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5. SONUÇ VE ÖNERİLER

5.1. SONUÇLAR

Vencidas as explicações acerca da Posição Original e seus componentes, resta ainda a descrição de como os dois princípios de Rawls se aplicariam às instituições da Estrutura Básica. De qual forma ela se acomodaria, em suas múltiplas camadas, de forma a privilegiar os valores do liberalismo igualitário rawlsiano. É imprescindível

205 No original: “The best worked out political conception cannot overcome these limits; nor are they defects, as they lie in the nature of our practical reason. In political philosophy, as elsewhere, we must rely on judgment as to what considerations are more and less significant, and when in practice to close the list of reasons. Even when judgment is unanimous we may not be able to articulate our reasons any further. By pulling together many smaller and larger points, and shaping them into a perspicuous view by an organizing fundamental idea within other ideas can be seen to fit, we try slowly to build up a reasonable political conception.

Whether such a conception serves it purpose can only be decided by how well it identifies the more relevant considerations and help us to balance them in the more important particular cases, especially those involving the constitutional essentials and the basic questions of distributive justice. If a conception seems, on due reflection (always the last appeal at any given moment), to have cleared our understanding, made our considered convictions more coherent, and narrowed the disparities between the deeply held conscientious convictions of those who affirm the basic principles of democratic institutions, its practical aim is achieved.” Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. p. 134.

vistoriar as instituições resultantes desse modelo hipotético antes que possamos compreender adequadamente os princípios rawlsianos206.

2.5.1 Os tipos de democracias e regimes

Rawls enumera cinco tipos de regimes que podem ser vistos como um sistema social que abrange suas instituições políticas, econômicas e sociais. São esses207: (i)

capitalismo de lassez-faire, (ii) capitalismo de bem-estar social (welfare capitalism), (iii) socialismo de Estado com uma economia de comando estatal, (iv) democracia de proprietários208 (property owning democracy) e (v) liberal-socialismo (democrático). Qual

ou quais dos regimes citados violariam os dois princípios de justiça? Para fazer essa avaliação Rawls estipula quatro critérios de checagem209: a) as instituições são justas?;

b) as instituições possuem um desenho eficiente para atender aos fins a que se propõem?; c) há uma expectativa que os cidadãos obedeçam a lei?;210 E, finalmente, d) o sistema impõe aos seus funcionários uma responsabilidade irreal?

Os regimes (i), (ii) e (iii) já se mostram ineficazes na primeira análise, de acordo com Rawls211. O capitalismo lassez-faire (i), ou capitalismo liberal, oferece uma igualdade apenas formal a seus cidadãos. Não se propõe a discutir o valor real das liberdades políticas ou igualdade das oportunidades, apenas pressupõe um mundo de igualdade estritamente formal. Se todos partissem do mesmo ponto, talvez fosse um sistema eficaz, mas dada a desigualdade natural das relações sociais, mostra-se um sistema apenas eficiente, no máximo, agregando valor buscando uma espécie de meritocracia.

O capitalismo de bem-estar social212 (ii), ou welfare state, também fracassa em atender às quatro demandas necessárias no ponto de vista de Rawls. Apesar de possuir algumas medidas atinentes à igualdade de oportunidades, são políticas que não são seguidas, tornando-se apenas normas programáticas sem objetividade. O controle da

206 Rawls afirma que tal exame é necessário sob a égide do Equilíbrio Reflexivo (Cf. p. 43 acima), que torna imperioso estudo dialético entre a teoria meramente abstrata e sua objetivação em um caráter mais concreto. 207 Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. p. 136.

208 Esse é um termo incomum na Academia brasileira. A tradução apresentada (democracia de proprietários) é a oferecida por Célia Lessa Kestenersky. Para mais detalhes, Cf. KERSTENETZKY, Celia Lessa. Por que se importar com a desigualdade. Revista Dados. Vol.45, n.4, 2002. pp. 649-675, nota de rodapé 13. Mais aprofundamento sobre o impacto desse conceito, que não fora adequadamente tratado – segundo o próprio Rawls – em sua Teoria da Justiça original, Cf. HSIEH, Nien-Hê. Justice at Work: Arguing for Property-Owning Democracy. Journal of Social Philosophy, Vol. 40, Issue 3 (Fall), 2009. pp.397-411.

209 Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. p. 136.

210 Ou, por exemplo, o sistema é passível de corrupção de tal forma e profundidade que torna insustentável uma vida que siga estritamente a própria lei.

211 Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. p. 137. 212 Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. pp. 137-138.

propriedade ainda é concentrado demais, permitindo o controle econômico que traz, consigo, o controle político. Além disso, a despeito de, de fato, prover um sistema de garantia mínimo do cidadão, não estabelece qualquer regra ou prescrição que determine a reciprocidade como forma de regular as relações e desigualdades econômicas e sociais.

Finalmente, o socialismo de controle econômico estatal possui a sua supervisão política e econômica nas mãos de um só partido, em um regime extremamente centralizado, o que é flagrantemente contra o primeiro princípio da justiça rawlsiano, em sua prescrição de liberdade e igualdade política. O planejamento central não possui qualquer espaço democrático, limitando a repassar decisões superiores aos cidadãos, alijados do processo decisório – ou mesmo ao mercado, proscrito na situação em tela.

Assim restam somente duas opções, que se encaixam nos dois princípios rawlsianos: A democracia dos proprietários (iv) e o liberal socialismo (v). Não é preciso fazer uma escolha entre os dois modelos, apenas a adequação dos princípios à sua configuração institucional, que são compatíveis no entendimento de Rawls. Não cabe à Justice as Fairness escolher qual regime é o mais adequado, somente estabelecer critérios e deixar a cargo de cada cultura política que tome essa decisão prática213.

O conceito de property-owning democracy apresentado por John Rawls é o seguinte: trata-se de um regime politico-econômico e social em que, a despeito da existência da propriedade (especificamente dos meios de produção), as instituições são voltadas para que estes não sejam tendentes à concentração, por meio de monopólios ou grandes conglomerados. A democracia do proprietário busca não a estatização dos meios de produção, mas a capacitação dos cidadãos, transformados em produtores de riqueza através da educação em amplo sentido. Estando cada cidadão em igualdade de condições, tendo a mesma capacidade de acesso que os demais, cada cidadão é por si um proprietário de um meio de produção, da sua própria subsistência, fruto de suas habilidades. Rawls explicita melhor o conceito contrapondo-o ao welfare state:

A diferença entre a democracia dos proprietários e o capitalismo de bem-estar social merece exame mais aproximado, já que ambos permitem propriedade privada dos ativos de produção. Isso pode nos levar a pensar que são semelhantes. Eles não são. Uma grande diferença é a seguinte: as instituições de fundo da democracia de proprietários funcionam de forma a dispersar a propriedade

de riqueza e capital, assim prevenindo que uma parcela reduzida da sociedade venha a controlar a economia, e indiretamente, a vida política. Em sentido oposto, o capitalismo de bem-estar social permite a uma pequena classe ter um quase monopólio dos meios de produção. A democracia dos proprietários evita isso, não pela redistribuição de renda para aqueles com menos ao final de cada período, digamos, mas ao invés assegurando a ampla propriedade de ativos de produção e capital humano (i.e. educação e habilidades treinadas) ao princípio de cada período, tudo isso em um contexto de igualdade de oportunidades. A intenção não é simplesmente auxiliar aqueles que perderam por acidente ou infortúnio (mesmo que isso precise ser feito), mas sim colocar todos os cidadãos numa posição capaz de gerenciar seus próprios assuntos com apoio de um nível apropriado de igualdade econômica e social214.

Rawls não esconde sua predileção por esse regime, por considera-lo superior em vários critérios. Simboliza o ideal de uma sociedade voltada para a cooperação mútua, numa aliança racional entre cidadãos livres e iguais. É praticamente uma transposição dos ideais rawlsianos, construindo uma estrutura básica que seja não só justa, como equilibrada, e, assim, equânime. Nesse sentido se avoluma o caráter crucial, na teoria rawlsiana, da ideia de reciprocidade. A sociedade precisa se enxergar como uma cooperação social, e, num exercício de alteridade, ser capaz de observar o outro cidadão como semelhante, alguém para com o qual cada cidadão possui um dever moral.

Os Menos Favorecidos não são, normalmente, os desvalidos e azarados – destinatários da nossa caridade e compaixão, não da nossa piedade – mas aqueles a quem a reciprocidade é

214 No original: “The contrast between a property-owning democracy and welfare-state capitalism deserves closer examination, since they both allow private property in productive assets. This may tempt us to think they are much the same. They are not. One major difference is this: the background institutions of property-owning democracy work to disperse the ownership of wealth and capital, and thus to prevent a small part of society from controlling the economy and indirectly, political life as well. By contrast, welfare-state capitalism permits a small class to have a near monopoly of the means of production. Property-owning democracy avoids this, not by the redistribution of income to those with less at the end of each period, so to speak, but rather by ensuring the widespread ownership of productive assets and human capital (that is, education and trained skills) at the beginning of each period, all this against a background of fair equality of opportunity. The intent is not simply to assist those who lose out through accident or misfortune (although that must be done), but rather to put all citizens in a position to manage their own affairs on a footing of a suitable degree of social and economic equality.” Cf. RAWLS, John. Justice as Fairness: a restatement. 3ª Reimp. Cambridge: Harvard, 2001. p. 139.

devida por uma questão de justiça política entre aqueles que são cidadãos livres e iguais e todos os outros. Mesmo que tenham acesso a menos recursos, eles estão fazendo o máximo de acordo com os critérios mutuamente considerados como vantajosos e consistentes com o respeito pessoal de cada um215.

Outra das características abordadas por Rawls é a predileção por um regime constitucional, em detrimento de uma democracia procedimental216.

A diferença reside no fato de que o regime constitucional se fundamenta em uma norma – como a constituição, não necessariamente escrita – que abriga princípios e liberdades fundamentais, que devem ser interpretadas pelas cortes como forma de limitar todas as demais normas. A democracia procedimental, por sua vez, estabelece um sistema formal de que dá suporte a qualquer nova norma, sem qualquer limite subjetivo. Um grupo majoritário em uma democracia procedimental poderia aprovar qualquer legislação, sobre qualquer tópico, como, por exemplo, a negação de direitos fundamentais, contanto que todos os critérios formais fossem resguardados. Um regime constitucional protege mais adequadamente os fundamentos jurídicos de um Estado, as liberdades e garantias dos seus cidadãos, além de funcionar como marco psicológico217 além do seu papel natural de fonte de Direito218. O cidadão que vive numa sociedade que

funciona sob a égide de uma constituição a terá sempre como padrão na definição de seus direitos, mediante a interpretação das cortes219.

Benzer Belgeler