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SINIRLI SORUMLULUK

O movimento histórico permitiu analisar que a qualidade da educação se expressa como um posicionamento político e ideológico, variando sua concepção de acordo com um determinado grupo social. Essa distinção é que permite a compreensão das relações sociais que ultrapassam os muros da escola, vinculando-se à realidade concreta.

No âmbito das relações sociais capitalistas, a qualidade da educação está marcada pelas visões de classe. Dessa forma observa-se que o debate vem ganhando espaço a partir das décadas de 1980 e 1990, sob juízo de valor mercadológico. Com a ampliação da ideologia neoliberal, emerge a referência da educação de qualidade total, cujos enunciados passam a ser educação de resultados, flexibilidade e empreendedorismo. A formação do trabalhador, exigida nesses moldes, cumpre com a

função de mantê-lo produtivo, obediente, alienado aos processos de produção e exploração de sua mão de obra.

No Brasil essa referência em educação ficou visível a partir do Governo Collor e se solidificou com o Governo FHC. Ocorreu nessa época a abertura da área educacional aos interesses do capital privado, por uma política essencialmente neoliberal, na qual a descentralização torna-se presente nos debates, nos projetos e na legislação educacional. A oferta de instituições de ensino superior privadas cresce rapidamente, o ensino médio perde sua identidade, a educação profissional ofertada pela rede federal é desmantelada e vive sob pressão por sua privatização (FLACH, 2005).

No início do século XXI, vê-se um país mergulhado numa profunda crise de desemprego, enorme precarização do trabalho, degradação crescente do meio ambiente, num processo destrutivo que tem gerado uma imensa sociedade dos excluídos e dos precarizados (ANTUNES, 2010, p. 181).

Ao discutir as novas formas de trabalho que se desenvolvem sob os avanços tecnológicos, Antunes (2010, p. 177) destaca que:

A nova fase do capital, portanto, re-transfere o savoir faire para o trabalho, mas o faz apropriando-se crescentemente da sua dimensão

intelectual, das suas capacidades cognitivas, procurando envolver

mais forte e intensamente a subjetividade operária. Mas o processo não se restringe a esta dimensão, uma vez que parte do saber

intelectual é transferido para as máquinas informatizadas, que se

tornam mais inteligentes, reproduzindo parte das atividades a elas

transferidas pelo saber intelectual do trabalho. Como a máquina não

pode suprimir o trabalho humano, ela necessita de uma maior

interação entre subjetividade que trabalha e a nova máquina

inteligente (grifos do autor).

Entretanto essa conquista tecnológica que pode provocar maior estranhamento e a maior alienação é a mesma que possibilita novas relações sociais baseadas no atendimento das efetivas necessidades humanas e sociais, na qual o exercício do trabalho se constitui em algo livre e satisfatório.

A implementação de uma política educacional está inevitavelmente comprimida nesse dilema: ou responde aos anseios imediatos de qualidade e trabalho requeridos pelo setor produtivo; ou prepara os indivíduos e a sociedade para a responsabilidade de construir coletivamente um projeto societário baseado em bem-estar social para todos.

Sob esse novo paradigma de vida sustentável, surge, em contraposição à concepção hegemônica presente no sistema de ensino brasileiro, a qualidade social da educação.

Por qualidade social se entende:

a capacidade da sociedade em providenciar educação com padrões de acesso à escola pública, recursos tecnológicos, infra-estrutura, organização, funcionamento, gestão de espaço e instituições públicas, processos de ensinar e aprender, adequados aos interesses da maioria da população (CAMINI, 2001, p. 46).

Nesse sentido compreende-se a educação como instrumento de formação extensa, que vai além dos muros da escola ou de uma formação meramente voltada para o mercado de trabalho. A educação volta-se para a emancipação humana e social, para a formação de cidadãos capazes de produzir outras formas de relações sociais, opostas ao que existe atualmente.

Discutir qualidade social da educação é propor uma nova qualidade, em que se enfatize o aspecto social, cultural e ambiental da educação, e se valorize não só o conhecimento simbólico como também o sensível e o técnico (GADOTTI, 2009).

O termo “qualidade social” tem sido utilizado com frequência, especialmente pelos movimentos sociais, revolucionários, do campo da esquerda brasileira. Entretanto, a temática não tem sido explicitada de forma sistemática em seu sentido teórico-prático (FRIGOTTO, 2008; CARREIRA; PINTO, 2007).

Bernard Charlot destaca que a qualidade social é uma noção “estranha”, e “tipicamente brasileira”, que apresenta a vantagem de explicitar a postura sociopolítica de quem a defende: “não fala da qualidade no sentido neoliberal do termo, e, sim, da qualidade social da escola pública. Ao usar essa expressão, quem fala diz, implicitamente, que está do lado do povo” (2005, p. 42, grifo do autor). A ambiguidade ideológica é descartada, mas o conteúdo da fala não fica claro.

O autor pontua que, além de não estar bem definida, a expressão esbarra numa dificuldade específica. “A sociologia evidenciou a relação entre as estruturas da sociedade e sua escola. Cada sociedade tem uma escola que, por definição, condiz com ela; portanto, tem uma escola que apresenta a qualidade social de que ela precisa” E conclui que na expressão “qualidade social” o termo “social” remete ao povo, à

exigência de bem formar os marginalizados, de providenciar-lhes oportunidade de ascensão social (p. 43).

Quanto à dificuldade específica da expressão apontada por Charlot, Frigotto (2008) compreende que a qualidade social refere-se a uma educação de qualidade para outras relações sociais, já que a educação de qualidade total se refere à qualidade social requerida para a reprodução das relações sociais capitalistas.

A Conferência Nacional de Educação (CONAE) realizada em abril de 2010, com a discussão central “Construindo o sistema nacional articulado: o plano nacional de educação, diretrizes e estratégias de ação”, resultou da parceria entre os sistemas de ensino, o Congresso Nacional e a sociedade civil. Em seu documento final, a CONAE apresentou diretrizes, metas e ações para a política nacional de educação, na perspectiva da inclusão, igualdade e diversidade, destacando-se a perspectiva de qualidade social almejada para a educação brasileira.

De acordo com o documento final da CONAE, a educação com qualidade social implica a garantia do direito à educação para todos, por meio de políticas públicas acompanhadas e avaliadas pela sociedade. Implica também processos de avaliação que assegurem ao educando “o desenvolvimento e apreensão de saberes científicos, artísticos, tecnológicos, sociais e históricos, compreendendo as necessidades do mundo do trabalho, os elementos materiais e a subjetividade humana” (BRASIL, 2010, p. 41).

A qualidade social da educação é apontada como um fenômeno complexo e abrangente, de múltiplas dimensões, que não pode ser apreendido apenas pelo reconhecimento da variedade e das quantidades mínimas de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. Para determinar a construção de princípios e bases para a efetivação de políticas públicas direcionadas à educação, o documento aponta que:

a) As dimensões, intra e extraescolares, devem ser consideradas de maneira articulada, na efetivação de uma política educacional direcionada à garantia de educação básica e superior de qualidade para todos/as.

b) A construção de uma educação de qualidade deve considerar a dimensão socioeconômica e cultural, uma vez que o ato educativo se dá em um contexto de posições e disposições no espaço social [...], de heterogeneidade e pluralidade sociocultural [...].

c) A criação de condições, dimensões e fatores para a oferta de um ensino de qualidade social, capaz de envolver a discussão abrangente sobre o custo aluno/qualidade, deve desenvolver-se em sintonia com ações direcionadas à superação da desigualdade socioeconômica e cultural entre as regiões [...].

d) O reconhecimento de que a qualidade da educação básica e superior para todos/as, entendida como qualidade social, implica garantir a promoção e a atualização histórico-cultural em termos de formação sólida, crítica, criativa, ética e solidária, em sintonia com as políticas públicas de inclusão, de resgate social e do mundo do trabalho [...]. e) Os processos educativos e os resultados dos/das estudantes, para uma aprendizagem mais significativa, resultam de ações concretas, com o objetivo de democratizar os processos de organização e gestão [...].

f) As relações entre número de estudantes por turma, estudantes por docente e estudantes por funcionário/a técnico/a-administrativo/a são aspectos importantes das condições da oferta de educação de qualidade [...].

g) O financiamento público é fundamental para estabelecer condições objetivas de oferta de educação de qualidade e para implementar educação básica e superior pública de qualidade que respeite a diversidade [...].

h) A estrutura e as características da instituição são aspectos que traduzem positiva ou negativamente a qualidade da aprendizagem [...]. i) A livre organização sindical e estudantil deve ser garantida.

j) As políticas devem estimular a motivação, a satisfação com o trabalho e a identificação dos/das professores/as com a instituição educativa (como local de trabalho), de modo associado à formação inicial e continuada, bem como à estruturação de planos de carreira compatíveis com os/as profissionais da educação.

k) A satisfação e o engajamento ativo dos diferentes segmentos e, sobretudo, do/ da estudante e do/da professor/a, no processo político- pedagógico e, fundamentalmente, no processo ensino-aprendizagem é fator de fundamental importância para a melhoria do desempenho escolar e para o sucesso do estudante na escola (p. 47-49).

A qualidade social da educação não é, portanto, limitada a gráficos e fórmulas estatísticas que possam medir um resultado de processos tão subjetivos e complexos, como espera o setor produtivo ao defender a formação do trabalhador alienado e de consumidores para seus produtos e serviços. Uma educação de qualidade social se faz por meio de um conjunto de elementos e dimensões socioeconômicas e culturais, que enfatizam o bem-estar dos indivíduos, que buscam compreender as políticas sociais e ambientais do Estado, que lutam pelo financiamento adequado da educação, pela

valorização dos profissionais da educação, que transforma todos os espaços físicos em ambiente de aprendizagem significativa e vivência democrática.

No plano geral das ideias, a qualidade social envolve o combate à dualidade estrutural presente na realidade da educação brasileira. Um combate que está associado à luta por um novo projeto societário na busca pela superação do capitalismo.

No caminho da superação do capitalismo, a não separação entre qualidade e quantidade na educação ganha centralidade, tanto do ponto de vista do acesso universal à educação básica quanto à natureza das bases materiais possíveis de serem ofertadas pela sociedade no acesso ao patrimônio cultural, científico e tecnológico. “A quantidade é assim entendida, como elemento da qualidade e, esta, atributo daquela.” A separação conforme aponta Gramsci (1978), já citada anteriormente, significa a produção de processos educativos diferenciados, relacionados à manutenção da hegemonia capitalista, produtora das desigualdades sociais. Nesse contexto, o que os defensores da qualidade social colocam em pauta é o direito à universalidade, laicidade, gratuidade e o caráter público e unitário da educação (FRIGOTTO, 2008).

No que concerne à educação profissional técnica de nível médio de qualidade social, o foco centra-se na compreensão da educação tecnológica,20 contra o projeto de um ensino técnico de nível médio específico de cunho unicamente profissionalizante e mesmo do ensino médio integrado expresso nas aspirações do mercado produtivo. Significa trabalhar as bases de domínio do conhecimento que permitem ler, analisar, interpretar, produzir e ter a compreensão de como funciona a natureza, a tecnologia e as relações sociais, políticas e culturais.

Em relação ao método, o confronto é entre a visão fragmentária da realidade que concebe a totalidade como os indivíduos são, das partes, e a concepção dialético- histórica ou materialista-histórica, que busca compreender quais são as determinações ou mediações que produzem determinada realidade humana, neste principio a totalidade resulta da relação das partes.

20 Neste trabalho utiliza-se o termo “educação tecnológica” no sentido de educação politécnica como o compreende Saviani (2007).

Numa discussão pedagógica, uma escola de qualidade social implica ter como foco central o aluno como sujeito concreto, e compreender as condições que o produzem.

Uma escola de outra qualidade social é a que permite, partindo de realidade adversa produzida socialmente em relação aos alunos filhos da classe trabalhadora, atingir o mais elevado grau intelectual e cultural historicamente produzido. Trata-se de transitar da particularidade e singularidade na apropriação das dimensões historicamente produzidas de universalidade em todas as esferas da vida (FRIGOTTO, 2008).

Partindo do exposto por Frigotto, compreende-se que os processos educativos, no conteúdo e no método, numa perspectiva contra-hegemônica às relações sociais dominantes excludentes, forma da qualidade social na medida em que auxiliam na superação da compreensão burguesa que naturaliza a concepção de homem capitalista como aquele que age pelo bem próprio; na superação da ciência/ideologia burguesa em todas as áreas do conhecimento; e na particularidade de como a classe burguesa tem produzido uma sociedade dependente, de desenvolvimento desigual.

Considerando a grande importância que a educação assume na modernidade, o debate sobre a qualidade da educação ganha extrema importância quando se reflete sobre as atuais demandas sociais impostas à educação pública. A discussão sobre tais demandas se faz necessária para o fomento de políticas públicas que visem à promoção da qualidade da educação necessária ao rompimento das barreiras sociais e culturais.

Ressalta-se que, ao longo da história, a educação se apresenta como um poderoso aparelho ideológico na construção de novos consensos sociais. Isso não significa que a qualidade da educação é expressão passiva da realidade social e de seu contexto histórico. Entende-se que, numa correlação de poderes, a educação tem condições de planejar mudanças e criar resistências no contexto de que faz parte. Afinal, voltando ao conceito de Demo (2007, p. 11), a qualidade aplica-se à ação humana, e é o homem, ser social e histórico, quem dá expressão ao termo.

CAPÍTULO 3