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Em artigo dedicado à História da loucura, tese de doutoramento de Foucault publicada em 1961, Michel Serres procura estabelecer a distinção entre “epistemologia” e “arqueologia” nos seguintes termos:

Uma ciência que atingiu a maturidade é uma ciência que consumiu inteiramente a ruptura entre seu estado arcaico e seu estado atual. A historia das ciências, assim nomeada, poderia então se reduzir à exploração do intervalo que as separa deste ponto preciso de ruptura de recorrência, naquilo que concerne à sua explicação

1 VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. Trad.

Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002, pp. 21-22.

2 FOUCAULT, “Introduction par Michel Foucault”, op. cit., p. 435. 3 Idem, ibidem, p. 442.

genética. Este ponto é facilmente assinalável a partir do momento em que a linguagem utilizada neste intervalo torna incompreensíveis as tentativas anteriores. Além deste ponto, trata-se de arqueologia.1

Levemos a sério as palavras de Serres: para além da “explicação genética” própria à epistemologia – atenta à “ruptura de recorrência” que assinala, no esgotamento de certa linguagem, o ponto de passagem do “estado arcaico” ao “estado atual” de uma ciência –, tratar-se-ia de uma arqueologia. Com efeito, e a um só tempo, proximidade e distância da arqueologia foucaultiana frente à escola epistemológica francesa, sobretudo em relação à epistemologia de Canguilhem: também História da loucura poderia figurar como uma “história conceitual”, uma investigação histórica das condições de possibilidade de modalidades discursivas de tipo “científico”, ou que se pretendem “científicas”, aquelas referentes à psiquiatria – e é por ser “conceitual” que a tese de doutoramento de Foucault não somente se distingue das histórias da psiquiatria como promove uma crítica radical de seu método (é preciso rejeitar o enfoque deformador dessas histórias, uma vez que sua perspectiva, ao pressupor uma identidade entre loucura e doença mental, é incapaz de diferenciar um “conceito” de uma “palavra”);2 também aqui, um olhar atento ao processo de “normalização social” característico da formação de uma ciência como a psiquiatria: trata-se, portanto, de realizar um “estudo estrutural do conjunto histórico – noções, instituições, medidas jurídicas e policiais, conceitos científicos – que mantém cativa uma loucura cujo estado selvagem não pode mais ser restituído em si mesmo”.3

Contudo, em Foucault a distinção epistemológica entre “ciência” e “não-ciência” não fará mais as vezes de baliza referencial da análise histórica: se o autor se atém aos

saberes sobre a loucura, certamente não é para fazer a história do conhecimento psiquiátrico, mas para considerá-los em suas positividades específicas, a positividade daquilo que foi efetivamente “dito” e “regrado” no interior de um dado horizonte histórico- social – e que passa a ser aceito como tal, e não a partir de um “saber” que se apresentasse como superior ou “atual”. Assim sendo, se a arqueologia não busca “a origem primeira de uma ciência” – “como se faz em certos projetos de tipo fenomenológico” –, mas sim a

1 SERRES, Michel. “Géométrie de l’incommunicable: la folie”. In: Hermès ou la communication. Paris:

Minuit, 1968, p. 189.

2 MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, pp. 73-74. 3 FOUCAULT, “Préface”, op. cit., p. 192.

descrição de seus “múltiplos e insidiosos começos”1, isso se deve a uma “questão de

método”: é parte do procedimento arqueológico – posto que ele não encerra uma “história das ciências” – desfazer-se da procedência, da origem que supostamente recobriria os critérios de validade dos discursos para, desta feita, expô-los a partir de um conjunto de regras excludentes que lhes confere “um valor e uma aplicação práticas enquanto discurso científico”.2 Desloca-se, aqui, a própria questão da validade “lógica” dos “enunciados verdadeiros”, abrindo-se o flanco para a questão da posição do sujeito enunciador: “Gostaria de saber se os sujeitos responsáveis pelo discurso científico não são determinados, em sua situação, sua função, sua capacidade de percepção e suas possibilidades práticas, por condições que os dominam, e mesmo os esmagam.”3

De uma parte, portanto, se para a epistemologia o “conceito” é fundamentalmente aquilo que define, em sua irredutibilidade, a racionalidade científica – quer dizer: ele é a principal expressão da “norma de verdade” do discurso científico –, para a arqueologia, uma vez que a ciência não constitui o critério de suas investigações, não se tratará mais da “esfera conceitual” (em sentido epistemológico), mas sim da “esfera discursiva” (em sentido arqueológico): um conjunto heterogêneo de enunciados que, ainda que pertençam a campos diferentes, obedecem a certas regras comuns de funcionamento. Mas, se assim o é, é preciso sublinhar que não são quaisquer discursos que interessam a Foucault, senão aqueles concernentes à formação dos “saberes”: a arqueologia, em geral, converte a “história das ciências” em uma “história da racionalidade”; ou melhor, entre o abandono da ciência como objeto privilegiado e a conservação da exigência filosófica – cara à epistemologia – de realizar uma “análise conceitual”, e não factual, do discurso, a

démarche foucaultiana promove o desaparecimento das categorias de “ciência” e “epistemologia” em favor de “um novo objeto, o saber, e um novo método, a

1 FOUCAULT, Michel. “Titres et travaux”. In: Dits et écrits I. 1954-1975, op. cit., p. 873.

2 “/.../ quelles conditions Linné (ou Petty, ou Arnauld) devait-il remplir non pas pour que son discours soit,

d’une manière générale, cohérent et vrai, mais pour qu’il ait, à l’époque où il était écrit et reçu, une valeur et une application pratiques en tant que discours scientifique – ou, plus exactement, en tant que discours naturaliste, économique ou grammatical?” Cf. FOUCAULT, Michel. “Préface à l’édition anglaise”. In: Dits et

écrits I. 1954-1975, op. cit., p. 880.

arqueologia”.1 Foucault terá no saber o campo específico de sua investigação – e isso o

diferencia sobremaneira de uma reflexão de tipo epistemológica.2

De outra parte, se a arqueologia não confina sua démarche no interior do campo de cientificidade de uma dada disciplina, é preciso sublinhar que ela tampouco se confunde com uma “análise discursiva” stricto sensu – caso se compreenda por isso uma análise do “discurso” em sentido formal, tal e qual uma filosofia de tipo “analítica” o faria. Uma história da racionalidade significa uma análise dos “estratos do saber”, isto é, um esforço de depuração do material a partir do qual são formados os solos de pensamento e as práticas discursivas que informam certa cultura em um dado momento da história. Nesse sentido, é preciso ter em conta que as regras de funcionamento de um discurso não dizem respeito apenas ao seu aspecto puramente formal e/ou lingüístico; antes de tudo, elas reproduzem certo número de divisões historicamente determinadas, de sorte que a “ordem do discurso” enseja uma função normativa responsável pelos mecanismos de organização do “real” – uma função a efetivar-se por meio da “produção de saberes”.

Assim, ao retomar os princípios metodológicos oriundos da epistemologia francesa, Foucault os reformula segundo a exigência de uma reflexão que gravita ao redor de uma história dos sistemas de “saber não-formal” – “disciplinas demasiadamente tingidas pelo pensamento empírico, muito expostas aos caprichos do acaso ou às figuras da retórica, às tradições seculares e aos eventos exteriores”.3 Nelas, no curso histórico de seu desenvolvimento, não é possível divisar aquilo que seria “a emergência quase ininterrupta da verdade e da razão” (ainda que se possa perfeitamente circunscrevê-las em regularidades bem definidas4). Donde as pesquisas inaugurais da “trajetória arqueológica”5 de Michel

1 MACHADO, Foucault, a ciência e o saber, op. cit., p. 10 (grifo nosso).

2 “Le savoir ne s’analyse pas en termes de connaissances; ni la positivité en termes de rationalité; ni la

formation discursive en termes de science. Et on ne peut demander à leur description d’être équivalente à une histoire des connaissances, ou à une genèse de la rationalité, ou à l’épistémologie d’une science.” Cf. FOUCAULT, Michel. “Sur l’archéologie des sciences. Réponse au Cercle d’épistémologie”. In: Dits et écrits

I. 1954-1975, op. cit., p. 751.

3 FOUCAULT, “Préface à l’édition anglaise”, op. cit., p. 875. 4 Idem, ibidem.

5 A expressão é de Roberto Machado, e tem a função da dar conta dos “deslocamentos” e das “modificações

conceituais importantes” que a arqueologia sofrerá ao longo dos trabalhos efetuados por Foucault – “a ponto de em cada livro ter sido definida de modo diferente”. Cf. MACHADO, Foucault, a ciência e o saber, op. cit., p. 10. Assim sendo, é preciso ter em vista que o “método arqueológico” não é definível em termos usuais: não se trata aqui de um número determinado de procedimentos invariáveis a serem utilizados na produção de um determinado conhecimento, mas sim de um procedimento sensível às modificações instruídas pelo próprio

Foucault – História da loucura, Nascimento da clínica, As palavras e as coisas: lugares privilegiados, mas não únicos, para um tipo de investigação que procura incidir sobre a emergência da “estrutura antropológica” que coloniza o saber desde as primeiras luzes da modernidade; uma investigação escalonada em três tempos, e que, tendo como cerne a grande ruptura que caracteriza a passagem da chamada Idade Clássica (séculos XVII/XVIII) à Época Moderna (séculos XIX/XX), procura remontar ao Renascimento (séculos XV/XVI) para, à sua maneira, reencetar o caminho trilhado pelo pensamento ocidental.1

A) Em História da loucura, uma denúncia do quão frágil – e arbitrário – é o lastro