• Sonuç bulunamadı

Fert Sayısı İtibariyle Hane Gruplarının Ortalama ve Kişi Başına Düşen Gelirleri.6

2. DÜZCE İLİ İÇİN GELİR DAĞILIMININ TESPİTİ

2.3 Gelir Dağılımı ile ilgili Bulgular

2.3.2 Fert Sayısı İtibariyle Hane Gruplarının Ortalama ve Kişi Başına Düşen Gelirleri.6

A morte de Jesus deve ser entendida como consequência da sua vida. O quarto evangelho denomina a subida de Jesus rumo a Jerusalém como a sua “hora” (que Jesus conhece, espera e aceita). Paralelamente, Macabéa também tem a sua hora, refere-se à hora do espetáculo, pois a obra A hora da estrela é tecnocolor e patrocinada pelo refrigerante sabor cola, fiel representante do modelo cultural atual.

As consequências antropológicas pontuadas na obra A hora da estrela estão presentes nos dias atuais, conforme se pode constatar na obra A cultura mundo: resposta a uma sociedade desorientada, deGilles Lipovetsky e Jean Serroy.

A obra A cultura-mundo [grifo do autor] faz uma análise da elaboração da cultura atual. Para os autores da obra, o termo cultura-mundo significa a universalização da cultura mercantil, ou seja, uma cultura dominada pelo mercado (indústria), que, por sua vez, sequestra todos os modos de existência humana. “Com a cultura mundo, dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo; e com ela, uma infinidade de novos problemas que põem em jogo questões [...] existenciais (identidade, crenças, crise de sentidos, distúrbios da personalidade...)”.282

Esta universalização apontada por Lipovetsky e Serroy constituiu um modelo cultural (regido pelo mercado econômico) globalizado que se impõe sobre as instituições sociais. A obra A cultura mundo reafirma que o ser humano cada vez mais vive profundamente marcado pelo individualismo e pelo materialismo. Clarice indica esta característica por meio da ausência de diálogo entre os personagens na trama.

Os valores hedonistas, a oferta sempre mais ampla de consumo e de comunicação, a contracultura convergiram para acarretar a desagregação dos

281 BINGEMER, Maria Clara L. Jesus Cristo: servo de Deus e Messias glorioso. Op.cit. p. 58.

282 SOUZA, Glaucio Alberto Faria de. O ser humano Imago Dei na Gaudium et Spes: uma abordagem da

Doutrina Social da Igreja. 2013. p. 32. TCC (Pós-graduação Lato Sensu em Doutrina Social da Igreja) Faculdade Dehoniana de Taubaté-SP.

enquadramentos coletivos (família, Igreja, partidos políticos, moralismo) e ao mesmo tempo uma multiplicação dos modelos de existência: daí o neoindividualismo do tipo opcional, desregulado, descompartimentado. A “vida à la carte [grifo do autor]” tornou-se emblemática desse Homo individualis [grifo do autor] desenquadrado, liberto das imposições coletivas e comunitárias.283

E mais:

A obra A cultura-mundo [grifo do autor] relata a transformação no entendimento de cultura. Num primeiro momento, a cultura era edificada com as normas herdadas da tradição. Este entendimento não se concretiza na sociedade atual, na medida em que ela se afasta das grandes narrativas que ajudaram a sociedade a construir os valores sociais, a sociedade pós- moderna se tornou um setor econômico em plena expansão, a tal ponto considerável que se chega a falar, não sem razão, de “capitalismo cultural”. Percebe-se um deslocamento do cultural para o mercantil, a cultura passa a ser massificada, ela não está interessada no ser humano e sim no business [grifo do autor], que tem como objetivo a padronização da produção em série. “Daí em diante, é o planeta inteiro, todas as origens, cores, sexos, classes e idades, de maneira global, que se tornam o público do cinema, dos discos e do audiovisual”.284

Esta massificação do ser humano, como já dito anteriormente, é representada na obra A hora da estrela pelo rádio-relógio, pelos hot-dogs, pelos cabelos alourados de Glória, pelo desejo consumista representado pelo dente de ouro de Olímpico, pela prostituição de Carlota, e pelo descaso do médico que trata a pobre alagoana como um objeto descartável. Este fenômeno de massificação do ser humano, na compreensão de Lipovetsky e Serroy, é fruto da indústria cultural, que tem como único objetivo a diversão e a distração. Por se tratar de uma indústria, entende-se que a cultura deve ser consumida, por isso, “[...] um filme expulsa o outro, uma estrela dá lugar a uma nova, um disco substitui o anterior”.285 Esta massificação fica mais evidente quando surge o cinema. O cinema lança uma nova figura que servirá de modelo para muitos seres humanos, trata-se da estrela, até Macabéa queria ser como Marylin Monroe.

Ressalta-se também a importância da televisão nesta massificação propiciando uma forma de linguagem capaz de modelar uma apreensão do mundo. Atualmente, com a internet, esta cultura comunicacional ultrapassa quase todas as fronteiras. Segundo Lipovetsky e Serroy, esta dinâmica comunicacional somente aumenta o individualismo do ser humano,

283

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo... Op.cit. p. 48.

284 SOUZA, Glaucio Alberto Faria de. O ser humano Imago Dei na Gaudium et Spes... Op.cit. p. 33. 285 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo.... Op.Cit. p. 72.

crescendo o número de indivíduos descomprometidos, que assistem passivamente a dor e o sofrimento alheio como um espetáculo, conforme o relato da morte de Macabéa, que morre ignorada pelo mundo urbano.286 Para Lipovetsky e Serroy, o mundo se tornou uma grande tela orientada pela era das celebridades, com o seu quinhão de vazio, são celebridades passageiras, celebridades do efêmero, dos reality-shows, afinal é A hora da estrela.

A hipervisibilidade das pessoas revela o avanço imaginário igualitário, o culto do sucesso e dos valores individuais, e ao mesmo tempo o poder da cultura psicológica que acompanha a dinâmica de hiperindividualização contemporânea. Fenômeno de massa, o interesse dirigido às celebridades é o sinal manifesto de uma necessidade de personalização no mundo impessoal do universo mercantil, bem como da expansão do domínio do consumível e da moda, com seu quinhão de sonho e de evasão individualista.287

A hora de Macabéa é a sua morte. Ali ela se torna estrela, uma celebridade passageira que logo será esquecida. Com este relato Clarice expressa a ambiguidade de nossa sociedade atual, pois ao mesmo tempo em que universaliza um modo de viver voltado para o consumo, determina quem dele pode usufruir. O carro de luxo que atropela a jovem alagoana representa a pertença a um grupo, é um elemento de definição de partilha de valores apenas entre os que não estão preocupados com as Macabéas que teimam em sonhar e viver.

3.1 A hora de Jesus

Os evangelhos também mencionam “a hora de Jesus”. Entende-se a hora de Jesus como a sua partida deste mundo (Jo13,11); esta hora representa a força dos seus inimigos e do poder das trevas (Lc22,53). Macabéa foi atropelada inconscientemente pelo sistema que exclui, diferentemente de Jesus que: “caminha resoluta e livremente. Os evangelhos deixam claro que não é a multidão que o arrasta e sim ele mesmo [...] decide enfrentar o confronto [...]”.288

A hora de Jesus é relatada no evangelho segundo João na cena do lava-pés (Jo13), na noite que antecede a paixão de Cristo. Segundo a descrição de Joseph Ratzinger (Bento XVI), em seu segundo livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressureição, duas

286 Confira o segundo capítulo p. 29.

287 LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo.... Op.cit. p. 86.

características servem de eixo no qual ele concentra a sua atenção. Para Ratzinger, o essencial da hora de Jesus são a passagem e o amor.

As duas expressões clarificam-se reciprocamente, sendo inseparáveis uma da outra. O amor é precisamente o processo de passagem, da transformação, da saída dos limites da condição humana votada [sic] a morte, na qual todos estamos separados uns dos outros e, no fundo, impenetráveis uns aos outros – numa alteridade que não podemos ultrapassar. É o amor até o fim que realiza a “metábasis” [grifo do autor] aparentemente impossível: sair das barreiras da individualidade fechada – eis o que é o agápe [grifo do autor] a irrupção na esfera divina.289

A hora de Jesus assume um aspecto de serviço e doação; trata-se de um momento inclusivo e não do descarte, como Clarice relata na sua narrativa. Jesus realiza um projeto divino do amor que não é fechamento egoísta e sim abertura ao outro. Para Juan Mateos, a hora de Jesus teve início no seu rompimento com as instituições opressoras de Israel (Jo2,13ss). “Esta é a sua hora (2,4; 12,23), a da manifestação da sua glória (12,23) [...]”.290 Se a hora de Jesus é expressão do amor e, segundo Mateos, esta hora se inicia na resistência, logo, o amor cristão não deve ser neutro diante da vida. Conforme a homilia do Papa Francisco na missa pelas vítimas dos naufrágios, na ilha de Lampedusa.291

Francisco inicia a sua homilia com desejo de cumprir um gesto de solidariedade e também despertar a consciência de todos. E este despertar a partir da luz da Palavra de Deus, segundo ele, implica mudar concretamente certas atitudes. O papa provoca os seus interlocutores com duas indagações bíblicas. A primeira é: “Adão, onde estás?”, a segunda “Caim, onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim”, diz o Senhor Deus. Francisco continua: “Quem é responsável por este sangue?”. A homilia avança e ele faz uma pesada crítica à cultura do bem-estar. Para Francisco, o homem moderno perdeu o sentido de responsabilidade e solidariedade, pois, preocupado com as estrelas do momento, ele se parece mais como uma bola de sabão, que é vistosa por fora, mas sem vida por dentro. No final, o Papa reza para que a semente de Herodes (a indiferença alimentada pelo egoísmo) se apague do nosso coração.

289 BENTO XVI. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressureição. Tradução: Bruno Bastos Lins.

São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 60.

290 MATEOS, Juan. O Evangelho de São João: análise linguística e comentário exegético. Tradução Alberto

Costa. São Paulo: Paulus, 1999. p. 576. (Coleção grande comentário bíblico).

291 Homilia do Santo Padre Francisco. Missa pelas vítimas dos naufrágios. Disponível em:

<http://www.vatican.va/holy_father/francesco/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130708_omelia- lampedusa_po.html>. Acesso em: 10 julho 2013, 10:05:15.

A glória de Jesus é caracterizada pelo amor-doação. A cena do lava-pés narra Jesus colocando um avental (sinal de serviço) que não será mais tirado (Jo13,4-5). Na linguagem teológica este serviço é compreendido como esvaziamento (Kenosis). Verifica-se que a glória apresentada na obra A hora da estrela é oposta à proposta da glória de Jesus. Para Clarice, o ser humano moderno está direcionado para o luxo, sucesso, status e riqueza, enquanto a glória de Jesus é despojamento. (Fl2,6-11) Trata-se de uma estranha realeza para os dias atuais, conforme destaca Yves-Marie Blanchard:

Embora reconheça a Jesus certo tipo de glória, o quarto evangelho adverte que seria um erro identificá-la pura e simplesmente com a glória humana (5,41;12,43). Esta última não tem outro horizonte além de sua própria satisfação; trata-se de uma espécie de afirmação pessoal (7,18;8,50), à qual Jesus não dá nenhum valor: “Se glorifico a mim mesmo, minha glória nada é” (8,54). Trata-se, na melhor das hipóteses, de um reconhecimento mútuo, adquirido no seio de um grupo voltado para a sua própria identidade, essa atitude narcisista, embora experimentada coletivamente, parece incompatível com a fé, que implica, necessariamente, uma disponibilidade para o outro, uma transposição das perspectivas, uma experiência do encontro: “Como podereis crer, vós que recebeis vossa glória uns dos outros? (5,44)”.292

Clarice, por meio da sua escrita, busca clarificar a existência humana e fala do triângulo amoroso entre Olímpico-Macabéa-Glória. Estes “relacionamentos” são relatados por Clarice como uma relação de gratificação imediata. O que Olímpico busca não é o amor, e sim oportunidade de realização pessoal, ele quer a melhor opção para satisfazer seus anseios. Ao apontar esses modelos de relacionamentos pensa-se que Clarice denuncia uma compreensão arbitrária da palavra amor. A hora de Jesus resgata a compreensão do amor no plano divino. Na concepção bíblica o termo ágape exprime a experiência do encontro, da descoberta do outro. Trata-se do amor que “não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura em vez disso o bem do amado: tornando-se renúncia [...]”.293

Benzer Belgeler