De acordo com os pescadores a condição do lago no período quando está cheio ou quando está seco, é que determina suas atividades, evidenciado no quadro 5. Todas as atividades estão ligadas diretamente ao nível da água, não apenas a atividade pesqueira, mas atividade da agricultura, de criação de animais domésticos, no ir e vir dos estudantes e de todos os residentes e nas pequenas tarefas do dia a dia.
Considerando a percepção dos pescadores o lago começa a encher no início do mês de Dezembro, a cada dia os pescadores observam a elevação da água e começam paulatinamente a se adaptar às especificidades do ecossistema. Ao longo dos meses de Janeiro, Fevereiro, Março, Abril e Maio o lago enche e no início de Junho alcança o mais alto nível de elevação.
São nesses meses em que o lago está cheio que a vida da população se torna mais fácil. O acesso de uma ilha para outra é feito por embarcações, desde uma simples visita a um parente ou amigo, até uma ida a igreja é feita de forma em que o acesso é facilitado. O barco escolar apanha os estudantes na frente das suas residências, a água para o consumo e para os afazeres domésticos é capturada próximo da cozinha. Os petrechos de pesca estão armados próximos as residências, as mulheres e crianças estão realizando a pesca do camarão (Macrobrachium), todas as atividades desenvolvidas próximas ao lar.
Considerando o período de seca, em meados do mês de Junho os pescadores começam a observar que a cada dia o nível da água desce e as dificuldades começam aumentar, as crianças têm que andar mais para apanhar o barco escolar, as donas de casa tem que ir cada vez mais distante apanhar água para o consumo e os afazeres domésticos, sendo que muitas preferem lavar as roupas na beira do lago por terem dificuldades de carregar água cada dia mais distante.
Durante os meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro, os pescadores percebem que para realizar a pesca o sacrifício é grande, pois tem que caminhar quilômetros para encontrar um cardume ou para apanhar a embarcação que pouco ajuda nessa época na pescaria.
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As espécies icitiológicas, como o mapará (Hypophthalmus spp.) migram para áreas mais distantes dando espaço ao tucunaré (Cichla spp.) que se esconde nos troncos submersos dificultando a sua captura. Os petrechos de pesca são substituídos, agora a rede que capturava o mapará (Hypophthalmus spp.) quando o lago estava cheio, é substituída pelo anzol, pois além da dificuldade de encontrar um ponto para a rede, os paliteiros rasgam as redes trazendo prejuízos aos pescadores, nesse caso o anzol é o petrecho mais utilizado. Alves e Barthem (2008) destacam a dificuldade na pesca do tucunaré (Cichla spp.) quando o rio está seco.
Quando o rio está muito cheio, o peixe se esconde nas galhadas de onde sai apenas na época da vazante. A mesma dificuldade em capturar os “tucunarés” ocorre quando o rio está muito seco, nessa época do ano eles estão no canal do rio nas águas mais profundas, e apenas com a subida d‟água, vão se deslocando para os ambientes invadidos pela água (ALVES; BARTHEM, 2008 p. 556).
Além das dificuldades na captura do pescado, a população ainda tem que viver em grandes dificuldades de locomoção, já que suas residências estão nesse período distante do rio. O barco escolar que no período da água cheia apanhava as crianças nas portas das residências, agora fica quilômetros distantes, na região do rio 24, os estudantes caminham aproximadamente 30 minutos para apanhar o barco para chegarem até a escola.
A cheia e seca do lago mudam completamente a vida da população que reside no lago. Segundo pescadores muitos moradores do lago abandonam suas casas e saem em busca de trabalho na cidade de Tucuruí ou para casa de parentes em outras regiões, pois fica difícil permanecer com tantas dificuldades que o lago apresenta no período se seca.
Embora os pescadores sejam afetados diretamente com a elevação da água no lago, não sabem dizem por que existe essa dinâmica de elevação. Muitos atribuem efeitos da chuva, pois no período que o lago começa encher, mês de Dezembro, começa o período de chuvas intensas na região.
Essas dinâmicas do lago cheio de seco, além de ocasionarem diversos problemas na dificuldade de locomoção e disponibilidade de recursos, também trazem sérios prejuízos aos ambientes.
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Quadro 5 – Dinâmica de cheia e seca do lago e o cotidiano dos pescadores.
LAGO CHEIO
Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril e Maio.
Situações:
Atividade pesqueira com todos os tipos de petrechos e técnicas de pesca (ver seção 1.2 da parte III);
Criação de animais (aves, porcos);
Trabalho de roçados e confecção de farinha de mandioca; Recebimento do seguro-desemprego de defeso17.
17 O seguro-desemprego é atribuído aos trabalhadores em geral, e tratado pela Lei n.°7.998 de 11 de janeiro de 1990 (BRASIL, 1990). No caso do seguro-desemprego de defeso, é exclusivo aos pescadores profissionais que exercem a atividade pesqueira de forma artesanal. O benefício desse seguro é no valor de 1 (um) salário-mínimo mensal em determinados meses do ano. A época de recebimento desse benefício, é fixada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, pois compreende na suspensão da captura de determinadas espécies, tendo como principal objetivo a preservação de espécies aquáticas. O seguro-desemprego de defeso é tratado pela Lei n.° 10.779 de 25 de Novembro de 2003.
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LAGO SECO
Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro.
Situações:
Maiores dificuldades para desenvolver a pesca, pois o uso da malhadeira é evitado;
Pesca do tucunaré (Cichla spp.) intensificada pela utilização de petrechos utilizados no período de seca;
Construções de roça, principalmente no período do defeso que a pesca está suspensa, as famílias se dedicam a essa atividade de roçados.
Dificuldades de transporte, tanto para pescadores, como para estudantes que necessitam andar quilômetros para apanhar a embarcação escolar; Dificuldades para a captação de água para os afazeres domésticos.
Fonte: Pesquisa de campo (2013, 2015). As imagens foram tiradas de pontos bem próximos, a primeira corresponde ao lago cheio (Maio de 2013) e a segunda foi feita no período do lago seco (Outubro de 2015).
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De acordo com Fearnside (2001), no período de seca uma área do reservatório de aproximadamente 858 km² que fica exposta. Quando inundada, período de cheia, a área de deplecionamento tem condições ideais para geração de metano, assim como também para metilação de mercúrio no solo, afetando diretamente todo o reservatório (FEARNSIDE, 2001).
No período de cheia a área total do lago chega a 2.917 Km² e o nível operacional de 74 metros, já no período se seca a área diminui aproximadamente 560 km² e o nível da água chega a 58 metros (COMISSÃO MUNDIAL DE BARRAGENS, 2000; CENTRAIS ELÉTRICAS DO NORTE DO BRASIL, 2010b; FEARNSIDE, 2001; JATOBÁ, 2006).
Dessa forma, relacionando os aspectos de cheia e seca do reservatório artificial-lago de Tucuruí, com rios e lagos naturais, pode ser analisar as disparidades de deslocamento e disponibilidade de recursos pesqueiros. Enquanto no lago artificial da usina hidrelétrica de Tucuruí, o período de seca é muito difícil principalmente no que se refere à atividade pesqueira como mostrado no quadro 5, pesquisas realizadas por Cunha et al (2002) no Alto Juruá destaca realidades opostas vistas no reservatório artificial. Os autores destacam que no inverno, na época das chuvas, é mais propícia a atividade de caça, pois a pesca dos mariscos torna-se difícil porque as águas estão altas e turvas. Esse tipo de pesca é a principal atividade no verão amazônico, pois quando as águas estão baixas, limpas e claras, quando os rios estão calmos, como ratificam os autores.
Os peixes preferem lugares de águas calmas e evitam a correnteza. O curimatá é o único a ficar na correnteza do estirão, porque come lama, e o estirão tem mais lama e mais lodo: nos poços fundos, quase não há lama. Nesses remansos ou poços fundos costuma haver grande abundância de peixes. São verdadeiras “despensas”, aonde se vai mariscar a qualquer momento com segurança de pegar alguma coisa. Dizem os seringueiros que em remanso fundo é certo morar um peixe grande (CUNHA et al., 2002, p. 339).
Nesse sentido, Morán (1990, p. 178) também analisa que “os níveis do rio influenciam na capacidade da população em capturar os peixes. Quanto mais alto estiver o rio, menor é o sucesso da pesca”. Nesse contexto, analisa-se a perversidade do sistema na relação entre seres humanos e ambientes, mesmo que a população da reserva Alcobaça tenha chegado à região após a formação do reservatório artificial, seus saberes e suas práticas agora foram readequadas para uma realidade de ecossistemas controlados pela usina hidrelétrica e não mais por
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fenômenos naturais, sendo que o que determinada se o reservatório está cheio ou seco, qual a espécie ictiológica disponível, quais as técnicas e captura e modos de vida, é a necessidade do mercado a partir da produção de energia.
É comum, em entrevistas observar incertezas do pescador em relação ao período de início de seca e cheia, em muitas falas o pescador garante que em determinados anos o lago começa encher Novembro ora em Janeiro e começa a secar em Junho ora em Julho ou talvez em Agosto, fazendo algumas confusões se está no período chuvoso ou não.
Embora os saberes tradicionais do pescador sejam oriundos de ecossistemas aquáticos naturais, a adaptação ao ecossistema artificial se dá de maneira pouco conflituosa, se comparada as outras relações do lago. Pela resiliência e pela necessidade de resistência ao estilo de vida na atividade pesqueira, bem como a busca pela adaptação de novos saberes sobre o ambiente onde as atividades são desenvolvidas.