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Objeti va-se, nesta seção, apresentar uma

caracteri zação das práti cas soci ai s de escri ta nas quai s esti veram i nseri das as cri anças e a professora durante o processo de apropri ação da l ei tura e da escri ta. Vi gotski (1934/1993) si nali zava para a i mportânci a e a necessi dade de se ensi nar às cri anças não apenas o traçado das l etras e a escri ta de pal avras sem senti do/ si gnifi cado, mas a l i nguagem escri ta.

Na sal a de aul a observada, o processo de i nstrução consi derou as facetas do mes mo ob jeto, ou seja, o traçado das letras, a ortografi a das palavras e o ensi namento do uso da escri ta e m si tuações soci ai s da/na sala de au la.

Desta forma, a escri ta de pal avras e frases, a deci são sobre qual l etra usar em deter mi nado contexto, qual letra representari a esse ou aquel e som, o quê escrever, como, para quê e para quem, permeou os três anos do Pri mei ro Ci clo de Formação Hu mana. Di to de outra forma, foi comu m, durante a reali zação das ati vidades, o l evantamento de questões pel a professora e pel os al unos sobre o funci onamento e a/s mel hor/es forma/s de usar a escri ta para se comuni car em cada u ma das tarefas propostas e em cada condi ção de produção estabel eci da pel a professora e/ou pel as cri anças.

As ati vi dades de escri ta foram real izadas em con junto com a professora, ora em pequenos grupos de al unos, ora em duplas ou i ndi vidual mente. Al ém disso, as cri anças trouxeram para o ambi ente da sal a de aul a suas experi ênci as com e sobre o mundo da escri ta. Suas vi vênci as em a mbi entes cul turai s, as quai s exi giram, de al gum modo, o uso da escri ta, quer na famíl i a ou em outros l ocai s, propi ci aram às cri anças uma a mpl i ação do contato com a l i nguag em escri ta para al ém da sal a de aul a e da escol a.

Ao i ni ci ar o processo de escolari zação, mo mento e m que lhes foram dadas, co m mai or frequênci a e de modo si stemáti co, oportuni dades de convivênci a por mei o da escri ta, as crianças buscaram nas experi ênci as a nteri ores a base para resol ver os novos desafi os apresentados. Nas palavras de Vi gotski (2009, p. 17):

[...] a co mb in a çã o de sse s e le me nto s já re p re se nta a lg o n o vo , cria do , p róp rio da qu e la crian ça , e n ão simp le smen te a lgu ma co isa qu e rep rod uz o q ue e la te ve op o rtu n id ad e d e ob se rva r ou ve r.

Para compreender o funci onamento do si stema de escrita, a cri ança preci sa del e se apropri ar, i sto é, cri ar, a parti r de suas experi ênci as anteri ores e dos desafi os que a escol a lhe i mpõe, o seu própri o si stema de escri ta . Ao mes mo te mpo e m que passa a fazer uso desta li nguagem para organizar o próprio pensamento e comportamento para se comuni car com outras pessoas e expressar seus senti mentos.

Co m o objeti vo de mel hor vi sual i zar as práti cas de escrita de 2006, 2007 e 2008 , e as condi ções de sua produção, el aborou-se o quadro a segui r. Anali samos, para tanto, os vídeos das aulas dos três anos da col eta de dados da pesqui sa ori gi nal , produzi ndo Mapas de Eventos, tomando por ori entadoras as questões: o quê, quem, co m que m, pa ra quê, como e e m quai s condi ções se escreveu na sal a de aula.

Qu ad ro 6 – Caracterização das práticas sociais de escrita na Turma do Abraço, em 2006, 2007, 2008

(Co n tinu a )

O quê Quem Para quê Por que Como Dispositivos

didáticos ou

suportes de

escrita

Rotina do dia Professora Registrar o planejamento de atividades

do dia As crianças organizam-se no tempo, ao conferir atividades já realizadas (ou não)

Junto com a toda a turma Quadro

Crianças Uma criança, com ajuda da professora

e dos colegas, registra as atividades do dia no quadro

Cópia da rotina do dia

no caderno Crianças Treinar letra cursiva Atender pedido dos pais sobre atividades realizadas em sala de aula Crianças anotam itens da rotina no caderno enquanto professora orienta o traçado da letra cursiva, uso do caderno, distribuição dos escritos no papel

Quadro

Caderno das crianças

Registrar no caderno as atividades realizadas em sala de aula

Bilhetes na agenda Professora Famílias

Avisar aos pais sobre algum evento na escola ou fato ocorrido durante as aulas Família envia informações sobre a criança para a escola

Comunicação entre escola e família Professora e família fazem anotações de próprio punho

Escola cola impressos na agenda

Agenda Folha xerocada

Anotar lembretes na

agenda Professora

Crianças

Registrar compromissos de tarefas a

serem realizadas em casa Apoio à memória Crianças copiam do quadro a anotação feita pela professora Quadro Agenda Corrigir Para Casa e

atividades realizadas em sala de aula

Professora Crianças

Correção de atividades realizadas em

casa e/ou em sala de aula Reflexão sobre a atividade: como foi feita, dificuldades, ajustes necessários Discussão da turma com a professora Livro didático Quadro Caderno Folha xerocada Revisar atividades Crianças

Professora

Aprender a revisar e corrigir sua própria

produção escrita Reflexão sobre questões ortográficas, uso do caderno, formatação de texto na folha

Professora mostra para turma o que não foi feito adequadamente, de forma geral, e acompanha revisão de cada criança do seu trabalho

Folha de

atividades com marcas de correção da professora Preencher cabeçalho Crianças Aprender a escrever o próprio nome,

registrar a data Identificação das folhas de atividades Crianças, com orientações individuais da professora Folha xerocada Quadro Ditado de palavras Crianças Escrever sozinhas uma lista de

Completar agenda do

Menino Maluquinho Crianças Professora

Aprender a escrever o próprio nome; ordem alfabética; uso da agenda de telefones

Aprendizado sobre agenda de contatos

telefônicos Crianças, orientações da professora individualmente, com Livro didático Folha xerocada Quadro Cruzadinha Crianças Aprender a escrever palavras Reflexão sobre relação

grafema/fonema, quantidade de letras na palavra* Individual Em duplas Folha xerocada Revistas de jogos infantis Completar lacunas de

poesia Crianças Aprender conceito de palavra Reflexão sobre segmentação, palavra Professora orienta a resolução da atividade para toda a turma Folha xerocada Poesia no mural da sala

Quadro Ordenar sílabas de

nomes próprios Crianças Aprender conceito de sílaba e palavra Reflexão sobre palavra, sílaba, grafema, fonema Coletivamente Folha xerocada Quadro Escrever ou desenhar

sobre o que gostaram de ter feito no final de semana

Crianças Para organizar a Roda de Conversa

sobre o final de semana Aprender a usar a escrita como apoio à memória Individualmente Folha avulsa

Conversa sobre o quê precisa para ser uma palavra

Crianças Professora

Esclarecer mal entendido ao registrar

palavra no quadro Esclarecimento sobre a formação da sílaba (CV, CCV, V, CVC etc.) Conversa de uma criança com a professora e participação de toda a turma Quadro Lista de nomes de jogadores da Seleção Brasileira de Futebol Crianças Professora

Aprender a escrever nomes próprios Contextualizar o tema da copa do mundo em estudo na sala para aprender a escrever palavras (nomes próprios)

Professora escreve no quadro nomes

de jogadores que as crianças indicam Quadro Caderno Cópia da lista de

jogadores da Seleção Brasileira de Futebol

Crianças Aprender a fazer letra cursiva, usar o

caderno Registrar produção da turma Crianças copiam lista do quadro Professora orienta o uso do caderno e escrita para as crianças

Quadro Caderno Carta para professora

de Educação Física Crianças Professora

Aprender a se comunicar por escrito Agradecimento à professora de Educação Física que organizou um evento fora da escola

Crianças e professora produziram o texto juntas e a professora registrou no quadro a carta

Quadro

Cópia da carta Crianças Aprender a registrar texto na folha Cada criança preferiu entregar a sua carta para a professora de Educação Física

Individualmente, com orientações da

professora Quadro

Folha de papel almaço

amizade Páscoa, quando alunos e professores trocaram cartões de Páscoa e chocolates

professora

Folha avulsa Cartão Cartão para os pais Crianças Aprender a confeccionar cartão com

mensagem de carinho para os pais Registrar sentimentos em mensagem pessoal Individualmente, com orientações da professora Quadro Folha avulsa Cartão Bilhete para turma do

1º ano Azul Crianças Aprender a produzir um bilhete Convidar colegas de outra turma para conhecer poemas do Arquivo Poético Individualmente, com orientações da professora Quadro Folha avulsa Carta para coordenadora da UFMG Jovem Crianças Professora

Aprender a se comunicar por escrito Sintetizar/avaliar participação em evento científico

A coordenadora do evento solicitou que os visitantes avaliassem os trabalhos e apresentações da UFMG Jovem

Crianças, com orientação da professora Quadro Folha avulsa Texto para a família Crianças e

professora Comunicar-se por escrito

Relatar, por escrito, aprendizado sobre a dengue

Sintetizar peça de teatro sobre a dengue, apresentada na escola

Informar aos pais sobre conteúdo de

teatro apresentado na escola Crianças Professora

Quadro Caderno

Anúncio Crianças Aprender a produzir um anúncio Uma criança da turma perdeu a

carteirinha da biblioteca Crianças, com orientação da professora Quadro Folha avulsa

*A av ali aç ão di agnóst i c a, as r ef l ex ões so br e a r el aç ão gr af em a/f onem a e a quant i dade de l et r as na pal av r a f or am r eal i z adas c om base nas t eor i as de F er r ei r o ( 1986, 1992) e F er r ei r o e T eber osk y ( 1986) , div ul gadas ent r e o s pr of essor e s br asi l ei r os, na déc ada de 1980.

O quadro anteri or mostra, na pri mei ra col una, o que cri anças e professora escreveram em sal a de aul a para refl eti rem sobre o funci onamento da escri ta e as di ferentes possi bili dades de seu uso. Nota -se que a escri ta signi fi cou cópi a e codifi cação da l íngua escrita como, por exe mpl o, nas ati vi dades de cópi a da rotina do dia, ordenação de sílabas de nomes própri os e cruzadi nha. Houve uma preval ênci a, no entanto, de ati vi dades de produção de textos escri tos, as quai s possi bili taram oportuni dades de instrução da li nguagem escri t a e, não somente, da l íngua escri ta. Destacam -se co mo model os desta i nstrução as ati vi dades de elaboração da rotina do di a, carta para a professora de Educação Físi ca e bil hetes na agenda.

Percebe-se uma vari edade de gêneros e tipos textuai s contempl ados ao l ongo dos três anos da col eta dos dados. Co mpreendemos, co mo Costa Val et al. (2007, p. 27), os gêneros de textos como:

[...] o s pa d rõ e s te xtu a is que tê m se u u so co n sa g rado na s d ife ren tes situa çõe s so cia is d e in te ra çã o fa lad a ou e scrita co mo , po r e xe mp l o , o re ca do , a co n ve rsa te lef ôn ica, a f ofo ca, a le tra d e mú sica , o b ilh e te , a n o tícia de jo rn al, a le i, o e xtra to b an cá rio, a se n te n ça ju d icia l, o con to d e fa da s, o so ne to , o sa lmo b íb lico , e tc.

Os ti pos textuai s são concebi dos, neste estudo, como atitudes enunciat ivas que acarretam modos característicos de emprego dos recursos linguísticos presentes em um texto ou em sequências de texto (COSTA VAL et al., 2005, p. 20) como, por exe mpl o, textos i nformati vos, i njunti vos, descri ti vos, di ssertati vos, etc.

A professora pri vil egiou gêneros mai s próxi mos da vi vênci a das cri anças, al ém de ter consi derado o nível de envol vi mento e de apropri ação das cri anças com a li nguage m escrita. Dentre a variedade de gêneros trabalhados na sal a de

aul a, elencamos: carta, bil het es, cartões de feli ci tações, l embretes na agenda, agenda tel efôni ca, roti na do dia, anúnci o, li sta, cabeçalho, rel ato, poesi a, l embrete, convi te, di tado e cruzadi nha.

Em rel ação aos ti pos textuai s, afi rma -se que a professora desenvol veu o trabalho co m a l i nguagem escri ta consi derando diferentes domíni os de comuni cação: exposi ti vo (rel ato), argumentati vo (avali ação de evento ci entífi co) e descri ti vo (regras da turma, roti na do di a).

A segunda col una do quadro i ndi ca que os textos foram produzi dos, ora pel a p rofessora e as cri anças, ora pel as cri anças, i ndi vi dual mente, e m dupl as ou em pequenos grupos. A produção textual na sal a de aul a desenvolveu -se por mei o das práti cas soci ai s de li nguagem, nas quai s cri anças e professora aprenderam co mo usar a li nguagem e m di ferentes si tuações di scursi vas. (COSTA VAL et al., 2007, p. 24).

A tercei ra col una caracteri za os textos produzi dos na sal a de aul a, tendo por base os usos e funções soci ai s das produções: textos de uso escolar com vi stas à i nstrução do códi go escrito; textos com usos e funções soci ai s da li nguagem escrita, na sala de aul a e para al ém da sal a de aula. Nota -se que os textos produzidos em sal a de aul a ti veram co mo te ma assuntos do conheci mento das crianças e de seu i nteresse próxi mo.

Em rel ação aos textos para aprender o códi go escri to, as ati vidades objeti vavam: trei nar l etra cursi va, corrigi r ati vi dades, preencher cabeçal ho, confeccionar li sta de palavras e de títul os de hi stórias li das na sal a, escrever pal avras (ditado), ordenar síl abas de nomes próprio s, refl etir sobre a formação de pal avras, regi strar o que se aprendeu na escol a, copi ar cartas, copi ar bil hetes e l embretes na agenda.

Co mo exe mpl o de textos li gados aos usos e funções soci ai s da li nguagem escri ta, sobressaem -se as ati vi dades cuja fi nali dade era: regi strar, no quadro, a roti na do di a para

organi zar as ati vi dades ao l ongo da aul a, revi sar e corri gi r a própri a produção escri ta, aprender a escrever o própri o nome, aprender a usar a agenda tel efônica, escrever como apoi o à me móri a, aprender a produzir bil hetes e cartões de feli ci tações, regi strar l embretes de compromi ssos a serem real i zados e m casa, produzir carta de agradeci mento à professora de Educação Físi ca, avali ar um evento ci entífi co, relatar o que foi aprendi do na escol a.

A quarta col un a refere-se aos moti vos e à função que cada texto cumpri u soci al mente na sal a de aul a e no convívi o de seus me mbros co m pessoas próxi ma s. Encontram -se ati vidades vol tadas para o aprendi zado do código escri to: cópi as, treino de l etra cursi va, preenchi mento de lacunas, ordem al fabéti ca, refl exão sobre a formação de palavras, escri ta de li stas de nomes própri os. Além di sso, pri vil egi aram -se as ati vidades em que as cri anças ti veram de se comuni car por escri to, como o relato para os pai s do conteúdo aprendi do so bre a dengue, o agradeci mento, em for ma de carta, para a professora de Educação Físi ca e o anúnci o para procurar a carteiri nha da bi bli oteca de um dos col egas da turma. A anál i se dos vídeos permi te-nos assegurar que, enquanto produzi am os textos , cri anças e professora refl etiam sobre os aspectos ortográfi cos, sobre pontuação, coerênci a e coesão dos mes mos. Desta for ma, na medi da em que se produzia um texto, eram estabel eci das relações, buscando o aprendi zado do código escri to.

A produção dos textos acontece u de forma col eti va (professora, juntamente co m a turma), i ndi vi dual , em dupl as de al unos ou em pequenos grupos, sempre co m a medi ação da professora, conforme se pode observar na qui nta coluna do quadro. A professora, em todas as produções, propôs questões sobre o quê escrever e como deveriam fazê -l o, atentando para i mportância da clareza das i nformaç ões, al ém de fazer revi sões durante a produção e após seu térmi no, com o propósi to de que

as crianças avali assem a pertinênci a dos textos e m rel ação aos objeti vos e ao l ei tor pretendi do.

A l inguagem uti li zada nas produções escritas respei tou a forma de di zer das cri anças, consi derou os supostos l ei tores, o suporte e o tema defini dos para cada texto. Para a rotina do di a, por exe mpl o, preferi u -se el aborar uma l i s ta com as ati vi dades programadas. Buscou -se, com i sto, control ar a reali zação das mes mas. Na carta para a professora de Educação Físi ca, as cri anças usaram li nguagem si mi l ar àquela de quem escreve para um a mi go, i mpri mi ndo cari nho para di zer à professora/a mi ga o quanto estavam agradeci dos pel o passei o. Nos bil hetes e l embretes col ocados nas agendas escol ares, usaram l i nguage m objeti va e clara, permi ti ndo uma lei tura rápi da sobre o que fari am e m casa e quando deveri am entregar determi nada ati vi dade à professora.

Na úl ti ma col una do quadro em questão, fora m el encados os suportes de vei culação dos textos: quadro, caderno, li vro di dáti co, fol ha fotocopiada, revi sta, mural da sal a, cartão, fol ha avul sa (A4) e fol ha de papel al maço. Os suportes relaci onaram-se aos obje ti vos e ao l ei tor (em potenci al ) de cada texto produzi do. Assi m, a carta para professora de Educação Físi ca foi regi strada no quadro e cada cri ança a copiou em u ma fol ha de papel al maço. A professora propôs que a cópia fosse fei ta por apenas uma cri ança, c om a assi natura de todas, ao fi nal , mas as cri anças fi zeram questão de cada uma produzi r e entregar sua carta à professora. Foi utili zado o papel al maço e m

função do processo de i nstrução – as crianças estavam

aprendendo a fazer o traçado da letra cursi va e, por tal razão, usavam três l i nhas para garanti r um t raçado l egível . Utili zou -se o quadro na mai ori a das produções para que todas as cri anças ti vessem acesso às i nformações escri tas na sal a de aul a. Na produção do anúncio e de uma propaganda, usaram fol h as de papel sul fi te, em branco, para escrever com l etras mai ores e desenhar, caso senti ssem necessi dade de ali ar as duas

modal i dades de regi stro. Viu -se, portanto, que o suporte foi determi nado pel os objeti vos, pel o provável i nterl ocutor e pela moti vação d e cada texto, tornando-se evi dente a i ndi ssociação entre forma e conteúdo nos processos de produção da escri ta naquel a sal a de aula.

Através da anál i se dos vídeos, constatou -se que as