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Em meados de Agosto de 1437, numa expedição liderada pelos infantes D. Henrique e D. Fernando, tendo como condestável da frota o próprio conde de Arraiolos180 (que embarcou no Porto com as gentes do Norte181), os portugueses atacaram a cidade de Tânger. Não vemos esta participação do conde de Arraiolos como uma contradição, apesar de ter afirmado publicamente a sua discordância com esta política expansionista, pois acima de tudo o conde considerava seu dever máximo servir o rei. Se D. Duarte decidira a prossecução das conquistas no Norte de África, ele participaria. Aliás, directa (o conde de Arraiolos, como condestável182) ou indirectamente (os condes de Ourém, na sua missão diplomática junto do papa, e o conde de Barcelos no recrutamento183) os Bragança participaram todos na preparação desta empresa de Tânger.
O historicamente cobiçado porto de Tânger impunha-se como a etapa seguinte da expansão portuguesa no Norte de África. Sendo um bom porto, Tânger era também a principal cidade a ocidente de Ceuta. Conquistá-la significaria para os Portugueses o controlo meridional do Estreito de Gibraltar.
Antes da partida, D. Duarte entregou ao irmão uma longa missiva onde “recomendava, principalmente, que D. Henrique não gastasse demasiado tempo em suas devoções e ouvisse os conselhos dos que o acompanhavam, e recomendava que o exército português nunca perdesse o contacto com o mar para ter sempre assegurado o socorro dos navios que o acompanhavam184.
180 D. Fernando tinha também o “carreguo da justiça”, função que competia a quem desempenhasse o
cargo de condestável.
181 No entanto, foi o infante D. Pedro o responsável pelo recrutamento de tropas nesta região. Cf. João
Paulo Oliveira e COSTA, Henrique… cit., cap. 6.1 - «“Mais por apetição que por razão” - Congregar forças». Como vemos, apesar de se ter manifestado contra o ataque a Tânger, D. Pedro participou activamente nos preparativos da campanha. Aliás, segundo Luís Miguel DUARTE (D. Duarte… cit., p. 242) o duque de Coimbra só não participou na expedição por ter sido impedido por D. Duarte.
182 O infante D. João, condestável do reino, não integrou a expedição. Em vez disso, o infante esteve com
uma esquadra no Algarve a postos para poder auxiliar os irmãos em caso de perigo. Contudo, as condições atmosféricas e a demora na chegada de notícias atrasaram muito a sua partida e quando, finalmente, avistou Marrocos, já os portugueses tinham assinado a capitulação.
183 Já na preparação da conquista de Ceuta o conde de Barcelos havia sido encarregado de recrutar gente
em Trás-os-Montes e no Entre-Douro-e-Minho.
184 João Paulo Oliveira e COSTA, Henrique… cit., cap. 6.1 - «“Mais por apetição que por razão” – As
Quando a 27 de Agosto o infante D. Henrique chegou com a sua frota a Ceuta já lá se encontravam o conde de Arraiolos e outros fidalgos que com ele haviam embarcado no Porto185.
Em Tânger tudo o que podia falhar, falhou. A chegada dos infantes de Portugal foi tudo menos secreta e rapidamente a notícia se espalhou pelas terras circundantes e o primeiro alardo revelou que o número de homens que participariam na expedição estava muito aquém do necessário186. Perante o reduzido número de efectivos187, o infante D. Henrique foi aconselhado a desistir do seu propósito e a optar por uma estratégia mais cautelosa, que até podia passar por ataques contra os muçulmanos, desde estes não fossem contra praças fortificadas, ou a pelo menos escrever ao rei e aguardar a sua resposta. D. Henrique sabia que o monarca queria que ele ficasse com os seus homens em África como posição de força, sobretudo contra as pretensões castelhanas. Dado o reduzido número de efectivos supomos que o infante terá temido uma resposta do irmão nesse sentido. Ambos os conselhos foram ignorados e os portugueses avançaram para Tânger. O conde de Arraiolos avançou primeiro com a vanguarda por terra, seguido pela carriagem. Por estar doente, o infante D. Fernando seguiu por mar com a sua frota. A comitiva portuguesa era acompanhada por três imagens para a proteger e levar à vitória: uma de Santa Maria, uma do condestável D. Nuno Álvares Pereira e um vulto de D. João I. Estes importantes símbolos adquiriam, no nosso entender, uma importância maior para o conde por ali estarem representados os seus dois avós. Estar à altura destes dois grandes guerreiros não seria certamente fácil.
Como condestável da expedição, D. Fernando tinha como principais competências garantir que aquilo que havia sido combinado no conselho de guerra (presidido, neste caso, pelo infante D. Henrique), era executado devidamente; assegurar que, no início das operações militares, os homens de pé e besteiros estavam “devidamente acaudilhados e organizados, de forma a poderem requerer facilmente o seu serviço, sempre que necessário”; durante as deslocações da hoste devia coordenar o trabalho dos batedores; fazer justiça, como já aqui foi referido, e controlar a hoste, pelo
185 Rui de PINA, CDD, cap. XXI.
186 Sobre os efectivos presentes em Tânger veja-se João Paulo Oliveira e COSTA, Henrique… cit., cap.
6.2 - «Uma campanha desastrosa – 43 por cento». Sobre os homens da casa do conde de Arraiolos presentes na expedição as fontes são omissas. João Paulo Oliveira e COSTA vê na presença de Fernão de Sousa “um indício da clientela que o conde arregimentou para a expedição”.
187 Segundo Rui de Pina o alardo revelou a presença de dois mil homens a cavalo, mil besteiros e três mil
peões. Faltavam oito mil homens para os quatorze mil calculados necessários para levar a bom porto a empresa. Cf. CDD, cap. XXII.
que deveria ser assistido por um meirinho e um ouvidor (não sabemos se isto foi cumprido durante esta campanha); finalmente, o condestável deveria “encarregar as pessoas mais indicadas para escolher os locais onde o arraial devesse ser assentado e garantir a respectiva guarda e segurança interna”188.
Desde a partida para Tânger que foram sendo cometidos erros sucessivos. Iniciaram-se com a deslocação da hoste por terra, o que lhes custaria quatro dias de viagem e desgaste, para além de ter possibilitado a preparação da defesa tangerina que, aliás, contava com o auxílio de besteiros granadinos.
No primeiro dia em Tânger D. Fernando, a mando do infante D. Henrique, foi recolher as pessoas que estavam no postigo de Guyrer e nas restantes portas da cidade. Durante esta acção o conde foi ferido na perna por uma seta189. Este primeiro impacto contra a vila, que no início parecia ter corrido bem, dado a força dos Portugueses nas escaramuças extra-muros, serviu para demonstrar que a hoste não tinha poder suficiente para sitiar Tânger. Durante a semana seguinte, o infante D. Henrique limitou-se a mandar construir um palanque, isto é, um acampamento fortificado que, ao contrário do que fora aconselhado por D. Duarte, não salvaguardava o acesso à costa.
Quando a 20 de Setembro os portugueses voltaram a atacar as muralhas tangerinas, verificaram que as escadas que haviam trazido não tinham altura suficiente para escalar as muralhas. D. Henrique pediu então reforços de escadas, cordas e artilharia a Ceuta. Diz-se que entre as escadas trazidas de Ceuta estava uma das escadas que haviam sido usadas na escalada da cidade em 1415. Contudo, era tarde demais. Os Portugueses estavam mal preparados para o ataque e rapidamente o rei de Fez enviou os primeiros reforços aos sitiados.
Existe um relato escrito a 4 de Outubro de 1437 das operações militares dos dias 1 e 3 de Outubro redigido por um combatente do sector do conde de Arraiolos. Sobre a acção do conde, o autor destacou que no dia 1 de Outubro “ os nossos nom poderom ssofrer os mouros e uoluerom as costas muj rrigamente e ueerom dar em hũa ponta da auenguarda, onde era o conde dArrayolos, em tall gujssa, que o ffecto e a ssua bandeyra
188 A definição das atribuições correspondentes ao cargo de condestável foi retirada do artigo de João
Gouveia MONTEIRO, «De D. Afonso IV (1325) à batalha de Alfarrobeira (1449) – Os desafios da maturidade. Estratégia e táctica militares», p. 219.
189 Muito provavelmente por um dos besteiros granadinos que aí se encontravam em grande o número
pois o pouco secretismo da chegada portuguesa dera oportunidade aos tangerinos de solicitarem auxílio a Granada.
foy mall aconpanhada. Elle entrou aly asaz ualentemente contra os mouros e açertouse com hũu que era capitam delles e derrybouo”190.
Optando por não seguir as recomendações feitas por D. Duarte191, os Portugueses, liderados pelo infante D. Henrique, cometeram sucessivos erros militares, e de sitiantes passaram a sitiados192.
O auto de capitulação assinado entre os cristãos, tendo como procurador o infante D. Henrique, e os muçulmanos, representados por Salah ibn Salah, permitiu que os Portugueses pudessem sair em liberdade, deixando tudo aquilo que tinham no arraial. Em compensação, a cidade de Ceuta deveria ser restituída aos muçulmanos. O infante D. Fernando, e alguns membros do seu séquito, ficaram reféns como garante do cumprimento do acordo. O infante D. Henrique, reunido com todos os membros do seu conselho na nau do conde de Arraiolos, acordou com conde e D. Fernando de Castro, que todos os fidalgos que não pertencessem à casa do infante, deveriam regressar o quanto antes ao reino193. Não sabemos o que se passou durante a discussão do auto de capitulação, nem as posições defendidas pelos nobres portugueses. Tão-pouco sabemos os argumentos que convenceram o infante D. Fernando a ficar como refém. Analisando imparcialmente os dados de que dispomos, João Paulo Oliveira e Costa afirma que “D. Henrique sacrificou D. Fernando”194.
190 BMLF, Fondo Asburnan, cód. 1792, t. 1, pp. 353-54; publicado por M.H., vol. IV, doc. 63, pp. 208-
210.
191 D. Duarte entregara ao irmão, antes da partida da armada, dois regimentos de guerra recomendando
que a frota se dividisse em três partes e, para confundir o inimigo e impossibilitar o socorro de umas praças marroquinas a outras, cada uma se dirigisse a uma cidade distinta (seriam elas Arzila, Alcácer Ceguer e Tânger). Recomendava também que quando montassem o arraial pelo menos um dos lados desse arraial tocasse o mar, de forma a não poderem ser cercados (permitindo-se assim também o envio de pedidos de socorro). Livro dos conselhos... cit., pp. 121-134.
192 O conde de Arraiolos, apesar de ferido, surge nos relatos assaltando portas com os seus homens,
apoiando a fuga de alguns nobres e assegurando a retaguarda.
193 Rui de PINA, CDD, cap. XXV.