A proteção dos direitos humanos deveria ser o objetivo maior de qualquer povo, independentemente de sua forma de governo ou de seu estágio de desenvolvimento. E a proteção dos direitos humanos é, em última análise, a proteção à vida. Na verdade, nem sempre foi assim. O trajeto, contudo, foi longo para que as sociedades chegassem à chamada “Era dos Direitos”. Os direitos foram nascendo gradualmente, advindas das transformações pelas quais foi passando a humanidade, após muita luta contra os velhos poderes estabelecidos.
O Direito é uma construção humana, que se foi aperfeiçoando em função das necessidades coletivas, guiado pela razão que aponta quais os meios pelos quais se podem solucionar conflitos. Sem as saídas apontadas pelo Direito, os conflitos podem gerar guerra. Como a tendência à guerra é inclinação natural do homem, deduz-se que o Direito é a vitória da razão sobre a natureza humana.
A Democracia, como Estado de Direito, exige reconhecimento e proteção dos direitos humanos. Inexistindo Direito, inexiste Democracia e, sem Democracia e Direito, não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos. A justiça social somente manifesta-se em ambiente de paz, quando é possível a efetiva proteção dos direitos humanos.33
O Direito surge em decorrência da experiência comportamental de um grupo social para suprir uma necessidade ou um ideal de justiça desse grupo. As leis são criadas pelos homens como expressão de um sentimento que nasce da observação dos fenômenos sociais e da valoração que se costuma atribuir aos atos humanos para que o controle social seja efetivo, na busca do equilíbrio entre direitos e deveres, entre poder e necessidade, entre riqueza e pobreza, entre o bem e o mal.
Para que haja desenvolvimento, é necessário que todos tenham oportunidades iguais e que sejam neutralizados os fatores principais de privação da liberdade: pobreza, carência de oportunidades econômicas, negligência dos serviços públicos e intolerância ou ingerência excessiva na vida dos cidadãos. Para quebrar- se esse círculo vicioso de subdesenvolvimento e desrespeito aos direitos humanos, todo esforço é válido, novos horizontes devem ser deslumbrados e as nações mais ricas devem ser solidárias para com as mais pobres a fim de quebrar as barreiras que impedem a plena expressão da dignidade humana.
A Carta das Nações Unidas (1945) estava imbuída da ideia do respeito aos direitos fundamentais do ser humano, quando asseverava “a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e valor da pessoa humana, na igualdade de direitos de homens e mulheres e das nações grandes e pequenas”.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem (1958) é composta por trinta artigos e um preâmbulo com sete considerandos, em que reconhece solenemente: a dignidade da pessoa humana, como base da liberdade, da justiça e da paz; o ideal democrático baseado no progresso econômico, social e cultural; o direito de resistência à opressão; e, finalmente, a concepção comum desses direitos.
A expressão “dignidade”, mencionada nesse importante documento, diz respeito ao direito que cada ser humano tem de viver, de ser como é e de ser aceito pelos demais em suas potencialidades e limitações, a cada indivíduo cabendo pensar e agir por si próprio e manter-se, ser livre para ir e vir, expressar suas idéias e opiniões e professar uma religião, podendo o sujeito dedicar-se ao trabalho sem ser explorado pela escravidão, e não ser exposto a qualquer tipo de discriminação, tortura, penas degradantes ou tratamento cruel, tendo a possibilidade de constituir família e exercer seu direito de receber proteção dos tribunais na defesa de seus interesses, de participar do processo político, de votar e ser votado, e de receber proteção do Estado em situações de risco à sobrevivência.34
34 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 21ª ed.. São Paulo: Malheiros, 2002.
A vida humana, conforme mencionada no art. 5º, caput, da Constituição de 1988, é considerada um processo que vai, desde a germinação, transformando-se ao longo do tempo, progredindo nas diversas etapas do tempo até que muda de qualidade, quando ocorre a morte. O ser humano, além de ser considerado um simples indivíduo, é dotado de personalidade, desejos, emoções, sentimentos e necessidades e, por isso, merece uma vida digna. A dignidade é o bem maior e constitui-se na fonte primária de todos os outros bens jurídicos.
Para que se compreenda o verdadeiro sentido da palavra dignidade, é necessário conhecer a natureza humana e reconhecer que cada pessoa é igual às outras, e, ao mesmo tempo, totalmente diferente em sua essência, já que sua personalidade é formada a partir da sua vivência, das oportunidades e experiências que cada um pôde desfrutar ao longo da vida.
Cada pessoa é portadora de um grande mistério, que é a personalidade humana. Sabe-se que um dos traços essenciais de qualquer civilização é o respeito à dignidade humana, qualidade que faz com que o homem diferencie-se dos outros animais, já que apenas o homem age pela inteligência e pela vontade. O homem não existe apenas pela matéria física. Ele contém uma existência mais rica e elevada, que encerra o conhecimento e é movida pelo amor: o espírito, que vale mais do que todo o universo material. A pessoa humana, por mais dependente que seja da matéria, existe em função da própria existência de sua alma. O espírito é a raiz da personalidade.35
Assim, admitir que cada pessoa seja um universo importante significa que, não importa quão pobre de recursos ela seja, deve ser respeitada pela essência de sua natureza humana e pela capacidade que possui de crescer espiritualmente. Cada pessoa tem dignidade absoluta, simplesmente por estar em permanente contato com o absoluto, no qual ela pode encontrar sua plena realização.
Entretanto, cada pessoa é um todo, mas não um todo fechado. É um todo aberto, que ouve, fala e troca impressões com o mundo que a rodeia, e com o qual precisa conviver como ser social. Além disso, o homem é um animal político, já que necessita não apenas da sociedade familiar mas também da civil. O fim da coletividade é o bem comum, portanto, ela não sobrevive sem o respeito à vida humana da multidão, formada de totalidades simultaneamente carnais e espirituais.
Entendendo que cada pessoa tem relação com o absoluto, a pessoa humana supera todas as sociedades temporais, ela é mais importante do que o todo, justamente em razão da dignidade absoluta da alma. A alma é sagrada e transcende a sociedade política. Por outro lado, o homem encontra-se subordinado ao grupo, e o grupo não atinge sua finalidade senão servindo ao homem.
Na história da evolução das sociedades, observa-se um crescimento e uma valorização do ser humano, num movimento contínuo em direção à liberdade e à emancipação política e social, que depende do respeito à pessoa humana. A justiça e o Direito, pois, impondo sua lei ao homem e dirigindo-se à razão e ao livre-arbítrio, baseia-se no respeito à sua personalidade, à sua dignidade.
Ao mesmo tempo, a justiça, o direito, as estruturas jurídicas e a unificação de forças internas do corpo social são os requisitos necessários para que a humanidade possa caminhar rumo a graus mais elevados de organização e consciência coletiva, fatores que passam pelo reconhecimento da igualdade entre os homens.
O ser humano é detentor de direitos porque é uma pessoa, um senhor de si próprio e de seus atos. A dignidade humana não teria sentido se não estivesse relacionada à concepção de que a pessoa possui direitos e deve ser respeitada. A noção de direito e a de obrigação moral são paralelas, pois ambas se referem à liberdade que cada um tem de realizar o seu destino. Cada pessoa, na qualidade de cidadã, tem direito a ser tratada com dignidade. Diante disso, tem o direito de decidir entre o que é certo ou errado, fazer o bem ou praticar o mal, agir, portanto, de acordo com a sua vontade.
Os direitos fundamentais da pessoa são: o direito à existência e à vida; o direito à liberdade pessoal ou de conduzir sua vida como responsável por seus atos, diante das leis; o direito à procura da perfeição da vida humana, moral e racional; o direito à procura do bem eterno e da felicidade; o direito à integridade corporal; o direito à propriedade privada dos bens materiais, que é uma salvaguarda da liberdade da pessoa; o direito de contrair matrimônio e constituir família segundo sua vontade e escolha; o direito de associação, o respeito da dignidade humana em cada indivíduo, representando ele ou não um valor econômico para a sociedade. E todos esses direitos são consequentes da dignidade da pessoa humana.
Assim, percebe-se que a dignidade humana tem um sentido bem mais abrangente, por isso está contida em todas as constituições modernas. A convivência entre os seres humanos presume o respeito a cada um e a todos, mediante a reunião de esforços em prol do bem comum. Reconhecer o valor do outro, o seu direito à vida e à igualdade de oportunidades somente é possível quando se compreende o valor da dignidade.
Dignidade é a expressão que traduz um valor moral e espiritual que é inerente à pessoa, além de estabelecer um direito individual de proteção em relação ao Estado ou em relação aos demais indivíduos. Estabelece ainda o dever fundamental de tratamento igualitário dos próprios semelhantes.36
Diante disso, percebe-se que a idéia de dignidade do homem é uma qualidade primordial à vida humana. Não há vida sem dignidade, por isso esses dois preceitos são valores essencialmente independentes e necessariamente correlatos, num paradoxo necessário para a manutenção do seu conteúdo, e do mais alto grau de importância como determinantes da positivação jurídica.37
Os movimentos de proteção à vida e à dignidade acompanharam os movimentos sociais e as primeiras ações em direção à democracia, começando já no século XIII com a Carta Magna, outorgada pelo Rei João Sem Terra, em
36 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 19ª ed.. São Paulo: Atlas, 2006.
37 ARAÚJO, Luiz Alberto David (Coord.). Defesa dos direitos das pessoas portadoras de
Runnymede, perto de Windsor, no ano de 1215. Prosseguindo, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, propugnada pelos revolucionários franceses por meio da Revolução Francesa (1789), defendia o mesmo princípio, assim como defendido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas (1948).
Porém, é importante destacar que a proteção à vida digna surgiu expressamente quando da determinação da intangibilidade da dignidade do homem introduzida pela Lei Fundamental de Bonn (1949), a qual propunha que: “A dignidade do homem é intangível. Os Poderes Públicos estão obrigados a respeitá- la e protegê-la”.
Também a Constituição italiana de 1947 estabeleceu, como princípio fundamental, que todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. Neste mesmo sentido, a Constituição de Portugal de 1976 instituiu “uma República soberana, baseada, entre outros valores, na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”.
Igualmente, a Constituição espanhola de 1978 ressalvava a proteção da dignidade da pessoa, dos direitos invioláveis que lhe são inerentes, assim como o livre desenvolvimento da personalidade, o respeito pela lei e pelos direitos do outro, considerados fundamentais como fundamentos da ordem política e da paz social.
No Brasil, observa-se que a Constituição de 1988, no intuito de reforçar seus propósitos democráticos, apontou a dignidade da pessoa humana como princípio fundamental, colocando, em seu art. 1º:
Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político.
O direito à previdência social está contemplado na Constituição de 1988 como direito fundamental, constituindo prioridade dentro do ordenamento jurídico e contribuindo para ratificar o princípio de dignidade da pessoa humana. Conforme o art. 6º do texto constitucional, “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.
A proteção aos menos favorecidos, portando, não se refere apenas ao direito a não discriminação, mas, acima de tudo, coloca como obrigação prestatória do Estado quando o indivíduo não pode, de outra maneira, prover uma existência humanamente digna.
Desse modo, é possível perceber que a dignidade da pessoa humana possui dois aspectos estruturais: um negativo, significando a afirmação da integridade física e espiritual do homem como dimensão irrenunciável da sua individualidade autonomamente responsável, e outro positivo, que diz respeito à ampla possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.
Dito isso, é forçoso reconhecer que o sentido de dignidade hoje em todos os textos constitucionais dos países democráticos representa o reconhecimento desse direito como próprio da condição humana, desconsiderando-se ambiente, época, valores e condições e concebendo dignidade, portanto, como parte da própria natureza humana e inseparável do homem. De tal maneira, é justo que decorram dela todos os demais direitos.
Por consequência, a dignidade da pessoa humana é, a um só tempo, limite e tarefa dos poderes estatais e da comunidade em geral. Tem-se como limite não apenas o fato de que a pessoa não pode ser reduzida à condição de mero objeto da ação própria e de terceiros mas também a questão de que a dignidade gera efeitos fundamentais (negativos) contra atos que a violem e exponham a grave ameaça. Como tarefa da previsão constitucional da dignidade humana, ela implica em deveres concretos de tutela por parte dos órgãos estatais, no sentido de proteger a
dignidade de todos, assegurando também, por meio de medidas positivas (prestações), o devido respeito e promoção.38