as minhas visitas à escola, devido ao cumprimento da carga horária obrigatória da disciplina do estágio. Chegava à escola às 13h, junto com os alunos, sentava na carteira destinada a mim pela professora, disposta no canto da sala, e observava os acontecimentos que se davam ali durante a minha presença. Pontuarei a partir de agora alguns aprendizados que pude extrair do meu ato de observar uma sala de aula.
O primeiro aprendizado foi acerca das relações estabelecidas no cotidiano escolar pelos sujeitos que habitam a escola. Por mais que a escola onde estagiei tivesse um corpo docente reduzido, pequeno, ainda era nítida a fragmentação no contato entre direção, corpo docente e funcionários. Essa fragmentação não prejudicava diretamente os alunos, aliás, nesse sentido todos aqueles que trabalhavam na escola tratavam muito bem os alunos que ali estudavam. Mas entre eles (os sujeitos da escola) havia um desconforto nas relações. Os funcionários questionavam as atitudes do corpo docente que por sua vez questionava as atitudes da direção, que por sua vez questionava as atitudes do corpo docente, que por sua vez questionava as atitudes dos funcionários, que por sua vez questionava as atitudes da direção, que por sua vez... Notei um círculo vicioso de questionamento do outro e esse atrito, era muito reservado, não se tinha um diálogo franco a respeito, todos sabiam que o outro desaprovava sua conduta, mas nenhum deles dizia isso francamente ao outro. Comecei refletir sobre a franqueza. Por que é tão difícil ser franco com o outro? Por amizade? Mas se a
amizade é sincera, ser franco é ser amigo. Por medo da reação do outro? Percebi que naquele contexto não ser franco com o outro era apenas uma questão de etiqueta. E era uma pena, pois todos perdiam muito com tal situação, a escola principalmente.
Pensei fazer algo para tentar amenizar aquela situação. Decidi falar com a professora da sala em que estagiava. Sugeri que ao invés dela (a professora) ir até a direção reclamar da monitora, ela poderia conversar diretamente com a moça. Argumentei que talvez a maneira com a qual a diretora a abordava a fazia sentir que a professora reclamava na intenção de prejudicá-la e isso não era verdade. A professora me olhou um pouco apreensiva, mas decidiu aceitar minha sugestão. As duas conversaram e encontraram um meio termo para o problema. A professora teve de remanejar algumas atividades e a monitora também precisou se reprogramar, mas ambas encontraram um equilíbrio e aquele não era mais um incomodo entre elas.
Fiquei feliz com o acontecido, e passei a observar melhor a professora da sala onde estagiei. E me incomodei muito com o gosto extremo dela pelo silêncio. Até aquele momento ela era para mim um exemplo de profissional, não gritava com os alunos, não fazia diferença entre eles, não os tratava como recém nascidos. Não falava com voz fininha, fazendo dengo. Era correta e segura de si. Mas ela não suportava ouvir nenhum barulho sequer. Era um gosto tão extremo pelo silêncio que entediava os alunos e entediou a mim também. Os alunos não falavam porque a respeitavam, mas, eu percebia que era só chegar a hora do intervalo que eles saiam falando sem parar, como se quisessem descontar o tempo que passaram calados durante a aula. Muitas vezes eles não queriam conversar coisas fúteis, eles queriam consultar o coleguinha para tirar uma dúvida ou para pedir um material emprestado. E se entre eles não poderia haver conversa, que dirá comigo. Se por vezes ela necessitava dar atenção a um aluno no desenvolvimento de uma tarefa, os outros naturalmente recorriam a mim apenas para perguntar se estava certo, mas ela não tolerava. Chegou a chamar a minha atenção e me mudou de lugar na sala. Segue o registro contido em meu relatório de estágio de observação onde descrevo minhas impressões com relação à postura da professora da sala.
REE1 – Dezembro de 2007.
Entretanto há algo nela que poderia ser mais ponderado. Ela ama o silêncio! E a quebra do mesmo faz com que ela se altere às vezes. Nada de berros, gritos, histeria. Ela apenas chama a atenção da criança com a voz mais firme e olhando nos olhos da mesma. No tempo em que fiquei a observar o cotidiano daquela primeira série, fui percebendo o motivo desse amor pelo silêncio: sem ele não há o controle do comportamento dos alunos. Hoje eu ainda penso que talvez ela pudesse “afrouxar” mais nessa exigência, mas será que eu pensarei da mesma maneira quando estiver no lugar que hoje ela ocupa? Sei que as conversas, ainda que possam parecer mínimas e despretensiosas, podem, em
questão de minutos, transformar o comportamento da classe, e atrapalhar no rendimento das atividades.
Não a julguei em momento algum, pois sabia que ela conseguia manter a atenção da sala através do silêncio e a minha presença ali era um desvio dessa atenção rigorosamente conquistada por ela. Em sua pesquisa Vezub (2002) ao falar da experiência dos estagiários, constata que o silêncio é uma forma de se controlar a sala de aula, de manter o controle sobre os alunos.
Los indicios que dan cuenta de que el residente ha logrado mantener el orden en la clase son: el silencio logrado en los alumnos, la conducta de atención que dispensan a las explicaciones, preguntas y consignas que formula el residente, y la concentración de los alumnos en las actividades que realizan (VEZUB, 2002, p.97).
Refleti muito a respeito, não para fazer qualquer tipo de julgamento, mas para entender a importância do silêncio no ato de educar. Essa prática que adotei no momento do estágio, de refletir sobre os acontecimentos que se sucedem no decorrer do mesmo é um exercício fundamental quando se pensa na relação teoria- prática: “a prática da reflexão tem contribuído para o esclarecimento e aprofundamento da relação dialética prática-teoria- prática” (PICONEZ, 1991, p.25, grifo do autor). Passei a refletir se o silêncio é condição sine qua non para ser ensinar algo a alguém? Pensei muito a respeito e conclui que o silêncio é uma ferramenta de controle do professor, uma platéia silenciosa é uma platéia atenta. Refletindo ainda mais, me questionei sobre isso, afinal silêncio e atenção não são sinônimos. Muitas vezes silenciar-se é transferir-se para outro contexto, particular e alienado, muito distante do contexto real. Entretanto o silêncio transmite uma aparente aceitação por parte do ouvinte, isso traz segurança ao orador, nesse caso para a professora. Enguita (1989), desde uma perceptiva na qual o que importa é escutar o professor e realizar as atividades coletivas indicadas por ele, indica que é inevitável a aceitação do silêncio, da ordem, da imobilidade e de outras representações autoritárias existentes na escola. O autor enfatiza que “a ordem e a autoridade nas salas de aula, como opostos a livre criatividade” (ENGUITA, 1989, p.166) são historicamente “o derivado necessário ao ensino simultâneo” e que “não é preciso forçar a ordem, ela não se converte em um problema organizativo, quando a aprendizagem é voluntária do princípio ao fim” (ENGUITA, 1989, p.166). Com as palavras de Enguita (1989) considero que a necessidade do silêncio que demonstrava a professora que acompanhei
no estágio de observação era um vício constituído possivelmente pelas suas marcas enquanto aluna; talvez marcas deixadas por professores autoritários...
Analiso essa marca autoritária da ordem do silêncio exigida por ela, oposta às outras posturas observadas por mim com relação a ela dentro da sala de aula, isto me leva a pensar se em sua formação docente ela esteve em contato com outras formas de partilhar o conhecimento, formas que estimulam a “aprendizagem voluntária” proposta por Enguita (1989). Esta reflexão levanta em mim a seguinte dúvida: o que prevalece na postura do professor: as suas marcas de vida escolar ou sua formação acadêmica? Penso que a resposta à minha dúvida poderia ser: as duas, pois o professor é um ser humano constituído de marcas, marcas de vida, de escola e de formação, e estas marcas estão enoveladas dentro do educador e são refletidas em sua postura cotidiana. Considero que somente a exercício da reflexão de sua própria prática traz ao professor meios de eufemizar alguma marca dele que se ponha como um obstáculo para uma aprendizagem emancipadora e libertadora.
Não gostaria de usar desse artifício para chamar a atenção de meus alunos, no futuro, quando me tornar educadora, mas acredito ser essa uma utilização involuntária, própria do ser humano, que necessita ser aceito, que necessita estar no comando, nem que isso custe o calar do outro. Diante disso confesso que não senti medo de estar ou não preparada para ser uma pedagoga, senti pela primeira vez medo de não perceber os meus erros como ser humano que sou. Assim o meu estágio de observação me ensinou a primeira lição: refletir sobre minha postura pessoal e profissional, pois existem atitudes próprias dos seres humanos, mas a reflexão dessas atitudes leva à excelência.
2.4 O segundo aprendizado extraído do ato de observar: a constituição da experiência.