BÖLÜM II. YATIRIMIN ve FİNANSMANIN BELİRLEYİCİLERİ
2.4. Türkiye’ de Yatırım ve Finansman Kararları
2.4.2. Türkiye’de Sektör Bazında Yatırım Finansman Kararları
2.4.2.1. Sektör Büyüklüğü ve Özellikleri
A construção dos mitos fundadores em Cataguases tem estreita ligação com as disputas de poder entre famílias que visavam o controle político da cidade, e que de certa formam representaram o confronto da velha oligarquia agrária com a nova cidade de vanguarda. O período entre os anos 30 e 60 do século passado é marcado por disputas políticas entre os grupos de família – reverberando os apontamentos de Della Donne (1990). Os Dutra, descendentes dos Vieira de Resende e representantes da típica oligarquia familiar política, oportunamente voltavam suas propostas eleitorais às denúncias contra a degradação das condições de trabalho. Historicamente, a cidade vivenciava a consolidação da transição da atividade agrícola para a industrial, tornando interessante tais propostas diante das condições precárias impostas aos trabalhadores. Frente a este contexto, a proposta política de Pedro Dutra contemplava discutir questões relativas às relações e condições de trabalho nas indústrias, bem como articular a criação de uma Liga Operária que reivindicasse aumentos salariais e melhorias destas mesmas condições de trabalho.
A Liga Operária foi proposta por Pedro Dutra como parte das promessas de campanha em 193176, claramente em oposição à atividade industrial na cidade já sob controle da família Peixoto, e que também era oponente na política local. À parte do cunho das propostas de Dutra para seu mandato que se iniciou em 1931, cabe destacar que Cataguases já contava com
75 O esfriamento das atividades culturais na cidade se deve, principalmente, pelo fim prematuro das publicações da Revista Verde, em função da morte do poeta Ascânio Lopes, aos 23 anos, em 1929. Em complemento, no mesmo ano Humberto Mauro migra para o Rio de Janeiro, onde dá sequencia a suas produções cinematográficas. 76 Carta de Wagner a Pedro Dutra, em 15/01/1933. Centro de Documentação Histórica.
163 a organização de uma Liga Operária, composta basicamente por ferroviários e tecelões (PIMENTA, 2010). Todavia, o caráter desta Liga Operária remete também a atividades paliativas, cujo eixo não se aproximava de discussões que tivessem como cerne a deterioração do trabalho e as péssimas condições impostas aos trabalhadores. Apesar de publicar informativos a respeito de greves e congressos operários, a Liga se propunha a organizar solenidades festivas, concursos de músicas de carnaval e jogos de futebol77. Tinha como característica proporcionar aos trabalhadores atividades que funcionassem como molas suavizadoras das tensões provocadas pelo trabalho e, desta forma, irem ao encontro dos interesses do capital que passa necessariamente pelo uso máximo da força de trabalho.
De acordo com Almeida (2004), Pedro Dutra não conseguiu organizar um sindicato de base sólida. Contudo, seus esforços resultaram na criação da União Operária, cujo objetivo visava a regulamentação do trabalho, a aplicação das leis de férias e as melhorias salarias78. A viabilização da União Operária por Pedro Dutra o tornou legítimo representante dos trabalhadores das indústrias, e por consequência, o uso desta posição a fim de auferir benefícios políticos, como o manifesto lançado nas eleições de 1933 contra as firmas Irmãos Peixotos, “acusando-os de indiferentes e egoístas, escravizadores do trabalho operário e que tentavam comprar a consciência e o voto dos trabalhadores com festas e embromações” (ALMEIDA, 2004, p. 71).
Além da organização do movimento operariado, era também proposta de Pedro Dutra mudanças no âmbito urbanístico da cidade, particularmente projetos de melhoria das condições de higiene e a solução dos problemas de saneamento, agravadas pelo aumento do êxodo rural a partir da formação industrial em Cataguases. Contudo, esta proposta continha implícitas intenções socialmente higienista, dentre as quais a transformação de uma área considerada degrada da cidade (na qual concentravam os prostíbulos e toda escória da cidade) em área nobre e urbanizada79.
Parar levar adiante seu projeto higienista, Pedro Dutra recorreu à chancela que seu poder lhe conferia. As construções particulares na cidade eram fiscalizadas de acordo com a Lei Municipal nº 278, de forma que toda e qualquer construção, acréscimo ou concerto
77
Jornal O Cataguazes, 27 de fevereiro de 1910. 78 Jornal O Cataguazes, 15 de janeiro de 1933. 79 Jornal O Cataguazes, 26 de abril de 1925.
164 dependesse de autorização da prefeitura, concedida apenas às requisições que apresentavam conformidades à referida Lei Municipal (ALMEIDA, 2004). A medida adotada por Pedro Dutra visava salvaguardar o efeito estético das construções, de modo que as construções obedecessem a determinados requisitos ou linhas gerais de um tipo arquitetônico80 não especificado (ALMEIDA, 2004).
A escolha por uma conformidade estética trazia em si a ideia de limpeza social da Cataguases dos anos 30. O projeto de Pedro Dutra previa um projeto urbanístico para a Vila Tereza – mesmo bairro envolvido na celeuma da transferência da estátua de Guido Marlière. O bairro situado às margens do Rio Pomba era formado de casebres e abrigava casas de prostituição. A Vila Tereza, portanto, não apenas ia de encontro à concepção estética desejada e ao mesmo tempo indefinida por Dutra, mas também abrigava as mulheres que afrontavam os bons costumes e os valores da verdadeira família cataguasense. Para consolidar seu plano, Dutra ordenou a demolição dos casebres e planejou a construção de um bairro para a elite da cidade, cujas casas devessem ser recuadas e obedecerem a um estilo arquitetônico específico, também indeterminado nos documentos analisados (ALMEIDA, 2004). Além das casas, o projeto de
urbanização da Vila Tereza contemplou um hospital e um grupo escolar81, e tinha também como propósito descongestionar outros bairros e modificar o estilo arquitetônico da cidade82. O projeto dito urbanista de Pedro Dutra remete invariavelmente aos propósitos higienistas dos grandes projetos urbanísticos e do ideal Haussmanniano tratado por Lefebvre (2009), no qual o projeto estético, mesmo que vazio, tem sua unidade na segregação e expurgação das camadas pobres da sociedade em áreas que despertam interesses econômicos para grupos específicos.
As intervenções urbanísticas na cidade constituíram-se num importante elemento na disputa política entre Pedro Dutra e os Peixoto83. Assim como Pedro Dutra, os Peixoto enxergavam a necessidade de intervir na construção e moradias dada a precariedade das habitações nos anos 30 e 40, diretamente relacionada ao aumento populacional ocasionado pela redução as atividades econômicas rurais e pelo crescimento das indústrias. O que se percebe é a
80
Artigo 10 da Lei nº 278 de 1931. Centro de Documentação Histórica.
81 Trata-se do mesmo grupo escolar cujo nome foi objeto de disputa entre Pedro Dutra e João Inácio Peixoto, e que acabou pode ser nomeado Grupo Escolar Flávia Dutra.
82 Jornal O Cataguazes, 18 de dezembro de 1932. 83
A menção sempre direcionada à família Peixoto se justifica por não haver uma única figura detentora do poder, como no caso de Pedro Dutra, mas sim um poder de família, sendo mais recorrente a figura de Manuel Peixoto Filho.
165 convergência entre o interesse político do então prefeito Manuel Inácio Peixoto Filho e o interesse econômico da família, proprietária de indústrias na cidade. A partir deste combinado econômico-político, em 1943 a Companhia Industrial Cataguases construiu 44 casas (figura 7b) – que posteriormente estendeu-se a 100 – próximas às suas instalações formando a Vila Operária do Bairro Jardim. Parte das casas construídas tinham seus projetos assinados pelo arquiteto Francisco Bolonha, em 1960, como elemento constituinte do ideário modernista que se tornara plataforma política dos Peixoto (figura 7c). Além da Vila Operária próxima à Companhia Industrial Cataguases, outros dois projetos de vilas operárias foram executados, resultando na Vila Operária Manuel Peixoto Ramos (figura 7a), de posse da Indústria Irmãos Peixoto, e a Vila Operária da Rua Fernando Peixoto, de posse da Companhia Mineira de Papéis fundada por Manuel Peixoto e outros empresários da cidade.
Figura 7: Vilas operárias
166 No plano urbano, foi proposta a construção de vilas operárias ao redor das fábricas, com claro objetivo de controlar o operariado. Almeida (2004, p. 119) sinaliza que, “ao lado da linha de montagem e da política de salários, criaram-se novos mecanismos de controle social, e a construção das vilas operárias inserem-se nesse quadro”. Aqui se desvela a previsibilidade e segurança trazida na aproximação (unicamente cartográfica), reforçando a recorrência dos acontecimentos e proporcionando a “proteção” que a previsibilidade pode oferecer, claro, sob o manto do capital.
Esta apropriação do espaço privado remete ao estudo realizado por Pereira (2008) na formação de Ipatinga, cuja centralidade da distribuição espacial está totalmente voltada para a Usiminas. No caso de Cataguases, a cidade precede a industrialização, mas é absorvida econômica, política e espacialmente pelos propósitos do capital, uma vez que a centralidade atribuída ao caráter vanguardista da arquitetura modernista inibe outras possibilidades de valorização da produção cotidiana do espaço.
Embora a investida da família Peixoto na construção das vilas operárias já rivalizasse com o projeto de Pedro Dutra para sanar o déficit habitacional na cidade e as péssimas condições das moradias, outra investida urbanística fora crucial para a família Peixoto. Representados pela figura de Francisco Inácio, participante da Revista Verde e filho caçula do industrial Manuel Inácio Peixoto, e com o apoio de João Inácio Peixoto, eleito prefeito em 1947, os Peixoto contrapunham a proposta dos Dutra com o argumento favorável a um projeto “modernizador” de Cataguases, transformando-a numa cidade de vanguarda no campo da arquitetura moderna (ALMEIDA, 1947).
É aqui o ponto crucial da tradição inventada. Esta proposta continha em si dois elementos complementares. A implementação de um projeto arquitetônico modernista demarcaria o legado da família Peixoto ao recorrer às edificações e paisagismos monumentais – como os citados por Hobsbawm (1984b) e Lefebvre (1999) – e também cumpriria a função de reviver, reinventar a tradição modernista da cidade nascida no fim dos anos 20. Em complemento, fundava uma nova época na cidade, literalmente concretizando a transição da velha Cataguases rural e agrária para a nova Cataguases urbana e industrial, num importante passo para definir a figura do mito fundador no período pós-desbravamento.
167 relacionamento entre Marques Rebelo e Francisco Inácio Peixoto. Por indicação de Rebelo, Francisco Inácio Peixoto recorre a Oscar Niemeyer para projetar sua residência (figura 8c). Niemeyer fica então responsável pelo projeto arquitetônico, cabendo a Joaquim Tenreiro o mobiliário, a Burle Marx o paisagístico (figura 8a) e a Jan Zach e a José Pedrosa as esculturas (figura 8b).
Figura 8: Residência Francisco Inácio Peixoto Fonte: Guia do Patrimônio Cultural
Após o projeto de sua residência, Francisco Inácio Peixoto inicia uma relação de amizade junto a Oscar Niemeyer, sendo constantes as trocas de correspondências entre os dois, tanto para tratar de assuntos concernentes à obra da casa quanto das impressões de Niemeyer a respeito das investidas literárias de Francisco Inácio, como o exemplo a seguir:
Prezado amigo Peixoto,
168 Externamente a meu ver ela deveria ser caiada de branco. As esquadrias poderiam ficar azuis por fora e por dentro na corda da parede, num um pouco mais forte apenas.
Internamente, a não ser nas paredes indica dar para azul (...)
O banheiro, (...) os tetos ficariam ainda em caiação branca. As colunas externas e os centros ficariam em marrom e branco, respectivamente.
Em papel anexo, indico o tom conveniente para o azul e o marrom. Para obtê-los será necessário empregar tinta a óleo. O seu pintor vai achar o tom muito escuro – mas é o que convém.
Acabo de ler o seu livro – gostei muito e agradeço a você a gentileza (...)
Abraços do Oscar84
Além da troca de cortesias típicas dos senhores modernistas, as cartas entre Niemeyer e Francisco Inácio85 tratam das particularidades do projeto e do andamento da obra da casa projetada por Niemeyer. Um ponto recorrente em algumas correspondências e que vai de encontro à suposta aproximação da arquitetura e do arquiteto modernista ao usuário da obra, por consequência, da própria funcionalidade, é a dificuldade relatada por Niemeyer em viajar até Cataguases para tomar conhecimento do real andamento da obra, conforme ilustra a correspondência a seguir:
Caro Peixoto,
Recebi sua carta e hoje lhe remeto o detalhe das esquadrias da frente e o acréscimo da varanda dos fundos. A esquadria agora está muito boa, mas eu aconselharia você a mandar executá-la aqui no Rio, pois trata-se de um tipo pouco usado e portanto mais difícil de executar.
Estou organizando as especificações que espero enviar-lhe até o fim de semana.
Mais uma vez peço desculpar-me a demora com que venho remetendo os desenhos mas é “um mundo” de serviço que tem me obrigado a isto. Para o mais pretendo passar por aí a fim de ver como vai indo a obra.
Abraços Oscar86
As orientações à distância fornecidas por Niemeyer tornam explícito o próprio distanciamento da arquitetura modernista com a pretensa aproximação do arquiteto com as questões habitacionais dos homens. Em função disso, revigora a separação historicamente imputada à produção arquitetônica que distancia o processo criativo, cabível ao arquiteto, e as atividades
84 Carta de Oscar Niemeyer a Francisco Inácio Peixoto, em 9 de abril de 1942. Fundação Casa de Rui Barbosa. Coleção Plínio Doyle.
85 Foram consultadas aproximadamente 100 correspondências destinadas a ou remetidas por Francisco Inácio Peixoto. As trocas de correspondência ocorreram substancialmente com os outros integrantes do movimento literário modernista Verde, com Marques Rebelo e com os arquitetos modernistas contratados por Francisco Peixoto.
86 Carta de Oscar Niemeyer a Francisco Inácio Peixoto, em 2 de outubro de 1941. Fundação Casa de Rui Barbosa. Coleção Plínio Doyle
169 de campo. Em complemento, afasta-se daqueles que vão habitar o espaço, reduzindo assim qualquer possibilidade de heteronomia na produção arquitetônica (KAPP, 2003) ao passo que estabelece relação prescritiva no projeto, como pode ser visto nas orientações acerca das cores utilizadas na residência de Francisco Inácio Peixoto.
Até aquele instante a incorporação da arquitetura modernista se restringia à residência projetada por Niemeyer sob encomenda de Francisco Peixoto, e por isso, tinha um caráter meramente particular. Contudo, a investida que num primeiro momento visava atender a uma demanda estritamente particular passou a ser vista como um mecanismo de controle da política local e uma importante plataforma nos enfrentamentos políticos da década de 40 frente a Pedro Dutra. É nesta convergência de objetivos que a ideia de uma cidade de vanguarda é posta para os moradores – eleitores – a fim não apenas de aliviar as pressões que recaiam sobre as atividades industriais das quais a família Peixoto exercia plenos poderes, mas também de sacralizar de forma definitiva o legado da família Peixoto de forma a tornar legítimas decisões futuras.
Com o apoio de Manuel e João Peixoto, Francisco Inácio recorre novamente a Niemeyer para projetar o Colégio de Cataguases, cuja obra se inicia em 1945 (figura 9a). Além do projeto arquitetônico de Niemeyer, a obra é composta do painel Tiradentes (figura 9b), de Cândido Portinari87, do mobiliário de Joaquim Tenreiro, e de uma escultura de Jan Zach. Com o andamento da obra do Colégio de Cataguases, a arquitetura modernista se faz cada vez mais presente na cidade, de forma que Rebelo envie a Francisco Peixoto, em 1945, algumas considerações a respeito de um projeto de urbanização. Posteriormente, Rebelo recomenda um projeto de cidade a ser elaborado por Aldary Toledo, reafirmando a importância deste projeto para Cataguases e o impacto direto nas pretensões da família Peixoto. Rebelo assevera claramente o efeito positivo da arquitetura modernista no propósito de domínio político e econômico ao afirmar que “as prefeituras devem fazer empréstimos para construir obras para o povo. O povo não tem nada. E vocês nunca mais perderiam eleições88”.
87 O painel Tiradentes de Portinari está atualmente exposto no Memorial da América Latina, após a sua compra pelo Governo do Estado de São Paulo, 1975. No lugar original de sua instalação no então Colégio de Cataguases foi instalada uma réplica do painel.
88 Carta de Marques Rebelo a Francisco Inácio Peixoto, em 31 de julho de 1945. In: MIRANDA, Selma Melo. Cataguases, um olhar sobre a modernidade. Disponível em: www.asminasgerais.com.br. Os diversos registros pelos quais empreendi busca das correspondências entre Marques Rebelo e Francisco Peixoto sinalizam que a carta, em seu original, está nos arquivos da Coleção Plínio Doyle da Casa de Rui Barbosa. Entretanto, tanto na busca prévia pelos arquivos existentes no acervo quanto na consulta in loco durante minha estada na Casa de Rui Barbosa a referida carta não constava nos arquivos.
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Figura 9: Colégio de Cataguases Fonte: Guia do Patrimônio Cultural
Do suposto projeto urbanístico de Aldary Toledo referendado por Marques Rebelo a Francisco Peixoto concretizaram-se na cidade quatro projetos do arquiteto. Dois projetos de residências, sendo uma para José Pacheco de Medeiros Filho (figura 10a) e outra de propriedade da Companhia Industrial Cataguases (figura 10b). Os outros dois projetos estavam no bojo Peixotista de modernização da cidade, sendo um deles o Hotel Cataguases (figura 10c), concluído em 1951, e o Cine Edgard (figura 10d), projetado em parceria com Carlos Leão e concluído em 1952.
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Figura 10: Projetos de Aldary Toledo recomendados por Marques Rebelo Fonte: Guia do Patrimônio Cultural
Em complemento, outras obras que pretensamente assumiriam caráter público foram construídas, como o Educandário Dom Silvério (figura 11a), inaugurado em 1954; a Praça Rui Barbosa (figura 11b), inaugurada em 1957; e a Matriz de Santa Rita de Cássia, construída entre 1944 e 1968.
Figura 11: Obras Arquitetônicas Públicas Fonte: Guia do Patrimônio Cultural
172 A Matriz de Santa Rita de Cássia pode ser tomada como símbolo do projeto ideológico modernista implantado na cidade, uma vez que sua construção substitui a antiga Igreja em estilo neogótico (figura 6a), construída em 1894. Projetada por Edgar Guimarães do Valle, a matriz assume formas modernistas inspiradas em uma asa de avião, contando com uma abóboda e uma torre em concreto armado de complexa construção (figura 12a) – o que pode ser facilmente verificado nos 24 anos de obra. Complementam a matriz o painel externo de Djanira que narra a vida de Santa Rita (figura 12b), e posteriormente os painéis internos pintados por Nanzita, em 1996 (figura 12c).
Figura 12: Matriz de Santa Rita de Cássia
Fonte: Arquivo Público Municipal e Guia do Patrimônio Cultural
De acordo com Miranda (1995), a construção da Matriz de Santa Rita não passou ilesa às críticas. Primeiro, pelo volume de recursos consumidos na obra. E, fundamentalmente, pela resistência à igreja de arquitetura modernista tanto pelo seu formato quanto pelo apego sentimental dos habitantes à antiga construção. Apesar das ressalvas, o projeto de vanguarda
173 A tática adotada pelos mecenas do modernismo em Cataguases tinha como propósito anular construções em estilos distintos ao modernismo, coibindo assim a disputa no plano estético a fim de sanar dúvidas a respeito dos ares modernistas da cidade – e que mais tarde se consolida no processo de tombamento – cujo projeto coincidia e complementava o estágio de desenvolvimento econômico baseado na industrialização, semelhante ao propósito modernista a nível nacional observado a partir da Revolução de 30. Não apenas reorganiza um lócus carregado de significado para a população católica, maioria na cidade, como estende a obra arquitetônica modernista nas obras públicas, reforçando o discurso acerca do caráter social da arquitetura modernista.
A fim de consolidar o predomínio político e econômico na cidade por meio das investidas na arquitetura modernista, a construção do Cine Teatro Edgard surge – a partir das conversas entre Rebelo e Peixoto – a partir da ideia de se construir um edifício que abrigaria um cinema e um clube nos moldes do antigo Cine Teatro Recreio (figura 6c). O projeto de dominação empreendido por Francisco Inácio Peixoto fica ainda mais evidente quando o projeto modernista do Cine Edgard visa substituir o antigo Cine Theatro Recreio, de arquitetura eclética. Assim, mantinha-se a tradição do cinema em conjunto com a tradição nascente, a arquitetura modernista. Embora as ideias de Marques Rebelo e Francisco Peixoto fossem coerentes com os propósitos, por considerar os riscos financeiros de tal empreendimento, Rebelo sugere então a Francisco Peixoto que combinasse a construção do cinema a um edifício comercial ou hoteleiro89.
A partir desta sugestão, o projeto urbanístico modernista a ser encomendado a Aldary Toledo se resume ao Cine Teatro Edgard e ao Hotel Cataguases. Embora muito distante de algo que remeta a um projeto urbanístico, as duas construções são tratadas pelos mecenas do