Diante dessas novas demandas sociais e das imposições políticas do CNE e MEC, foi sistematizado um novo currículo para o curso de Ciências Biológicas da UFC, no ano de 2005. Segundo nossa análise dos documentos que correspondem ao Projeto Pedagógico de Curso, o currículo do referido curso tem como arcabouço básico:
[...] disciplinas obrigatórias do Núcleo comum, aquelas disciplinas que fazem parte do currículo tanto do Licenciado como do Bacharel em Ciências Biológicas; disciplinas obrigatórias para o Bacharelado e disciplinas obrigatórias para a Licenciatura, específicas para cada modalidade; disciplinas optativas para Bacharelado e para licenciatura, são disciplinas que constam na integralização curricular do curso e de disciplinas eletivas, são aquelas de livre escolha ofertadas na Universidade, mas que não constam da integralização curricular do curso e que podem ser integralizadas como optativas [...] (UFC, 2007, p. 97).
Conforme consta nos documentos curriculares, para receber o título de “Licenciado em Ciências Biológicas o estudante deverá integralizar 1856 horas/aula nas disciplinas do Núcleo comum” (UFC, 2005, p. 16), sendo que 736 horas/aula correspondem às disciplinas obrigatórias específicas, destas, 64 horas/aula será de conteúdo complementar. Também, temos uma carga horária destinada a disciplinas optativas/eletivas, que devem somar o mínimo de 192 horas/aula.
Segundo a nossa análise documental do supradito projeto curricular, no novo currículo é importante que todas (ou quase todas) as disciplinas tenham vínculos com a prática docente, pois, ao mesmo tempo em que contribuem para a formação relativa ao conhecimento biológico, terão também um foco em como este conhecimento biológico entra, interage e funciona nas escolas Fundamentais e Médias, bem como em situações
de educação não-escolar. Como consta no documento oficial, o biólogo formado na UFC deverá ser capaz de:
1. Ser um indivíduo consciente de seu papel na sociedade como cidadão atuando como educador e/ou com uma formação geral interdisciplinar aplicada a um contexto regional; 2. Compreender as exigências do mercado de trabalho e as áreas em que pode atuar a partir de uma percepção da realidade regional; 3. Responder de maneira adequada a essas exigências, desenvolvendo continuamente suas habilidades; 4. Saber atuar na pesquisa básica e aplicada; 5. Desenvolver atividades educacionais visando a melhoria da qualidade de vida e não apenas a qualidade de vida do ser humano; 6. Elaborar e executar projetos; 7. Organizar, coordenar e participar de equipes multiprofissionais; 8. Utilizar o conhecimento acumulado de forma crítica. (UFC, 2007, p. 99).
Ao estudarmos a proposta formal do curso de Ciências Biológicas da UFC, notamos que o curso propende à formação de um profissional biólogo consciente de seu papel na sociedade, e que utiliza os saberes de forma crítica. Desta feita, esta proposição inicial, assemelha-se ao que definimos como formação de professores reflexivos-engajados, uma vez que concebe o trabalho docente como ligado aos aspectos sociopolíticos mais amplos :. ?;8 LEITE, 2011, 2012). Baseando-se nesta categoria, entendemos que o trabalho pedagógico deve ser tratado como historicamente datado e geograficamente localizado, sem, no entanto, quer significar que ele deva se voltar exclusivamente para as questões locais, tampouco sem descuidar dos aspectos inerentes às questões metodológicas.
Ainda segundo o Projeto Pedagógico do Curso, o currículo do curso de Ciências Biológicas da UFC tem em vista:
[...] garantir uma sólida formação básica inter e multidisciplinar; [...] garantir um ensino problematizado e contextualizado, assegurando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; [...] estimular atividades que socializem o conhecimento produzido tanto pelo corpo docente como pelo discente; estimular outras atividades curriculares e extracurriculares de formação (UFC, 2007, p. 108).
Diante das determinações do CNE/CP (BRASIL, 2002, 2002a), a nova integralização curricular do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas conta atualmente com 3.384 horas/aula de atividades, incluindo-se disciplinas e atividades complementares, divididas em quatro anos (oito semestres), com máximo de permanência de seis anos, num total de 211 créditos.
As diversas atividades curriculares também fazem parte da carga horária da formação do futuro professor de Biologia. Além da carga horária em disciplinas da formação básica e diferenciada, o aluno deverá cumprir, no mínimo 200 horas em Atividades Complementares.
Segundo o que consta nos documentos formais, tais atividades
[...] compreendem um conjunto de estratégias didático-pedagógicas, de natureza acadêmico-científica, bem como artístico-cultural e esportiva, portanto, de amplo espectro de ações, visando oferecer ao aluno, ao longo do curso, uma intensa vivência universitária, condição fundamental para articular saberes teórico-práticos, e complementar, com habilidades e procedimentos diversificados, a sua formação na condição de profissional e cidadão. Essas têm por objetivo possibilitar a inserção do aluno em distintas situações de aprendizagem. (UFC, 2005, p. 27).
Outro grupo de disciplinas que compõem o projeto curricular da Licenciatura é o das disciplinas pedagógicas, que somam 256 horas/aula (UFC, 2005, 2007). São elas:
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Cada uma delas possui quatro créditos, correspondendo a uma carga de 64 horas/aula. Uma dessas disciplinas em particular, “Estudos Sócio-Históricos e Culturais da Educação”, chama nossa atenção para o objetivo da mencionada, segundo sua ementa:
Ementa: Conceitos fundamentais à Sociologia, História e Antropologia para a compreensão da relação entre Educação e Sociedade. A interdisciplinaridade do pensamento pedagógico. Multiculturalismo e políticas educacionais de ação afirmativa (UFC, 2005, p. 24 ! ).
Diante da proposta da disciplina acima, contida no Projeto Pedagógico do Curso, reconhecemos que a referida traz possibilidades interessantes para a formação do futuro professor de Biologia. Isso porque, como apontam Fazenda (2008, 2009) e Trindade (2008), é preciso que o educando tenha contato com atividades que possam discutir a interdisciplinaridade. Sobretudo, como apontam esses autores, é preciso que essas discussões em torno do tema não se restrinjam aos aspectos meramente cognitivos do licenciando, e sim, é fundamental que haja uma preparação para a prática docente.
Ainda a respeito da interdisciplinaridade, Thiesen (2008) declara que ela é necessária ao momento histórico presente, e a área de ciências da natureza é carente de reflexões sobre seu uso no ensino. Assim, essa disciplina, segundo o documento analisado, torna-se relevante para a formação do professor desse campo.
Nesta integralização curricular atual, parte da carga da Prática como Componente Curricular, instituída pela resolução CNE/CP Nº 1/2002, corresponde às disciplinas de Instrumentalização para o Ensino de Ciências, ministradas do primeiro ao quinto semestres. Cada Instrumentalização possui uma carga horária de 64 horas/aula. As duas primeiras dessas disciplinas são oferecida para alunos de ambas as
modalidades. Já as três últimas são exclusivas do curso de Licenciatura. Sobre estas disciplinas, o Projeto Pedagógico de Curso afirma:
Estas últimas correspondem à prática como componente curricular objetivando a articulação dos conhecimentos teóricos com a prática profissional, vivenciadas ao longo do curso, onde ocorrerá a interdisciplinaridade dos conteúdos das Disciplinas do Núcleo Comum visando a transposição do conhecimento adquirido para o ensino fundamental e médio. (UFC, 2005, p. 16).
As disciplinas de Instrumentalização visam à produção de atividades interdisciplinares entre as disciplinas de conteúdo específico do semestre (Núcleo Comum). Segundo o relato apresentado pelos entrevistados (Íris e Cravo) nas Instrumentalizações existe a participação de professores convidados das diversas disciplinas de cada semestre, coordenados por um professor do setor de Prática de Ensino do departamento de Biologia. O professor coordenador é responsável por articular o calendário letivo da disciplina, a participação dos demais professores, bem como ser o regente de algumas atividades durante o semestre.
Segundo o que Cravo nos informou, o nome que caracteriza essas disciplinas, advém das Resoluções publicadas pelo CNE/CP (BRASIL, 2002, 2002a). Transcrevendo suas palavras:
O nome instrumentalização vem da própria Diretriz do MEC, que diz que as disciplinas tem que ter um componente de instrumentalização para o trabalho do professor. Então, o nome dessas disciplinas surgiu daí. (Cravo) As Instrumentalizações buscam a transposição dos saberes específicos, adquiridos nas disciplinas do Núcleo Comum, para o ensino fundamental e médio. Desta feita, elas primam por articular, de forma interdisciplinar, os saberes específicos com a transposição destes conteúdos. Assim, espera-se que os futuros professores possam, em seu trabalho cotidiano, exercer a profissão docente de forma interdisciplinar.
Inclusive, essa possibilidade é explicitada na ementa das disciplinas de Instrumentalização, que apontam como objetivo da disciplina a “transposição do conhecimento adquirido dos conteúdos teóricos e práticos das disciplinas do primeiro semestre em uma articulação interdisciplinar para o ensino fundamental e médio”
(UFC, 2005, p. 25 ! ).
Analisando o trecho do documento acima, compreendemos que essas disciplinas podem ter um papel ímpar na formação do biólogo docente. Contudo, reiteramos que é preciso que essa potencialidade seja efetivada na prática, e refletida, em seguida, de
forma crítica, buscando uma práxis curricular (PACHECO, 1996, 2005) com caráter interdisciplinar (FAZENDA, 2009).
Somadas às 320 horas/aula das disciplinas de Instrumentalização, existem outras duas que funcionam como expositoras da Prática como Componente Curricular, que são Informática Aplicada ao Ensino (64 horas/aula) e Biologia de Campo Aplicada ao Ensino (32 horas/aula), totalizando 416 horas/aula (UFC, 2005, 2007). Assim, o curso cumpre a carga exigida pelas Resoluções 1 e 2 do CNE (BRASIL, 2002, 2002a).
Segundo o que apuramos em entrevista com professor Cravo, sobre como se deu o processo de criação das disciplinas de Instrumentalização, percebemos que essas disciplinas foram criadas disciplinas específicas para representar a prática como componente curricular. Ele relatou que o grupo colegiado de professores do curso decidiu trabalhar a carga horária referente à Prática como Componente Curricular na forma de disciplinas específicas – as Instrumentalizações.
Vale ressaltar que grande parte dos cursos de Licenciatura na área de ciências da natureza em nosso país não coloca a carga horária da Prática como Componente Curricular na forma de disciplinas específicas (TERRAZZAN, 2007; GATTI et al., 2010), como ocorre no curso de C. Biológicas da UFC. Segundo Íris, a ex-coordenadora do GTL, o formato disso que adquiriu aqui na UFC foi uma característica de metodologia específica.
Sobre esse tema, o entrevistado que acompanhou o processo de criação e desenvolvimento do currículo em vigor explicitou que o motivo de se trabalhar com disciplinas específicas voltadas ao ensino de Ciências Biológicas, e não com a carga distribuída nas disciplinas da área básica do Núcleo Comum a ambas as modalidades do curso, foi o seguinte:
A nossa reflexão, enquanto estávamos construindo esse projeto, nós pensamos: ‘quem é o professor que vai formar os futuros professores?’ São os doutores que passaram pelas suas respectivas pós-graduações e que até hoje a gente não tem uma formação voltada para o ensino dentro das pós- graduações. Não tem preocupação com a docência. Tem até alguma coisa com a docência no ensino superior, e não no ensino básico. Então nosso professor tem a pós-graduação na área específica de formação dele, e não tem conhecimento da parte específica de ensino. Então, a partir dessa reflexão, e das dificuldades que nós encontramos para contemplar essas questões da licenciatura, e se nós deixássemos esses conteúdos de ensino dentro da parte específica da Biologia, com as disciplinas de conteúdo, talvez a gente não tivesse essa atividade [formação de professor] contemplada. Então, resolvemos colocar a prática como componente
curricular como disciplinas isoladas, para que nós tivéssemos momentos específicos para a reflexão sobre isso. (Cravo).
De acordo com a fala do ex-representante da coordenação, para o grupo que construiu o atual currículo do curso de Licenciatura, existia um receio de que o tempo que poderia ser destinado dentro das disciplinas do Núcleo Comum à Prática como Componente Curricular ser desviado para os conteúdos específicos das disciplinas de Biologia, e não a preparação do(a) futuro(a) professor(a). Esse temor surgiu da análise sobre o quadro de professores do departamento, composto, majoritariamente, por docentes doutores em áreas específicas, mas que não tem uma formação voltada para o ensino dentro das pós-graduações. Não tem preocupação com a docência. Diante dessa possibilidade, o grupo autor/ator do currículo formal resolveu colocar a prática como componente curricular como disciplinas isoladas.
Para enfatizar nossa percepção sobre o processo em questão, apresentamos um outro trecho da entrevista com Cravo, no qual o mencionado é explícito e enfático: Se essa questão do ensino estivesse dentro de cada disciplina do curso, e com certeza eu digo, que não apareceria.
Outro grupo de disciplinas que compõem a sistemática curricular atual são os estágios supervisionados. Esses derradeiros são postos como atividade curricular obrigatória, o Projeto Pedagógico de Curso (PPC) alega que eles “constituem a oportunidade de inserção dos futuros Licenciados na realidade escolar, participando das várias etapas do processo de ensino-aprendizagem” (UFC, 2005, p. 16). Eles estão distribuídos em quatro atividades, ofertadas entre o quinto e oitavo semestres do curso. O referido documento indica que eles “serão desenvolvidas em escolas públicas de Educação Básica da Rede Municipal e Estadual de Ensino no Município de Fortaleza, sob a orientação e acompanhamento dos Professores das Práticas de Ensino, segundo as Normas estabelecidas pelo Colegiado da Coordenação do Curso” (UFC, 2007, p. 112).
Ainda, o PPC (UFC, 2005, 2007) rege que os futuros Licenciados, no 5º e 6º semestres, irão desenvolver os estágios supervisionados no 3º e 4º ciclos do Ensino Fundamental. Já no 7º e 8º semestre serão desenvolvidos os estágios nas escolas nas séries do ensino médio.
Segundo o que conseguimos apurar em nossas conversas informais com alunos e professores, ficamos sabendo que as quatro disciplinas de Estágio Supervisionado (do quinto ao oitavo semestre) são disciplinas de seis créditos (96 horas/aula), organizadas em dois momentos complementares. O primeiro momento é o estágio supervisionado
em escolas da rede pública de ensino de Fortaleza, em que a tendência é buscar como campo de estágio escolas localizadas nas proximidades do Campus do Pici, UFC- Fortaleza, por facilitar o acesso dos estagiários e dos professores supervisores das disciplinas.
Nas escolas, cada estagiário deve cumprir atividades de observação das aulas ministradas pelos professores da disciplina de ciências ou Biologia da instituição de estágio, além de ministrar regências. Já nos momentos em que os alunos ficam na universidade, comumente chamado de “aula teórica”, ocorrem nas salas de aula do departamento de Biologia. O objetivo deste momento é socializar as atividades desenvolvidas nas escolas pelos estagiários, discutir e refletir sobre os acontecimentos do estágio, e onde a troca de saberes pode representar um papel importante na formação dos futuros professores e professoras.
Vale ressaltar que ao somarmos o número de horas direcionado as disciplinas de estágio, temos um total de 384 horas/aula, valor aquém do exigido pelo CNE (BRASIL, 2002a), que são 400 horas de estágio. Assim, para complementar tal carga horária, a sistemática do curso utiliza o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que tem como objetivo a “elaboração de um trabalho original a partir das experiências vivenciadas nas Disciplinas de Instrumentalização e de Estágios Supervisionados, seguindo as normas da ABNT” (UFC, 2005, p. 27).
Contudo, ao refletirmos sobre o que propõe a Resolução 01/2002 (BRASIL, 2002a), consta em seu artigo 1º, inciso II, que é obrigatório que o graduando em cursos de licenciatura plena cumpra a carga horária de “400 (quatrocentas) horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso”. A ideia central que pode ser encontrada implicitamente na referida Resolução é a de que é bem diferente observar um dia de aula numa classe, uma vez por semana, por exemplo, e poder acompanhar a rotina do trabalho pedagógico durante um período contínuo, percebendo o desenvolvimento das propostas, a dinâmica do grupo e da própria escola, e outros aspectos não observáveis em estágios pontuais. Com isso, o estágio deve ser voltado à prática e à reflexão crítica sobre esta. Assim, o TCC, mesmo sendo “sobre” o estágio, não pode ser contabilizado dentro de tal carga horária.
Diante desse e de outras necessidades relacionadas à sistemática curricular de 2006 (UFC, 2005), ocorreram algumas mudanças nos currículos ao longo dos anos seguintes a primeira turma ingressante no currículo de 2006.