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Desde meados do mês de Maio deste ano que esta Polícia possui informações de que elevado número de indivíduos de cor, principalmente estu- dantes e outros relativamente novos e com alguma cultura, iriam tentar sair da Metrópole, com o fim de atingirem Paris, seguindo depois dali para ou- tros países, a fim de darem a sua colaboração aos elementos terroristas que vêm actuando contra a permanência de Portugal nas províncias ultrama- rinas de África.

Iniciadas as diligências a fim de se tentar conhe- cer os meios de que dispunham e que permitissem a saída em massa de naturais das províncias ultra- marinas portuguesas, tanto mais que se sabia que a grande maioria sairia indocumentada ou com do- cumentação falsa, conseguiu-se apurar o seguinte:

A «Casa dos Estudantes do Império» fun- cionava, em Lisboa, como o principal centro re- crutador, dizendo o aliciador ao pretendido alicia- do, que estavam tentando fazer sair do País, o maior número de estudantes ultramarinos e pa- triotas angolanos que desejassem trabalhar a favor da independência de Angola, saída essa que se fa- ria ilegalmente, mas com toda a segurança, visto ser dirigida por uma «Organização de Protecção aos Povos Subdesenvolvidos».

Acrescentava que os indivíduos que saíssem do País, uns destinavam-se a tomar parte activa na luta que actualmente se trava em Angola, sendo previamente treinados em escolas de preparação militar, que funcionavam em Marrocos, no Iraque e na Argélia, tornando-se assim os futuros chefes militares dos guerrilheiros que lutam em Angola e orientadores dos campos de treino para terroris- tas que funcionam na República do Congo (ex- -belga) e que na futura nação independente de An-

gola eles ocupariam cargos directivos no exército, enquanto outros se destinavam a tomar parte na luta formando o escol intelectual, para o que lhes seria possibilitado iniciarem novos cursos ou con- tinuarem os cursos que frequentavam em Portugal em diversos países da Europa, para o que seriam subsidiados por uma «comissão de refugiados», dependente da tal «Organização de Protecção aos Povos Subdesenvolvidos», que conseguiria bolsas de estudo nos países onde eles fossem estudar.

Os indivíduos nestas condições seriam os res- ponsáveis pela política e pela administração de Angola, uma vez conseguida a independência.

Aos indivíduos que pretendiam aliciar foi-lhes também dito que em meados do mês de Junho fin- do chegaria a Portugal um diplomata suíço que se encarregaria da elaboração dos passaportes daque- les que iriam sair, pelo que deveriam entregar duas fotografias tipo passe.

Era-lhes indicado que logo que fossem avisa- dos deveriam seguir para a cidade do Porto, onde na Estação de S. Bento estaria um agente de liga- ção à sua espera; que não poderiam levar mais de cinco quilos de bagagem e que teriam de levar mil escudos que se destinavam a pagar a passagem de barco para passarem a fronteira. A partir daquela cidade, o transporte seria feito de automóvel em direcção a uma fronteira do Norte.

Soube-se também que em Maio do corrente ano, o chamado «MPLA — MOVIMENTO PO- PULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA», co- meçou a organizar os seus serviços e a criar «dele- gados» em várias localidades do Continente com vista ao recrutamento de todos os ultramarinos que se encontram na Metrópole começando, como é óbvio, pelos angolanos.

Conhecem-se pormenores de aliciamentos fei- tos em Lisboa, Coimbra e no Porto, sendo interes-

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sante salientar que entre os aliciados até agora co- nhecidos figuram oficiais milicianos da Força Aérea e do Exército, sabendo-se que alguns deles já abandonaram clandestinamente o País.

Conhece-se igualmente que alguns dos alicia- dos, receando o futuro, pretendiam obter passapor- te pelas vias legais mas, devido às providências que foram tomadas com vista a impedir a conces- são de passaporte a naturais do ultramar suspeitos, foi então intensificada a campanha para a saída clandestina e quase todos os que haviam sido abordados, entregaram as duas fotografias pedidas. Por tudo quanto tem sido possível saber as ra- parigas ultramarinas, mesmo as que se encontram detidas, nada sabem sobre a forma como se pro- cessaria a passagem da fronteira e tudo o mais que se seguisse, não há dúvida, porém, que deram as fotografias que lhes pediram e que se prestavam a acompanhar os seus namorados de quem, por sua vez, receberiam as indicações necessárias no momento oportuno.

Não restam dúvidas que se mostra de grande amplitude o êxodo de estudantes ultramarinos e a clandestinidade de que se reveste a forma como actuam e para o demonstrar, basta referir que um oficial miliciano tendo pedido autorização para ir a Coimbra fazer um exame — autorização que lhe foi dada particularmente — cumprindo a determi- nação de abandonar o País, seguiu para França, parece que na companhia de um irmão, nunca mais regressando ao Quartel.

Julga-se que a organização que visa promover a saída do país de jovens ultramarinos, estende-se não só ao estudantes, mas também a outros indiví- duos de cor, principalmente a funcionários dos serviços públicos, admitindo-se até que, aqueles que por razões especiais não possam sair da Me- trópole, tenham recebido missões que podem con- siderar-se «actos de sabotagem fria», como seja a intercepção de correspondência nos CTT, des- truição ou alteração de certos documentos em Re- partições Públicas, etc.

Parece que tudo isto significa que uma actua- ção comandada do exterior terá possibilidade de alastrar em manifesto prejuízo de Portugal e, não há dúvida que existe uma organização empenhada nessa luta, não só pela afirmação que é feita aos aliciados de que serão protegidos pela «Organiza- ção de Protecção aos Povos Subdesenvolvidos», mas também porque, na «Conferência Europeia de 1961», realizada recentemente em Oslo, o comu- nista SILAS COUTINHO CERQUEIRA, desde há

tempos fixado em Paris, declarou, entre outras ca- lúnias, que vários oficiais e soldados foram deti-

dos por se recusarem a seguirem para Angola, tendo outros fugido.

A confirmar a acção exterior, comandada pelo «MPLA — MOVIMENTO POPULAR DE LI- BERTAÇÃO DE ANGOLA», organização terroris- ta que funciona nos moldes do «partido comunis- ta», ao qual aliás está ligado, pormenor que é necessário considerar para se poder concluir do elevado grau de perigosidade que representa todo este conjunto de factos para a Segurança interior e exterior do País, está o facto do seu principal diri- gente, MÁRIO COELHO PINTO DE ANDRADE, comunista activo, ter sido recebido pelo Presidente do Conselho da República do Senegal, havendo a esse respeito o Ministro da Informação daquele país declarado, que o Presidente da República tam- bém o receberia, acrescentando que ele poderia contar com a simpatia das autoridades senegalesas.

Aquele Ministro teria também afirmado, numa conferência de Imprensa, que o MÁRIO COELHO PINTO DE ANDRADE não só desejava ir à Uni- versidade de Dakar acolher os estudantes angola-

nos expulsos de Portugal por se teremm recusado a pegar em armas contra a sua «pátria», mas

também examinaria com o governo senegalês a possibilidade de abrir naquela cidade um «bu- reau de informação e de apoio à sua organização».

Parece também estar prevista uma conferência de Imprensa a dar em Dakar pelo MÁRIO COE- LHO PINTO DE ANDRADE, que dizem preten- der expor a situação de Angola, a qual teria o pa- trocínio do jornal «UNITÉ AFRICAINE», órgão oficial do partido governamental senegalês — UNIÃO PROGRESSIVA DO SENEGAL.

Até agora temos, portanto, em ligação com o movimento de ultramarinos que surgiu agora na Metrópole, além do «MPLA», seu organizador, a «Organização de Protecção aos Povos Subdesen- volvidos», organismo de que até agora não tínha- mos ouvido falar, mas dada a coincidência de tam- bém dizerem estar ligado ao movimento um diplomata suíço, não nos repugna pensar que se trate de qualquer organismo controlado pelo cen- tro de subversão e espionagem soviético, fixado em Berna, tanto mais que há algum tempo foi anunciado que os chamados «MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO DAS COLÓNIAS PORTUGUE- SAS» iriam instalar um escritório naquela cidade, nunca mais se tendo ouvido qualquer notícia, cer- tamente porque, dada a sua natureza subversiva,

interessasse mais que as suas actividades clandes- tinas permanecessem ignoradas do grande público. É bem evidente que todas as actividades de na- turais das províncias ultramarinas portuguesas a que nos vimos reportando, não teriam alcançado as proporções que alcançaram, se, a par das directi- vas que recebem do exterior, não estabelecessem igualmente contactos com agentes subversivos, tan- to de países comunistas, como de capitalistas e afro-asiáticos, que, a pretexto não se sabe de quê, chegam a Lisboa de avião com o rótulo de «passa- geiro em trânsito» e deixam-se aqui ficar um ou dois dias, tempo mais que suficiente para levarem a cabo as tarefas que lhes incumbiram de executar.

Assim, é frequente permanecerem em Lisboa, um ou dois dias, liberianos que, vendo-se bem as

coisas, poderiam ter seguido para o seu país por rota mais curta e, por conseguinte, mais prática e mais económica. (fls. 150-152)

[...] Em face do que ocorre actualmente com os estudantes e outros naturais do ultramar, não re- pugna acreditar que os contactos do «MPLA» e da «UPA», assim como as respectivas ligações, foram possibilitadas, além do mais, por todos esses pas- sageiros em trânsito, especialmente afro-asiáticos, que inexplicavelmente durante meses desembarca- ram em Lisboa, aguardando aqui durante dois, três ou quatro dias, avião que os levasse ao seu desti- no, o que teriam conseguido facilmente utilizando carreira aérea diferente. (fls. 153)

Doc. 9

Informação N.o

1546/61-GU*

Êxodo de Estudantes Africanos de Portugal