A. DÜNYEVİ AZAP(Dünyada Azap Gören Toplumlar)
4. Semûd Kavmi ve Azabı (Ashâb-ı Hicr)
O interlocutor que navega no ciberespaço é bombardeado o tempo todo com textos e assuntos que o interpelam a responder. Sua passagem no ambiente virtual nunca é despercebida. Ele é interpelado a dar uma resposta, a se manifestar, a agir discursivamente. Nesse sentido, a Réplica Convocatória incita o interlocutor a se posicionar responsivamente, apresentando seu tom valorativo diante do discurso proferido na réplica matriz. Diante da convocação do locutor, o internauta/interlocutor não tem álibi, não pode se eximir da sua responsabilidade responsiva. Vejamos a figura 3 a seguir:
Figura 3– A réplica convocatória no fórum da BBC
Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/03/070313_papavetodivorcio.shtml. Acesso em 03/07/2007
Como podemos notar, na construção da réplica convocatória, o interlocutor se utilizou basicamente de três movimentos para cumprir seu projeto discursivo: o resumo, o discurso
citado, a convocação. No resumo, o interlocutor situa o autor do texto – Papa Bento 16 -, o
tipo de texto produzido – documento O Sacramento do Amor –, a data da publicação do texto – nesta terça-feira (03/07/2007), o conteúdo tratado – o segundo casamento de pessoas divorciadas. O resgate de tais informações é necessário porque, muitas vezes, o interlocutor se baseia apenas nas informações postas no resumo e sequer ler o texto-fonte na hora de comentar.
Assim, é importante que o resumo seja o mais próximo possível do texto-fonte, para que o interlocutor tenha o máximo de informação e assim possa opinar, quem sabe, com mais “experiência” sobre o conteúdo abordado.
Para atender os movimentos instantâneos e interativos da internet, muitas vezes, os resumos são curtos e por isso omitem informações necessárias para uma compreensão mais global do conteúdo. Nesse caso, a informação omitida diz respeito à discussão do Papa Bento XVI (2007, p. 47) sobre o discernimento em acolher e admitir na Igreja os casais recasados, mesmo que sua condição contrarie a doutrina da Igreja Católica:
Todavia, os divorciados recasados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa, ainda que sem receber a comunhão [...].
No entanto, essa informação não geraria polêmicas, contradições, talvez o efeito fosse o contrário, desfaria toda a celeuma em torno do tema. Mas o que conta numa seara de luta ideológica é o poder da palavra e os efeitos de sentido que ela pode causar no interlocutor. Então, o locutor preferiu retirar essas informações e apostar nos efeitos de sentido que sua seleção causaria no ouvinte/leitor/internauta/interlocutor.
O site da BBC Brasil é um dos mais conceituados no jornalismo brasileiro, graças à notoriedade que a marca assume no cenário mundial. No entanto, notemos que o site não apontou nenhum link que levasse o internauta a ler o texto-fonte na íntegra; há apenas uma versão da notícia. Com isso, a expectativa de que tal meio de comunicação, ao publicar determinada informação, seja livre63 de manipulações tendenciosas e de pontos de vista, seja
do redator ou do jornal, é quebrada.
Sobre a inserção dos discursos alheios, essa se deu de três formas: através do discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. No discurso direto, o locutor trouxe trechos da fala do próprio Papa Bento XVI (uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai, progressivamente, corroendo os próprios ambientes católicos) para corroborar sua tese – a de que, para o Papa, o segundo casamento é uma praga. O discurso
63 Sabemos que, embora as empresas jornalísticas se apresentem, frequentemente, como mediadoras neutras, objetivas e imparciais da informação, o processo de coleta, elaboração e distribuição de conteúdos informacionais é influenciado, dentre outros elementos, pelos princípios, compromissos, interesses, ideologias e posicionamentos valorativos de cada veículo comunicativo. Logo, não estamos negando essa realidade axiológica. O que queremos dizer é que no jornal, assim como no site em questão, há um espaço específico (a coluna, por exemplo) e gêneros específicos (o editorial, por exemplo) para se publicar textos expressamente opinativos, em oposição ao conteúdo informativo da notícia, cuja função – pelo menos em princípio – seria apresentar a realidade, sem interferir nos fatos.
direto é marcado através das aspas e da seguinte expressão: – para Bento 16 o segundo casamento é [...]-. Esse tipo de construção marca o momento em que o locutor passa a palavra ao outro. No entanto, a palavra do outro pode ameaçar o discurso do locutor, logo, convém não estender em demasia esse espaço da fala alheia.
No discurso indireto, o locutor se utiliza de palavras suas para reproduzir aquilo que foi dito pelo Papa: [...] o papa voltou a dizer que o celibato é uma bênção para os sacerdotes e condenou o segundo casamento de pessoas já divorciadas. Notemos que nesse tipo de construção o texto foi escrito em terceira pessoal do singular e as palavras alheias estão diluídas no discurso do locutor. Assim, o locutor se sente mais protegido para fazer certas afirmações. Como geralmente as pessoas não têm o hábito de ler o texto-fonte, porque, às vezes, nem sequer é postado, então, tudo o que é dito pelo locutor pode se passar como verdade absoluta, dando ao leitor/ouvinte/internauta a sensação de que ele está lendo as palavras do próprio autor do texto-fonte e não as de seu “tradutor”, ou seja, daquele que faz o discurso circular.
O uso do termo “condenou”, por exemplo, não aparece em nenhum momento no texto- fonte, ou seja, na réplica matriz. No entanto, o autor do fórum, ao fazer uso de tal palavra, a traz embebida do discurso social, que rejeita a Igreja porque a vê no papel de julgar e condenar as diversas situações que contrariam a sua doutrina.
No discurso indireto livre há uma fusão dos tipos de discurso (direto e indireto), ou seja, há intervenções do locutor bem como da fala do autor do texto-fonte. Entretanto, não existem marcas que mostrem a mudança de um discurso para o outro, por isso, as falas de ambos podem ser confundidas. No trecho o documento confirmou ainda que os divorciados católicos continuarão sem receber a comunhão. Essa afirmação parte do autor do texto-fonte ou do próprio locutor que está divulgando a informação? Tal afirmação não deixa claro quem seria de fato seu autor. Ora parece ser do autor do texto-fonte, ora parece ser do autor do fórum, que pretende estimular a participação de outros internautas/interlocutores. Sendo assim, as vozes se fundem e fica difícil estabelecer a autoria do texto.
Na convocação, o autor do fórum provoca o internauta/interlocutor a se manifestar sobre o tema apresentado. E você, o que acha? Envie sua opinião. Mas, antes de convocar o interlocutor, o autor faz algumas inserções que dão a entender que a temática é polêmica: A discussão sobre esses temas têm causado polêmica; Muitos católicos acreditam que Bento 16 quer reforçar a posição da Igreja em torno dos valores fundamentais da religião; Mas, os críticos acusam a Igreja de estar desconectada da sociedade atual. Nesse sentido, a informação já circula comentada e essas colocações são interpretações do fórum. Assim, tais
afirmações podem gerar no interlocutor o sentimento de que ele está diante de um mal – a posição da Igreja frente à conduta pessoal do cidadão – e que um instrumento de combate a esse mal seria deixar seu comentário, sua opinião sobre o assunto.
O interlocutor pode se sentir impelido a opinar, como se isso fosse uma obrigação, ou ainda, um engajamento político-social. Assim, seria inconcebível alguém ficar neutro, inerte a tal “afronta” dos seus direitos individuais que a Igreja Católica parece usurpar, que seria o direito ao divórcio e a permissão para comungar mesmo estando na condição de casais recasados.
Após a réplica convocatória, temos a réplica comentarista. Essa última é a manifestação dos interlocutores ao apelo feito na réplica convocatória. No capítulo seguinte, analisaremos as mais variadas respostas dos interlocutores à réplica convocatória.
CAPÍTULO 4
AS VOZES ENUNCIATIVO-DISCURSIVAS DAS RÉPLICAS: COMO OS SUJEITOS RESPONDEM AOS ENUNCIADOS?
“Para a palavra (e consequentemente para o homem) não existe nada mais terrível do que a
irresponsividade.”
(BAKHTIN)
Este capítulo apresenta o segundo conjunto de dados da tese, que diz respeito às réplicas comentaristas dos interlocutores. As respostas desses interlocutores foram diversas e por isso categorizadas de acordo com as estratégias enunciativo-discursivas reveladas nos dados. Antes, apresentamos as formas de representação identitárias desses interlocutores comentaristas.