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amizade, amor, tolerância, coragem, atitude para chegar e fazer as coisas acontecerem, no Grupo Ginástico tem tudo isso [...] É por tudo isso que somos uma grande família, uma família feliz (Caroline Bezerra).

Nesse instante, em que enfatizamos o respeito enquanto valor cultivado no grupo, é importante destacar que o que constitui a ética do grupo não é a união, ou qualquer outro valor especificamente. O que compõe essa unidade é a reunião desses valores postos como sugere Caroline Bezerra logo acima: uma unidade em que as partes interagem na emoção e no linguajear. Essa constatação é possível no pinçar das emoções, das atitudes como afazeres, e por fim, da família, como metáfora para remeter a unidade de interações, todos do domínio da convivência.

Destacamos que não é só as particularidades do grupo em si que religam os atores sociais envolvidos na ação pedagógica de forma amorosa, mas sim os próprios indivíduos que envolvidos no convívio produzem essas particularidades. O que opera de fato o amor é o conjunto de interações que se dá no linguajear de sujeitos que se aceitam mutuamente como legítimos entes na convivência, a partir de uma prática, objeto de desejo comum, e que os despertam para situações e uma existência imersa no devir. Uma existência pautada no amor, na potência da superação das dificuldades e no afazer coletivo e solidário. Essa prática solidária também incide no que designamos por companheirismo.

Foto 1 - Meninos consolando e apoiando a ginasta.

Fonte: João Vital

Ser companheiro é aprender com o outro, sendo o outro, fonte de saberes, como sugere a fala a seguir: “[...] Ser companheira é aquilo que

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aprendemos na experiência quando estamos com alguém, não só nas horas boas, mas também, nas horas difíceis em que precisamos cuidar de alguém. (Yaponira)”. Ao existirmos, existimos na condição de sermos com o outro na relação; relação essa que, agrega saberes e que promove o ser a condição humana. Aprendemos chamar essa relação de convivência.

Para Maturana (1998), é na convivência que se aprende. O que podemos constatar ao visualizar o fragmento a seguir: “[...] Aprendi que amizade é algo muito sério e que ela é cultivada no dia-a-dia” (Yaponira). Observamos que a importância da amizade para os próprios atores sociais, revela uma preocupação com a qualidade do convívio. A amizade constitui um valor que deve ser cultivado na convivência, a partir das interações, principalmente no exercício do linguajear e das emoções. Portanto, a amizade ou companheirismo é percebido como um domínio moral que pode ser estimulado, cultivado.

Os valores postos pelos atores sociais, no que se refere à boa convivência do grupo, refletem a identidade ética da relação em questão. O respeito é um desses valores lembrados nos diferentes discursos: “Com o professor que nós temos, é bem difícil discutir ou brigar, por que conversamos bastante sobre respeito. Temos o respeito como um fator importante para conviver em harmonia, entendendo como é o outro ser humano” (Caroline Bezerra). Caroline Bezerra expressa o reconhecimento da ação do mestre na compreensão de respeito e traz, na seqüência, o sentido desse valor.

Foto 2 - Meninas conversando no intervalo.

Fonte: João Vital

Criar um espaço, uma atmosfera capaz de fazer do ser um indivíduo que interaja com o outro não constitui um desafio. Constitui um desafio para o

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educador, seja ele quem for, compreender e fazer o aprendiz compreender, já na tenra idade, a importância do respeito para a harmonia da vida em um grupo de pessoas que almejam algo em comum. Acrescentamos que esse deslocar para o outro é antes de qualquer coisa uma atitude ética de respeito com o outro, sobretudo, com o cultivo da boa convivência e da vida social, na qual existimos. Existência condicionada à atitude rotineira da conversa, tema que estaremos adentrando com maior especificidade a seguir.

Antes de adentrar a proposição encaminhada inicialmente quanto aos sentidos éticos dos indicadores conversa e diálogo, o investimento primeiro é de compreender o que designa cada termo para que não cometamos desvario. Para tanto, recorreremos a Maturana (2004) e a Freire (2005) para elucidar a aplicação dos termos.

Para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) o conversar é viver na linguagem e na emoção, condição para o viver humano: “constituiu-se então de fato o viver na linguagem, a convivência em coordenações de coordenações, de ações e emoções que chamo de conversar” (MATURANA 1988, apud MATURANA, 2004, p.31).

Nenhum comportamento isolado, nenhum gesto, nenhum movimento, nenhum som, nenhuma postura corporal, por si só, é parte da linguagem. Mas, se está inserida no fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ação, é parte da linguagem (MATURANA, 2001, p.73).

O conversar é parte desse fluir de coordenações consensuais de

coordenações consensuais de ações, ou seja, da rede de conversações de

nós, seres humanos. Para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) o termo linguajear designa a “maneira de conviver em coordenações de condenações comportamentais consensuais” (MATURANA, 2004, p.30). Em outras palavras, o autor atribui ao conversar um fenômeno que confere a nós, homo sapiens, a condição humana. Portanto, é a existência humana um desdobramento do conversar.

Freire (2005, p.95) traz no conceito de diálogo uma importante contribuição para a nossa reflexão. Diz o autor: “o diálogo é o encontro dos homens para ser mais”. A condição de ser mais está associada à forma de pensar e agir dos sujeitos: “pensar crítico”. Pensar criticamente é uma atitude

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política do pensamento. É uma manifestação do sujeito, termo dileto pelo autor, que ao perceber a realidade a compreende de forma dinâmica, como um processo constante e ininterrupto. É a capacidade de captar o mundo como parte de si, como uma substância única, inviolável, cujas partes agem em solidariedade.

Tomamos duas abordagens distintas que diferenciam o conversar do dialogar. A conversa está para nós, homo sapiens, como condição de nossa humanidade, ou seja, da nossa condição existencial. Quanto ao diálogo, compreendemos que este é um desdobramento do conversar, estar para o sujeito/indivíduo como qualidade da condição política do pensamento desse sujeito/indivíduo. Logo afirmamos que, todo diálogo é essencialmente uma conversa, porém, nem toda conversa é um diálogo. Lembremos que para Maturana (1998, 2000, 2001, 2004) a conversa é o princípio universal da condição humana.

Tanto a conversa, na perspectiva de Maturana (2004), quanto o diálogo, proposição freiriana (FREIRE, 2005) estão postos no campo existencial, desdobramento da corrente filosófica do pensamento existencialista. Nesse contexto, apostamos no conversar como a amalgamação de emoções e do linguajear que se dá no fluir de coordenações consensuais de coordenações consensuais de ação (MATURANA, 2001).

Adotando as compreensões que cercam o nosso pensamento sobre o que é o conversar e o dialogar, partiremos para o sentido posto pelos ginastas quanto aos termos, indicadores éticos da convivência no GGTP. Para tanto, estaremos considerando os verbos conversar e dialogar, e suas variações, postos nos discursos dos sujeitos/atores sociais para compreender seus significados na trama ética que cerca o convívio no grupo.

[...] O diálogo é de uma riqueza tão grande que, se parássemos para pensar ou para imaginar só por um instante entenderíamos que melhor do que tentar resolver as coisas no grito é tentar resolvê-las com o diálogo. Sabemos mais quando dialogamos com outras pessoas. Com isso o nosso intelecto aumenta porque aprendemos mais sobre às várias maneiras de pensamento do ser humano. (Naya).

Observamos no fragmento a articulação do pensamento acadêmico que cerca o conversar e o dialogar. Observamos que ao eleger o diálogo como

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melhor caminho, Naya elege uma ferramenta política recorrendo ao pensamento crítico; e ao fazê-lo, não nega o conversar. Propomos assim, o pensamento de que o diálogo é uma ação, expansão política do conversar. Essa condição do dialogar não nega a atribuição primeira do conversar, que é a manutenção das interações e da nossa condição existencial: sermos humanos.

O que mais gosto de fazer é conversar com as meninas nos intervalos que o professor Leonardo dá meio aos treinos. Falamos de tantas coisas, sempre damos opiniões e ouvimos cada uma, quanto ao que elas acham e que aconteceu com elas, dá até para desabafar com coisas que aconteceu conosco, o que sentimos e o que fazemos. É engraçado porque sempre temos um assunto, e isso é bom porque previne contra discussões entre nós. (Fernanda).

Embora os conceitos que cercam o conversar e o dialogar possuam raízes epistemológicas distintas, o sopro existencialista é um vestígio que os articulam. Conversar aparece para Fernanda como um elo que liga ela aos demais componentes do grupo numa ação de reciprocidade de conhecimento e de emoções. Ainda na perspectiva da Fernanda, a conversa é um elo comunicativo que reúne, assim como funciona como estratégia para dirimir atritos na comunicação/relação entre as partes. Essa perspectiva é compartilhada por Stephany:

Depois de termos enfrentado vários problemas entre nós e de ter resolvido todos eles conversando, muitas vezes com muito suor, choro e até boas gargalhadas, é que me convenço que somos sim, uma grande família. Somos uma família e como tal, temos que resolver nossas indiferenças e sermos unidas [...] (Stephany).

Além de confirmar a perspectiva de compreensão da conversa como uma manifestação de ligação afetiva entre os atores sociais, Stephany nos propõe pensar também que, a conversa é útil, pois, como ferramenta política, eis que surge como uma possibilidade para solucionar problemas. Embora não tenhamos a intenção de trilharmos esse caminho utilitarista atribuído ao diálogo, não descartamos a possibilidade de breves trajetos nesse sentido. Optamos por retomar a idéia posta pelos atores sociais, quanto ao ato de conversar e de dialogar, enquanto fenômeno que se dá no convívio e na prática pedagógica do GGTP. Nesse ponto, o caminho é pensar a conversa e o

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diálogo como estratégia da convivência cuja função é agregar indivíduos socialmente.

O nosso grupo estava muito desunido, quase que acabava, foi também conversando que o professor nos salvou de uma catástrofe. Ele nos chamou, todos, e a partir de uma conversa, nos alertou do perigo e assim salvou o nosso grupo. Não conversar é um erro. Como estávamos nos desentendendo, sem conversar, todas nós estávamos erradas (Naya).

Depois de uma longa conversa com o grupo, acertamos que unidos é bem melhor. Em seguida fizemos um circulo e oramos. Conseqüentemente o grupo ficou mais forte e ainda com mais luz. Para mim esse foi um dos momentos mais valiosos que vivi junto ao grupo (Fabrícia).

Naya e fabrícia alimentam a idéia que estamos compartilhando, de que a conversa reúne pessoas no convívio e de que o diálogo é um componente político que nos mantém em interação. Nesse sentido, pensamos em Maturana (1998), para atribuir ao diálogo a condição de componente, pertencente ao domínio da convivência e da política, que nos implicam nas relações sociais.

A conversa é um componente essencial na constituição dos vínculos emocionais e na tomada do outro e de si no convívio (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004). Considerando a perspectiva que nos traz Maturana (1998), quando considera a conversa como condição das relações sociais, compartilhamos o pensamento de que não há conversa na opressão. A conversa é tomada como episódio de socialização da qualidade das relações que se dão no convívio. É a partir do conversar que os conflitos são suprimidos, pois a conversa materializa o amor, uma vez que conversando, aceitamos o outro como legítimo outro na convivência (MATURANA, 1998, 2000, 2001, 2004), (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Verificamos que, além desse sentido articulador dos atores sociais em rede, o ato de conversar, e consequentemente do dialogar, propõe algo mais quando “salva”, quando “fortalece” e quando conduz ao conhecimento. Tanto o conversar como o dialogo insurge para o GGTP como uma condição existencial do próprio grupo, seja na manutenção e integridade, seja na reunião e fortalecimento, seja na construção do saber.

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Benzer Belgeler