Em Maíra, a relação entre minoria étnica, sujeito aculturado e sociedade expressam a agonia da cultura indígena, que em parte é circunstanciada pelas ações polêmicas promovidas por um Estado-Nação incapaz de lidar com a diferença em suas peculiaridades, ou de proteger as minorias tuteladas pelo Estado da ação dos setores predatórios e aliciantes da sociedade civil.
A propósito desses últimos, o escritor evidencia, entre as principais linhas de força que agem nesse processo de transformação da sociedade mairum, a religiosa que, através de sua ação secular catequista e evangelizadora, atinge a organização social mairum por dentro, desagregando-a estruturalmente.
Isso é colocado pelo enredo através da lacuna deixada no processo sucessório do comando tribal que é interrompido, pois Avá, o sucessor do clã do Jaguar, em criança, apartado do convívio tribal pelos padres, é marcado pela cultura ocidental. Desta forma, a preservação da cultura mairum se vê desarticulada, pois o sucessor atende a dois universos conceituais distintos, o mairum e o
ocidental judaico-cristão.
A Igreja Católica, a principal linha de força do processo civilizatório apresentado pelo texto, se caracteriza pela sua atuação catequista intensiva e é, na narrativa, a responsável pela formação cultural do personagem principal, Avá/Isaías que vive o dilema de sentir-se permanentemente discriminado no mundo civilizado.320 Esta é a dimensão reveladora que marca o retorno do indígena
para o seu universo, e que de certa forma conforma o conflito existencial e identitário do personagem:
Todo o dia e toda noite já longa revivi meus idos. Os de menino na Aldeia, os de rapaz no convento de Goiás, os de homem feito e desfeito em Roma. Eles me marcaram duramente. É como se eu tivesse perdido minha alma, roubada pelos curupiras e vivido por anos a fio como bicho entre bichos. Volto, agora que volto de verdade, me perguntando qual é o ser que levo ao meu povo. Sei bem que não sou o anjo sem mácula que um dia quis ser, a ingenuidade mairuna submetida a todas as provações, mas intocada. Não sou inocente. Não sou culpado. Sou um equívoco .Quem volta não é a forma adulta do menino ignorante, que os mairuns, na sua inocência, mandaram, um dia, com um padre para aprender a sabedoria dos caraíbas. Quem volta não é também o catecúmeno esforçado de quem os missionários quiseram fazer a glória da ordem. /quem volta sou apenas eu. Fui ovelha do senhor. Volto tosqueado: sem glória sarcerdotal, sem santidade, sem sabedoria, sem nada. Tudo o que tenho são duas mãos inábeis e uma cabeça cheia de ladainhas. E este coração aflito que me sai pela boca.321 (grifo meu)
O capítulo “Isaías” marca o princípio do rito de retorno de Avá a sua origem cultural:
Eu que sou o Isaías da ordem missionária e ao mesmo tempo o Avá do Clã Jaguar, do povo Mairum? Não, jamais, longe de mim essa ambigüidade. Afinal tudo está claro. Apenas representei e represento um papel, segundo aprendi. Não sou, nunca fui nem serei jamais Isaías. A única palavra que sairá de mim, queimando minha boca é que sou Avá, o tuxauarã, e que só me devo a minha gente Jaguar da minha nação Mairum.322
Um aspecto que singulariza a revelação do ethos indígena, nesse romance, é que cabe à Alma, a mulher branca, revelá-lo:
Para mim esses Mairuns já realizaram a revolução em liberdade. Não há ricos nem pobres; quando a natureza está sovina, todos emagrecem; quando está dadivosa, todos engordam. Ninguém explora ninguém. Não tem preço essa liberdade de trabalhar ou folgar ao gosto de cada um. Depois a vida é variada, ninguém é burro, 320 A ação aculturadora produzida pela Igreja Católica foi, conforme mostrou de Darcy Ribeiro, a grande contribuição
de Gilberto Freyre acerca da leitura sócio cultural sobre o indígena na sociedade brasileira. Aspecto relacionado no capítulo 2.
321 RIBEIRO,1989. p.67. 322 RIBEIRO,1889. p.34-5.
nem metido a besta. Para mim a Terra sem Males está aqui mesmo...323
Haydée Ribeiro Coelho mostra em seu texto “Representação feminina, travessia e memória”, a importância do papel de Alma na revelação do Ethos indígena:
“Quando Alma chega à tribo Mairum, compreende o outro, a diferença existente entre a cultura do branco e a cultura indígena. Ora, Darcy Ribeiro, participando da tradição indigenista e não indianista , acena para a mudança de olhar realizada pela personagem feminina , num processo de busca de deslocamento. A diferença entre as duas culturas só se revela para a passagem feminina pela travessia. Na medida em que descobre o outro se descobre, tem a revelação de sua própria identidade. A descoberta de si revela a face oculta da identidade nacional 324
O percurso de Alma é o da descoberta do indígena pelo branco, instanciado pela admiração e respeito ao ethos indígena. Sua presença como heroína é dessacralizada e a inserção dessa personagem na narrativa remete de maneira analógica a uma aproximação com a ordem mítica cosmogônica comum a vários povos indígenas no Brasil. Trata-se da afirmação do mito de Maíra da criação envolvendo a progenitura dos gêmeos, os filhos de “Jaguar”.
Nesta narrativa, a analogia ao mito cosmogônico é dado pela figura da gemelaridade e pela paternidade de Jaguar, que retoma a ordem mítica no contexto da desagregação dos ritos presentes naquela sociedade. No mito, os filhos de Jaguar o matam para virem daí se constituir criadores das coisas do mundo e da existência humana, tal como ela é no mundo real. Este mito confere um princípio à existência.
Na narrativa Maíra, a renovação é mostrada pela morte dos gêmeos ao nascimento, remetendo ao impedimento do prosseguimento das tradições. Assim, o que a narrativa metaforicamente ressalta é a iminência do fim, marcando o comprometimento da sobrevivência do povo mairum, como já evidenciou Walnice Nogueira Galvão.
Nessa linha, ao recorrer à ordem mítica, Darcy Ribeiro associa ao ethos indígena a idéia de morte325, esta promovida pela ação progressiva da aculturação, como alternativa, no entanto, reitera
323 RIBEIRO,1989. p.268. 324 COELHO, 1994. p.62.
a sobrevivência do ethos mediada pelo ato de narrar.