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O baixo dinamismo da economia local até mesmo em seus setores com maior empregabilidade (serviços e comércio), faz com que as condições de vida de parte da população de Guarapuava seja precária. Há, na região, uma enorme desigualdade social, que tem crescido nos últimos anos, como demonstra o índice de Gini para a concentração de renda, que passou de 0,61, em 1991, para 0,64, em 2000. A média salarial local, apesar da considerável melhoria nos últimos 10 anos, saindo dos R$ 202, 83, em 1991, para R$ 292, 10, em 2000, ainda é uma das mais baixas do estado. Do mesmo modo, a proporção de pobres108 também é grande, 28,8% da população (ATLAS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO BRASIL, 2000).

Ainda segundo a mesma fonte, a renda apropriada por extratos da população apresenta enormes disparidades, conforme Tabela 09. Em 1991, os 80% mais pobres da população do município se apropriavam apenas de 34,2% da renda, enquanto os outros 65,8% ficavam com os 20% mais ricos. O pior é que, apesar da divulgada modernização do município e as possíveis melhorias na distribuição de renda e no acesso ampliado à educação, por exemplo, esse quadro só se agravou uma década mais tarde, com os 80% mais pobres se apropriando de uma porção ainda menor da renda (31,7%), enquanto os 20% mais ricos reforçaram a apropriação, que chegou a 68,3% em 2000, numa nítida demonstração de que os discursos de mudança e desenvolvimento são, até mesmo, forjados. Se o

108 A taxa de pobreza indica o percentual de famílias com renda familiar mensal per capita até 1/2 salário mínimo, em relação ao número total de famílias residentes na área em estudo (ATLAS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO BRASIL, 2000).

crescimento econômico não vem acompanhado de distribuição de renda e melhorias sociais não há desenvolvimento.

Tabela 09 – Guarapuava: percentagem da renda apropriada por extratos da população (1991-2000) Extratos da população 1991 2000 20% mais pobres 3,10 2,30 40% mais pobres 9,10 7,80 60% mais pobres 18,40 16,80 80% mais pobres 34,20 31,70 20% mais ricos 65,80 68,30

Fonte: Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil (2000). Org.: Márcia da Silva.

Parece ser o que ocorre em Guarapuava, onde o desenvolvimento socioeconômico é mais ilusório do que realidade. Investe-se em alguns programas sociais, de crescimento econômico e de geração de renda pontualmente (mas o alarde é de que atinge os “guarapuavanos” carentes em sua maioria), mas esses não têm sido suficientes para uma mínima eqüidade na melhoria da qualidade de vida. É fato que o problema não é apenas do poder público local ou só desse município, mas é preciso que o poder público seja fomentador de soluções, o que, de forma geral, não tem se visto.

Para além desses números, o PIB per capita é o reflexo da desigualdade de renda. Nesse indicador, Guarapuava supera os demais municípios com o perfil de centro regional. Aqui, o PIB é de US$ 3.692,67, enquanto em Cascavel é de US$ 3.466,23 e em Ponta Grossa de US$ 3.144,50. Se o grande número de pobres do município, em 2000, se apropriava de apenas 31,7% da renda, e se o PIB, por pessoa, era de valor superior a 3.400 reais, não é difícil deduzir que a diferença que estes não receberam foi apropriada pela minoria mais rica, extremando as desigualdades de renda e social locais. Esse fato é confirmado com algumas informações do IPARDES de 2001, que assinalam que as situações mais graves

quanto as disparidades de rendimentos e de outros indicadores sociais ocorrem, sobretudo, em municípios da parte central do estado, onde se localiza Guarapuava.

Dentre esses indicadores, no município, estão a renda dos chefes de domicílios. São 28,37% da população ganhando até um salário mínimo, índice bastante superior aos de municípios como Londrina (16,96%) e Cascavel (19,93%). Outros indicadores sociais, como os de anos de estudos formal, revelam o nível baixo de instrução da população, o que se reflete em inexpressiva consciência política e capacidade de organização etc. Em Guarapuava, 78% da população possuía, em 1991, menos de oito anos de estudos, ou seja, não chegaram sequer a completar o ensino fundamental. Daí até o ano 2000 esse índice foi abrandado, mas ainda permaneceu alto, já que 69,3% da população de então se encontrava com essas características na educação formal, o que se repercute na média de anos de estudos da população local, que é de apenas 5,5 anos. No que tange à freqüência ao ensino fundamental obrigatório (até 14 anos), a média verificada no estado é de 95,7% de concluintes, média esta não atingida por Guarapuava que, apesar de um número expressivo, permanece abaixo dos 90%, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil (2000).

Já o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) constitui-se em outro índice revelador das condições de vida. Este, além da análise de alguns dos elementos mencionados, utiliza-se de outros, como o de esperança de vida ao nascer, o de esperança de vida, a taxa de alfabetização de adultos etc. A partir dele, é possível também fazer uma leitura mais verticalizada da mesorregião Centro-Sul paranaense. Apesar do exposto, a variação do índice entre 1991 e 2000 foi bastante positiva para o conjunto dos municípios, acompanhando o desempenho favorável do Estado, sem, contudo, representar mudanças mais significativas, uma vez que, em sua maioria, estes continuam ocupando as posições mais baixas do ranking estadual. Internamente à região, no entanto, o índice de Guarapuava (0,773) é o que se encontra mais próximo da média do Paraná (0,787), o que não lhe garante paridade com outros pólos regionais, como Ponta Grossa (0,803) e Cascavel (0,810), com índices bem mais satisfatórios.

Não é difícil enxergar, a partir do apresentado acima, o retrato de um município pobre, com população pouco instruída, logo facilmente manipulável. Para não distorcer a realidade ou as melhorias, é importante afirmar que as taxas de analfabetismo vêm decaindo e que o município não se encontra com a pior média (7,85%) se comparada a de outros municípios de mesmo porte e importância regional. Os melhores indicadores, contudo, estão em Cascavel (5,19%) e União da Vitória (5,40%) (IPARDES, 2000a).

Algumas iniciativas, públicas e privadas, no entanto, tem tido relevante importância no sentido de modificar essa realidade. A criação da Agência de Desenvolvimento de Guarapuava (ADESG) é uma delas. A Agência surgiu a partir de reuniões de estudos com a finalidade de realizar um levantamento dos principais problemas do município (e tentar intervir nos mesmos).

Um dos pontos mais discutidos, de acordo com o jornal Tribuna Regional(17 a 23/06/2004, n. 10, p. 2) é “o já batido paradigma do negativismo da

política local, como um dos mais importantes fatores de estagnação. Mas há outros”. O grupo Paradigmas, por exemplo, um dos grupos de estudos da Agência,

constatou alguns elementos109 presentes na sociedade ou na vida “guarapuavana” que retratam também algumas das abordagens aqui realizadas.

Dentre eles, afirma-se que:

em Guarapuava parece que tudo é mais difícil de acontecer; a velocidade de respostas para mudanças de cenário e oportunidades é lenta; as pessoas não se juntam em ações associativas; há comodismo e falta de atualização de vários empresários locais; há uma visão extrativista (erva-mate e madeira); percebem-se muitas coisas para serem feitas mas parece que as pessoas estão em estado letárgico; as relações são de bastante desconfiança; as pessoas que estão vindo de fora estão se empenhando mais que os naturais de Guarapuava; as lideranças não se consolidam; há

109 Os elementos citados estão registrados em um pré-relatório das reuniões do grupo e a nós cedido pela professora Gracita G. Marcondes, uma das participantes do mesmo.

comportamento centralizador na condução das coisas e um sentimento de isolamento político-econômico.

Cabe aqui, no entanto, um adendo a um deles: aquele que afirma que as pessoas chegadas de fora, a Guarapuava, se empenham mais pela cidade do que os próprios “guarapuavanos”. São possíveis duas leituras para essa constatação. Primeiro: há os que não admitem que isso aconteça e vêem como um contra-senso, pois os “estranhos” não conhecem a cidade, sua história e não devem aparecer com soluções para o que desconhecem ou, se participarem, é preciso que haja um comando de “guarapuavanos” e não daqueles, convencionalismo apresentado pela própria agência que afirma querer lutar justamente pelo oposto a esse tipo de atitude. Segundo: há os que valorizam o trabalho dos “estranhos”, entendendo que as pessoas têm que ajudar a construir ou reconstruir a cidade que agora lhes pertence. Mas, mesmo esses muitas vezes admitem afirmações (para ficar no âmbito desta pesquisa) de que algumas relações de poder são conservadoras, que não há crescimento econômico; ou, ainda, que há inconsistência de desenvolvimento local.

No fundo, muitas preferem aceitar a imagem de prosperidade e de modernidade divulgada, especialmente pelos políticos (no poder) ou seus representantes e pela mídia, em parte a serviço dos mesmos. Cabe destacar, ainda, que o próprio fato de apontar a questão como um “problema” já levanta preconceito em relação ao trabalho dos vindiços. Para o grupo da ADESG, os “guarapuavanos” deveriam se empenhar mais que os “estranhos” para melhorar as condições de vida na cidade. Mas o que interessa saber quem faz e provoca melhorias? O importante é que sejam feitas, com o objetivo de atender o número maior possível de pessoas.

Em contrapartida, o jornal Diário de Guarapuava (29/09/2000, n. 464, p. 02) aponta:

A solução concreta dos problemas virá tanto quanto lideranças empresariais e políticas, e até da própria imprensa, forem deixando para o campo dos anacronismos históricos o

conceito de que Guarapuava é um local geograficamente isolado dos grandes centros paranaenses e que a cidade gira só em torno do eixo de seus desafetos e cismas partidários, e se propuserem, em parceria, a concretizar todas as possibilidades econômicas de conjuntura geral.

Em meio a essas abordagens, é possível constatar que convivem, no município, territorialidades mais tradicionais, de ritmos mais lentos, previamente constituídas, em estreita relação com redes de fluxos mais rápidos que conectam a região diretamente a centros mais modernos, inclusive em nível mundial, via exportação, utilização de equipamentos e máquinas agrícolas de última geração, parcerias em projetos etc. Enxerga-se, aí, uma economia moderna com grupos que não se envolvem aparentemente na política local, pelo menos na disputa a cargos políticos, e uma economia mais periférica e arcaica agregada aqueles grupos mais tradicionais, esses sim, vinculados ao político como meio de se fortalecerem também economicamente. Claro que essa relação não é regra, percebendo-se trocas constantes entre os grupos e os atores, independentemente do “lado” em que se encontram.

Em termos de vinculação com os territórios conservadores de poder, veja-se como importante esta análise, posto, eles, apesar de serem explicados a partir das relações conservadoras constitutivas do poder político local, não poderem ser justificados, também, sem as especificidades de fatores econômicos, históricos, geográficos (e até culturais) que sustentaram e sustentam essas relações.

6. A realidade sócio-econômica de Guarapuava e a formação dos territórios