• Sonuç bulunamadı

Neste tópico, intenta-se compreender quais características são necessárias a um dado conjunto de elementos para que se possa chamá-lo de teoria. Encontraram-se, após exame da literatura, alguns aspectos, como, por exemplo: as teorias não derivam de observação empírica; elas precisam ser verificadas empiricamente; a possibilidade de serem refutadas; precisam ter reconhecida sua essência; devem ser pertinentes a uma problemática específica; etc. Esses itens estão detalhados na seqüência.

O primeiro ponto a se discutir é sobre a questão de as teorias se originarem, ou não, de observação da realidade. Segundo Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 25), “Popper tem acentuado que as teorias científicas são conjecturas e não derivam da experiência.” Mais adiante (1994, p. 25), continua: “Isto deriva do fato de que as teorias – quaisquer que sejam – são compostas por certos tipos de proposições que não se referem diretamente a observáveis: são os conceitos teóricos.” O autor ainda explica que “Os conceitos teóricos – que na maioria das vezes têm grande poder explicativo – constituem o cerne das teorias e as próprias conjecturas.” Portanto, segundo a visão de Popper, as teorias não derivam da observação.

Isso é corroborado por Theóphilo (2004, p. 75): “Verifica-se, entre a maior parte dos epistemólogos, uma tendência de defesa do caráter de precedência da teoria sobre o fato.”

Destarte, Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 33-34), ainda referindo-se a Popper, explica:

Uma das coisas que diferencia o conhecimento científico [aqui entendido como teoria] das outras formas de discurso (mítica, religiosa e poética) é o fato de que suas afirmações podem ser verificadas, podem ser testadas. Este é, aliás, o critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Esse posicionamento é, também, destacado por Bruyne et al. (1977, p. 122): “A verificação, o teste empírico das teorias é uma exigência primordial. Toda teoria deve poder ser contestada em sua totalidade pelos fatos que ela investiga.” Como se viu no tópico anterior, esse aspecto da necessidade de comprovação empírica para que seja uma teoria é ressaltado por Rudner (1976, p. 27) e Bunge (1980, p. 161).

Esses dois primeiros pontos evidenciam, portanto, que, apesar de uma teoria não nascer de observações daquilo que acontece no mundo real, para ser verdadeiramente considerada teoria, ela precisa oferecer a possibilidade de ser testada, ou seja, a teoria precisa ser colocada à prova. As palavras de Iudícibus (1996, p. 22) ajudam a justificar esse aspecto:

O fato de somente se justificar uma teoria se ela for capaz de explicar a prática (mundo real) e de predizê-la, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, adiciona valor e utilidade, bem como deve enobrecer os que abraçam esta visão, pois que uma teoria erigida apenas para satisfazer proposições lógicas, endógenas, de nada adianta para os usuários, sendo, quando muito, justificativa para o chá das cinco de encarnecidos professores, aposentados, física e mentalmente. Lembre-se que, no tópico anterior, Richardson (1999, p. 36) citou Popper e sua visão de que para testar um argumento científico é preciso comprovar sua refutabilidade empírica. A idéia aqui é que uma teoria será descartada caso se encontre um único caso que a refute. A propósito, a falseabilidade é um aspecto fundamental da ciência, ou seja, para a ciência não importam os fatos que corroboram a teoria, mas sim os que a refutam.

Ainda no que se refere à falseabilidade ou refutabilidade, Kidder (1987, p. 6) argumenta que “É possível apenas refutar hipóteses e teorias e concluir que elas são falsas. Não podemos dizer que comprovamos uma teoria, porque há sempre a possibilidade de ser refutada por alguma pesquisa futura ou de que alguma outra teoria explique os mesmos resultados.” E concluem: “Portanto, teorias são sempre provisórias.”

Note-se que, não obstante a visão de Popper ser a de que uma teoria não deriva de observações empíricas, Asti Vera (1980, p. 146) discute que a construção de uma teoria científica nas ciências sociais pode acontecer de duas formas: a) partindo das observações e hipóteses, ou b) axiomaticamente. Segundo as palavras de Martins (2004, p. 3), “No primeiro caso, a construção começa com a formulação de enunciados protocolares, e a abordagem seguida é indutiva-dedutiva, ou mais corretamente hipotético-dedutiva [...]” Quanto ao segundo caso, explica que “[...] a construção se consigna diretamente dos postulados, sendo a abordagem metodológica exclusivamente dedutiva.” Martins (2004, p. 3) conclui que o método ideal para as ciências sociais aplicadas é o hipotético-dedutivo. Portanto, desse ponto de vista, a teoria pode sim nascer das observações empíricas, uma vez que, como se viu no tópico anterior, consoante o próprio Martins (2004), as teorias destinam-se a sistematizar o que se sabe acerca do mundo real.

Finalmente, recorrendo-se a Iudícibus et al. (2005, p. 8), encontra-se que “[...] a validação de qualquer teoria contábil se dá única e exclusivamente pela sua utilidade gerada perante os usuários no mundo prático.” Isso reforça a conclusão, então, de que, ainda que a teoria não tenha sua origem na empiria, ela precisa passar pela verificação no mundo real para ser validada provisoriamente, pois o que mais vale é a refutação.

Adentrando-se em outra característica, Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 14) explica que “Para Platão, o mundo sensível está em constante mudança e, neste caso, se torna impossível conhecê-lo por razões óbvias: não se pode conhecer uma coisa que deixa de ser ela mesma na sucessão do tempo.” Mais adiante (1994, p. 14), o autor complementa:

O recurso metodológico e filosófico para solucionar esta dificuldade é pressupor que exista na coisa algo que permanece ou que esteja presente na sucessão do tempo: é a sua essência. Para Platão, a essência da coisa está em sua Forma ou Idéia. Assim, para toda coisa do mundo sensível existe uma certa Idéia ou Forma que lhe corresponde como sua essência ou natureza. As idéias são perfeitas, imutáveis e não habitam o mundo espaço-temporal, sendo apreendidas apenas pelo pensamento puro.

O que se pode depreender do pensamento de Platão, trazido à tona por Matallo Jr. (1994), é que o fenômeno objeto de uma teoria precisa ter evidenciado sua essência. Nesse sentido, o que se vai precisar questionar e, conseqüentemente, descrever, ao se tentar enquadrar a Controladoria como teoria, é: qual a essência da Controladoria? qual sua Idéia ou Forma que permanece constante?

Por outro lado, na visão de Aristóteles, conforme descreve Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 15), “O conhecimento consistia, então, em saber quais as características ou propriedades das coisas enquanto membros de uma classe.”

Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 15) descreve um exemplo interessante para se entender essa questão da essência e das propriedades. Segundo ele, “Ter quatro patas, um rabo e um focinho são características essenciais da classe dos cães. Mas ter cor preta ou branca ou marrom é um acidente e não constitui objeto de conhecimento, mas de percepção aplicada aos particulares.” Pode-se inferir, então, que as patas, o rabo e o focinho tratam da essência (Platão), enquanto a cor trata das características para classificação (Aristóteles). Também esses aspectos devem estar presentes nas teorias.

Outra característica que espelha quando um conjunto de conhecimentos é uma teoria diz respeito à questão da dicotomia entre senso comum (juízo de valor) versus ciência (verdade comprovada). Sobre esse aspecto, as palavras de Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 18) são esclarecedoras: “O senso comum é a base sobre a qual se constroem as teorias científicas. Estas teorias se distanciam tanto quanto possível das valorações e opiniões, gerando um conhecimento mais ou menos racional, entendendo racional como argumentativo e coerente.”

Reforçando a idéia da teoria e o aspecto científico, Oliveira Filho (1976, p. 268) argumenta que “A consideração de um projeto de pesquisa teoricamente orientado evita que a experiência cotidiana dos homens comuns seja confundida com a experiência instaurada cientificamente que sobre ela se exerce no desvendar de suas estruturas e processos.” Portanto, a teoria se sobrepõe ao senso comum.

Já em Bruyne et al. (1977) encontra-se que há três exigências primordiais em uma teoria: pertinência, coerência e testabilidade. O primeiro deles é que seja pertinente a uma problemática, isto é, que seja significativo, que se refira, efetivamente, à realidade que visa interpretar (1977, p. 115). “A coerência do sistema teórico permite garantir uma explicação mais fundada dos fatos dos quais as hipóteses pretendem prestar contas.” (1977, p. 119). Quanto à testabilidade, como já se discutiu no início desta seção, a verificação, ou seja, o teste empírico da teoria é uma exigência primordial.

Ainda nessa linha de raciocínio, Bruyne et al. (1977, p. 120) especificam: “Uma teoria é formalizada quando os elementos que a caracterizam podem ser descritos por meio de regras estritas e suficientes para especificar sua natureza própria.”

Com base na literatura pesquisada e nos itens discutidos neste tópico, é possível, então, elaborar uma lista dos critérios necessários para se considerar um dado conjunto de elementos como teoria. Ressalte-se que os itens desta lista foram considerados nos demais capítulos desta tese, tendo em vista o propósito de se contribuir para se dar o passo inicial à construção da Teoria da Controladoria. Os critérios são:

− pelo fato de uma teoria ser uma conjectura, um conjunto de conceitos teóricos, ou ainda, um conjunto de enunciados, ela não precisa derivar da observação da realidade;

− a teoria, após elaborada, oferece a possibilidade de ser testada, ou seja, é colocada à prova, é verificada para poder ser contestada; é isso que vai apontar sua validação;

− a teoria descreve a essência do fenômeno a ser contemplado;

− a teoria não se aplica a quaisquer coisas, mas a campos específicos;

− a teoria é pautada num conhecimento argumentativo e coerente; portanto, livre de juízo de valor e opiniões (pensamento pessoal: eu acho que) e despida de subjetividade; e

− a teoria é científica (algo comprovado: eu sei que), sendo que a ciência se distingue da opinião (senso comum) por seu encadeamento racional.

Antes de passar à próxima seção, destaca-se que Matallo Jr. (in CARVALHO, 1994, p. 35-37) desenvolve uma discussão sobre verdade e ciência, em que considera a verdade como correspondência entre fatos e teorias. O autor assim expressa (1994, p. 37): “De qualquer maneira, a concepção da verdade como correspondência entre os fatos e as proposições e teorias é aceitável desde que sejam feitas algumas ressalvas:”

1. Não existem dois mundos contrapostos como o dos fatos e o das teorias. Eles são interdependentes;

2. Não podemos chegar a verdades definitivas;

3. Os fatos básicos são aceitos convencionalmente e podem ser modificados com o avanço da ciência;

4. Uma teoria será verdadeira não por estar adequada à realidade, mas por explicar certas ocorrências melhor do que outras teorias concorrentes, ou por não ter sido falseada.

Estes aspectos são importantes neste estudo porque se está trabalhando tanto no campo dos fatos (caso da pesquisa empírica) quanto no campo das proposições (caso da ECBC).