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1.3. Akran Zorbalığı

1.3.2. Akran Zorbalığına Etki Eden Faktörler

[...] Continuei a viver no lar da Casa dos Estu- dantes do Império, mas agora tendo por compa- nheiro de quarto o David Bernardino, estudante do 2.o ano de Medicina e que viera lá das traseiras

morar no melhor quarto vago da frente.

Devo-lhe muito da minha formação cultural. Com ele fui pela primeira vez ao ballet, pela pri- meira vez à ópera e, no seu Telefunken, ouvi pela primeira vez a Nona Sinfonia completa. Das suas mãos recebi também grande parte dos livros que estiveram na base da minha cultura literária.

A juventude portuguesa, a mais inconformada, engajava-se então num movimento político de es- querda, clandestino, o Movimento de Unidade De- mocrática Juvenil. Na conquista das liberdades que os vencedores do conflito mundial lhe tinham recusado.

O fim da Guerra tinha sido há meia dúzia de anos, uma guerra cruel que ceifara milhões de vi- das e de heróis que haviam lutado por um mundo livre, mais fraterno e com mais justiça social.

Tinham-se calado as armas nos campos de ba- talha, chegavam agora as mensagens dos artistas através da pintura, do cinema e da literatura.

Eram os tempos áureos do neo-realismo. Emocionávamo-nos com as aventuras dos po- bres miúdos do Pereira Gomes pelos esteiros do Tejo, com os gaibéus do Alves Redol e com os he- róis do Manuel da Fonseca pelas searas de vento.

Rejubilávamos com o fogo dos estudantes na noite escura, do Fernando Namora, crispávamo- -nos com o uivo dos lobos nas serranias do Aqui- lino e estávamos com Ferreira de Castro ao lado dos operários da Covilhã.

De França chegava-nos o canto alto do Aragon e do Éluard, esperançoso, mas chorávamos em Es- panha a morte de Garcia Lorca pelas balas assassi- nas de Franco.

De Itália era o cinema, um cinema que nos fa- zia pensar, que nos metia pelos olhos dentro ima- gens reais dum mundo que tinha de mudar, com as películas de Sica e Zavattini, «Ladrões de Bicicle- tas», «O Capote», «Humberto D», «O Milagre de Milão», «O Pão Nosso de Cada Dia»...

Dos Estados Unidos chegavam-nos os livros de Steinbeck, de Caldwell, de Hemingway... «As Vinhas da Ira», «A Estrada do Tabaco», «Por Quem os Sinos Dobram»... e do Brasil o Jorge Amado, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa, narrando as vidas secas dos homens e as esperan- ças dos homens germinando pelos subterrâneos da liberdade ou pelas veredas luminosas do sertão.

E ainda lá mais de baixo, da ponta sul, ressoa- va o canto general do Pablo Neruda, desse Pablo genial que iria morrer (os poetas morrem?...) um dia, quando os primeiros pingos de chuva caíam nas ruas de Santiago.

Era «obrigatória» a leitura de «Estes Dias Tu- multuosos» do Pierre van Passen, do «Processo Histórico» do Juan Clemente Zamora, textos do Pollitzer, do Marx, do Engels, do Lenine...

O Caderno de Poesia Negra de Expressão Por- tuguesa, publicado pelo Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro, alertava-nos para a pro- blemática social das nossas terras e falava-nos dos expoentes da Negritude no mundo, do Senghor, do Césaire, do Guillén, do Langston Hughes e já do orgulho escandaloso de ser negro.

Acreditávamos que um dia o mundo seria me- lhor, com paz, amor e justiça e que, de mãos da- das, seguiríamos fraternalmente pela estrada larga de Walt Whitman.

Era também o tempo do neo-realismo na pin- tura. Para mim, os melhores, Rivera, Orozco, Si- queiros e Portinari, pelos motivos tratados.

Por eles cheguei aos outros modernistas, desde o impressionismo para cá.

Nesse tempo a editora «Europa-América» tinha, num primeiro andar da Rua das Flores, uma sala de exposições onde continuamente se exibiam excelen- tes reproduções de quadros célebres. Passei ali mui-

tas tardes, encantado, e com o sacrifício de outros prazeres fui comprando algumas delas, Gauguin, Modigliani, Picasso, Matisse e os «Zapatistas» de Orozco, que foram decorando as paredes solitárias do meu quarto de estudante. [...] (págs. 118-121)

A Editorial

[...] Cheguei à CEI com poemas e contos dos Novos Intelectuais de Angola. «O Grande Desa- fio», «Fogo e Ritmo», «Namoro», «Estrela Peque- nina»; «A Mulemba Secou», «Linha Quatro» e ou- tros poemas do novo cancioneiro angolano foram um alumbramento, como diria Manuel Bandeira.

Com a ajuda do Costa Andrade, jovem escritor do Huambo que poetava com o pseudónimo de Flávio Silvestre, publiquei uma colectânea de «Poetas Angolanos» e outra de «Contistas Angola- nos», dactilografados e copiografados pelas nossas próprias mãos nas «oficinas» da CEI.

Depois a Fundação Gulbenkian, por intermé- dio do Dr. Sá Machado que era angolano como nós e que já ofertara à CEI camas para o Lar, um fogão para a Cantina e livros para a Biblioteca, en- tregou à Secção Editorial uma duplicadora Gestet- ner, eléctrica, e uma boa máquina de escrever, o que permitiu melhorar o aspecto gráfico da «Mensagem» e das antologias que se editavam.

Aqui, não posso deixar de recordar, com sau- dade, a colaboração do jovem José Ilídio Cruz, po- bre e infeliz companheiro que tão cedo abandona- ria este mundo.

Com uma pequena quantia cedida pela Direc- ção da Casa, também conseguimos dar início à impressão tipográfica das obras dos jovens auto- res ultramarinos. As editoras comerciais não se ar- riscavam a publicar escritores sem nome feito e ainda por cima com uma temática um tanto peri- gosa nas circunstâncias.

O escritor Castro Soromenho recomendou-nos a «Tipografia Minerva», na Praça da Alegria, e foi ali que se imprimiram os livros de uma colecção que ficaria célebre e a que nós demos, muito sim- plesmente, o nome de «Colecção Autores Ultra- marinos».

Nela publicaram os seus livros de estreia o Luandino Vieira, o António Jacinto, o Viriato Cruz, o António Cardoso, o Manuel Lima, o Ar- naldo Santos, o Costa Andrade, o Agostinho Neto, o Alexandre Dáskalos, o Henrique Abranches, o José Craveirinha, o Ovídio Martins...

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O Agostinho Neto, ainda na cadeia do Aljube, recebeu das mãos da esposa, a Maria Eugénia, os primeiros exemplares de «Poemas» que eu próprio lhe fora levar a casa.

Treze anos depois, quando a Editora Sá da Cos- ta publicou em Lisboa a «Sagrada Esperança», de Agostinho Neto, o livro trazia uma introdução assi- nada pela Marga Holness, introdução que desapare- ceu depois nas edições post-mortem do Autor.

Podia-se ler ali uma transcrição do Costa An- drade:

«(...) Em autêntico desafio à censura fascista, Carlos Ervedosa e nós próprios conseguimos, sob os auspícios da Casa dos Estudantes do Império, compilar e publicar pequenos volumes com as obras mais importantes dos nossos intelectuais, al- go inédito em Portugal e na história da literatura angolana. O opúsculo dos poemas de Agostinho Neto deu-nos a possibilidade de verificar como eram estreitos os laços entre o povo e o poeta. Após a sua chegada a Luanda e numa única tarde, a totalidade dos livros foi inteiramente absorvida.» [...] (págs. 131-132)