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“Não há arte sem comunidade nem comunidade sem arte.”(Xavier, 2015)

Consideramos a Arte53 como potencialidade integradora e eficiente no desenvolvimento de competências, sendo elas cognitivas, sociais, produtivas e pessoais, englobando ainda a competência intergeracional54. E por ter estado académica e profissionalmente ligada às artes do espetáculo, pretendo aproveitar o conhecimento e experiência adquiridos na criação de um projeto de intervenção social com crianças e jovens.

Acreditar que as artes podem ser um dos motores do mundo, pode ser compreendida como uma premissa bastante poética ou talvez romantizada, porém, dada a investigação, foi-nos permitido verificar que as artes podem e devem ser de facto um instrumento social a utilizar concomitantemente e com os mais diversos públicos, inclusive com as comunidades consideradas em situações mais desfavorecidas.

Confiamos que, o pensamento contemporâneo deve “ir além do conhecido e alimentar - se de um pensamento utópico” (Nóvoa, 2014, p. 184) porque responder a um problema

com ideias já existentes – preconceitos- em nada alterará o que já está construído. “Se as

utopias não se alcançam nunca por que sempre haver á outr a mais distante, não importa: caminhemos na sua direção – assim é a vida, melhor do que ficar par ado, passivos, vendo a carruagem passar, pois que isso enferruja as pernas e o pensamento!” (Boal, A estética do Oprimido, 2009, p. 34).

Partindo do meu percurso escolar e profissional infimamente ligada à área artística, detetei a potencialidade artística como um meio de alteração social e de contextos tal como de empower ment dos indivíduos, tema bastante discutido e abordado nas áreas de sociologia, psicologia, (entre outras) mas que do nosso ponto de vista, não está a ser bem aproveitada, nem tão pouco explorada a favor da comunidade. Infelizmente, a minha inicial constatação firmou-se ao longo deste estudo, reforçando a ideia de que os principais interesses financeiros e políticos se sobrepõem aos verdadeiros

53 Quando referimos a arte, durante todo o documento, estamos a denominar o seu termo geral, incluindo

todo o tipo de expressões artísticas.

54 Consideramos importante incluir um pequeno desenvolvimento sobre intergeracionalidade em anexo,

que enriquece o nosso estudo relativamente à elaboração e concretização deste projeto (Anexo nº6 A Intergeracionalidade).

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interesses da comunidade. Como afirma Natália Azevedo “(…) as políticas culturais

ser ão sempre cenários de espanto quando entendidas como pr áticas políticas efetivas de democratização e integração dos tecidos sociais locais e regionais.” (Pontos para uma discussão operacional sobre políticas culturais (locais), 2014, p. 143).

As razões acima mencionadas e as divergências constatadas levaram-me, sem dúvida, a escolher o mestrado de intervenção social com jovens e crianças em risco de exclusão, assim como influenciou firmemente a escolha da concretização de um projeto social55.

O objetivo principal é criar um projeto de intervenção social, procurando que, de um modo prático e ao expor os conhecimentos apreendidos anteriormente, sejam justificadas as decisões tomadas. Comprovar ainda a importância e os benefícios da utilização de certas atividades e ações para o desenvolvimento das comunidades vulneráveis, desfavorecidas, excluídas ou em risco de exclusão social.

Este mesmo projeto tem por base um fundamento importante - ação gera reação que por sua vez volta a gerar ação. Concordamos, por essa razão que, onde se verifique a existência de relações humanas56, deva ser dada importância à história de vida de cada um e visto que cada história envolve sentimentos e sensações, deverão avaliar-se as emoções assumidas por cada ação prestada, durante do historial de cada indivíduo.

Parte da minha motivação para a construção deste projeto, foi influenciada sem dúvida pelas numerosas leituras de Paulo Freire (vide bibliografia) sobre pedagogia social. Efetivamente, o autor pedagogo afirma que nenhuma ação é gerada num vazio e que toda a ação é resposta – reação - de outra, já antes iniciada, “Daí que, estabelecida a

r elação opressor a, esteja inaugur ada a violência, que jamais foi até hoje, na história, deflagrada pelos oprimidos. (…) Como poderiam os oprimidos dar inicio à violência, se eles são o resultado de uma violência?” (Freire, 1968).

Das leituras realizadas, nas áreas da inteligência emocional, apreendi a importância da existência de um mundo interno pessoal (problemas, dúvidas e medos) e sua consequente influência nos percursos de vida. Segundo a nossa perspetiva, acreditamos ser possível restruturar e resolver toda uma vida interior passada, permitindo desse modo uma continuidade de uma vida saudável.

55 Está definido pela direção geral do ensino superior(DGES), que todo o aluno de mestrado, necessita

apresentar um projeto, dissertação ou relatório de Estado, para que seja terminado esse mesmo nível de ensino.

56 Confirmamos ser fundamental à existência do homem, a existência de relações humanas desde o seu

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Acreditamos que todas as reações são uma consequência da ação, mesmo quando involuntárias ou de origem desconhecida. Resta-nos, durante o desenvolvimento do projeto identificar as causas, por forma a poder trabalhar esse mundo interno, para que seja possível alterar o percurso do indivíduo.

3.1.Projetos criados com a comunidade ou para a comunidade?

Atropelou-me esta pergunta aquando, há três anos atrás, por via de uma integração profissional, estive associada a projetos culturais, à programação artística e à produção de espetáculos na área do Grande Porto (AMGP).

Esta experiência, que me permitiu o contacto com alguns artistas nacionais e internacionais, assim como produtores e entidades, levou-me a questionar sobre a relação (financiamentos /produções/ parcerias/ profissionais) entre as áreas da cultura e do social.

“(…) A intervenção social entendida como uma cirurgia é um processo contr olado r acionalmente pelo interventor e requer um saber especializado que legitima i dito contr olo. Assim, par a intervir é necessár ia a identificação de um pr oblema, anor malidade ou desvio que pr ecisam ser tr atados. O cor po inter vencionado é então um cor po passivo, está cla r amente delimitado, pode ser medido avaliado e contr olado atr avés de um conjunto e instr umentos técnicos adequados, e esper a -se que melhor e por via dessa intervenção.” (Castelo, 2015, p. 384) Consequentemente, questionamo-nos

sobre o verdadeiro fundamento de algumas encenações ou produções artísticas num âmbito social ou comunitário. Se consideramos o programa PARTIS, promovido pela Gulbenkian, a orientação é clara: “O P ARTIS é um pr ogr ama que per mite tor nar r eal a

nossa convicção de que a ar te é motor de inclusão e mudança social, pelo seu poder único de unir as pessoas.” (Gulbenkian, 2015). Salientamos também uma pós-graduação

intitulada Teatr o e Comunidade57, promovida pela Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo – ESMAE-, no Porto, na qual é defendido que a envolvência das pessoas, protagonizando-as no espetáculo, permitirá inseri-las num processo de mudança, podendo ser “…um meio de ativação e transformação não meramente individual mas também coletivo/social e institucional.”(ESMAE, s.d.).

57 A ver no link oficial da formação:

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Eugene Van Erven (2015) assume ter apenas visto ‘‘a ponta do iceberg no que diz

r espeito à ar te comunitár ia em P or tugal, a qual inclui ar tes visuais, dança, música, teatro, cinema (…) performances (…) teatro do oprimido.’’ Este autor, apresenta a

companhia PELE58 (fundada em 2007) como sendo capaz de combinar todos os aspetos necessários para a sua expansão em rede nacional e internacional, refere ainda a companhia O BANDO59, fundada logo após a ditadura (1974), como um importante percursor das artes comunitárias em Portugal, opinião partilhada por PAIS (2009).A um nível antropológico este autor, remete á pré-história onde os seres humanos criavam arte de um modo participativo e comunitária, por exemplo um ritual de dança, relembrando a sua atual existência em algumas zonas africanas e asiáticas. ‘‘A criação colectiva, as

r elações sustentáveis com deter minados bairr os, a inclusão de todas as esfer as da vida, de níveis de capacidade física e mental e de idades, a cor alidade (no sentido de gr andes grupos que cantam e dançam em colectivo), a visibilidade (com um ênfase nos ‘‘quadros vivos’’), a história local, e a especificidade do local são tudo car acter ísticas impor tantes do que vi, até agora, no teatro comunitário português.’’ (Erven, 2015, p. 66)

Na verdade, toda esta relação profissional entre as artes e comunidade, o trabalho de intervenção e a obra artística, que parte maioritariamente de financiamentos e apoios públicos, fez-me questionar sobre a criação de projetos, desde o diagnóstico ao seu plano de trabalho e sua consecutiva avaliação, por considerar a criação artística efetivamente diferente da criação de um projeto comunitário.

Confrontadas com a inexistência de diagnósticos por parte das entidades credenciadas (dentro da área distinguida para a investigação), privadas da relação laboral (casos práticos) e consequentemente impossibilitadas de elaborar um diagnóstico, verificamos a existência de uma necessidade ainda mais urgente, com a qual nos confrontamos: a criação de um documento, ou outro tipo de modelo de apresentação, que apoiasse os profissionais da área na criação e execução de projetos sociais.

Este documento apresentaria projetos já realizados, que por terem obtido sucesso e ao serem apresentados em formato de modelo, serviriam como guião, para acompanhar a criação de novos projetos. Para além disso, a exposição de projetos enquanto modelo de boas práticas, permitiria recordar e enaltecer esses projetos anteriormente realizados.

58 PELE: COMPANHIA DO PORTO: responsável pela produção ‘’peregrinações’’ e ´´povoar’’ ; agente

fundamental no sector das artes comunitárias ; organizou o MEXE ;

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Julgávamos, de antemão, que teríamos acesso, aos documentos, projetos, diagnósticos ou pelo menos à avaliação de projetos com jovens e crianças necessários para a elaboração do nosso projeto, nas Câmaras municipais da Área Metropolitana e do Distrito do Porto. Considerávamos pertinente recolher os projetos realizados, sendo determinante para a nossa investigação, iniciar o seu percurso precisamente na

“instituição pública”, enquanto promotora legítima dada a sua responsabilidade social

bem como pelo facto de ser dotada de financiamentos que são atribuídos e dirigidos diretamente à área social.

Seguidamente, iremos apontar para a nossa principal preocupação e público-alvo definido para este projeto. Aludiremos ao aspeto frágil deste grupo, subjugado e dependente das decisões políticas, familiares e por todo um sistema onde se encontram integrados, ou procuram estar.

Por essa razão, e num próximo momento, serão apurados os papéis e responsabilidade sociais do Estado, municípios, entidades e empresas locais, face a este grupo vulnerável, por forma a identificar e justificar algumas decisões tomadas relativamente ao nosso projeto.

Evidentemente, este projeto apresenta algumas barreiras metodológicas, como questões temporais e espaciais, pelo facto da investigação se restringir ao distrito e Área Metropolitana do Porto. Não poderá ser considerado um exemplo concreto e viável para o território nacional ou internacional60, contudo, achamos que este trabalho oferece contributos para que outros planos semelhantes possam brotar, adaptando-se às condições de circunstância61.

Serão também destacadas na parte final deste estudo, propostas para novos temas que no decorrer da nossa investigação foram sendo identificadas como sendo necessárias e promissoras, mas cujos investigação e desenvolvimento necessários não se concretizaram por razões temporais.

60 Conferimos que as problemáticas têm origens em indicadores diferentes, que circunstancialmente se

apresentam mais vincados em outras regiões. Daí que, necessariamente, toda a criação de um projeto requeira obrigatoriamente a concretização de um diagnóstico, onde indicadores e problemáticas sejam analisadas e contextualizadas para que não surjam efeitos indesejados ou surpresos durante a elaboração e atuação do projeto.

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