Como argumentado na introdução geral da dissertação, o presente capítulo teve como objetivo identificar os problemas que dificultam o desenvolvimento da periferia, passando pela configuração de sua posição periférica no contexto do capitalismo global. Ao tratar da dinâmica do investimento, contudo, mostou-se necessário uma breve análise de seus determinantes gerais, antes de abordar o caso específico da periferia.
Identificados os entraves enfrentados pela periferia, e discutidas as questões mais gerais relacionadas ao tema, passou-se então à análise de cada um dos quatro entraves. Embora tais discussões tenham alongado o debate geral desenvolvido ao longo do capítulo, julgou-se fundamental apresentar tais considerações para que se formasse um pleno entendimento da dinâmica periférica, e como esses quatro fatores se relacionam e se determinam mutuamente. Como se verá a seguir, depois de tratar da forma adequada para a superação dos mesmos, esse quadro geral traçado no presente capítulo será retomado na formalização do modelo que descreve a dinâmica de desenvolvimento da periferia.
Dessa forma, conforme se verificou no decorrer do capítulo, o sucesso do processo de desenvolvimento das nações periféricas implica necessariamente a superação simultânea dos quatro entraves que restringem seu crescimento. Como se observou, esses entraves se encontram intimamente relacionados, de forma que focar a superação de um deles implica necessariamente lidar com os demais.
É evidente que o aumento da produtividade total da economia se mostra como foco principal do desenvolvimento, e por isso mesmo a elevação da capacidade de acumulação (investimento) e a resultante superação da heterogeneidade estrutural se apresentam como problemas centrais no processo. Entretanto, como se observou, esses objetivos não podem ser atingidos se não for superada a restrição externa ao crescimento. Todavia, a superação dessa restrição passa também pelos ganhos de competitividade não-preço e pela mudança estrutural da economia, o que determina a proximidade das três restrições mencionadas.
Por outro lado, em virtude do elevado crescimento verificado em diversos países periféricos nas décadas de 1960 e 1970 a despeito do aumento da disparidade de renda, a redução da desigualdade acabou sendo considerada um problema secundário. Contudo, não abordar o problema da desigualdade acaba prejudicando a continuidade do processo de crescimento, uma vez que sua manutenção restringe o crescimento da demanda interna, prejudicando o ritmo de crescimento do produto e da aquisição de habilidade de investir que impulsiona o investimento privado e do aprendizado tecnológico (Fajnzylber, 1990). Embora os testes dos regimes de acumulação apresentem resultados ambíguos, alguns deles confirmam que países periféricos são wage-led60, em concordância com o referencial teórico discutido anteriormente.
Já no que diz respeito à predominância dos efeitos de comércio sobre os regimes, o que resultaria na maior relevância do regime profit-led, destacado no modelo de Bhaduri & Marglin (1990), autores como Kaldor (1978), Fagerberg (1988), e McCombie & Thirlwall (1994) argumentam que os efeitos da competitividade não-preço predominam sobre os efeitos da competitividade preço nos resultados de comércio internacional – sendo que a segunda seria mais associada a bens básicos, e a primeira a bens de maior teor tecnológicos. Tal quadro reduziria o peso do argumento em favor do regime profit-led associado aos ganhos de
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Hein e Vogel (2007) e outros confirmam a vigência de regimes wage-led até mesmo entre países atualmente desenvolvidos.
competitividade preço via movimentos do câmbio (McCombie & Thirlwall, 1994; Fagerberg, 1988). Como argumenta Schumpeter (1943):
“Economists are at long last emerging from the stage in which price competition was all they saw. (…) But in capitalist reality, as distinguished from its textbook picture, it is not that king of [price] competition which counts, but the competition from the new commodity, the new technology, the new source of supply, the new type of organization (…) – competition which commands a decisive const or quality advantage and which strikes not at the margins of the profits and the outputs of the existing firms but at their foundations and their very lives” (Schumpeter, 1943, p.84).
A competitividade não-preço, contudo, não tem sido incluída nos testes dos regimes de crescimento, o que pode mudar os resultados obtidos61. Assim, os efeitos positivos de comércio ocasionados por desvalorizações cambiais, encontrados no modelo de Bhaduri & Marglin (1990) devem ser tomados com cautela. Embora desvalorizações influenciem a produção de bens comerciáveis (Gala, 2007), é difícil analisar que tipos de bens comerciáveis sofrem maior impacto. Conforme discutido, alguns autores argumentam que desvalorizações teriam maior impacto sobre a produção de bens de baixo teor tecnológico, enquanto outros argumentam o inverso. Não sendo o tema central do presente trabalho tal discussão, fica aqui a sugestão da importância de novos trabalhos relacionados a esse tema específico.
Em todo caso, a manutenção de um câmbio sobrevalorizado é certamente prejudicial à mudança estrutural. Ou seja, embora a sobrevalorização do câmbio seja extremamente prejudicial ao crescimento sob esta ótica, a desvalorização do câmbio pode ser vista como componente necessário mas não suficiente para o adequado desenvolvimento das economias periféricas.
O foco na competitividade não-preço, por seu turno, não só favorece a superação da restrição externa como ainda abre a possibilidade de adoção de uma estratégia de desenvolvimento wage-led, o que motiva a demanda interna e fornece um impulso extra ao investimento.
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Além disso, como argumentam Hein e Vogel (2007, p. 25), a maioria dos estudos empíricos realizados não leva em consideração as interações entre os componentes da demanda, o que pode igualmente gerar problemas de especificação.
Por fim, depois de analisados os quatro entraves ao desenvolvimento da periferia, e após constatada a necessidade de superação simultânea e coordenada dos mesmos, é preciso então analisar qual a forma de atingir esse objetivo. Esse é o tema do próximo capítulo.