freq/ texto x2 Contexto de uso – excertos da produção textual dos universitários
Cultura 86 97
60
,3
2 “A população é miscigenada, a cultura foi construída com base em diversas culturas. Portanto, tudo isso é
Brasil porque o nosso país é diversificado, vasto e rico em diferenças e variedades” (Medicina, região Sudeste).
Diversidade 47 50
36
,7
1 “O Brasil é rico nas diversidades, uma mistura de cor,
de raça” (Serviço Social, região Norte).
Região 45 49
32
,1
5 “Porque o Brasil é um país enorme, com marcas características em cada região. E dessa mistura de
climas e culturas que nasceu o nosso país” (Medicina, região Sudeste).
203
Para outras respostas selecionadas pelo ALCESTE como correspondentes desta classe, ver Anexo 5. Para os demais traços também associados a esta classe, ver Figura 7 – classe 3.
Apresentação e análise dos dados: fusão de horizontes interpretativos
Enquanto as classes 1 e 2 associam a diversidade a uma idéia de oposição, a classe 3 a apresenta como reunião de características culturais, na medida em que as respostas dos universitários parecem indicar que foi a “mistura de cor, de raça, de climas” que originou essas “diversas culturas”.
Ainda que o “povo”, enquanto sujeito histórico, não apareça explicitamente mencionado e ainda que o recorte da produção dos universitários tenha sido pautado pela diversidade, tem-se que a cultura, nesta classe, surge como um elemento relevante, não obstante, aparentemente, parecer ir na direção oposta das análises realizadas por Carvalho (2006 e 1998) e Chauí (2001), que apontam a natureza como fator primordial da representação dos brasileiros sobre sua “comunidade imaginada” (Anderson, 1991), mesmo que este fator seja evocado quando os respondentes são solicitados a comparar o Brasil aos demais países, como se observará no decorrer do capítulo. Contudo, acredita-se que essa oposição é meramente aparente e não um sinal de que as representações sociais do país estariam se deslocando para o plano cultural, pois o destaque feito pelos estudantes baseia-se, como se mostrará nas análises posteriores, na miscigenação racial, o que, em última instância, fundamenta-se em uma explicação de origem natural, posto que biológica.
Considerando que os aspectos apontados aqui serão aprofundados no item a seguir, importa ressaltar que cada uma das ramificações estudadas faz referência a um universo semântico distinto. Assim, a primeira ramificação analisada apresenta um discurso em que a diversidade se exprime na coexistência de contrários exemplificada na expressão “coisas boas e ruins”; já a segunda ramificação apresenta a diversidade caracterizada sobretudo pela síntese cultural, o que indica que, neste caso, as evocações acerca da natureza não são preponderantes para estes universitários, embora o mesmo não ocorra quando se solicita que eles indiquem as diferenças entre o Brasil e os demais países, como se apresentará no item a seguir.
3.2 Análise da questão: “O que, para você, diferencia o Brasil dos