Tendo em vista a condição estrutural da economia subdesenvolvida, para discutir quais os determinantes particulares do investimento nesses países, deve-se partir das considerações gerais já apresentadas a respeito do investimento. É preciso identificar: (i) o grupo social que lidera o investimento – e suas motivações; (ii) a existência ou não de habilidade de investir; (iii) qual a fonte de recursos para financiar o investimento.
Conforme argumenta Hirschman (1958, p. 35), a condição de atraso das economias subdesenvolvidas implica na possibilidade de incorporação de tecnologias avançadas de países desenvolvidos, que possibilitariam constante aumento da produtividade. Contudo, para levar a cabo esse processo, é preciso que algum grupo realize (demande) investimentos. Todavia, o empresariado local não apresenta a habilidade de investir necessária para percepção e execução de oportunidades lucrativas de investimento (Hirschman, 1958).
“The ability to invest is acquired and increased primarily by practice; and the amount of practice depends in fact on the size of the modern sector of the economy. In other words, an economy secretes abilities, skills, and attitudes needed for further development roughly required and where these attitudes are being inculcated. (…) We may therefore think of the ability to invest as a coeficient v that, applied to the total income Ym of the economy’s modern sector, yields the investment v.Ym that can and will be undertaken provided the finance is available” (Hirschman, 1958, p. 36).
Dessa forma, embora os países subdesenvolvidos apresentem grandes oportunidades de desenvolvimento, dado o elevado hiato tecnológico entre sua produção e a dos países desenvolvidos, a falta de habilidade de investir restringe a execução desses investimentos.
Contudo, essa habilidade só é criada através da pratica do investimento, ou seja, do tamanho do setor industrial da economia, o que configura um ciclo vicioso, no qual maior participação do setor industrial na produção é necessária para gerar a “habilidade de investir”, enquanto essa habilidade é necessária para aumentar o tamanho do setor industrial (Hirschman, 1958).
A baixa habilidade de investir retira da busca do investimento o foco principal do empresariado, que acaba por se manter apenas nas atividades tradicionais nas quais já estão envolvidos. Além disso, como já discutido, o elevado padrão de consumo das elites reduz os recursos disponíveis ao investimento. Novamente, pode-se supor que o elevado consumo e a baixa busca por investimento determinam a baixa habilidade de investir, ao mesmo tempo que a baixa habilidade de investir reduz a busca por investimentos, formando um ciclo vicioso que dificulta a modernização da estrutura produtiva31. Verifica-se, portanto, que o empresariado doméstico não é capaz de liderar investimentos na magnitude necessária para criar uma dinâmica sustentável de desenvolvimento.
Todavia, segundo Hirschman (1958, p. 41), ao ser realizado um investimento é gerado um efeito de complementaridade que impulsiona investimentos em outros setores, seja pelo aumento da demanda nos mesmos, seja pela criação de economias externas que favorecem tais investimentos, seja pela formação de expectativas mais favoráveis. Em economias subdesenvolvidas, esse efeito funciona de forma a compensar o lento crescimento da habilidade de investir (Hirschman, 1958, p. 43).
Através desse mecanismo é criada uma grande força propulsora que rompe os entraves ao desenvolvimento, motivando o crescimento do investimento privado. Segundo Hirschman (1958, p. 70), “the big dynamic changes in development economies are expected to originate in autonomous investment”. Entretanto, o papel crucial do investimento induzido é dar continuidade ao efeito benéfico do investimento autônomo, prolongando o crescimento através do tempo32.
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Embora considerando essa circularidade, o foco das discussões a esse respeito será a habilidade de investir.
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Por outro lado, o autor argumenta ainda que as economias externas geradas pelos processo de desenvolvimento seriam superiores às deseconomias, por um lado porque as deseconomias externas seriam dispersas através de vários anos, enquanto as economias externas são concentradas, e por outro lado, porque “new investments will hold back reinvestment in these [obsolete] establishments while leading to complementary capital formation elsewhere in the economy” (Hirschman, 1958, p. 72), de forma que “the investment-reducing effect of new investments resulting from competition and substitution effects seems unlikely to match the investment-creating effects of complementarity” (Hirschman, 1958, p. 72).
Em suma, em função da baixa habilidade de investir verificada na periferia, é necessária a criação de fortes pressões de demanda para que seja realizado o investimento. Todavia, como já argumentado na seção 2.3., a industrialização na periferia se inicia como um fenômeno espontâneo e necessário (Rodriguez, 2009). Seu caráter necessário diz respeito à necessidade de expansão do capitalismo, de forma que em determinado momento empresas dos centros começam a se transferir para a periferia com o intuito de expandir seu mercado consumidor. Já o caráter espontâneo carece uma explicação mais alongada.
O ponto de partida para entender a espontaneidade da industrialização periférica é a consideração de que há uma disparidade entre as elasticidades-renda dos produtos comercializados entre o centro e a periferia – sendo esta menor para os bens oriundos da periferia. Tal quadro indica que no centro o ritmo de crescimento das importações é inferior ao crescimento da renda. Já na periferia, a elasticidade-renda das importações é maior do que um, devido ao caráter especializado da sua produção, de forma que a demanda de manufaturados produzidos no centro apresentará elevado dinamismo, tendendo a crescer mais rápido que a renda da periferia (Prebisch, 2000a, 2000b).
Entretanto, se as importações do centro (exportações da periferia) crescem menos que proporcionalmente que a renda do centro, enquanto as importações da periferia (exportações do centro) crescem mais que proporcionalmente que a renda da periferia, então há uma constante tendência a desequilíbrios no balanço de pagamentos das economias periféricas (Prebisch, 2000b). Além disso, a menor elasticidade-renda das exportações da periferia cria ainda uma tendência à deterioração dos termos de troca em prejuízo da periferia, de forma que em certos momentos (de queda da renda internacional ou excesso de oferta da produção periférica) observa-se um agravamento da restrição externa, via queda nas receitas exportadoras33. A
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Não é sempre que a relação de preços entre produtos da periferia e do centro favorece o último. Durante a fase de crescimento da produção industrial no centro, a demanda pro produtos primários ultrapassa sua oferta, de forma que o preço desses produtos tende a subir mais rapidamente, favorecendo os países periféricos. Da mesma forma, porém, os preços dos produtos primários caem mais vertiginosamente na fase descendente do ciclo, de forma que os preços dos produtos finais industrializados vão se distanciando cada vez mais dos produtos primários nos sucessivos ciclos (Prebisch, 2000a). Por outro lado, em contraposição à abordagem que considera a formação de preços orientada pela dinâmica de sua oferta e demanda, é importante mencionar que alguns autores abordam a questão da deterioração dos termos de troca sob a ótica da estrutura dos mercados de trabalho e dos custos de produção: “Mercados de trabalho onde há excesso de oferta de mão de obra e pouca organização trabalhista, ou seja, os mercados de trabalho dos países primário-exportadores, tendem a repassar ganhos de produtividade para os preços, reduzindo-os em face dos países produtores de bens industrializados (ver Prebisch, 1949 [2000a])” (Bastos & d’Avila, 2009, p. 23 – nota de rodapé 8).
conjunção desses fatores faz com que a industrialização na periferia se inicie como fruto das condições imperativas com as quais se confronta a periferia (Rodriguez, 2009, p. 104)34.
A solução que emerge espontaneamente desse quadro é a substituição de importações, de forma a reduzir o coeficiente de bens importados, aliviando assim a pressão sobre o balanço de pagamentos. A capacidade de importar, por seu turno, é dada pelo nível de exportações, se considerado um contexto de imobilidade de capitais e ausência de reservas internacionais prévias. Desequilíbrios no balanço de pagamentos não podem, portanto, ser persistentes, o que demonstra a importância das exportações para o desenvolvimento da periferia. Diante dessa limitação, por outro lado, as importações devem ser comprimidas para que não ultrapassem esse limite. Fica premente então a necessidade de alterar a composição das importações, focando os bens de capital em detrimento dos bens de consumo35. É esse o fundamento do processo de substituição de importações. A superação da restrição externa ao crescimento, portanto, é dada pela redução do grau de especialização da produção periférica, ou seja, via industrialização (Prebisch, 2000a, 2000b).
A substituição de importações se inicia nos setores de menor teor tecnológico, especialmente focado a atender a demanda interna, ou seja, bens de consumo. Esses bens, contudo, são de difícil inserção no comércio internacional, de forma que se observa um lento crescimento das exportações à medida que se processa a substituição de importações. Além disso, a mudança na estrutura produtiva leva necessariamente a uma mudança na composição das importações, de forma que na verdade não há tendência para a queda do volume de importações, mas apenas a mudança de sua composição (Tavares, 2000). Reproduz-se então continuamente o problema do desequilíbrio externo. É imperativa assim a continuação do processo de substituição.
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“Será útil fazer uma distinção entre as duas formas principais em que se manifesta o estrangulamento exterior, a saber: uma de caráter “absoluto”, que corresponde a uma capacidade de importar estancada ou declinante, e outra de caráter “relativo” que se identifica com uma capacidade para importar que cresce lentamente a um ritmo inferior ao do produto. A primeira forma de estrangulamento será geralmente relacionada com as contrações do comércio internacional pelas quais têm passado os produtos primários. A segunda, por sua vez, está associada às tendências de longo prazo das exportações dos mesmos” (Tavares, 2000, p. 225).
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É importante ressaltar que a combinação do controle da composição das importações, baixa capacidade industrial da periferia, e baixa diversificação produtiva são importantes fatores que colaboram para a aceleração da inflação durante o processo de desenvolvimento da periferia, sobretudo nos estágios iniciais. Entretanto, considera-se que a própria maturação dos investimentos realizados resultaria na gradual redução dessa inflação, se a mesma for controlada para não atingir patamares alarmantes. Nesse contexto, embora a inflação possa ser considerada como uma restrição ou dificuldade adicional ao processo de desenvolvimento da periferia, no presente trabalho optou-se por não abordá-la.
No entanto, a mudança da composição das importações e seu crescimento dificultam cada vez mais a continuidade do processo de substituição, criando a necessidade de expansão das exportações para que possa ser financiada a importação dos bens de capital necessários para a continuidade do investimento e da industrialização. A industrialização periférica, portanto, impõe a necessidade de uma política deliberada, planejada e coordenada de industrialização.
Dada a baixa habilidade de investir do empresariado nacional, fica então a cargo do Estado a condução de políticas que impulsionem a industrialização e pouco a pouco fortaleçam o empresariado nacional. Mostra-se então necessário analisar como o Estado deve atuar para incentivar o constante avanço da industrialização36. Antes disso, todavia, é preciso analisar com mais cuidado as implicações do estrangulamento externo que surge com o processo de industrialização por substituição de importações, assim como as implicações da má distribuição de renda prevalecente nos países periféricos.