I. BÖLÜM
1.5. Selçuklu Döneminde Maraş
O modelo apresentado no capítulo 3 procura representar a dinâmica da evolução dos clusters, através de pressupostos. O objetivo deste capítulo é discutir se o cluster calçadista de Franca teve evolução congruente com os pressupostos.
A trajetória do cluster calçadista de Franca, assim como suas características principais, são resultados da entrevista com o pesquisador do SINDIFRANCA (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) e do Resumo da Origem e evolução da indústria calçadista Francana (COUTINHO, 2006).
Os resultados da entrevista sobre a história e evolução de Franca encontram-se no ANEXO IV.
7.1 - Origem do Cluster de Franca.
O segmento de calçados masculinos de couro tem como principal característica a existência de economias de escala. Máquinas e equipamentos (principalmente com tecnologia como corte laser ou jato de água) aumentam a produtividade unitária e tornam o processo mais eficiente (diminuem o ciclo produtivo).
Por exemplo, o corte laser permite cortar várias camadas de couro de uma só vez, evitando a variabilidade e reduzindo as perdas (comuns no processo manual). Por sua vez, o CAD/CAM exclui a necessidade de se fabricar amostras, e finalmente, as máquinas e equipamentos diminuem a necessidade de mão-de-obra.
Conforme dito anteriormente, uma inovação, neste caso, a introdução da produção mecanizada e produção em série, na década de 30, com a empresa Jaguar aliado às condições locais pré-existentes (experiência em produção dos “sapatões” masculinos, abundância de mão-de-obra e abundância de matéria-prima), contribuíram para a criação de economias de escala superiores às existentes, trazendo vantagens de custo para os produtores do cluster (COUTINHO, 2006).
Esta inovação, aliada ao apoio governamental, permitiu o sucesso econômico da Samello e atração de várias empresas para o cluster, consolidando deste modo o parque industrial de Franca (COUTINHO, 2006).
As condições locais foram fundamentais para o estabelecimento e desenvolvimento do cluster. Franca era, na época, uma região altamente comercial e devido à abundância de couro, graças à atividade de gado de corte, aliado à expansão cafeeira trouxe uma alta demanda local por produtos de couro (sapatos, selaria).
Esta demanda favoreceu a expansão da atividade calçadista e no momento em que a inovação surgiu, Franca tinha as competências necessárias, proporcionando economias de escala superiores às existentes (COUTINHO, 2006).
Por sua vez, as competências comerciais e de distribuição pré-estabelecidas, pelo fato de Franca ter sido um entreposto comercial no século anterior, alavancaram ainda mais o cluster (COUTINHO, 2006).
O peso locacional do calçado foi estimado em 2,4, recordando que pesos locacionais maiores que 2 estimulam a concentração próxima à matéria-prima.
7.2 - Evolução do Cluster de Franca.
A seguir são analisadas as diversas fases do cluster de Franca de acordo com os pressupostos estabelecidos no modelo.
7.2.1 - Fase embrionária de Franca.
Desde sua origem, nos anos 30 até o início da década de 50, o cluster de Franca tinha como principal característica a produção de sapatos rústicos, tendo como principal objetivo competitivo o custo. Como os produtos não tinham diversidade e eram mantidos os mesmos custos de transporte, o produtor que tivesse o produto com o menor preço venderia mais.
Provavelmente havia cooperação horizontal, pois as margens de lucro, devido às economias de escala, ainda eram altas e a rivalidade não era tão grande, além do mais, havia uma homogeneidade no porte das empresas. A cooperação provavelmente seria baseada em relações familiares ou de amizade, pois, eram bastante comuns empreendimentos calçadistas “concorrentes” de irmãos, primos e familiares.
7.2.2 - Fase de crescimento de Franca.
A fase de crescimento e expansão do cluster de Franca iniciou-se na década de 60, graças ao aumento da mecanização e estímulo governamental através das linhas de crédito. Foi registrado um crescimento excepcional na produção calçadista, que passou de aproximadamente 1 milhão e 100 mil pares para 2 milhões e 300 mil pares no fim da década de 50 (COUTINHO, 2006).
Nesta fase houve um aumento da qualidade do produto e uma progressiva substituição dos modelos rústicos por modelos com maior valor agregado e qualidade. O desenvolvimento da indústria, propriamente dito, se concretizou na década de 60 com a consolidação do cluster como importante produtor calçadista (COUTINHO, 2006).
Foi também nesta década que houve um aumento das exportações, apesar das vendas para o mercado interno estarem crescentes também. Vale dizer que houve uma nova onda de investimentos em tecnologia, aumentando consideravelmente a qualidade do produto. Do ponto de vista competitivo, o foco ainda era na competição baseada em custo, porém, havia certa preocupação com a qualidade.
Na década de 70 inicia-se o processo de atração de atores a montante (fornecedores especializados) e alguns órgãos de apoio. Na fase de crescimento, várias empresas são montadas por ex-empregados que saíram das empresas pioneiras para iniciar seus negócios como: Sândalo, Agabê, entre outras.
7.2.3 - Maturidade de Franca.
O período de maturidade de Franca, caracterizado pela diminuição das vendas para o mercado interno e esgotamento dos mercados locais, iniciou-se no final da década de 90. Houve uma progressiva compressão das margens, e apesar de perder os incentivos governamentais, as exportações se concretizaram e se mantiveram altas até 1994, com a desvalorização do real frente ao dólar (COUTINHO, 2006).
Com a subseqüente valorização do real, no Plano Real, o calçado brasileiro, no geral, perdeu competitividade e com isso as exportações diminuíram.
Foi principalmente no final da década de 90 e início de 2000 que os grandes compradores globais como Hush Puppies, Timberland, entre outros, e agentes comerciais foram atraídos para Franca, graças á possibilidade de comprar um produto com qualidade, por um preço competitivo (COUTINHO, 2006).
Devido à taxa cambial, era possível comprar o sapato por um preço competitivo e vender no mercado norte-americano por um valor muito maior, possibilitando altas margens de lucro.
A cooperação, tanto técnica, quanto comercial, nunca ocorreu efetivamente em Franca, pelos vários motivos citados anteriormente, entre eles: falta de coordenação das ações na cadeia de suprimentos, heterogeneidade das empresas, entre outros fatores.
Existem alguns casos iniciais de relocação das unidades produtivas para localidades com custos menores de produção e até transferência de duas fábricas para o Nordeste.
7.2.4 - Fase de Pós-Maturidade em Franca.
Na pós-maturidade, acredita-se que haja a dispersão ou surgimento de clusters em setores correlatos, como, por exemplo, de componentes. A redução da centralidade de Franca pode ser notada pela migração de algumas fábricas de Franca para outros estados como Bahia e Ceará.
Uma afirmação feita pode fazer sentido, de que a produção calçadista é nômade, pois, já veio dos Estados Unidos para o Brasil, o futuro, segundo um entrevistado, está na China e outros países da África. Ao Brasil, restaria alguma atividade correlata, como comercialização e distribuição.
Conforme afirma Machado (2003) o cluster não necessariamente deixa de existir, porém, cada vez mais a competitividade será menos dependente da proximidade geográfica das empresas.
Um entrevistado citou a ocorrência de empresários de Franca que estão terceirizando parte das operações produtivas na China, gerando assim um produto mais barato e com o mesmo nível de qualidade do calçado de Franca. Após a produção, o produto é importado, de acordo com os padrões exigidos pelos empresários e este é vendido no mercado brasileiro e no exterior.
Conforme dito anteriormente, nesta fase de pós-maturidade, as fábricas se dispersam por não mais absorverem vantagens em pertencer ao cluster, a produção é terceirizada e o foco passa a ser na comercialização e distribuição, pois a maioria destes empresários, estabeleceu alguns canais de comercialização e distribuição.