I. BÖLÜM
2. SAHAFLIK MESLEĞİ
2.3. Sahaflık Mesleğinin Tarihsel Gelişimi
Diante do quadro urbano que a capital paraibana apresenta na década de 1930, revestido de preocupações viárias e expansionistas, colocando nas pautas urbanas o direcionamento e a ordenação do seu crescimento e estabelecendo intervenções no sistema viário e intenções de zonear a cidade, a Lagoa aparece mais uma vez como foco dessa discussão e peça importante das propostas de intervenções.
Um dos principais elementos do debate urbano desse momento é o Plano de Remodelação e Extensão
da Cidade de João Pessoa, elaborado por Nestor de Figueiredo e contendo propostas de melhoramentos e de
expansão da cidade. Nesse plano, o Parque Solon de Lucena assume papel fundamental, tornando-se mais uma vez elemento central de mais um ciclo de reformas urbanas dessa capital.
Nesse plano, Nestor de Figueiredo propõe intervenções na área da cidade já consolidada e demarca a área de expansão, onde concentra as principais propostas, com a criação de núcleos para as diferentes funções interligados por um conjunto viário. Na união dessas duas áreas, “cidade existente” e “cidade futura”, está o Parque Solon de Lucena, que assume o papel de elemento articulador dessas duas regiões. Esse papel atribuído ao parque é marcado pela monumentalidade formal, apresentada principalmente pela conformação viária ao seu redor, que marca a diferença entre a cidade existente e a cidade que está para se construir, e pelos conjuntos arquitetônicos que enriquecem as perspectivas. Nesse sentido, o Parque é apontado pelo urbanista, ao apresentar sua proposta, como portal de entrada para a cidade futura. Nele estão o centro Municipal e uma parkway circular que penetra o parque, situando-se entre o lago e a área ajardinada e integrando o sistema viário do tecido urbano consolidado ao da área de expansão conduzida pela avenida Getúlio Vargas.
A questão estética é característica de muitos planos desse período, a exemplo do plano Agache onde esse ponto recebe destaque especial. Nele, assim como ocorre no plano de Nestor de Figueiredo para a capital parabaina, o sistema viário alia os valores de funcionalidade e embelezamento. As mesmas características apresenta o Plano de Avenidas elaborado por Prestes Maia para São Paulo, onde, ao longo das marginais do sistema de radiais-perimetrais, são previstos conjuntos monumentais como a nova estação central, instalações esportivas e indústrias. Seguindo os mesmos princípios é elaborado o plano do Recife, capital do estado vizinho, onde se percebe, segundo Cristina Leme, a “influência do urbanismo formal francês, e de Agache:
seu aspecto maciço, cênico, com muitas perspectivas e visuais, avenidas em Y, praças e conjuntos monumentais e, sobretudo, a idéia de que o edifício forma a cidade”426.
À época do Plano de Nestor de Figueiredo para João Pessoa, o Parque Solon de Lucena, urbanizado na década anterior, pouco reflete em sua aparência o título e a função a ele conferidos. A execução do plano de saneamento não é suficiente para mudar seu aspecto pouco convidativo, visualmente resumido a uma lagoa tomada por mato e contornada por palmeiras imperiais que seguem um passeio de terra batida. Assim, mesmo saneado, o parque não é incorporado de imediato ao cotidiano urbano.
A má impressão acerca desse espaço, que permanece após o insucesso das vultosas obras nele realizadas em busca de transformá-lo em parque, reforça a necessidade de uma nova intervenção e a aceitação do plano elaborado por Nestor de Figueiredo, onde esse sítio é destinado a abrigar atividades de lazer. Por ser essa uma área considerada inadequada para a utilização pela população, a proposta do urbanista recebe críticas que apontam o parque ainda como um espaço longínquo e inviável para o abrigo de atividades urbanas diárias. Assim, as novas propostas para ele concebidas são encaradas como audaciosas, devido à inserção
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Capítulo 5 - O Parque Solon de Lucena do empreendimento em local “cheio de asperêzas naturais de terra abandonada”427.
Mesmo assim, o Parque Solon de Lucena assume o papel de articulador das duas “cidades”, ponto central de onde parte o novo sistema viário da capital a partir de um sistema de parkways para expansão em direção ao mar. Simbolizando o portal de entrada da cidade futura, é concebido pelo urbanista como “centro de irradiação” ou “centro de distribuição da cidade futura”, assumindo essa posição quase que naturalmente, devido à configuração do crescimento urbano nas décadas anteriores. Esse “centro de irradiação” é formado pelo conjunto parque- sistema viário que constitui o esqueleto do plano na zona de expansão, onde o espelho d’água da lagoa assume o papel de rotatória que conduz a via em direção à praia.
No mesmo período da elaboração do Plano de Remodelação e Extensão da Cidade de João Pessoa, onde é estabelecida a função viária da lagoa na distribuição dos fluxos e ampliação da cidade, articulando-a com a área já consolidada, outros projetos com características semelhantes são elaborados. Nesse sentido, pode-se citar o Avant Projet d’amenagement et extension de la ville de Niterói, tese de doutorado de Atílio Correia Lima, no Institut d’Urbanisme de Paris, onde, dentre outras pontos, propõe a construção de uma praça no centro da cidade de Niterói “com um sistema de circulação giratório que distribuiria de forma contínua o
fluxo de carros”428. Outro exemplo é o Plano de Remodelação e Extensão da Cidade do Recife, também elaborado em 1932 por Nestor de Figueiredo, onde há a utilização de um espaço público de reordenação do sistema viário: “propôs um novo desenho para o bairro no qual a praça da Independência seria o centro de
recepção e distribuição de tráfego”429.
427 AS OBRAS de embelezamento da Capital. A União, N. 93, P.01-02, 28 br. 1938, ano XLVL, p.01. 428 LEME, Maria Cristina da Silva (org) Urbanismo no Brasil 1895-1965. Salvador: Edufba, 2005, p. 384. 429 Ibid., p. 401.
Parque Solon de Lucena visto do terraço do Edifício Central do Instituto de Educação. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega. Recém implantados, o Instituto, o Parque, e a parkway - Avenida Getúlio Vargas, apresentam-se em uma área pouco construída, região ainda não consolidada enquanto espaço urbano, o que evidencia a intenção de direcionar sua expansão para essa área.
Executado apenas no Governo de Argemiro de Figueiredo (1935-1945), o Plano de Remodelação e Extensão da Cidade de João Pessoa tem como concretização imediata basicamente o Parque Solon de Lucena e seus arredores. A execução dessa parcela do plano promove a integração da área da Lagoa à dinâmica da cidade e à utilização pública, transformando-a de fato em um parque urbano. Para sua reurbanização, é convidado pelo prefeito da capital Antônio Pereira Diniz, em 1935, o arquiteto George Munier. De provável origem e formação francesas e com atuação na cidade do Recife, ele elabora também uma proposta de reforma para o Parque Arruda Câmara. No Parque Solon de Lucena, Munier valoriza três dos seus elementos – o lago central, as palmeiras imperiais dispostas perifericamente e a avenida circular de contorno - que, para ele, designam o caráter do lugar e a feição pitoresca que ele busca reforçar.
Em sua proposta, delimita o espelho d’água do lago a partir de um muro de arrimo construído até o nível da avenida que o circula, no qual se fixa uma balaustrada de ferro. A criação de dois poços artesianos proporciona a regularização do espelho d’água que tem uma fonte ao centro. A imagem do parque por ele proposta é centralizada na circunferência do espelho d’água formada pelo muro de arrimo, a partir do qual estão situados, respectivamente, os seguintes elementos igualmente circulares e concêntricos: uma faixa de passeio para pedestres, as palmeiras circundantes e a avenida circular de contorno. Munier indica ainda, no entroncamento da avenida circular com a parkway que dela parte, “ponto altamente attractivo e esthetico ”430 alguns equipamentos dentre os quais estão um coreto, uma sorveteria, um café e um restaurante.
Com algumas alterações, acrescentando e excluindo alguns elementos, a intervenção no Parque Solon de Lucena executada pela Diretoria de Viação e Obras Públicas (D.V.O.P.) parece ser a proposta por Munier, porém sem aqueles equipamentos no encontro das parkways. Isso se dá pela preocupação do governador Argemiro de Figueiredo em proporcionar para o Instituto de Educação, um dos ícones de sua administração, uma visão monu- mental do Parque, o que reforça a idéia da sua importância para a cidade naquele momento. Como o local de implantação do Instituto de
Educação ainda é indefinido, opta-se por suspender a construção dos equipamentos do parque, evitando, dessa forma, futuros empecilhos em relação à construção de uma paisagem comum entre o parque e o prédio do Instituto.
No parque, sobre a superfície da laje de um reservatório construído para a lagoa e para abrigar o maquinário que jorra os jatos d’água da fonte, resolve-se implantar um bar e um dancing, idéia que remete, de certa forma, aos equipamentos propostos por Munier. A intenção se consolida na construção do Cassino de Verão, mais conhecido como “Cassino da Lagoa” mesmo sem nunca desempenhar tal função. Esse empreendimento é projetado por João Corrêa Lima, arquiteto-engenheiro formado pela Escola Nacional de Belas Artes e com
430 George Munier, apud PREFEITURA MUNICIPAL DE JOÃO PESSOA. Mensagem Apresentada à Câmara Municipal de João Pessoa
pelo prefeito interino, Dr. Oscar Oliveira Castro. João Pessoa: Imprensa Oficial, 1936, p.14.
Av. Getúlio Vargas Av. Getúlio Vargas
Mapa esquemático localiazando o Edifício Central do Instituto de Educação (amarelo) em relação ao Parque Solon de Lucena e a av. Getúlio Vargas.
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Capítulo 5 - O Parque Solon de Lucena Em meio às comemorações do quinto aniversário do governo Argemiro de Figueiredo, no dia 25 de janeiro de 1940, são inaugurados o Cassino e as obras de melhoramento do Parque Solon de Lucena, inclusive com os trabalhos de ajardinamento realizados pela Prefeitura. Esse fato é testemunhado por uma multidão que nele se acomoda, concluindo, com esse marco, o segundo ciclo de reformas urbanas da capital paraibana.
Como resultado da obra, para o Parque Solon de Lucena converge uma perspectiva de acentuada monumentalidade, composta pelo cenário formado pelo Instituto de Educação e o percurso ascendente da
parkway em sua direção. Essa via é inaugurada juntamente com o Instituto parcialmente construído - Edifício
Central e Jardim da Infância - nas festividades em alusão ao aniversário natalício do presidente Getúlio Vargas,
Cassino de Verão. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega.
Fonte no centro do lago do Parque Solon de Lucena vista do terraço do Edifício Central do Instituto de Educação. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega.
experiência em trabalho conjunto com Luís Nunes na Diretoria de Arquitetura e Urbanismo no Recife. Apresentando uma arquitetura moderna, o Cassino dialoga com seu entorno: o Instituto de Eduçação e a natureza dos espaços públicos de seus arredores. Trata-se de uma edificação cujo partido arquitetônico é definido pela estrutura formada por um conjunto de pilotis dispostos perimetralmente, nos quais se apóia uma laje plana, compondo um conjunto de características facilmente observadas mesmo na velocidade dos usuários das parkways.
recebendo seu nome. O complexo edificado conforma, em meio ao clima de euforia e orgulho pela paisagem urbana em construção, um “conjunto empolgante, digno de uma urbs moderna que tem ânsia de embelezar-
se, crescer e ter mais intensa vida”431.
Dos empreendimentos de Argemiro de Figueiredo, certamente é a obra do Parque Solon de Lucena, juntamente com o Instituto de Educação, de certa forma a ele integrado, a realização alvo de maior repercussão. A Lagoa converte-se em uma das principais referências visuais da cidade, um dos seus cartões postais. A intervenção no parque proporciona grande respaldo ao governador devido ao grau de transformação pelo qual passa esse espaço em sua administração, refletindo na conjuntura total da cidade que está prestes a incorporar grandes mudanças relativas à sua delimitação urbana. A partir de então, desenrola-se um processo de espraimento do tecido urbano, possibilitado pela mudança da relação da cidade com a Lagoa, antes empecilho de crescimento urbano.