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Em outra ocasião nos ocupamos da relação que une a mentira com o sexo, inclusive em sujeitos sinceros e sexualmente normais. Bryk (...), em seu estudo sobre a sexualidade dos negros, insiste na dificuldade que a mentira cria para esta investigação; mas os brancos são como os negros deste ponto de vista. Tanto mais nos deformados hermafroditas e afins, em que a vida se transforma, ou em um espetáculo – cujo protagonista é seu próprio sexo, ou em um martírio – cujo verdugo é este mesmo sexo49.

Percebemos então como se desenvolveu e ainda hoje se organiza a taxonomia e a “identificação” clínica de travestis e, principalmente, transexuais, em torno da idéia de uma “identidade de gênero”, em sua expressão “verdadeira” ou suas “paródias”, “imitações” e “falsidades”.

O próprio conceito de identidade de gênero, criado por Stoller na década de 60 do século XX, refere-se ainda à idéia de algo constante, homogêneo e, mesmo que não inato, precocemente desenvolvido e fixado. Esta concepção está mais em consonância com as primeiras formulações sobre a idéia de identidade, forjadas a partir de fins do século XVIII, que procuravam definir nesta noção aquilo que se apresentava como uma característica específica e imutável, sendo, portanto, igual ou “idêntico” a si mesmo. Esta visão estava fortemente ligada à consolidação de Estados nacionais europeus e a conseqüente criação de uma “identidade” nacional50.

Segundo Stuart Hall, as linhas de interpretação mais recentes sobre a teoria da identidade, que o autor chama de pós-modernas, originadas em grande parte a partir da segunda metade do século XX, compreendem o conceito de identidade como algo mais relacional, fluido e estratégico. Desta maneira, as tais identidades seriam menos uma expressão de um “eu interior” constante e mais uma posição no jogo das dinâmicas sócio-culturais, sendo tão transitórias ou contínuas quanto as situações assim o exigirem. Este processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma identidade

49 MARAÑON, Gregorio, La evolución de la sexualidad y los estados intersexuales, op. Cit., 82

50 RUBEN, Guillermo Raúl, Teoria da identidade: uma crítica in Anuário antropológico 1986, Brasília,

fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: (...) É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente.

Desta forma, o foco sai da busca por pressupostas identidades “pessoais” para a construção de possíveis identidades “culturais”, nas quais as duas interagem constantemente. Isto não significa que estas novas identidades sejam facilmente adquiridas ou descartadas segundo rápidos caprichos ou elaborados desejos, mas que a dinâmica deste processo social prioriza e desenvolve mais “identificações” mutáveis e transitórias que identidades constantes. Ainda segundo este autor, a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente51.

Assim, voltamos a um dos pontos mais importantes desta discussão sobre travestis e transexuais desde que estes conceitos foram criados, atravessando seja a filosofia, a medicina ou a psicanálise: qual é a noção de uma “verdadeira” mulher, ou um “verdadeiro” homem, que pressupõe uma masculinidade ou feminilidade fixa e constante? Quais os valores manifestados pela crítica filosófica ou científica, de que determinadas pessoas não são homens ou mulheres “de verdade”, segundo uma pressuposta “identidade” masculina ou feminina que estaria melhor ou pior estabelecida?

Conforme já visto com Foucault, o discurso da ciência sexual é intima e indissociavelmente ligado à noção de uma “verdade” que, seja ela absoluta ou contingente, social ou natural, biológica ou psíquica, inata ou adquirida, se organiza como um porto seguro às estratégias de biopoder de nossa cultura. Sobre a sexualidade, este autor afirma que ela não deixa de ter relação com estruturas, exigências, leis, regulamentações políticas que têm para ela uma

51 HALL, Stuart, A identidade cultural na pós-modernidade, Rio de Janeiro, DP&A Editora, 2004, págs.

importância capital: no entanto, não se pode esperar da política formas nas quais a sexualidade deixaria de ser problemática52.

Desta forma, a luta pelo saber sobre os corpos e suas sexualidades, identidades de gênero e características afins é a luta pelo poder e controle social sobre esses corpos53. A busca pela verdade última, encontrada seja na

biologia ou na psique, independente de qual verdade for, é a busca pelo exercício do poder legítimo, ou seja, o mais aceito e menos questionado por se originar convencionalmente de um discurso “legítimo” sobre uma verdade considerada “legítima”. A noção de verdade dos discursos sobre sexo e gênero é tautológica; ela cria a si mesma como um saber que justifica seu poder.

Ainda conforme Foucault, depois se pode também admitir que é no sexo que se devem procurar as verdades mais secretas e profundas do indivíduo; que é nele que se pode melhor descobrir quem ele é, e aquilo que o determina; e se, durante séculos, se acreditou que era preciso esconder as coisas do sexo porque eram vergonhosas, sabe-se agora que é o próprio sexo que esconde as partes mais secretas do indivíduo: a estrutura de suas fantasias, as raízes de seu eu, as formas de sua relação com a realidade. No fundo do sexo, a verdade.54

Ora, é apenas em relação a uma pressuposta verdade (que tem sua importância na medida em que ela justifica discursos de poder, independente de qual seja esta tal “verdade”), que os autores analisados, sejam médicos endocrinologistas ou psicoterapeutas das mais variadas linhas, podem trabalhar com concepções do tipo mascarada, falsidade, caricatura, ilusão, simulacro, quimera e mais uma série de outros conceitos que evocam o erro.

Conforme visto, Joel Dor analisa que a mulher transexual pretende menos (...) ser uma mulher que a mulher55, sendo que “a” mulher, como uma

entidade absoluta, não existe. Mas se esta “Mulher” com maiúscula não existe, com base em que se pode considerar as transexuais como falsas, caricatas, ou simulacros?

52 FOUCAULT, Michel, Problema, política e problematizações in Coleção Ditos e Escritos V: Ética,

Sexualidade, Política, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2004, p. 228

53 FOUCAULT, Michel, A verdade e as formas jurídicas, op. Cit.

54 FOUCAULT, Michel, O verdadeiro sexo in Coleção Ditos e Escritos V: Ética, Sexualidade, Política,

op. Cit., p. 85

É neste sentido que pode ser compreendida a busca de Stoller por um “núcleo” de identidade de gênero, que ajudaria a identificar as pessoas que são transexuais “verdadeiros”, “primários” ou “puros”56, ou seja, as pessoas que se identificariam como pertencentes ao outro sexo desde o processo de formação deste “núcleo de identidade de gênero” na infância, e não apenas mais tarde na vida, o que caracterizaria transexuais “secundários”.

Assim, o conceito de pessoas “verdadeiras” só faz sentido e pode se sustentar em oposição às pessoas “falsas”. A precariedade destas noções é percebida pelo próprio Stoller que, ao discutir sobre as entrevistas com transexuais, conclui: “elas mentem”57.

Como analisou Berenice Bento, elas não estão “mentindo”, estão jogando com as regras do que esta autora chama de “dispositivo da transexualidade”, ou seja, dentro da relação de poder incrivelmente desigual entre os médicos e as pacientes que esperam das mãos destes um laudo com a indicação para a ansiada cirurgia. Muitas vezes, falar o que os doutores esperam ouvir é a única maneira de não apenas alcançarem seus objetivos, mas inclusive de serem ouvidas de alguma forma dentro de sua concepção de transexualidade58.

Ora, conforme vão se redefinindo as características de uma verdadeira pessoa transexual, mais elas vão aprendendo a conhecer, reconhecer e repetir este discurso, seja ele “real” e auto-identificado ou não. É assim um jogo de gato e rato, ressaltando que não interessa o que caracteriza um homem ou mulher “de verdade”, mas sim que esta idéia de alguém poder ser ou não de verdade é mantida através de sua constante cobrança.

Segundo Meyerowitz, ao discorrer quanto a este tema quase que fundante da discussão sobre transexualidade, qual seja, os conflitos entre as “verdades” constantemente re-estabelecidas pelas teorias clínicas e as “verdades” desenvolvidas nas vivências das pessoas transexuais, todas mutantes e com suas correspondentes “mentiras”, esta autora afirma: em resumo, os pacientes desconfiavam dos médicos, e os médicos desconfiavam

56 PINTO, Maria Jaqueline Coelho e BRUNS, Maria Alves de Toledo, Vivência transexual – o corpo

desvela seu drama, Campinas, Átomo, 2003, p. 18

57 BENTO, Berenice Alves de Melo, A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência

transexual, op. Cit,. p. 66

dos pacientes59. Talvez a pergunta que caiba em relação a esta conclusão de Stoller, “elas mentem”, seja: mentem em relação a qual verdade?

Percebemos como vários dos autores estudados ancoram esta verdade sobre a diferenciação entre homens e mulheres na anatomia. Assim, Money fala das “diferenças inevitáveis” encontradas nos genitais e nas funções reprodutivas, Chiland fala da importância da “bússola do sexo” e Frignet faz sua análise sobre o corte essencial que é a bipartição sexual, originalmente não só do humano, mas da evolução do vivo60. Mas esta noção de uma “bipartição sexual originária”, só pode ser concebida em relação ao modelo dimórfico de sexo, surgido no século XVIII, conforme já visto com Laqueur61.

Mesmo na concepção de que o fator procriação é inquestionável quanto à diferença e completude dos sexos, esta noção só é válida para a interpretação dimórfica e moderna que concebe o ser humano como originado da união dos elementos masculinos (representados pelo espermatozóide) com os femininos (representados pelo óvulo). Para Aristóteles e muitos pensadores da epistémê arcaica, o ser humano estava unicamente nos elementos masculinos, a chamada “semente”, sendo o corpo da mulher apenas um receptáculo, um solo para seu desenvolvimento. Nesta visão, da mesma maneira que uma futura árvore encontra-se na semente, mas necessita do solo para poder se desenvolver, a futura criança já se encontra na semente masculina, não se confundindo com o solo do útero que propiciará seu melhor ou pior desenvolvimento62.

Desta forma, o processo de naturalização de diferenças ou igualdades conceitualmente criadas encobre as relações de poder que organizam estas noções, pois classificar pessoas de acordo com o genital ou suas representações psíquicas pode revelar-se talvez tão arbitrário quanto classificar seres humanos por tipo de cabelo, cor da pele ou dos olhos. Afinal, todos estes elementos também são variantes “fisiológicas”.

Como vimos, o processo de interiorização do hermafrodita gerou a concepção de uma “mente feminina em corpo masculino” e vice-versa, o que só é possível em uma cultura que parte do princípio da separação conceitual

59 MEYEROWITZ, Joanne, How sex changed, op. cit, p. 162 60 FRIGNET, Henry, O transexualismo, op. Cit, p. 136 61 LAQUEUR, Thomas, Inventando o sexo, op. Cit. 62 Idem, ibidem.

entre corpo e mente, com a conseqüente subjetivação das características “especificamente” masculinas e femininas, agora vistas não apenas na nova maneira de interpretar o corpo, mas também a mente. O que ocorreu então foi a criação de um “sexo” da mente que, de preferência, de acordo com o aparelho genital, deveria expressar a masculinidade ou a feminilidade padronizadas neste momento como legítimas.

Ora, esta bipartição sexual da mente, não seria à versão da ciência sexual do mesmo processo que ocorria no período, com surgimento do racismo moderno que, mesmo indiretamente, preconizava a existência de uma alma “negra” e uma “branca”, divulgada na expressão “negros com alma branca” e essencializada nas teorias da identidade? Buscar um “sexo” masculino ou feminino na mente (ou mesmo no cérebro) não seria como procurar uma “cor” ou “raça” inscrita “naturalmente” na mente ou no cérebro? Ou seja, esta não seria mais uma manifestação das normas de gênero que regem as interpretações de corpo e psique?

Assim, segundo Butler, a noção de uma dualidade sexual encontrada no corpo (ou mesmo na mente) é uma conseqüência das normas de gênero, não a causa delas. Desta maneira, aquilo que muitos cientistas tentam encontrar como uma evidência da masculinidade ou feminilidade é, antes de tudo, a competência esperada da performatividade de gênero da pessoa que esta sendo julgada (ou analisada). Para esta autora, se os atributos e os atos do gênero, as várias maneiras como o corpo mostra ou produz sua significação cultural, são performativos, então não há identidade preexistente pela qual um ato ou atributo possa ser medido; não haveria atos de gênero verdadeiros ou falsos, reais ou distorcidos, e a postulação de uma identidade de gênero verdadeira se revelaria uma ficção reguladora.

Neste sentido, a busca pelas “verdadeiras” pessoas transexuais revela, por oposição, a fragilidade e os constantes esforços necessários para se manter um padrão ideal de pessoas “normais”, sem desvios, perversões, parafilias, disforias ou transtornos. A “ficção reguladora de gênero” que organiza os quase inquestionáveis e constantemente pressupostos sobre o que, e quem são os seres humanos “de verdade”, manifesta-se e atualiza-se ao julgar aqueles que não se mostram homens e mulheres “tão verdadeiros” (quanto quem?) e, sendo assim, categorizados como “falsos”, “caricatos” ou

“imitações”. Em que medida as práticas reguladoras de formação e divisão do gênero constituem a identidade, a coerência interna do sujeito e, a rigor, o status auto-idêntico da pessoa? Em que medida é a “identidade” um ideal normativo, ao invés de uma característica descritiva da experiência?63

Assim, se as pessoas travestis e transexuais não são consideradas “humanos falsos”, pois ao associá-las à categoria de “humano”, os termos “verdadeiro” ou “falso” soariam politicamente agressivos e explicitamente discriminatórios (embora estes termos sejam usados tranquilamente na área clínica), elas também não conseguem ser associadas ao “plenamente humano”, tornando-se “humanos de segunda categoria”.

Da mesma forma, se as linhas nas medicinas, psicanálises e mídias que tratam do tema da transexualidade são várias, porque as pessoas transexuais tem que ser uma? Vemos então como a nomeação de comportamentos, identidades, desejos ou corpos como “portadores” de complexas doenças ou simples transtornos, é menos uma descrição de variações humanas do que uma hierarquização política de graus de humanidade.

63 BUTLER, Judith (b), Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, op. Cit., págs. 201 e

VII

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