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SESS Z KALMA SEBEB YLE HAK KAYBI

D- DAVA AÇILAMAYACAK K LER

II- SESS Z KALMA SEBEB YLE HAK KAYBI

Na definição abaixo, Edler (1998) anuncia este grupo de trabalhos:

Estes trabalhos compartilhavam não apenas a mesma matriz intelectual – o pensamento foucaultiano seria o denominador comum – e o corte temático – a problemática de correlacionar a produção do pensamento médico com o processo de constituição do Estado brasileiro – mas também a ambição de contribuir para uma crítica do presente a partir de um diagnóstico que auxiliasse na denúncia das formas de poder que se antepunham à emergência da plena cidadania democrática. Inauguraram-se, assim, uma nova tradição analítica, não apenas por romperem com a auto-imagem que a medicina forjara de si mesma, mas, principalmente por introduzirem nova trama conceitual com a pretensão de evidenciar os nexos sociológicos, políticos, epistemológicos e econômicos que articularam historicamente o saber médico com o exercício de variadas formas de poder e dominação social. (EDLER, 1988, p. 174).

No plano geral dos trabalhos em História da Medicina no Brasil, este grupo representa um posicionamento bem mais crítico em relação ao grupo dos Pioneiros. Rompendo com a imagem de uma história da medicina retratada de uma maneira épica ou sem rupturas, trabalhos como “Ordem Médica e Norma Familiar” (COSTA, 1989) utilizaram fontes originais, como as teses de formatura e de concurso das faculdades de medicina do Rio de Janeiro e de Salvador. Utilizando estas fontes, o autor propõe uma reflexão acerca dos efeitos do poder exercido pelos médicos sobre o núcleo familiar, a partir dos “estudos foucaultianos” sobre a invasão

progressiva do espaço da lei pela tecnologia da norma no século XIX (EDLER, 1998).

No campo psiquiátrico, para os jovens médicos que, assim como eu, se interessavam em participar do movimento da Reforma Psiquiátrica no Brasil no início dos anos 1990, algumas leituras sobre a história das práticas psiquiátricas com ênfase na denúncia de uma psiquiatria a serviço da exclusão social eram obrigatórias. Em “Danação da Norma: Medicina Social e a Constituição da

Psiquiatria no Brasil” (MACHADO, 1978), nós tínhamos um bom começo para

ampliarmos nossa capacidade de criticar o discurso psiquiátrico, na denúncia de que ele forneceria o apoio científico para o controle estatal das práticas sociais. Esse ponto de vista, no entanto, é contestado por Flávio Edler, que partindo de aprofundamento das fontes pesquisadas, afirma que Roberto Machado (1978) produz um certo reducionismo histórico quando atribui tanto poder à medicina (EDLER, 1998).

No mesmo raciocínio, me lembro claramente do efeito que o livro “A História

da psiquiatria no Brasil – um corte ideológico”, de Jurandir Freire Costa (1989a)

provocou nas minhas reflexões sobre o poder do discurso psiquiátrico. Analisando a trajetória da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) a partir de suas publicações, Costa (1989) é imbatível na advertência das manobras de exclusão social que podem estar presentes no discurso psiquiátrico e suas conseqüências nefastas. O maior problema desta contribuição, em minha opinião, é o reducionismo das análises históricas da história da psiquiatria “no Brasil” na década de 1920 e 1930. Contudo, principalmente a partir da realização desta tese, percebo que outros debates mobilizavam também a psiquiatria brasileira, e não apenas o tema da Eugenia, assunto de eleição absoluta no livro de Jurandir Freire Costa (1989).

Na verdade, os movimentos de higienismo e eugenismo, embora comumente sobrepostos em termos temporais, devem ser diferenciados. Neste trabalho de tese, por exemplo, tal diferenciação é fundamental, principalmente no período estudado (1920-1930). Trabalhos como os de Boarini e Yamamoto (2004) confirmam a necessidade em diferenciar os dois movimentos:

Refletir sobre o higienismo e a eugenia nas primeiras décadas do século XX, no Brasil, exige alguns cuidados. Primeiro, ao ler o passado, podem ocorrer distorções na compreensão se o fizermos com a lente e os recursos do presente. Sem este cuidado, as limitações históricas da época podem ser consideradas, à primeira vista, como equívocos de seus

autores. Há, ainda, a considerar que no período em referência, as idéias higienistas e eugenistas sobrepuseram-se em grande medida, o que dificulta analisá- las em separado. Outrossim, vale assinalar que estes movimentos não eram dominantes frente aos demais existentes no país e mais: ouviam-se vozes divergentes no interior dos próprios movimentos em tela. (BOARINI & YAMAMOTO, 2004, p. 64).

O higienismo, enquanto uma corrente de pensamento, pode ser considerado um desdobramento da medicina social. A urbanização sem planejamento (principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo) trouxe consigo conseqüências dos processos de industrialização emergente entre o século XIX o século XX. No campo das doenças e seus tratamentos, as más condições sanitárias e o elevado número de mortes relacionado com doenças como tuberculose, lepra, varíola, febre amarela, malária e o tifo, por exemplo, foram relacionados aos efeitos da aglutinação urbana. Era necessário, pois, atingir um ideal de modernidade que se transformasse em prática social. Gondra (2003) esclarece os domínios do higienismo e a importância do ensino médico neste movimento:

Recobrindo o espaço íntimo, da casa e da família; incidindo nas atividades de professores e professoras; expandindo seu alcance para a sociedade mais ampla, encontramos a racionalidade médica em plena movimentação sem, contudo, descuidar do território mais próximo, isto é, o espaço-tempo de formação dos futuros doutores. Nos trópicos, lendo franceses, buscava- se operar uma efetiva modelagem, equipando os jovens acadêmicos dos largos fundamentos da doutrina higienista. Bem formados, esperava-se que esses homens agissem como efetivos médicos da ordem social, avaliando, diagnosticando e formulando o receituário a ser seguido. Tal procedimento, constituído em estratégia, funcionou de modo eficaz no processo de construção de legitimidade da própria ordem médica. (GONDRA, 2003,

p.35).

Já o eugenismo tinha como meta a melhoria e a regeneração racial. Seus pressupostos partiam principalmente das ciências naturais, e das descobertas da Biologia como as contribuições de Gregor Mendel e sua nova concepção de hereditariedade e, principalmente, na Biometria de Francis Galton. Era importante deter a degradação dos povos em geral, da qual o Brasil não estava isento.

Fundada em 1923, no Estado do Rio de Janeiro, pelo psiquiatra Gustavo Riedel, a LBHM (Liga Brasileira de Higiene Mental), pretendia a regeneração dos indivíduos para melhorar a sociedade. A partir de 1928, a LBHM reafirma seu estatuto para viabilizar, em outros termos, seus objetivos: o alvo a partir de então passa a ser o indivíduo normal e não o doente. A estratégia principal passa a ser principalmente a prevenção. A intervenção no meio social procura se tornar

generalizada, usando vários recursos na época, como palestras radiofônicas e nas escolas, artigos na imprensa comum e especializada (Gazeta Médica, Folha

Médica), e campanhas, além da publicação de uma revista específica (Archivos Brasileiros de Higiene Mental). Esse movimento foi bem estudado por Costa

(1989a), embora em seu trabalho ele não explore outras experiências no mesmo período e que tenham se pautado por predominâncias das características higiênicas sobre as eugênicas, como o estudo desta tese.

O trabalho de Duarte (1999) também pode ser inserido nos Estudos

Foucaultianos e trata especificamente da influência da Liga Brasileira de Higiene

Mental (LBHM) nos trabalhos dos psiquiatras mineiros, principalmente a partir de 1930. Segundo a autora, em Minas Gerais, predominou a perspectiva higienista em relação às idéias eugenistas:

Em 1927, é fundada a Liga Mineira de Higiene Mental. Podemos identificar duas direções assumidas pelos alienistas mineiros: a da higienização e da eugenização. O pensamento higienista foi o predominante em Minas Gerais. Os adeptos do higienismo preocupavam-se com os problemas de ordem sanitária, na reivindicação de políticas públicas para a melhoria das condições de vida da população. Consideravam também ser necessária a atualização dos serviços psiquiátricos praticados nos ambulatórios e a profissionalização dos funcionários ligados à saúde mental, além de exigir a instituição de políticas sociais de assistência e prevenção à doença mental. Em menor número, encontramos os alienistas que transformaram a prevenção em eugenia. (DUARTE, 1999, p. 115).

De fato, nesta pesquisa, pelo menos até 1930, o uso da palavra “higiene” era uma constante, e o incentivo à sua prática era considerado uma das bandeiras do trabalho de médicos como Rodrigues, que não propagava em seu Projeto nada parecido com os ideais estudados por Costa (1989a) no Rio de Janeiro.

Outros Estudos Foucaultianos também foram importantes fontes utilizadas neste trabalho de tese. Por exemplo,a parte que trata da história do ensino psiquiátrico dentro da dissertação “Formação do modelo assistencial psiquiátrico no

Brasil” (MEDEIROS, 1977), ou o trabalho de Portocarrero (2002), de inestimável

contribuição para esta tese, principalmente por suas análises das contribuições de Juliano Moreira.

O livro que trata da História da Psiquiatria em Minas Gerais, de João Baptista Magro Filho (1992), intitulado “A Tradição da Loucura: Minas Gerais (1870/1964)” também foi muito importante neste trabalho. Apesar de não ser uma tese e nem anunciar nenhum uso metodológico em particular, o livro apresenta um ponto de

vista do autor marcado pelo campo da Medicina Social, e que deixa no leitor a impressão de uma análise de características “foucaultianas”, principalmente por citações como a seguinte:

Criar hospitais, colônias, escolas, manicômios, cadeias e hospitais psiquiátricos é um movimento que se baseia tanto nas concepções morais de então como nos determinantes econômicos da instalação de uma economia capitalista, ou seja, é compor o espaço de exclusão sob uma ordem de conquista! (MAGRO FILHO, 1992, p. 78)

.

Pude perceber muitas marcas como estas, principalmente a partir dos freqüentes comentários do autor sobre a dinâmica do poder no discurso psiquiátrico, e a atenção que ele tem em delinear a influência do movimento eugênico em Minas Gerais, seguindo o mesmo roteiro feito por Jurandir Freire Costa (1989a), apenas três anos antes.

Aqui também se inserem vários trabalhos importantes no curso da Reforma Psiquiátrica no Brasil, e que foram fundamentais na minha formação, como o livro “As Razões da Tutela” de Paulo Delgado (1992).

Não encontrei nenhum trabalho específico sobre ensino psiquiátrico a partir de um “estudo foucaultiano”. É interessante perceber que minha dissertação de mestrado sobre a cidadania do doente mental (SILVEIRA, 2000), reflete em muitos aspectos as influências das leituras dos “estudos foucaultianos”, fazendo parte, indubitavelmente, deste grupo de trabalhos. No meu trabalho de dissetação, faço uma reflexão acerca dos determinantes para estabelecer condições de construção da cidadania do doente mental, enfatizando que as bases de sua possibilidade incluem também uma revisão do próprio conceito de cidadania como uma formação

discursiva, a partir das contribuições de Michel Foucault (1975; 1978). A dissertação

de mestrado acabou me indicando que parte do meu objeto de pesquisa atravessava o campo da formação psiquiátrica, o que também foi fundamental para a minha decisão por um doutorado na área da Educação.