Tomando-se, como referência, as pesquisas realizadas por Caldeira (2000), Gomes (2002), Lago (2002), Janoschka e Glasze (2003), Bauman (2003, 2009), Sobarzo, Sposito e Goes (2007), Souza (2008) e Goes e Sposito (2009) e, com base em pesquisas que vimos realizando, constatamos que o aumento da insegurança urbana, do ponto de vista real e potencial, tem comparecido de modo expressivo nos discursos dos sujeitos autossegregados, enquanto um dos principais motivos para justificar a necessidade e o
desejo de se estabelecer um maior nível de controle social (tendo, portanto, o tornado mais visível), de contiguidade e de descontinuidade territorial objetivando proporcionar certo grau de previsibilidade sobre as ações dos demais sujeitos. A opção pela moradia em espaços residenciais fechados caracteriza-se, portanto, como uma das dimensões deste processo.
No âmbito de nossa pesquisa, os espaços residenciais fechados começam a ser aprovados a partir de 1976 em São Carlos e a partir de 1977 em Marília. De 1976 até 1996 (numa fase inicial de autossegregação) que compreende 21 anos, são aprovados apenas 10 empreendimentos deste tipo nas duas cidades.
Contudo, o processo de autossegregação intensifica-se nestas duas cidades a partir de 1997. De 1997 até 2009, compreendendo, portanto, 13 anos, numa fase mais atual de autossegregação, são aprovados 43 espaços residenciais fechados nas duas cidades.
Particularmente, em Marília, de 1977 a 2008, dos 25 espaços residenciais fechados, nove deles foram aprovados entre 1997 e 2001 e onze, entre 2002 e 2008.
Em São Carlos, de 1976 a 2008, dos 28 espaços residenciais fechados, seis deles foram aprovados entre 1996 e 2000 e, em ritmo mais intensivo que Marília, dezoito foram aprovados entre 2002 e 2009.
Com base nestas considerações, a realização de uma análise comparativa dos dados referentes aos registros de ocorrência de crimes no período de 1997 a 2007 em Marília e em São Carlos, a partir do Gráfico 13 ao Gráfico 19, justifica-se pela grande tendência de se associar criminalidade, violência e medo a um grau de insegurança urbana e/ou da sensação de insegurança urbana, que se acentuou a partir de meados da década de 1990, concomitantemente, com a fase em que ocorre um número mais expressivo de implantações de espaços residenciais fechados nestas duas cidades, contribuindo, portanto, para intensificar formas de produção e novos modos de consumo da cidade, os quais se orientaram a partir da negação dela.
Do Gráfico 13 ao Gráfico 15 são representados os dados, efetivamente registrados, relativos aos totais de ocorrências de crimes contra a pessoa10 e contra o patrimônio11,
10 De acordo com o Artigo 121 até o Artigo 154 do Código Penal (CP – DL-002.848-1940), os Crimes Contra a
Pessoa envolvem os crimes contra a honra, contra a liberdade individual, contra a vida, lesões corporais, periclitação da vida e saúde e rixa.
11 De acordo com o Artigo 155 até o Artigo 183 do Código Penal (CP – DL-002.848-1940), os Crimes Contra o
Patrimônio envolvem os crimes de apropriação indébita, dano, estelionato, extorsão, furto, receptação, roubo e usurpação.
considerando o período que se inicia em 1997 e se encerra em 2007, o que, em grande medida, combina-se com o período de grande expansão da autossegregação em Marília e em São Carlos.
Gráfico 13 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Crimes Contra a Pessoa (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
Em 1997, em Marília e em São Carlos, registraram-se cerca de três mil ocorrências de crimes contra a pessoa (Gráfico 13). Marília registrou uma grande tendência de aumento até o ano de 2002, tendo, a partir desse ano, mantido patamares de cinco mil crimes. Por sua vez, São Carlos recuou a patamares de dois mil crimes a partir de 1999, tendo registrado um aumento mais significativo apenas em 2007, quando registrou cerca de três mil crimes.
Crimes Contra a Pessoa
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de O corr ên ci as Marília São Carlos
Gráfico 14 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Crimes Contra o Patrimônio (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
No que se refere aos registros de crimes contra o Patrimônio (Gráfico 14), em Marília e São Carlos ocorreram cerca de três mil registros, tendo havido um crescimento desse quantitativo, nas duas cidades, ainda que mais expressivo em Marília, até o ano de 2004. De um modo geral, nos anos seguintes, houve uma tendência de queda: em Marília, registraram-se cerca de cinco mil crimes contra o patrimônio e em São Carlos, aproximadamente, 4.500 registros.
Crimes Contra o Patrimônio
0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Marília São Carlos
Gráfico 15 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Crimes Contra a Pessoa e Contra o Patrimônio (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
Quando somados os dados, a análise dos registros de crimes contra a pessoa e contra o patrimônio (Quadro 15) permite verificar que, em Marília houve um crescimento mais acentuado no número de crimes até o ano de 2004. Contudo, enquanto em São Carlos os patamares eram de seis mil a oito mil registros, em Marília, expressivamente, registraram-se patamares de quatorze mil crimes entre 2002 e 2005. A partir de 2006, enquanto em São Carlos registraram-se oscilações que variaram entre sete mil crimes, em Marília houve uma tendência de queda, tendo se registrado, em 2007, cerca de doze mil crimes.
Crimes Contra a Pessoa e o Patrimônio
0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 16000 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Total Marília Total São Carlos
Gráfico 16 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Tráfico de Entorpecentes (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
No que se refere a uma análise geral do registro de ocorrência de tráfico de entorpecentes (Gráfico 16), em Marília e em São Carlos, os casos registrados, embora mais expressivos para Marília, tenderam a não ultrapassar a marca de cem ocorrências até o ano de 2003. Contudo, após o ano de 2004, houve uma grande tendência de crescimento tendo, no ano de 2007, tanto em Marília quanto em São Carlos, registrando-se, aproximadamente, 230 ocorrências. Tráfico de Entorpecentes 0 50 100 150 200 250 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Marília São Carlos
Gráfico 17 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Uso de Entorpecentes (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo.
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
No que se refere aos registros anuais de casos de uso de entorpecentes (Gráfico 17), em Marília e em São Carlos, houve bastante proximidade entre as oscilações que tenderam a indicar crescimento, sobretudo, entre os anos de 2000 e 2003 e entre 2005 e 2007. No primeiro recorte temporal, contudo, o crescimento de Marília foi mais expressivo do que em São Carlos.
Entre os crimes contra a pessoa, selecionamos duas modalidades, nas quais, os números de ocorrências foram mais expressivos, bem como, são representativos de um grau mais acentuado de periculosidade ou de violência, quais sejam, as ocorrências de furtos qualificados12 consumados e de roubos13 consumados.
12 De acordo com o Artigo 155, Parágrafo 4º do Código Penal - CP – DL-002.848-1940 – furto qualificado se
caracteriza pelo ato de “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel” quando é cometido com “destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa”, “com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza”, “com emprego de chave falsa” e/ou “mediante concurso de duas ou mais pessoas”.
13 De acordo com o Artigo 157 do Código Penal - CP – DL-002.848-1940 – roubo se caracteriza pelo ato de
“subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência”.
Uso de Entorpecentes 0 50 100 150 200 250 300 350 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Marília São Carlos
Gráfico 18 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Furto Qualificado Consumado (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
No que se refere ao furto qualificado consumado (Gráfico 18), em Marília e São Carlos, no ano de 1997, registraram-se patamares de cerca de mil registros, porém até o ano de 2004, enquanto São Carlos oscilou entre oitocentos e mil e trezentos registros, em Marília, de modo bastante expressivo, estabeleceram-se patamares de cerca de dois mil registros. Porém, a partir de 2006, tanto em Marília quanto em São Carlos, o número de registros tendeu a cair, porém não menos do que o patamar de mil registros para São Carlos e mil e duzentos registros para Marília.
Furto Qualificado Consumado
0 500 1000 1500 2000 2500 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Marília São Carlos
Gráfico 19 – Marília e São Carlos: Séries Anuais das Ocorrências de Roubo Consumado (1997 a 2007)
Fonte: Fundação SEADE. Informações dos Municípios Paulistas; Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo
Org.: Clayton F. Dal Pozzo
No que se refere aos registros de ocorrências de roubos consumados (Gráfico 19), em São Carlos estabeleceram-se patamares mais elevados do que em Marília, em boa parte do período analisado. Em Marília, apenas, entre os anos de 2002 e 2004, os registros foram superiores a São Carlos.
Em Marília, houve uma expressiva tendência de crescimento até o ano de 2003 quando foi ultrapassado o patamar de cem registros, em 1997, para um patamar de quinhentos registros em 2003. Nos anos seguintes, houve uma tendência de queda.
Já em São Carlos, houve uma expressiva tendência de crescimento até o ano de 2000, quando registrou patamares de seiscentos registros. Contudo, nos anos seguintes houve grandes oscilações entre trezentos e quinhentos registros.
De um modo geral, podemos considerar que houve uma tendência de distanciamento no que se refere aos totais de crimes contra a pessoa registrados em Marília, na qual se estabeleceram patamares de cinco mil registros, ao mesmo tempo em que São Carlos os patamares foram de apenas dois mil registros.
No que se refere aos crimes contra o patrimônio, Marília e São Carlos estabeleceram patamares superiores aos crimes contra a pessoa. Marília chegou a atingir patamares de sete mil registros. Em menor medida, São Carlos estabeleceu patamares de cinco mil registros. Roubo Consumado 0 100 200 300 400 500 600 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú m ero de oc orr ên ci as Marília São Carlos
A partir da análise dos dados referentes aos registros de tráfico e uso de entorpecentes, podemos considerar que houve um expressivo aumento em boa parte do período analisado. Oscilações que apontaram para um pequeno declínio ocorreram apenas entre os anos de 2004 e 2005, o que significa dizer que entre 1997 a 2003 e de 2006 a 2007 a tendência foi de um acentuado crescimento.
A partir do ano de 2001, de modo mais expressivo para Marília e com um grau mais acentuado de oscilação para São Carlos, houve crescimento nos números de crimes.
Contudo, podemos considerar que, embora Marília tenha registrado um expressivo aumento, com relação aos registros de números de crimes, isso não se refletiu, de modo igualmente intenso, na proliferação de espaços residenciais fechados, pois, a partir de 2002, apenas onze empreendimentos desse tipo foram aprovados.
De modo inverso à Marília, São Carlos, embora tenha registrado crescimento menos intenso nos números de crimes, verificou-se a implantação de um número mais expressivo de espaços residenciais fechados, tendo totalizado 18 empreendimentos a partir de 2002.
Essa constatação, em parte, ajuda-nos a entender que, embora o aumento da sensação de segurança, a partir do final da década de 1990 até os dias atuais, configure-se enquanto um elemento importante que é utilizado como justificativa para a difusão dos espaços residenciais fechados, seu peso deve ser relativizado, tendo em vista a articulação de outros fatores aos quais daremos destaque a partir dos capítulos seguintes, que também contribuem para compor a tomada de decisão favorável à autossegregação.
2.5. Localização, e tendências de concentração espacial, dos espaços residenciais