das IES públicas brasileiras investigadas. Tais comportamentos foram evidenciados nos documentos, nas falas dos entrevistados ou observados in loco.
Sociedade
Um grupo harmônico de indivíduos que tem a mesma cultura e tradição e está localizado no espaço e no tempo (DURKHEIM, 1977).
A partir dos dados documentais, observacionais e das entrevistas foi possível constatar influências humanas e culturais, externas às IES públicas brasileiras investigadas, no macro processo de transferência tecnológica institucional e que não puderam ser enquadradas como anterioridade intelectual, inovação, mercado ou política pública.
Fonte: Elaboração própria.
Apresentadas essas definições a próxima subseção foi destinada à exposição de como se deram as análises dos dados.
3.5 ANÁLISE DOS DADOS
Foram adotados, como apreciação analítica, tanto o método de caso estendido (BURAWOY et al., 1991; BURAWOY, 2009) como os critérios da análise do discurso (GADET; HAK; MARIANI, 1997). Por meio do método de caso estendido foi possível analisar a especificidade das IES públicas brasileiras como um veículo para compreender os fatores que moldam a dinâmica do desenvolvimento da CTT. Isso permitiu perceber a variação das formas de transferência tecnológica de um lugar para outro, bem como a mudança dela ao longo do tempo.
“O método de caso estendido deriva generalizações constituindo a situação social como anômala em relação a alguma teoria pré-existente (isto é, um corpo existente de generalizações), que é então reconstruída” (BURAWOY et al., 1991, p. 280, tradução nossa). Ou seja, esse método visa à reconstrução da teoria existente. As observações sistemáticas, por exemplo, foram baseadas no método de caso estendido e registradas em anotações e fotografias que contribuíram para atender os itens de verificação do Apêndice B.
Em termos de explicação, o referido método é tomado como genético, ou seja, incide sobre as diferenças entre casos semelhantes. Fora isso, o sentido de significado é tomado como social, o objeto de análise é situacional, a causalidade envolve a conexão indivisível dos elementos, os fundamentos macro são tomados para entender a microssociologia e, por fim, a singularidade está localizada num contexto exterior a si mesmo,
o que elucida a sociedade (BURAWOY et al., 1991). Adicionalmente foi possível empregar uma estratégia genérica para procurar as semelhanças entre os casos de modo a favorecer a contribuição teórica formal desta pesquisa.
Quanto à análise do discurso ela permitiu constituir, de forma crítica e problematizada, as formas de reflexão anteriormente estabelecidas pelos investigados, diferindo, por exemplo, da análise de conteúdo (SITYA, 1995; ORLANDI, 2001; CAPPELLE; MELO; GONÇALVES, 2011). Assim, entendeu-se que cada discurso seria composto por ideologias produzidas a partir do arcabouço sócio-histórico em que os investigados estavam embebidos e que, curiosamente, tentavam, na medida do possível, dissimular a própria formação ou atualização ideológica, transparecendo forçosamente padronização ou naturalidade (MINAYO, 2014). Desse modo, mais do que interpretar, buscou-se compreender o sentido de cada discurso.
Os critérios adotados nesta pesquisa foram três procedimentos de discursivização e dois mecanismos básicos do estudo das marcas da enunciação no enunciado. No primeiro caso foram eles: a identificação e formação do ator, a espacialização e a temporalização do discurso. No segundo, a debreagem e a embreagem. De acordo com Cappelle, Melo e Gonçalves (2011), a debreagem seria o mecanismo em que se projetam no enunciado a pessoa, o tempo e o espaço do enunciado ou da enunciação. Enquanto que a embreagem seria a suspensão das oposições de pessoa, de tempo ou de espaço numa tentativa de neutralizar os estilos persuasivos e manipuladores que foram enxertadas, intencionalmente ou não, na construção do discurso de cada investigado, a exemplo da ironia, lítotes, preterição, reticência, eufemismo e hipérbole.
A análise do discurso serviu tanto para as anotações e transcrições como para os documentos primários coletados (ALVESSON; KARREMAN, 2000; GILL, 2002; GODOI, 2005; ADAM, 2011). Nesse sentido, ressalta-se que não se apreendeu sentido às anotações, às transcrições e aos documentos apenas a partir das palavras que os compõem, e sim dos contextos históricos, das enunciações e dos processos semânticos da construção discursiva.
As observações sistemáticas foram registradas em anotações e em fotografias. As fotografias serviram tanto para captar imagens de documentos impressos não acessíveis como o ambiente do NIT. No primeiro caso, por exemplo, abrangeu materiais de divulgação, banners, quadros de anotações, esquemas, histogramas, fluxogramas e organogramas fixados nas paredes e foram tomados como documentos e analisados como tais.
No segundo caso, por exemplo, foram captadas as imagens da entrada dos NIT, das salas e tudo o que as compõem internamente, bem como dos integrantes em ação, ou seja,
trabalhando. Esse tipo de imagem serviu para rememorar as observações realizadas in loco e auxiliaram na composição dos resultados e análises como é o caso de rever a integração dos colaboradores ou os recursos tecnológicos disponíveis e assim por diante.
As informações provenientes das entrevistas e das observações sistemáticas foram trianguladas com as informações documentais, bem como com outros dados secundários acadêmicos e contemporâneos a exemplo de leis, decretos, resoluções, sensos e outras publicações oficiais (GOLDER, 2000; CARDINAL; SITKIN; LONG, 2004). Os dados foram ordenados a partir dos eventos concretizados de transferência tecnológica e identificados a partir de contratos assinados e, preferencialmente, publicados no D.O.U.
Os eventos de transferência tecnológica foram escolhidos de acordo com a existência de contratos, bem como acessibilidade de dados que permitissem constituir um fio condutor de eventos, fatos e ações. Foram escolhidos três para cada caso: o primeiro entre os anos 2004 e 2007, o segundo entre 2008 e 2011 e, por fim, o terceiro entre 2012 e 2015. Assim, as histórias rememoradas e didaticamente estruturadas e desenvolvidas de cada contexto em particular constituíram os respectivos casos estendidos. Ou seja, nesta pesquisa não se partiu da história de um caso e a dividiu em contextos, ao contrário, partiu-se de cada contexto histórico que, os três aglutinados, formaram o caso USP ou o caso UNICAMP.
Valendo destacar que como o recorte temporal desta pesquisa partiu dos anos 2004 a 2015, e considerando a necessidade da escolha distribuída de contextos entre esse recorte temporal, convencionou-se essa divisão artificial de três períodos de quatro anos ainda na etapa do projeto da pesquisa. Isso facilitou escolher contextos em faixas temporais diferentes de modo a favorecer a heterogeneidade dos dados coletados no tempo e no espaço.
As faixas quadrienais serviram como guias para averiguar, comparativamente, a evolução processual da CTT nos casos e de forma independente. Valendo ressaltar que não foram faixas temporais estanques e, conforme a imersão na pesquisa, elas puderam ser flexibilizadas, ajustadas e retificadas. No entanto, pretendeu-se considerar os períodos de maior atividade relacionada à determinada solução tecnológica. Por exemplo, suponhamos que as pesquisas científicas e tecnológicas tenham iniciado em 1999, que um pedido de patente tenha sido solicitado em 2007 e que o processo de transferência tenha ocorrido durante os anos de 2007 e 2011. Digamos, ainda, que a intensidade de atividade tenha sido maior no período de 2008 e 2010; sendo assim, esse contexto seria classificado na segunda faixa temporal.
Foi construída, para cada contexto, uma linha temporal de eventos em forma de um gráfico longitudinal. Buscaram-se termos comuns e, posteriormente, genéricos e alinhados
com a literatura, permitindo, inclusive, a comparabilidade entre contextos dos dois casos em investigação. Dito de outro modo, os três contextos de cada um dos casos foram condensados de modo independente (within case), destacando os fatores genéticos, e com o intuito de se constituir um padrão equivalente com a teoria. Esses padrões foram comparados entre os casos (cross case) e, de igual modo, analisados à luz da literatura até a constituição de um framework que evidenciasse as características, os fatores genéricos e o desenvolvimento da CTT de IES públicas brasileiras.
Os eventos dos contextos foram avaliados segundo suas ações, sejam elas operacionais ou transformacionais; reativas ou proativas; ordinárias ou extraordinárias; rotineiras ou empreendedoras; melhores práticas ou criativas; e materializadas ou intelectuais. As capacidades organizacionais foram evidenciadas, em especial, por três tipos de dados empíricos: desempenho, cognição e ação (GRANT; VERONA, 2015).
No primeiro tipo, questionou-se: a capacidade é manifesta no desempenho de uma tarefa ou função específica? No segundo, perguntou-se: os indivíduos executantes da capacidade, ou aqueles que a gerenciam, são conscientes da existência e capazes de articulá- la? No terceiro, indagou-se: a capacidade é manifesta em eventos observáveis dentro da organização? Esses eventos abrangeram rotinas, processos, decisões, orientações entre outras atividades (GRANT; VERONA, 2015). Sem esse viés explícito, os achados teriam pouca validade e não seriam aderentes ao framework tripartite da detecção, apreensão e transformação de Teece (2007).
A respeito do framework sugerido por Teece (2007), ele serviu para nortear a análise final dos dados. Permitiu, inclusive, a evidenciação da existência, no caso da CTT, da detecção, da apreensão e/ou da transformação de rotinas, recursos, competências e outras capacidades e permitindo resultados positivos para as organizações envolvidas (TEECE, 1986; 2006; 2010).
Realizadas as análises e atingidos os objetivos propostos, inclusive a composição de um framework do desenvolvimento da CTT, foram expostas as conclusões e realizada a redação final do relatório desta investigação. Dito de outro modo, os resultados potenciais desta pesquisa foram: a exposição das características, dos principais fatores, do comportamento dos recursos, competências, rotinas e capacidades envolvidos, e a apresentação de um framework da dinâmica do desenvolvimento da CTT das IES públicas brasileiras. Isso permitiu confirmar que a transferência tecnológica é uma capacidade dinâmica e passível de ser considerada como um composto de ações intencionais e organizacionais envolta de rotinas, competências e recursos para transferir tecnologia.
Por fim, entendeu-se que esta pesquisa atende aos pré-requisitos de validade e confiabilidade científica (PAIVA JÚNIOR; SOUZA-LEÃO; MELLO, 2011). Entre os critérios foram utilizadas múltiplas fontes e teorias, como referência, de forma complementar e buscando um esclarecimento convergente; foi buscada a saturação dos dados de modo a atingir os objetivos do estudo; houve a confrontação dos dados coletados com a opinião dos informantes dos referidos dados; e intentou-se adotar um comportamento transparente e claro quanto aos procedimentos de investigação, bem como da descrição do contexto social da pesquisa. Como consequência novas descobertas emergiram de forma a inspirar reflexões, limitações e sugestões para novas pesquisas sobre o tema.
4 ANÁLISES E RESULTADOS
Nessa seção são apresentados os resultados à luz do estudo de caso estendido e da análise do discurso divididos em três subseções: uma destinada à explicação da heurística do fluxo temporal dos NIT, a segunda à análise within case e a terceira à análise cross case. Essas duas últimas subseções de análises são dedicadas a elucidar as características e evidenciar os fatores do desenvolvimento da CTT em IES públicas brasileiras, além de expor o comportamento da referida CTT ao longo do recorte temporal.