3.1. Nesir Şeklindeki Anlatılar
3.1.9. Saz Şiirinde Cennet
A atuação das ONGs, nos assuntos referentes aos faxinais, é permeada por interesses diversos que seguem basicamente em duas direções distintas: de um lado atuam junto aos faxinalenses, procurando criar condições para que estes possam explorar economicamente suas potencialidades históricas e, de outro, trabalham em um sentido que
68 É possível que o ICMS Ecológico se constitua como uma forma de renda da terra, visto
que é um tributo pago para pela sociedade para a conservação da natureza. Esta possibilidade poder ser mais bem investigada em pesquisas futuras.
privilegia a construção da identidade faxinalense a partir da autodefinição coletiva. Enquanto que no primeiro caso a racionalidade econômica se põe acima de outros elementos, no segundo a luta política se constitui como estratégia fundamental adotada para a reprodução do grupo.
São vários os projetos existentes para os faxinais. Grande parte desses projetos visa oferecer, para a família camponesa faxinalense, alternativas para as atividades ligadas ao sistema de integração com as indústrias (fumo e frango) presentes na região, e ao fecho nas propriedades. Alguns desses projetos valem, também, para camponeses não faxinalenses.
O projeto intitulado “Cultura e Tradição: estratégias de promoção da cadeia de valor do pinhão no Paraná” é desenvolvido pela ONG Instituto Equipe de Educadores Populares (IEEP), em parceria com a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais, e conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente por meio do Programa de Projetos Demonstrativos (PDA). O principal objetivo deste projeto é o de fortalecer socioculturalmente os povos e comunidades tradicionais e a agricultura familiar do Paraná a partir do fomento à produção do pinhão e de seus derivados, associando-os a um produto da sociobiodiversidade da Mata Atlântica.
Em junho de 2012 foi realizada uma oficina no faxinal Meleiro, na qual esse projeto foi apresentado para os faxinalenses de Quitandinha e Mandirituba. Nesta oficina, de aproximação às comunidades, foi realizado um levantamento junto aos faxinalenses presentes no que se refere às diversas atividades ligadas à extração e uso do pinhão: como era feita a coleta, por que ela era realizada e onde o pinhão era vendido.
Entre os faxinalenses, sempre foi definido que o direito de usufruto seria respeitado no que se refere à coleta do pinhão durante o inverno, ou seja, o usufruto do pinhão corresponde ao proprietário do terreno onde a Araucária que o gerou se localiza. Porém, é possível notar que muitos que vem de fora, principalmente na época em que o pinhão cai das Araucárias,
não respeitam essas propriedades e acabam coletando o pinhão que é de uso dos faxinalenses. Em uma época em que as Araucárias eram mais abundantes, este fato não gerava tantos problemas, principalmente no que tange à alimentação dos animais.
De acordo com informações dos técnicos ligados a este projeto, em média, em alta temporada (de junho a agosto) são vendidos de 200 a 300 kg de pinhão por dia, a um preço de R$ 4 a R$ 7 por kg.
A extração do pinhão passa a ser valorizada e ganha um novo espaço no contexto regional e até mesmo global. A tradicionalização mostra uma face em que há uma inversão de papéis. A família adquire prioridade diante dos costumes e daquilo que vem sendo consenso na comunidade faz tempo.
Para fazer parte desse projeto não é necessário ser faxinalense, basta que se tenha Araucárias em suas propriedades, assim como para se ter uma granja de frango ou plantar fumo e eucalipto não é necessário não ser povo tradicional, não ser faxinalense. Nos termos da lógica capitalista, o contrato com a indústria é o mesmo, seja faxinalense ou não, assim como o projeto de valorização do pinhão é o mesmo em qualquer comunidade. Isso fortalece o fato de que a unidade família constitui uma escala em si mesma, capaz de dialogar com outras unidades sem a necessidade de passar pelo grupo social.
Acontece de moradores em alguns faxinais optarem por não criar mais porcos nos criadores e recorrerem a outras atividades. Isso se deve ao fato, por exemplo, de o pinhão, que faz parte da dieta desses animais, estar diminuindo durante o inverno, seja pelo desaparecimento das Araucárias, seja pela valorização que a prática extrativa do pinhão está tendo nas comunidades. Houve manifestação por parte de um morador faxinalense, durante uma reunião, referente ao fato de o pinhão estar sendo valorizado na região como produto.
Este morador, que defende a permanência do faxinal, não aceitou que o pinhão fosse retirado integralmente dos criadores, principalmente porque esta prática estava desviando a ração dos animais durante o inverno. Afirmava ele que, no passado não se coletava o pinhão em terras onde os animais frequentemente apascentavam. Este era retirado em áreas longínquas, nas quais os animais não iam.
Buscar práticas alternativas para os faxinalenses, por meio de ações implementadas em conjunto com órgãos da esfera pública, proporciona ao grupo social maior visibilidade no cenário global. Ao serem implantados os projetos, novas perspectivas se abrem para o público alvo. Porém, não se pode deixar de levar em conta que, a cada projeção desse tipo, novas relações passam a fazer parte do conjunto desses sujeitos. É nesse sentido que estes precisam estar afinados às suas práticas internas, os seus costumes, para que se possa internalizar ou até mesmo responder ao que se propõe.
O trabalhador não cansa de plantar os seus ideais Nesta lavoura de sonhos Que a gente não colhe jamais.
“Lavoura e Sonhos”; letra de Joel Marques, música de Pena Branca e Xavantinho.