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2.3. Kur’an-ı Kerim’de Cennet

2.3.2. Hz Âdem’in İskân Ettirildiği Cennet

O Decreto Presidencial 6.040/07 (BRASIL, 2007) instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades

Tradicionais (PNPCT) que tem como principal objetivo o reconhecimento, fortalecimento e garantia dos direitos territoriais, econômicos, culturais, sociais e ambientais por meio da valorização da identidade de grupos específicos. De acordo com esse Decreto, são povos e comunidades tradicionais:

grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (BRASIL, 2007).

Antes de 2007 utilizava-se frequentemente o termo “populações” no lugar de “povos”. A lei 9.985/00, que institui as Unidades de Conservação da Natureza (UCs) menciona as “populações tradicionais” e focaliza na relação que estas estabelecem com as Unidades de Conservação com base na sustentabilidade.

As pesquisas realizadas nesse período, que compreende os anos 2000 e 2007 e que, portanto, trabalham com o conceito de “populações tradicionais” são várias. A antropóloga Senilde Alcântara Guanaes (2006), ao estudar os habitantes do Parque Nacional da Chapada Diamantina analisa o termo populações tradicionais a partir do ponto de vista da inclusão/exclusão. Com a implantação da UC, os habitantes da Chapada Diamantina, que se encontram na parte interior do perímetro do parque, foram divididos entre os que receberam a denominação de tradicionais (incluídos) e os que não receberam esta denominação (excluídos). Os sujeitos estudados por Guanaes (2006) se encontram neste segundo caso (os que não receberam a denominação de tradicionais), pois se verificou que eles não eram daquele “lugar”.

A experiência dos habitantes do Parque Nacional da Chapada Diamantina, assim como várias outras populações residentes em áreas naturais de conservação no Brasil, aponta para o uso político e ampliado da expressão “populações tradicionais”. À medida que a expressão deixa de contemplar a gradação de atores que habitam os espaços naturais protegidos e se reduz à uma categoria política amplamente utilizada pelos agentes do governo e pelos programas sócio- ambientais; ela não apenas deixa de explicar as múltiplas funções e papéis sociais dessas populações na relação com os espaços naturais que o circundam, como também e principalmente, limita e/ou exclui a participação de diversos grupos rurais nos processos decisórios dos espaços em que vivem.

À essas populações são conferidos valores e práticas sociais que estão circunscritos em um tempo e espaço cristalizados, o que permite ocultar a perspectiva desses povos no que diz respeito às variadas formas de uso dos recursos naturais; à diversidade da sua composição étnica e identitária; e por fim, às possibilidades de concepção do mundo natural dada por uma lógica e racionalidade próprias (pp. 214-215).

Salienta-se que a formulação do conceito de populações tradicionais pelos dispositivos constitucionais implica certa essencialização das práticas cotidianas dos grupos camponeses. Nestes casos, a atribuição prevalece sobre a construção no que se refere à elaboração de políticas públicas. Percebe-se que as esferas locais ganham importância como práticas “cristalizadas”, conforme aponta Guanaes (2006). Os próprios programas de regularização fundiária acabam recebendo interferência dessas premissas.

A substituição do termo “populações” para “comunidade” e a introdução do termo “povos” no ordenamento jurídico é resultado da mobilização pelo auto-reconhecimento dos seringueiros da Amazônia (os povos da floresta) para fazer valer o seu modo de vida em detrimento de uma visão desgastada da relação entre os camponeses e uma área específica demarcada pelo Estado (as UCs)40. Almeida (2007) procura definir essa diferença.

40 Esta mudança também reflete a criação da Convenção 169 da OIT, que substitui a

Pode-se asseverar que o termo “comunidade”, em sintonia com a ideia de “povos tradicionais”, deslocou o termo “populações” - reproduzindo uma discussão que ocorreu no âmbito da OIT em 1988-89, e que encontrou eco na Amazônia através da mobilização dos chamados “povos da floresta”, no mesmo período. O “tradicional” como operativo e como reivindicação do presente ganhou força no discurso oficial, enquanto o termo “populações”, denotando certo agastamento, tem sido substituído por “comunidades”, as quais aparecem revestidas de uma dinâmica de mobilização, aproximando-se por este viés da categoria “povos”.

Verifica-se, deste modo, uma ruptura não apenas terminológica com os princípios elementares da ação dos legisladores dos anos 90 – que adotaram a expressão “populações tradicionais” na legislação competente – e do governo federal que adotou nas definições dos aparatos burocrático-administrativos, tendo inclusive criado, em 1992, o Conselho Nacional de Populações Tradicionais (CNPT), no âmbito do IBAMA. Tais atos não significaram acatamento absoluto das reivindicações encaminhadas pelos movimentos sociais, não significando, portanto, uma resolução dos conflitos e tensões em torno daquelas formas específicas de apropriação e de uso comum de recursos naturais, designadas como “tradicionais” e que abrangem extensas áreas, principalmente na região amazônica, no semi-árido nordestino, na região do pantanal mato- grossense e no planalto meridional do País (pp. 14-15).

Após 2007, a oficialização destes termos na esfera do Estado abriu precedente para que diversos grupos emergissem na reivindicação do direito a autoafirmação. Nestes casos, não somente a luta dos indígenas e quilombolas, mas também de diversos grupos camponeses apareceram na busca pelo reconhecimento de uma identidade.

Os faxinalenses foram reconhecidos pelo governo do Estado do Paraná por meio da Lei 15.673 de 2007. De acordo com este dispositivo, os faxinais possuem uma territorialidade específica, peculiar no estado do Paraná, cujo traço marcante é o uso comum da terra para a produção animal e a conservação dos recursos naturais (PARANÁ, 2007). Para ser determinada essa territorialidade nas comunidades específicas, é necessário que se faça uma declaração de auto reconhecimento.

De acordo com Souza (2008), os faxinalenses buscam realçar na diversidade sociocultural do Paraná as suas especificidades. Especificidades essas que se atrelam a um movimento geral de emergência e afirmação de identidades e que envolve outros povos e comunidades tradicionais, como os Quilombolas, Quebradeiras de coco, Ribeirinhos, Caiçaras e outros.

Essa necessidade de afirmação das especificidades socioculturais dos povos tradicionais se dá em um momento de mobilização quando o território constituído por estes se vê ameaçado. Essa afirmação é baseada em Almeida (2005) que define o seguinte:

por seus desígnios peculiares, o acesso aos recursos naturais para o exercício de atividades produtivas, se dá não apenas através das tradicionais estruturas intermediárias do grupo étnico, dos grupos de parentes, da família, do povoado ou da aldeia, mas também por um certo grau de coesão e solidariedade obtido face a antagonistas e em situações de extrema adversidade e de conflito, que reforçam politicamente as redes de solidariedade. Neste sentido a noção de “tradicional” não se reduz à história, nem tão pouco a laços primordiais que amparam unidades afetivas, e incorpora as identidades coletivas redefinidas situacionalmente numa mobilização continuada, assinalando que as unidades sociais em jogo podem ser interpretadas como unidades de mobilização. O critério político- organizativo sobressai combinado com uma “política de identidades”, da qual lançam mão os agente sociais objetivados em movimento para fazer frente aos seus antagonistas e aos aparatos do estado (p. 93-94).

Entende-se que Almeida (2005) propõe uma noção de “tradicional” oriunda do conflito, no qual se envolvem sujeitos antagônicos em uma situação de emergência.

Quando os faxinais aparecem vinculados ao conceito de povos e comunidades tradicionais, o que se entende é que há uma combinação de diversos elementos dos quais esse reconhecimento é apenas uma parte41.

Existe, ao lado da representação política, a reprodução social desses camponeses marcada pela manutenção das terras de uso comum bem como as práticas cotidianas associadas ao seu uso.