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I. BÖLÜM

3.2. Ticaret Ve Sanayi Politikası

4.1.2. Sosyalizm Temelli Eğitim

Num cenário em que os elos das cadeias produtivas encontram-se espalhados pelo mundo, os defensores mais ferrenhos do livre comércio advogam ser a liberalização comercial o único caminho para o desenvolvimento de PEDs e PMDs, um processo que, dentre seus inúmeros aspectos positivos, induz à alocação ótima do uso de recursos naturais em todo o mundo e a maior eficiência dos processos produtivos em termos de emissão de poluentes e de geração de resíduos, pelo aumento do rigor dos padrões ambientais desses países à medida que se tornam “mais desenvolvidos”.

Contudo, há distorções sérias no sistema multilateral de comércio que inviabilizam a simples aplicação da lógica acima descrita. Primeiramente, há que se considerar que dentre o grupo de PDs que mais conclamam o mundo não-desenvolvido a adotarem o livre comércio figuram também alguns dos países mais protecionistas do mundo. Essa prática, por sua vez, inviabiliza o acesso a mercados de PDs dos setores produtivos em que os PEDs e PMDs são mais competitivos no comércio internacional: produtos agrícolas e semi-manufaturados.

Em meio a esse contexto de “liberalização protecionista”, há algumas evidências preocupantes: a OMC, como espaço de negociação multilareral, não avança com rapidez na implementação de um sistema internacional que faça do comércio um meio para o desenvolvimento de PEDs e PMDs, e, ao não fazê-lo, consolida modelos de inserção internacional desses países baseados no uso predatório de recursos naturais, o que os distancia do objetivo do desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, também afasta o mundo da implementação desse conceito.

Isso porque depois da divulgação da versão preliminar do 4º relatório do IPCC, afirmando que o aquecimento global é, de forma inequívoca, um consequência da atividade humana, passou a ser inquestionável que os fluxos comerciais podem gerar impactos ambientais negativos mesmo em regiões nas quais não há nenhum elo da cadeia produtiva de um produto e sequer um único dos seus consumidores.

Essa triste confirmação dificulta a propagação da cantilena de que o acesso ao comércio internacional, per se, gera desenvolvimento e, ao gerá-lo, tende a reduzir os impactos

ambientais da produção pela redução da pobreza. Ainda que sejam verificados aspectos quantitativos e mesmo qualitativos associados ao “desenvolvimento”, não se estará falando do “desenvolvimento sustentável” de nossa sociedade atual, muito menos de compromissos com as gerações futuras, enquanto a análise se der restrita a uma área ou região, desprezando a cadeia de impactos ambientais que podem estar sendo “exportados” para outros países ainda menos desenvolvidos.

Assim, enquanto práticas protecionistas - não apenas de PDs – não são equacionadas no âmbito da OMC, o emprego de políticas comerciais distorcivas, como o uso de subsídios ou de barreiras comerciais, afetam a competitividade de setores produtivos estrangeiros e resultam em superexploração de recursos naturais, superprodução de mercadorias e superconsumo. Exemplos dessa lógica perversa são a depleção dos estoques pesqueiros mundiais e a redução das áreas remanescentes de florestas tropicais em razão da demanda por madeira e por commodities agrícolas, que estimulam a conversão de áreas nativas em campos

de plantação, afetando diretamente as emissões e a capacidade de retenção de gases de efeito estufa e atentando contra a conservação da biodiversidade mundial.

Uma outra evidência preocupante, ainda no âmbito da OMC, é a não possibilidade de aplicação de medidas comerciais que diferenciem mercadorias por métodos e processos de produção que não “deixam rastros” no produto. Abordando a questão dessa maneira, a OMC sinaliza que a forma como as coisas são feitas é irrelevante frente ao fato delas existirem, uma posição bastante questionável num mundo em que questões socioambientais são cada vez menos locais e mais globalizadas.

Contudo, a sociedade não se mostra paralisada: as ONGs - não apenas as ambientalistas - atuam diretamente nessa seara das relações entre comércio e meio ambiente, de forma propositiva ou provocativa, (i) mostrando falhas no sistema que resultam em aprofundamento de problemas socioambientais, (ii) propondo novas regras e modelos a serem discutidos pela OMC, (iii) pressionando as organizações que advogam o status quo, (iv) convocando o

cidadão-consumidor a utilizar a sua decisão de compra como uma ferramenta transformadora da sociedade ou (v) desafiando entes públicos e privados através do ativismo e de ações localizadas, porém contundentes, se considerado o poder que possuem de afetar a imagem e a reputação desses atores, pois o consumidor, mais informado e mais atento, é também mais

propenso a usar suas escolhas de forma a induzir boas práticas, dentre elas, as relacionadas aos métodos e processos de produção.

É dessa maior propensão que se chega ao tema principal deste trabalho de pesquisa: a identificação e a análise da forma como rótulos ambientais facilitam o acesso de produtos orgânicos brasileiros aos mercados de PDs, tema analisado a seguir.

Contribuições para o campo de estudo da Administração de Empresas

As contribuições deste estudo se dão dentro da área de gestão ambiental, em especial (i) na análise da produção orgânica como alternativa de diferenciação para agroindústrias produtoras de commodities, e (ii) na utilização de rótulos ambientais para acesso a mercados

internacionais.

Este trabalho confirmou que a despeito de os setores agroindústrias brasileiros terem dificuldades no acesso aos mercados de PDs, o segmento de produção de alimentos orgânicos se expande justamente nesses mercados-destino.

A razão da expansão do consumo de produtos orgânicos está associada, primeiramente, a questões de saúde e, em segundo lugar, a questões ambientais. Tem-se, portanto, uma opção relacionada ao bem do indivíduo sobrepondo-se a uma decisão mais relacionada ao bem coletivo, porém não se pode dissociar o alimento orgânico em si, dos métodos e processos empregados em sua produção, que apresentam impactos ambientais positivos em relação ao modelo convencional, dentre os quais: maior conservação de biodiversidade, melhor trato do solo, uso mais racional dos recursos hídricos e menor geração de resíduos impactantes ao longo do processo produtivo.

A análise dos três estudos de casos apresentados neste trabalho de pesquisa mostrou evidências de que esses atributos, quando garantidos por rótulos ambientais de produção orgânica reconhecidos nos mercados-destino, diferenciam as commodities e facilitam o acesso

dos produtos aos mercados de PDs, ao funcionarem como um meio para que se construa uma relação de confiabilidade entre o empreendedor e seus clientes diretos e indiretos nos PDs, baseada (i) na qualidade do produto e (ii) na reputação do empreendimento, ou seja, na

capacidade de cumprir contratos, de adaptar o produto às necessidades dos clientes e de produzir de forma sustentável, apresentado impactos socioambientais positivos.

Os estudos de caso também evidenciaram uma grande preocupação dos empreendedores em fazer com que a sustentabilidade seja internalizada pelos empreendimentos não apenas no que diz respeito aos métodos e processos de produção, mas também nas relações internas e externas aos empreendimentos e, sobretudo, na estratégia e no processo de tomada de decisão, por meio da consideração de aspectos de longo prazo nas decisões do dia-a-dia.

Um dos casos estudados, o da Native - empreendimento exportador de açúcar orgânico, apresenta uma resposta direta a alguns críticos da agricultura orgânica como alternativa mais sustentável de produção do que a agricultura convencional. Esses críticos se baseiam na menor produtividade do método orgânico para inferir que, se praticada em grande escala, essa agricultura demandaria mais áreas de cultivo e aumentaria a pressão pela conversão de florestas nativas em áreas destinadas à plantação. A Native apresenta em seus canaviais uma produtividade maior do que a observada nos cultivos convencionais também baseados no Estado de São Paulo. Uma das justificativas da empresa para o seu desempenho na área agrícola foi a busca por adaptar totalmente o cultivo da cana aos preceitos da agricultura orgânica, não aplicando somente práticas de substituição de insumos convencionais proibidos por aqueles permitidos nos padrões e regulamentos de produção orgânica.

Os outros dois casos estudados, Naturalle e CABRUCA, de menor escala se comparados à Native, também apresentam modelos bem-sucedidos de diferenciação de commodities através

da rotulagem de produção orgânica. O primeiro é focado em exportações de soja orgânica para alimentação humana, mas também exporta sojas não-orgânicas. O segundo, um empreendimento produtor de cacau em amêndoas orgânico, apresenta maior inserção no mercado interno do que no externo devido a características intrínsecas ao segmento em que opera, mas o faz com margens próximas às praticadas no mercado internacional.

Em todos os três casos percebe-se o pagamento de prêmios (sobrepreços em relação ao produto convencional) o que por um lado reflete a internalização de custos socioambientais não praticados no outro modelo e também representa um reconhecimento do maior valor agregado pelo produto orgânico.

Pela análise desses três casos, o rótulo ambiental, desde que adequado ao mercado-destino, mostrou-se um eficiente meio de transferência inicial de confiabilidade à marca dos empreendimentos. Na percepção dos empreendedores, após esse voto de confiança inicial, são (i) a qualidade do produto e (ii) a eficiência do empreendimento na construção de um relacionamento de longo prazo os fatores decisivos à consolidação do acesso desses empreendimentos aos mercados de PDs.

É clara a necessidade de que outros casos de empreendimentos ligados à produção orgânica e de perfil exportador sejam estudados em relação ao acesso dos seus produtos a mercados internacionais, mas as evidências apresentadas neste trabalho de pesquisa já podem servir também ao setor público brasileiro, em especial aos que operam o planejamento das atividades agrícolas nacionais e também aos que temem que o país seja alvo de campanhas anti-dumping socioambiental.

Ressaltando que os casos apresentados neste trabalho não devem ser tratados por meio de uma lógica amostral, é possível dizer que existem produtores agroindustriais brasileiros que já perceberam “o recado” relacionado às demandas socioambientais do consumidor (corporativo e individual). Por filosofia e/ou aproveitando-se de uma oportunidade de negócio, esses empreendedores conduzem a produção orgânica a um estágio de produtividade equivalente, se não maior, do que o método convencional, e esperam que esse mercado de nicho expanda-se cada vez mais, reconhecendo o valor agregado da produção e pagando pela internalização das externalidades socioambientais. Nesse cenário, o governo pode ajudar com pesquisas, crédito e apoio institucional para que ocorram ganhos de escala e de representatividade nesse setor e, ao mesmo tempo, caminhe-se em direção ao objetivo maior do desenvolvimento sustentável.

Limitações do estudo e Contribuições da pesquisa para novos estudos

O segmento de produção orgânica, não só no Brasil como em todo mundo, apresenta-se muito deficiente em termos de monitoramento e disponibilidade de informações. A área relacionada à produção agrícola apresenta-se bem documentada em razão do processo de certificação orgânica, contudo, os números de comercialização doméstica ou internacional são consolidados por meio de diferentes métodos.

Tal situação é um reflexo imediato da crença da OMC e de outras organizações, bem como dos entes governamentais que operam no sistema multilateral de comércio, de que métodos e processos de produção não são atributos relevantes de um produto. Ainda que se percebam mudanças, como no caso do Brasil, que passou em 2006 a oferecer um campo de preenchimento voluntário para produtos orgânicos em seu sistema de comércio exterior (SISCOMEX), as dimensões do comércio de alguns produtos orgânicos apresentados nesse trabalho foram baseadas em estimativas de empreendedores e tomadas como a melhor informação disponível, sem confronto com outras fontes, pela simples inexistência ou inépcia deste pesquisador em encontrá-las.

Outra limitação do estudo se dá em relação à análise das decisões de compra do consumidor. Sendo os produtos orgânicos percebidos pelos consumidores primordialmente por seus aspectos de saúde, diante da inviabilidade de se quantificar a porcentagem dos compradores que o fazem por aspectos sanitários ou ambientais, ou mesmo em razão dos dois aspectos, tomou-se como referência a abordagem de que não importa qual tenha sido a decisão do consumidor, ela está necessariamente relacionada a métodos e processos de produção, apresenta impactos na ampliação da demanda por produtos orgânicos e influencia no acesso de produtos agroindustriais brasileiros orgânicos a mercados de PDs.

Além disso, em sendo o acesso a mercados de PDs a unidade de análise deste trabalho de pesquisa, alguns temas muito interessantes relacionados à produção orgânica tais quais produtividade, custos, formação de preço e prêmios, embora tenham sido apresentados a esse pesquisador durante o amadurecimento do protocolo de pesquisa e ao longo das entrevistas, não foram ainda explorados com a profundidade que merecem para que se chegue a uma ampla compreensão desse segmento produtivo. Tais questões podem e devem ser exploradas em futuros estudos, assim como a análise da sustentabilidade de unidades agroindustriais de produção orgânica, em comparações restritas ao segmento ou mesmo em relação a unidades produtivas convencionais.